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Home»Eleições 2026»Polêmica com o PSTU: as lições da reativação da Avibras
Eleições 2026

Polêmica com o PSTU: as lições da reativação da Avibras

Por: Marcos Margarido
28/08/2026Nenhum comentário11 Mins Read
Lula e Weller se abraçam na cerimônia de reativação da Avibras.
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Em 24 de julho, foi realizada uma cerimônia de reativação da Avibras, empresa de armamentos situada em São José dos Campos. Estiveram presentes Lula, Alckmin, o ministro da Defesa, José Múcio, e os três comandantes das Forças Armadas, entre outros. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de São José dos Campos e militante do PSTU, Weller Gonçalves, também estava no palanque, montado na própria empresa. Os trabalhadores da Avibras formaram a audiência do evento.

A Avibras foi fundada em 1961 e especializou-se na fabricação de mísseis, principalmente o Astros II, um sistema de lançadores de foguetes montado sobre veículos. Chegou a ter 6 mil empregados entre 1983 e 1987, e tornou-se a sexta maior empresa de exportação de armamentos do mundo. Em 2017, faturou R$ 1,7 bilhão, mas entrou em recuperação judicial em 2022 e só agora volta à produção, com cerca de 270 empregados.

O próprio sindicato dos metalúrgicos participou ativamente das negociações para viabilizar o retorno à produção. Segundo Weller, em seu discurso durante a cerimônia, “o sindicato construiu [um acordo] junto à empresa Brasil Crédito e um plano alternativo de recuperação judicial”1, o que considerou uma grande vitória, pois possibilitará que os trabalhadores voltem a receber seus 36 meses de salários atrasados, mesmo que de forma parcelada, entre 12 e 42 meses.  

Capital nacional é melhor que capital estrangeiro?

Quando não há uma situação favorável para vencer uma batalha, os trabalhadores são obrigados a aceitar acordos que, pelo menos, amenizem suas perdas. Por isso, longe de ser uma “grande vitória”, como disse Weller, receber 3 anos de salários atrasados em 12 a 48 vezes — se isso realmente for efetivado — é um acordo aceitável.

O que não é aceitável é que, após afirmar que o Sindicato sempre defendeu a estatização da Avibrás, seu presidente diga que, se “não foi estatizada, é melhor que fique nas mãos do capital privado nacional do que nas mãos do capital privado estrangeiro”. E que, quando os trabalhadores diziam, segundo ele, que “eu não quero saber se o dinheiro vem do México, se vem do Paquistão, se vem da China. Eu quero receber”, o sindicato “não tremeu a mão para defender a Avibras como uma empresa nacional”.

Quem tem razão: o sindicato ou os trabalhadores? Se uma empresa estrangeira oferecesse um acordo melhor aos trabalhadores, o sindicato deveria rejeitá-lo sem “tremer a mão”?

Nós somos revolucionários e marxistas; nossa luta é contra o capital, independentemente de sua origem. O patrão pode falar português, inglês, árabe ou chinês, mas isso não muda o fato de que todos irão explorar os trabalhadores da forma mais dura para obter o maior lucro possível.

Os marxistas nunca estabeleceram essa diferença. Os economistas nacionalistas burgueses da década de 1950, sim. Defenderam o desenvolvimento do capitalismo nacional como forma de reduzir o distanciamento econômico entre os países imperialistas e os dependentes, especialmente na América Latina. Mas isso nunca ocorreu. Ao contrário, esse distanciamento nunca deixou de aumentar.

E só poderia ter ocorrido se a burguesia nacional tivesse um projeto próprio de desenvolvimento nacional, contra o avanço da dominação imperialista. Sua política foi inversa: associar-se ao capital estrangeiro, de forma minoritária, para ter mais força para explorar a classe operária e, assim, garantir sua parte dos lucros.

Por isso, os trabalhadores tinham razão quando disseram que não queriam saber de onde vinha o dinheiro; não era apenas “legítimo”, como disse o Weller, mas a única visão possível na luta entre o trabalho e o capital. À sua maneira, os operários da Avibras diziam que a luta pela melhoria de vida à qual são submetidos pelo capital não discriminava entre capital nacional e estrangeiro; é a mesma luta. 

A luta contra o imperialismo não virá pelo desenvolvimento da indústria nacional, cuja burguesia é pró-imperialista, mas pela luta dos trabalhadores contra o capitalismo, contra o capital estrangeiro e o nacional. 

Ainda mais quando se noticia que a multinacional JBS, dos irmãos Batista, famosos por vários crimes econômicos cometidos, será a proprietária da Avibras. 

Em 31 de maio de 2017, a JBS aceitou pagar R$ 10,3 bilhões em acordo de leniência com o Ministério Público Federal. A empresa era investigada em cinco operações da Polícia Federal: Greenfield, Sépsis, Cui Bono, Carne Fraca e Bullish. Também se livraram da Operação Lava Jato, depois que Joesley Batista aceitou fazer delação premiada para dedurar políticos como Michel Temer e Aécio Neves, isto é, tornou-se réu confesso2.

Para se ter ideia de como funcionará a Nova Avibras, o acordo de compra diz que, “como parte da reestruturação, os ativos industriais e tecnológicos foram concentrados em uma nova estrutura empresarial, enquanto a companhia original permaneceu com os passivos submetidos ao processo de recuperação judicial.3”   

Isto é, a parte boa da empresa — ativos industriais e tecnológicos, etc. — ficará com a JBS, enquanto a parte “podre”, que inclui os salários atrasados, continuará no processo de recuperação judicial.

Indústria nacional?

Na época do imperialismo, principalmente no século XXI, com as cadeias globais de produção, não existe indústria nacional propriamente dita. Os capitais nacionais e estrangeiros estão entrelaçados. Tomemos o exemplo da Petrobras, a indústria nacional de maior sucesso e a maior empresa de petróleo da América Latina.

A composição acionária em julho de 2016 era de 35,5% para o grupo de controle (Governo Federal, BNDESPar e BNDES), 48,82% para os investidores estrangeiros e 15,73% para os investidores brasileiros (dos quais a burguesia nacional faz parte). Os investidores estrangeiros possuíam 41,92% das ações ordinárias e os investidores brasileiros, 7,82%; e os investidores estrangeiros e brasileiros possuíam 58,24% e 26,56% das ações preferenciais, respectivamente. O Governo Federal não possui ações preferenciais (o BNDESPar e o BNDES possuem 15,21%), embora possua a maioria das ações ordinárias (50,26%), o que lhe garante o controle da empresa4.

Essa é a maior indústria nacional do país, na qual o capital estrangeiro detém a maioria das ações preferenciais, cujos dividendos (lucro acionário) são pagos com prioridade e são maiores do que os das ações ordinárias, e a maioria da composição acionária.

A JBS não é diferente. O capital estrangeiro possui cerca de 20% das ações, parte delas pela BlackRock5. Além disso, tem 250 unidades produtivas distribuídas em 20 países de 5 continentes. Só nos Estados Unidos, são 100 plantas produtivas de carnes bovina, suína, de aves e alimentos preparados6. 

Este é o “capital privado nacional”, que é “melhor” do que o “capital privado estrangeiro”, segundo o Weller. Este é o resultado da campanha em defesa da “indústria nacional”, promovida pela CSP-Conlutas, dirigida pelo PSTU. O que diriam os operários empregados da JBL em unidades no exterior sobre essa defesa da indústria nacional? 

Lula é aliado dos trabalhadores?

Porém, há algo ainda mais grave na política desenvolvida pelo sindicato e pelos membros do PSTU na diretoria.

Vivemos em uma conjuntura em que o governo Lula ataca os trabalhadores de todas as estatais e o funcionalismo público federal. Os trabalhadores dos Correios entrarão em greve em 10 de setembro7; os bancários do BB, da Caixa, do BASA e do BNB fizeram, com os bancários dos bancos privados, greve no dia 20 de agosto8; os petroleiros estão em luta permanente contra os ataques ao plano de saúde e ao fundo de pensão; os metroviários, nas cidades onde o governo federal detém a administração do Metrô (BH e Recife), lutam contra as privatizações9.

No entanto, para o presidente do sindicato, nada disso existe. Ao contrário, pediu ajuda a Lula para que os trabalhadores parassem de ter os salários atrasados: “Lula, a gente precisa pensar como a gente faz daqui para frente para que nunca mais um trabalhador fique 3 anos sem receber o seu salário”. A gente? Isso é sério? O presidente do país, que lidera um governo burguês a serviço dos capitalistas, que permite todo o tipo de ataques deles contra os trabalhadores; um governo que não passa de um balcão de negócios da burguesia, ajudará “a gente” para que “nunca mais um trabalhador fique 3 anos sem receber o seu salário”? Será que o Weller confundiu o Lula com algum companheiro de luta?

A camaradagem não para por aí. Ao falar do recebimento dos salários atrasados pelos trabalhadores, Weller afirma que “tem aqui uma cláusula do acordo que fala de um aporte de 300 milhões do Governo Federal para capital de giro”. E pede, em uma carta endereçada ao Lula — em nome dos trabalhadores —, que o governo “antecipe o quanto antes esse gatilho para que os trabalhadores possam receber o seu salário atrasado”.

O detalhe é que, conforme dito acima, a JBS não será responsável pelas dívidas contraídas pela Avibras. Ela receberá a empresa sem qualquer obrigação. E, como o próprio Weller disse, os R$ 300 milhões do governo serão destinados ao capital de giro da empresa, não à parte submetida à recuperação judicial. Isto é, não há obrigação, por parte da JBS, de utilizar parte do capital de giro destinado à Nova Avibras para pagar salários atrasados.

A confiança no governo fica ainda mais evidente quando, ao fim do evento, um repórter da TVT10, que não tem nada de opositor ao governo, perguntou: “Mas a gente não teve [durante o evento] nenhum anúncio efetivo de investimento na fábrica. Isso satisfaz o Sindicato dos Trabalhadores? Nesse momento, vocês confiam no compromisso do presidente de que esses recursos irão a médio e longo prazo, como ele disse aqui?“.

A resposta do Weller à pergunta que denotava desconfiança nas promessas do governo foi:

“Olha, nós achamos que tem um peso institucional importante a presença do Lula, assim como de vários ministros e também das Forças [Armadas]… Agora, é importante o Lula aqui se comprometer publicamente na frente dos trabalhadores de que todo o aporte que tiver, o governo vai exigir que uma parte automaticamente fique para o pagamento dessas dívidas trabalhistas, que são os salários atrasados que os trabalhadores aceitaram receber de 12 a até 48 vezes.”

Então, ao responder se o sindicato confiava no compromisso do presidente, quando discursou. Mas, se o governo “vai exigir”, é porque não há nada escrito no acordo que obrigue a JBL, como o repórter frisou corretamente. Como já dissemos, este aporte vai para a nova empresa, não para a massa falida. Assim, o sindicato depositou confiança em um governo burguês, inclusive nos comandantes das Forças Armadas, ao passar a mensagem de que basta essa exigência do governo para resolver o problema das dívidas trabalhistas.

De que lado do palanque o sindicato deveria estar?

O capitalismo baseia-se na exploração dos trabalhadores pelos capitalistas. O nível de exploração é dado pelas lutas entre essas duas classes. Quando a classe operária está mais organizada e luta, a exploração é, em geral, menor. Para que isso aconteça, é preciso que os representantes dos trabalhadores desenvolvam esse espírito de luta nos trabalhadores. Esse é o papel fundamental dos sindicatos. Parte dessa escola de comunismo, como dizia Lenin, é mostrar que os governos burgueses — além da própria burguesia — são nossos inimigos, e aqueles que dizem estar do nosso lado são os mais perigosos.

Foi isso que o Sindicato dos Metalúrgicos de SJC, na pessoa de Weller Gonçalves, não fez. Subiu ao palanque ao lado dos governantes e separou-se, por meio de uma barreira de classe, dos trabalhadores que assistiam ao evento. Cumprimentou os representantes de nossos exploradores, deu um abraço caloroso em Lula — coisa de velhos amigos — e, como era um evento claramente eleitoral, passou a imagem de que aquele era o candidato a presidente do sindicato (coitado do Hertz, o candidato do PSTU).

O lugar do sindicato é ao lado dos trabalhadores, em quaisquer circunstâncias. Neste caso, o Weller deveria estar com eles, do outro lado dessa barreira de classe, empunhando faixas e cartazes com críticas ao governo e com a exigência de pagamento dos salários atrasados já. Mas certamente eles dirão: “Isso é ultraesquerdismo, já passamos dessa doença infantil do comunismo”. Sim, já passaram não só da doença infantil, mas também do próprio comunismo. Hoje são “pessoas respeitáveis”, a quem o Presidente da República de um Estado burguês não se incomoda em abraçar.     

Notas:

  1. A gravação da cerimônia pode ser vista em vídeos nos canais de YouTube do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e da TVT. ↩︎
  2. Governo Lula protege escravocratas. ↩︎
  3. Irmãos Batista compram fabricante de armas de guerra Avibras. ↩︎
  4.  www.investidorpetrobras.com.br/visao-geral/composicao-acionaria/ ↩︎
  5. https://br.investing.com/equities/jbs-nv-ownership. ↩︎
  6. jbs.com.br ↩︎
  7. Contra o arrocho e os ataques, vamos à greve! ↩︎
  8. Bancários fizeram paralisação histórica. ↩︎
  9. Privatização é um inferno. ↩︎
  10. Canal do YouTube mantido pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, o berço político do Lula e do petismo. ↩︎
Avibras imperialismo indústria nacional Lula Weller Gonçalves
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