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Home»Teoria e História»De volta ao passado? Uberização, Big Techs e tecno-feudalismo
Teoria e História

De volta ao passado? Uberização, Big Techs e tecno-feudalismo

Por: Marcos Margarido
11/02/2026Nenhum comentário17 Mins Read
As Big Techs são as empresas mais poderosas do setor de tecnologia.
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Existe um debate na sociedade sobre a “uberização” da economia, isto é, a economia comandada por plataformas digitais, que conseguem se livrar das relações de emprego tradicionais, por meio da contratação de “empresários individuais”. Nos setores populares, discute-se muito se os motoristas da Uber e da 99, por exemplo, são assalariados ou autônomos. Pode-se encontrar defensores das duas visões entre os próprios motoristas.

Esta questão já levou os “motoristas por aplicativos” a mobilizações e greves por melhores salários no Brasil e no exterior. Pesquisas feitas durante esses eventos mostraram que muitos preferiam trabalhar como assalariados formais, com jornada de trabalho regulamentada, férias, décimo terceiro, etc. O debate está longe de acabar, e o próprio sistema judiciário discute se a matéria concerne à Justiça do Trabalho ou à Justiça Civil, isto é, se o caso é de uma relação patrão-empregado ou entre empresas (a plataforma e cada um dos “empresários individuais”).

No meio acadêmico, este debate gira em torno da mudança do modo de produção capitalista para outro, chamado tecno-feudal, baseado nas plataformas digitais, as chamadas Big Techs. Este é um tema importantíssimo para os marxistas.

Marx dizia no Manifesto Comunista que as mudanças de modos de produção ocorrem quando as velhas relações sociais não conseguem mais garantir o avanço das forças produtivas que se gestam continuamente no modo de produção existente. Mas essa contradição na esfera econômica só pode ser resolvida pela luta de classes, por uma revolução social que envolva as principais classes antagônicas de cada sociedade. No capitalismo, a burguesia e o proletariado. Porém, o advento do sistema tecno-feudal não ocorreu por meio de uma revolução, mas por uma transmutação do próprio capitalismo que abandonou, de bom grado, a cena histórica.

Essa transformação entre modos de produção faria o marxismo e o materialismo histórico em pedaços. A luta pelo comunismo estaria destinada ao fracasso, pois o tecno-feudalismo seria o novo modo de produção ascendente na sociedade de classes, e novos sujeitos sociais apareceriam: os barões das Big Techs de um lado, e uma nova classe de servos modernos de outro. Como diz a propaganda da Amazon, que vende o livro Tecno-feudalismo: o que matou o capitalismo, de Yanis Varoufakis, um dos defensores dessa teoria, “o capitalismo está morto. Bem-vindo ao tecno-feudalismo”.

Essa propaganda oferece uma síntese simplificada do que é esse novo sistema econômico, que pode ser um ponto de partida para entendê-lo:

O tecno-feudalismo

“As dinâmicas tradicionais do capitalismo não governam mais a economia. O que destituiu esse sistema foi o próprio capital e as mudanças tecnológicas aceleradas das últimas duas décadas, que, como um vírus, destruíram seu hospedeiro.

Os dois pilares que sustentavam o capitalismo foram substituídos: os mercados deram lugar às plataformas digitais, que são verdadeiros feudos das grandes tecnologias, e o lucro foi substituído pela pura extração de rendas. Diante desse cenário, Yanis Varoufakis diz que o tecno-feudalismo é o novo poder que está remodelando nossa vida e o mundo e é, atualmente, a maior ameaça ao indivíduo liberal, aos nossos esforços para evitar a catástrofe climática e à própria democracia.1”

As principais ideias, que se repetem em outros autores, são: a) o capitalismo destruiu a si próprio, b) não há mais mercado, isto é, mercadorias sujeitas a um sistema de troca por equivalentes e c) não há mais lucro, somente extração de rendas. Se não há mais lucro, a mais-valia extraída do trabalho não pago dos trabalhadores deixa de existir e, se não há mais-valia, a teoria do valor-trabalho de Marx torna-se letra morta.

Como as Big Techs se enriquecem? Extraindo renda, da mesma forma que a nobreza proprietária de terras recebia a renda da terra no feudalismo, na forma de serviços ou em natura. A renda da terra era paga pelos arrendatários – os camponeses que exploravam a terra – à nobreza proprietária. A terra não tem valor do ponto de vista marxista, pois é um recurso natural, mas tem preço e pode ser vendida ou arrendada (alugada). O que tem valor é o produto da terra, pois é obtido pelo trabalho humano.

Vejamos, então, o que outro autor, Cédric Duran, diz em seu livro Techno-féodalisme – Critique de l’économie numérique (Tecno-feudalismo – Crítica da economia numérica, em tradução livre):

“A referência ao feudalismo remete-se ao caráter rentista, isto é, não produtivista, do dispositivo de captação de valor. Nota-se, atualmente, a prevalência da lógica da obtenção de renda sobre a lógica produtiva nas empresas intensivas em intangíveis, notadamente nas plataformas digitais. A poderosa ascensão das atividades informatizadas pôs, assim, em questão a perenidade dos processos competitivos de geração de lucros.2“

Eleutério F. S. Prado comenta assim esse aspecto do livro de Duran:

“O capitalismo propriamente dinâmico, orientado pela lucratividade do capital industrial no interior do processo de competição mercantil, durou – afirma Duran – do último terço do século XVIII até o fim da década dos anos 1970, ou seja, apenas dois séculos. A partir desse momento, com o advento da ‘economia digital’, transformou-se, pouco a pouco, num sistema guiado, notadamente, pela extração de renda. Pois, o processo produtivo como um todo se tornou dependente de um dado fator de produção que se encontra monopolizado, algo que fora característico do feudalismo e que agora foi de certo modo recuperado.3”

Então, segundo Duran e seu crítico, da mesma forma que o feudalismo tinha um caráter rentista, não produtivo, e que, portanto, não gerava lucro, as “empresas intensivas em intangíveis” (as Big Techs) seguem a mesma lógica de obtenção de renda. Enquanto a nobreza possuía a terra como monopólio, estas empresas possuem uma rede de dados como monopólio e põem em questão a sobrevivência das empresas produtivas, geradoras de lucro, baseadas na “livre concorrência”.

Assim, os defensores do tecno-feudalismo comparam dois modos de produção – o feudalismo e o capitalismo no atual estágio – em sua forma de monopólios para, então, identificá-los em seu conteúdo: a extração de renda.

O problema é que essa comparação entre os monopólios não tem validade. No feudalismo, a terra não era propriedade do nobre. Ele a recebia do rei (ou da Igreja católica) como uma dádiva de deus, e não podia dispor dela. Os camponeses estavam igualmente presos à terra por coerção, mas, também, por necessidade, pois dela dependia sua sobrevivência. Mas esse monopólio era muito restrito, pois não havia qualquer tipo de comércio interno, entre camponeses, nem externo, entre feudos. O comércio só passou a existir, ainda durante o feudalismo, quando outra classe social começou a surgir, os burgueses (mas essa é outra história). Por exemplo, na França do século X, havia 5 a 6 grandes ducados e condados que eram, por sua vez, divididos em milhares de feudos menores, governados por barões, cavaleiros, nobres menores, que podiam ser redivididos. Todos independentes entre si e autossustentados. A dinâmica era a de divisão dos feudos, não de expansão. Nessa época havia cerca de 45.000 castelos, o que nos dá um número mínimo de feudos existentes.

Isso não tem nada a ver com os monopólios atuais, formados por empresas gigantescas em permanente expansão, em que as maiores engolem as menores, e com um comércio intenso entre os mais diversos “feudos” modernos: comércio nos países, entre países, entre empresas monopólicas ou não, e até entre empresas pertencentes a um mesmo monopólio.

Mas isso não aconteceu a partir da década de 1970 com o início da tecnologia digital, como Duran argumenta. Já no fim do século XIX, no início da fase imperialista, John Rockefeller, o magnata do petróleo dos Estados Unidos, construiu seu império monopolista, utilizando as mais diversas armas legais e ilegais para derrubar seus concorrentes. Muitas das leis antitruste dos EUA foram aprovadas para refrear a fome insaciável do magnata por mais riquezas.

Tampouco a tendência ao monopólio era uma novidade na época. Ao menos entre os marxistas. No capítulo 23 de O Capital, “A lei geral da acumulação capitalista”, Marx explicava a tendência imparável de aumento da concentração do capital (mais para os capitalistas, menos para os operários) e da centralização do capital (cada vez menos capitalistas de posse do capital total), isto é, a tendência aos monopólios. Lenin escreveu o Imperialismo, estágio superior do capitalismo, baseado nessa lei de movimento do capital.

O capitalismo atual das Big Techs é exatamente isso, o estágio superior do capitalismo. Por isso, não tem cabimento a alegação de outra autora, Jodi Dean, de que “muitos bilhões são canalizados para uma empresa assaltante que tem por tarefa destruir de modo rápido todos os concorrentes em potencial, em vez de competir diretamente com eles por meio de melhorias de eficiência”4. A competição direta entre empresas “por meio de melhorias de eficiência” nunca existiu no capitalismo real, empresas “assaltantes” que querem destruir seus concorrentes, sempre. Não é um atributo exclusivo das Big Techs. É verdade que Marx analisou a livre concorrência com base no aumento de produtividade das empresas, mas era um recurso analítico, uma abstração das flutuações do mundo real, não uma descrição do que acontecia. Rockefeller que o diga!

Além disso, esses muitos bilhões canalizados para uma empresa são créditos de empresas de investimento (além, no caso das Big Techs, de muitos bilhões do governo norte-americano em forma de contratos ou subsídios). Elas investem porque, se compram ações, esperam o retorno na forma de dividendos mais altos que a média; se emprestam, receberão juros (não renda) como retorno. Nos dois casos, recebem parte da mais-valia extraída dos trabalhadores, ou seja, a empresa que recebe o crédito abstém-se de uma parte de seu lucro para pagar os acionistas ou o dono do dinheiro emprestado. É o mecanismo que Marx chamou de capital portador de juros, ou o dinheiro transformado em uma mercadoria sui generis, pois o dinheiro obtém, “além do valor de uso que já tem como dinheiro, um valor de uso adicional, a saber, aquele de funcionar como capital”5. É a representação D – D’, onde D’ = D + ΔD, sendo ΔD os juros pagos ao proprietário do dinheiro. Isso não é um atributo exclusivo das Big Techs, mas do capitalismo desde a época de Marx, que já afirmava a necessidade de créditos bancários, pois o capital para construir uma nova fábrica era tão grande (devido à centralização de capital) que nenhum capitalista individual o possuía.

O fim das mercadorias?

Este talvez seja o argumento mais importante para a análise do tecno-feudalismo. Já vimos que a terra não tem valor, por ser um recurso natural sem intervenção humana. Nesse sentido, não é uma mercadoria. Para comparar a renda das big techs com a renda da terra, é necessário demonstrar que sua produção também não tem valor, pois, se tivesse, seria uma mercadoria como outra qualquer, visando à obtenção de lucro.

Por isso, Durand argumenta que o controle da tecnologia pelas Big Techs permite-lhes “uma capacidade incomparável de se apropriar de valor sem qualquer envolvimento real na produção”, uma vez que “o custo de reprodução da informação” é “próximo de zero”. Portanto, “a era digital se enquadra perfeitamente no âmbito da lógica tecno-feudal quando a questão da renda é levada a sério”6.

Vimos antes a afirmação de Duran de que as Big Techs não têm um caráter “produtivista”, pois são produtoras “intensivas de intangíveis, notadamente nas plataformas digitais”. Isto é, os produtos intangíveis não são produtivos, o que significa que não há extração de mais-valia em sua produção e, por isso, não têm valor. A justificativa é que “o custo de reprodução da informação” tende a zero. “Informação” é o produto intangível das Big Techs, cujo valor tende a zero. Portanto, a rede de informações (seus bancos de dados) pode ser comparada à terra.

Marx já dizia, no volume I de O Capital, que não importa se o produto satisfaz o estômago (tangível) ou a mente (intangível), ambos são mercadorias vendidas no mercado, com o objetivo de realizar a mais-valia (na forma de lucro) contida nelas. Vejamos um exemplo: as ideias contidas em um livro são uma mercadoria intangível, mas precisam de suporte tangível para existirem, as folhas do livro. Da mesma forma, um software (um aplicativo) é um bem intangível, mas precisa de um computador como suporte. O argumento de que o valor de reprodução de um aplicativo (que é a informação) tende a zero porque a empresa não tem produção em massa de aplicativos, mas vende o mesmo exemplar para todos os compradores, por meio das nuvens, não tem nada a ver com a realidade.

Cada aplicativo necessita de atualizações constantes, de suporte online, de supercomputadores para realizar testes, de cientistas e técnicos, de vigilância constante contra a ação de hackers, etc., para mantê-lo funcionando nos computadores dos clientes. E os clientes, as empresas “servas” que utilizam os aplicativos, também precisam de equipes permanentes de TI para a manutenção do aplicativo comprado de uma Big Tech. Como disse Marx, em uma nota de rodapé do capítulo 6 do Livro I de O Capital, o pessoal de manutenção também faz trabalho produtivo, não para a empresa que os emprega, mas para a fabricante dos equipamentos, no caso, os fabricantes de “informação”:

“Uma máquina que está em conserto não funciona como meio de trabalho, mas como material de trabalho. Não se trabalha com ela, mas ela mesma é trabalhada, a fim de restaurar seu valor de uso. Para nossos fins, podemos incluir tais trabalhos de reparação como parte do trabalho requerido para a produção dos meios de trabalho.7”

Isto é, os operários modernos envolvidos no trabalho de atualização e manutenção de softwares fazem parte, tecnicamente, do corpo de trabalho da fabricante do software, da Big Tech. A fábrica de “informação” não fabrica apenas 1 aplicativo que é multiplicado como o milagre bíblico do pão. Ela produz tantos aplicativos quanto os vende, cada um é um bem separado e com valor de uso próprio. Longe de ter valor tendente a zero, como querem os defensores do tecno-feudalismo, seu valor é medido pelas horas de trabalho socialmente necessárias para produzi-los, como qualquer outra mercadoria. E essas horas de trabalho são calculadas somando-se as horas utilizadas pelos trabalhadores para a fabricação do aplicativo e para sua atualização em novas versões, até que saia de linha (bem como as horas utilizadas para a fabricação da linguagem que dá suporte ao aplicativo, que entra no cálculo como capital constante, como trabalho morto), mais as horas necessárias para a manutenção e segurança do aplicativo, seja na própria fábrica do aplicativo, seja na fábrica do cliente.

Além disso, para Marx, “… essa jornada, o movimento espacial dos meios de transporte, é precisamente o processo produtivo realizado pela indústria dos transportes”. Por transporte ele referia-se tanto ao físico quanto às comunicações (correios e telégrafos). Portanto, para Marx, a indústria das comunicações é produtora de mais-valia. A diferença das mercadorias tangíveis é que a mercadoria “comunicação” é consumida no momento em que é produzida, porque o processo produtivo é o próprio movimento espacial.

Isso quer dizer que não se extrai renda dos produtos das Big Techs, mas mais-valia transformada em lucro, pois são produzidos exatamente como os produtos das indústrias de manufatura, com capital e uma força de trabalho gigantesca.

O processo de produção das Big Techs

As grandes empresas de tecnologia produzem tanto produtos de software (aplicativos) quanto hardware (máquinas) para consumo industrial e pessoal. Estes incluem bens de capital, como IA e softwares especializados, armazenamento de dados e poder computacional, incluindo computação em nuvem, etc., e bens de consumo e de vigilância para uso pessoal, como telefones, computadores, pacotes de software, etc. Estes departamentos fazem parte do setor produtivo destas empresas, isto é, processos que geram valor novo.

Também vendem produtos para a circulação de mercadorias, que são improdutivos (não geram valor novo): comércio eletrônico, logística, varejo, fintech, capital mercantil, etc.

Segundo o Departamento de Análise Econômica dos EUA, o setor digital representou 10% do PIB dos EUA em 2022, ou US$ 2,6 trilhões (um pouco menos que o setor manufatureiro). O setor produtivo equivale a 73% da produção bruta dessas empresas.

Podemos ver na tabela abaixo, produzida por A. K. Norris e Tavo Espinosa, a participação das principais empresas de tecnologia na economia norte-americana no setor de software e serviços em nuvem.

Tabela: Grandes Empresas de Tecnologia em Software e Serviços em Nuvem.

Empresas de softwareMicrosoft, Salesforce, Workday, Oracle81%19%240.110US$ 300 bi
Serviços de Processamento de dados e de HospedagemGoogle, Amazon, Seagate, Intuit, Facebook, Twitter54%46%150.940US$ 384 bi
Projeto de sistemas de computação e relacionadosAlphabet (Google), Cognizant, Accenture, Tata Consultancy3%97%1.593.360US$ 700 bi

Chama a atenção o número de engenheiros e técnicos empregados apenas nas áreas de computação e matemática, isto é, os trabalhadores que produzem produtos intangíveis. Não há como dizer que as empresas não extraem mais-valia deste contingente gigantesco de força de trabalho. Eles podem usar terno e gravata, mas, do ponto de vista conceitual, têm o mesmo papel dos operários de chão de fábrica: realizam trabalho concreto e abstrato, produzem valores de uso e valores de troca e, como assalariados (não importa aqui o tipo de contrato), realizam trabalho pago (seus salários) e não pago (a mais-valia). São os operários das Big Techs.

Mas esse número não para aí. As principais empresas de tecnologia (Amazon,  Alphabet/Google, Apple, Meta e Microsoft) empregam diretamente centenas de milhares de pessoas, mas o número total de trabalhadores (incluindo terceirizados e contratados indiretos) é significativamente maior, frequentemente na casa dos milhões, nos setores de logística, segurança, suporte técnico e atendimento ao cliente.

Com base em dados de 2024/2025, a Amazon conta com cerca de 1,6 milhão de funcionários diretos em todo o mundo (incluindo o setor de logística). A força de trabalho direta da Alphabet (Google) era de 180.000 a 183.000 funcionários em tempo integral. A Microsoft relatou cerca de 228.000 funcionários no início de 2025. Após demissões significativas, a Meta (Facebook/Instagram/WhatsApp) contava com mais de 58.000 funcionários diretos, com relatórios de 2025 sugerindo uma força de trabalho ativa ao redor de 83.000. Por fim, a Apple emprega dezenas de milhares diretamente (apenas em varejo/lojas são milhares), mas sua força de trabalho indireta, via contratantes como a Foxconn (826.000 funcionários), é massiva8.

Esse número de empregados contrasta com a indústria tradicional de manufatura pela concentração de trabalhadores em um único conglomerado. Embora sejam empresas de alta tecnologia, entre as mais avançadas do mundo, este setor tem uma grande dependência de força de trabalho. Isso faz com que apresente uma Composição Orgânica de Capital (C/v) menor do que outras indústrias avançadas, como, por exemplo, a indústria automobilística, que tem fábricas totalmente robotizadas em vários países.

O gráfico abaixo, produzido por A. K. Norris e Tavo Espinosa, compara a composição orgânica do capital entre as empresas de tecnologia (linha tracejada) e as manufaturas tradicionais (linha cheia).

A composição orgânica é a relação entre capital constante (máquinas em geral e matérias-primas) e o capital variável (salários em geral)9, isto é, C/v. Uma composição orgânica menor significa uma proporção maior de capital variável em relação ao constante. Isso quer dizer que elas produzem mais valor que as manufaturas, pois, como sabemos, o valor é produzido pelo trabalho humano (trabalho vivo), não pelas máquinas (trabalho morto).

As receitas obtidas pelas Big Techs baseiam-se em uma combinação de altas taxas de mais-valia no setor de software, uma composição orgânica de capital comparativamente menor e sua relação simbiótica com o Estado (contratos bilionários de fornecimento de produtos e subsídios/financiamentos privilegiados), que permite lucros excedentes prolongados, e não em um hipotético recebimento de rendas que as transformam em monopólios “neo-feudais” (termo usado por Jodi Dean).

Para concluir, há uma concordância de que existe uma “superação do capital como propriedade privada, dentro dos limites do próprio modo de produção capitalista” (Jodi Dean), mas na formulação de Marx: quando o capital “recebe aqui diretamente a forma de capital social (capital de indivíduos diretamente associados) em oposição ao capital privado, e suas empresas se apresentam como empresas sociais em oposição às empresas privadas”10. Marx estava falando, evidentemente, das sociedades por ações, não de um novo modo de produção. Nesse caso, ocorre a “socialização do capital”, que é um progresso no capitalismo, não uma regressão, embora a regressão também seja possível na forma de barbárie, coisa que só a luta de classes poderá responder. E é um progresso porque ficará mais fácil, após a conquista do poder pela classe operária e a construção do comunismo, passar do capital social dos burgueses associados à “propriedade dos produtores associados, como propriedade diretamente social”11.

Notas:

  1. Amazon.com.br, Propaganda do livro Tecnofeudalismo, o que matou o capitalismo (acessado em 4/2/2026). ↩︎
  2. Em: Eleutério F. S. Prado, Sobre o tecno-feudalismo (acessado em 4/2/2026). ↩︎
  3. Idem ↩︎
  4. Jodi Dean, Tecnofeudalismo – uma defesa (acessado em 4/2/2026). ↩︎
  5. Karl Marx, O Capital, Livro III, cap. 21. São Paulo: Boitempo, 1ª edição, pág. 385. ↩︎
  6. A. K. Norris e Tavo Espinosa, A Marxian Political Economy of Big Tech and AI: Profits vs. Rents. Apresentação no congresso ASSA 2026. Em: Michael Roberts, Assa 2026, part two (acessado em 4/2/2026) ↩︎
  7. Karl Marx, O Capital, Livro I, cap. 6. São Paulo: Boitempo, 3ª edição, pág. 281. ↩︎
  8. A. K. Norris e Tavo Espinosa, A Marxian… ↩︎
  9. O capital constante é assim chamado por Marx porque, no processo produtivo, ele apenas transfere uma parte de seu valor (correspondente à utilização da matéria-prima e à depreciação das máquinas) às mercadorias, sem produzir valor novo. O capital variável, formado pelo capital gasto em salários diretos e indiretos, é chamado assim porque o capital investido no início da produção sofre um aumento ao final, devido ao valor criado pelos trabalhadores no processo produtivo. ↩︎
  10. Karl Marx, O Capital, Livro III, cap. 27. São Paulo: Boitempo, 1ª edição, pág. 494. ↩︎
  11. Idem, pág. 495. Essa citação se encontra no artigo de Eleutério F. S. Prado, na nota 2. ↩︎
Big Techs capitalismo Manifesto Comunista Marx servidão Uberização
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