Em 3 de setembro de 1938, em condições extremamente precárias, a Quarta Internacional foi fundada como a continuação revolucionária da Internacional Comunista, liderada por Lenin. Por razões de segurança, Trotsky não pôde participar da fundação. Essa precaução era totalmente justificada. Rudolf Klement, responsável pela preparação da Conferência de Fundação e de seus estatutos, havia sido sequestrado e assassinado pelos capangas de Stalin. Outros colaboradores próximos de Trotsky sofreram o mesmo destino: seu filho, Leon Sedov, Erwin Wolf e Ignace Reiss.
Essa foi uma das piores situações na luta de classes mundial: Hitler na Alemanha; Mussolini na Itália; Franco na Espanha. Na URSS, sob a liderança de Stalin, ocorriam a perseguição e o encarceramento de opositores, e as execuções decretadas pelos fraudulentos Processos de Moscou; na China, a ocupação do Japão avançava e os preparativos para a Segunda Guerra Mundial se intensificavam.
Apesar disso, Trotsky insistiu na necessidade urgente de fundar a Quarta Internacional para preservar os princípios do leninismo e estar preparado para a próxima onda revolucionária. Àqueles que lhe diziam que uma Internacional só poderia surgir de grandes acontecimentos, ele respondia: “A Quarta Internacional já surgiu de grandes acontecimentos: as maiores derrotas do proletariado na história. A causa dessas derrotas é a degenerescência e a traição da velha direção… A III Internacional, imitando a II, está morta para os objetivos da revolução. Viva a Quarta Internacional!”.(1)
E declarou:
A Quarta Internacional goza, desde já, do ódio merecido dos stalinistas, dos social-democratas, dos liberais burgueses e dos fascistas. Ela não tem, nem pode ter, lugar em nenhuma das Frentes Populares. Opõe-se, irredutivelmente, a todos os agrupamentos políticos ligados à burguesia. Sua tarefa é acabar com a dominação capitalista. Sua finalidade é o socialismo. Seu método é a revolução proletária.”(2)
Não deixou dúvidas sobre qual deveria ser o regime da nova Internacional:
“Sem democracia interna não há educação revolucionária. Sem disciplina não há ação revolucionária. O regime interno da Quarta Internacional está fundamentado sobre os princípios do centralismo democrático: completa liberdade de discussão, total unidade na ação.”(3)
Que diferença em relação aos “trotskistas” de hoje, que, diante das vitórias eleitorais da direita, relegam a luta contra os governos burgueses a um segundo plano e, com o argumento do perigo do “neofascismo” (ou algo semelhante), defendem frentes amplas com organizações reformistas, até mesmo stalinistas, e acabam dando seu voto aos governos capitalistas que deveriam estar enfrentando.
A validade do programa da Quarta Internacional
O programa da Quarta Internacional, o Programa de Transição, foi aprovado há 88 anos. Por isso precisa, evidentemente, de uma atualização. O próprio Trotsky disse que precisava ser completado. Mas, apesar dessa necessidade, a luta de classes demonstrou que seus aspectos centrais permanecem extremamente relevantes. Paradoxalmente, a Quarta Internacional não existe mais. Nahuel Moreno disse que a Quarta nasceu com uma cabeça de gigante, devido à sua direção, Trotsky. Mas acrescentou que essa cabeça de gigante estava presa a um corpo de anão, já que as organizações nacionais que a compunham eram extraordinariamente fracas, fruto da situação contrarrevolucionária em que foram construídas.
O assassinato de Trotsky, apenas dois anos após a fundação da Quarta Internacional, acabou com essa cabeça de gigante. Esse foi o golpe mais terrível sofrido pela Quarta Internacional, um golpe que sentimos até hoje. A maior prova disso é que, 88 anos após sua fundação, a Quarta Internacional não existe mais, e a crise de direção revolucionária, da qual Trotsky falou em 1938, aprofundou-se.
Moreno argumenta que existem causas objetivas que explicam essa realidade, sendo uma das mais importantes o fortalecimento do stalinismo após a Segunda Guerra Mundial, mas que também existem causas subjetivas importantes, e afirma que a principal delas é a existência do revisionismo:
O processo de construção de uma liderança revolucionária implica, simultaneamente, uma “guerra implacável” (como bem afirma o Programa de Transição) contra todas as correntes burocráticas e/ou pequeno-burguesas no movimento de massas. É precisamente isso que o revisionismo deixa de fazer: as várias tendências revisionistas que existiram em nosso movimento compartilham uma característica comum: defendem não uma “guerra implacável”, mas sim algum tipo de bloco com tendências burocráticas e/ou nacionalistas, porque estas supostamente desempenham um papel progressista e até revolucionário.”(4)
Existem correntes que se autodenominam trotskistas, que têm experimentado um crescimento significativo e propõem a “reconstrução” da Quarta Internacional, como a LIS e a Corrente da Revolução Permanente, cujos principais partidos estão na Argentina (MST e PTS, respectivamente).
Perguntamos: É possível empreender essa reconstrução com aqueles que na Argentina criam expectativas de democracia burguesa, fazendo campanha com o slogan “socialistas podem e devem governar”, sem mencionar a revolução socialista? Pode a Quarta Internacional ser reconstruída com aqueles que no Brasil chamavam o voto em Lula, seja no primeiro ou no segundo turno?
Acreditamos que não, porque essas posições não têm nada a ver com o que o Programa de Transição afirma explicitamente: “Contra o oportunismo e o revisionismo sem princípios”; “Luta irredutível contra todos os grupos políticos que se agarram às saias da burguesia.”
Consequentemente, a partir do CIR, após ter sofrido a importante derrota pelo processo de degeneração burocrática e dispersão da LIT-QI, propomos avançar na construção da Internacional a partir das bases programáticas e de regime com que a LIT foi fundada em 1982, levando a cabo, como propôs Moreno, uma luta implacável contra o reformismo e o centrismo oportunista.
Notas
- Leon Trotsky, Programa de Transição, em Documentos de fundação da IV Internacional. Editora Sundermann, 2008, pág. 41.
- Idem.
- Idem.
- Teses de Fundação da LIT-QI (1982).
Publicado originalmente em espanhol no site do CIR: https://cir-internacional.org/es/a-88-anos-de-la-fundacion-de-la-iv-internacional/
