Já se vão quase 1.500 dias de guerra da Rússia contra a Ucrânia. Se considerarmos desde a anexação da Crimeia e a ocupação de parte do Dombass, já são 12 anos de agressão militar contínua. A imprensa ocidental, repetindo Trump, vende a ideia de que a Rússia vem avançando, que a Ucrânia não tem condições de detê-la, que depende totalmente do Ocidente, devendo “aceitar a realidade sobre o terreno” e entregar a região de Donetsk para Putin, ou seja, capitular. Aposta no pessimismo e na desmoralização. São os mesmos analistas que, em 2022, diziam que Putin tomaria Kiev em três dias.
Pois a verdade é bem mais complexa: o tal avanço russo é extremamente lento e tem alto custo em vidas de soldados russos e em equipamento militar. A situação econômica da Rússia é muito difícil e Putin vem sofrendo sérias derrotas na arena internacional. Em quatro anos, de 1941 a 1945, a URSS derrotou Hitler, apesar de ter condições muito mais desfavoráveis. Em quatro anos, de 2022 a 2026, o “todo-poderoso” Putin, chefe do 2º exército mais forte do mundo, não conseguiu atingir absolutamente nenhum de seus objetivos militares contra um país muito mais fraco. O que explica esta situação?
Uma guerra contrarrevolucionária de Putin que enfrenta uma guerra popular de libertação nacional na Ucrânia
Há um grande debate sobre o caráter da guerra da Ucrânia. Para Putin, é uma guerra “contra o governo nazista” de Kiev ou “contra a OTAN”. A maior parte da esquerda mundial repete a mesma coisa, com maior ou menor descaramento. Para analistas ocidentais, grande imprensa incluída, é uma guerra “da democracia ocidental contra o ‘imperialismo russo'”.
De nossa parte, desde o início sustentamos uma posição distinta: é uma guerra contrarrevolucionária de Putin, visando derrotar a revolução ucraniana (a chamada Maidan) iniciada em 2013, convertida desde 2022 em guerra de libertação nacional.
A guerra da Ucrânia não é uma guerra por “espaço vital” da Rússia contra a OTAN, nem uma guerra por territórios (ainda que resulte na tomada destes), nem por mercados, fontes de matérias-primas ou indústrias estratégicas. As regiões ocupadas da Ucrânia têm pouco valor econômico para a Rússia. A Rússia não tem capital para investir na Ucrânia, não tem produção industrial que justifique o saque de matérias-primas da Ucrânia, nem tem exportações que justifiquem tomar à força o mercado ucraniano.
Analisar toda guerra a partir de interesses puramente econômicos é um erro. “A guerra é a continuação da política por outros meios”. O fundo da guerra da Ucrânia não é econômico, mas político. É uma tentativa desesperada de Putin de evitar que a revolução ucraniana siga se desenvolvendo e alcance outros territórios (como, de fato, alcançou a Belarus em 2020 e o Cazaquistão em 2022). Em especial, evitar que chegue a Moscou e que custe sua cabeça. É a mesma razão que levou Putin a intervir na Síria, para que a “primavera árabe” não chegasse aos 20 milhões de muçulmanos da Rússia, nem aos mais de 70 milhões de muçulmanos da Ásia Central (Cazaquistão, Uzbequistão, Quirguistão, Tajiquistão e Turcomenistão), sua área de influência, onde também necessita de ordem e estabilidade social. Putin necessitava da derrota destes dois processos e, por isso, foi à guerra em ambos os países, com um altíssimo custo político e econômico, inclusive para a burguesia russa.
Os imperialismos americano e europeu foram coniventes desde o início com a agressão de Putin. Quando este tomou militarmente a Crimeia e parte do Dombass (leste ucraniano) em 2014, os EUA e a União Europeia limitaram-se a protestos protocolares de “defesa do direito internacional” que eles mesmos nunca respeitaram. Quando Putin invadiu a Ucrânia em 2022 (um mês após massacrar o levante do Cazaquistão), os EUA limitaram-se a oferecer um avião para a fuga de Zelensky. Tanto os EUA quanto a União Europeia (e Putin também) consideravam que Kiev cairia em três dias. Mas, como já virou piada na Ucrânia, “já são quatro anos de guerra para tomar Kiev em três dias”.
O que levou todos esses “líderes mundiais” a um erro tão profundo de avaliação? O fato é que nunca entenderam, como a maior parte da esquerda mundial não entende, que a Maidan foi uma imensa revolução democrática, cuja força segue viva na atual guerra ucraniana de libertação nacional. E revoluções podem surpreender, derrotando ou paralisando inimigos muito mais fortes militarmente. Os exemplos clássicos são o Vietnã, que derrotou os EUA nos anos 70; o Afeganistão, que derrotou a URSS nos anos 80; o Iraque e, novamente, o Afeganistão, que derrotaram os EUA já neste século. Ou, mais recentemente, Gaza, que sequer possui um exército regular, mas deteve os planos de Israel de tomá-la.
A fortíssima resistência ucraniana derrotou a ofensiva de Putin em Kiev, Kharkov, Odessa e Kherson, forçando o exército russo a se retirar de várias regiões, surpreendendo o mundo, gerando uma grande onda de solidariedade e abrindo o risco de uma desestabilização total da situação com uma potencial derrota de Putin (como aconteceu na Síria, com a queda de seu aliado Assad). Foi este fator que abriu a discórdia entre Putin, os EUA e a União Europeia. Por isso, os EUA e a União Europeia aplicaram uma política de “apoiar” a Ucrânia a conta-gotas, com sanções contra a Rússia e fornecendo um mínimo de armas à Ucrânia, de modo a garantir seu controle do processo por meio do governo de Zelensky, mas de maneira que a Ucrânia não pudesse expulsar as tropas de Putin, desgastando-se e tornando-se mais e mais dependente dos imperialismos americano e europeu. Uma política de “esticar” a guerra e desgastar a resistência ucraniana e, ao mesmo tempo, desgastar Putin e discipliná-lo, mas sem derrotá-lo categoricamente, o que levaria à queda de seu regime, desestabilizando toda a região. É isso o que explica o “apoio militar a conta-gotas”.
Os EUA e a União Europeia recusaram-se a fornecer à Ucrânia baterias antiaéreas e aviões para combater os ataques russos com mísseis. Vetaram à Ucrânia armas pesadas e de longo alcance e a proibiram de atacar o território russo, deixando a retaguarda russa completamente livre. Inclusive armas defensivas foram vetadas, como por Israel, que se negou a vender à Ucrânia defesas antiaéreas de seu “Domo de Ferro”. Essa política cínica do imperialismo acabou de ser desmascarada pelo The New York Times, que informa que, nestes quatro anos de guerra, a Ucrânia recebeu dos EUA apenas 600 mísseis Patriot, uma arma defensiva fundamental para interceptar os mísseis russos que atacam as cidades e a infraestrutura ucranianas. Porém, somente nos primeiros cinco dias da atual agressão norte-americana ao Irã, Trump usou mais de 800 mísseis Patriot para defender Israel e as bases americanas no Oriente Médio. Isso em apenas cinco dias, pois o Ocidente fornece permanentemente montes de armas de todos os tipos a Israel para o genocídio dos palestinos. Foi essa política de entregar o mínimo de armas à Ucrânia que a impediu de expulsar totalmente as tropas invasoras russas e permitiu a Putin recomeçar sua ofensiva após suas derrotas em 2023. O custo destas medidas dos EUA e da União Europeia é pago diariamente em vidas ucranianas.
Uma frente contrarrevolucionária de Putin e Trump
Após anos de guerra sem solução visível, Trump assume a presidência com uma política distinta. Necessita resolver as contradições da economia americana. A guerra atrapalha a economia e as empresas norte-americanas, que querem fazer bons negócios na Ucrânia e na Rússia. Portanto, apoia-se no cansaço da guerra, na impossibilidade de Putin de conquistar seus objetivos iniciais (derrotar a luta nacional de libertação da Ucrânia e impor um governo títere no país) e na impossibilidade da Ucrânia, seguindo a estratégia atual, de expulsar as tropas russas do leste ucraniano, para forçar um acordo de capitulação da Ucrânia e de recolonização do país (e da Rússia também). A política deixa de ser “esticar a guerra” e passa a ser terminá-la rapidamente, com a capitulação da Ucrânia e bons negócios com Putin.
Putin tem plena consciência de que não pode atingir seus objetivos por meios militares e que tem graves contradições se acumulando, tanto militares quanto econômicas. Por isso, tenta um acordo com Trump, visando arrancar na mesa de negociação o que não consegue impor pela via militar (a totalidade do Donetsk e a redução dos efetivos do exército ucraniano). A burguesia ucraniana, sedenta também por negócios com os EUA e a União Europeia (e inclusive com a Rússia), também deseja o fim da guerra o mais rápido possível, teme a situação interna na Ucrânia, o desgaste do governo Zelensky e a insatisfação crescente do povo.
O que impede, então, todos eles de assinarem a capitulação da Ucrânia? Novamente, seus desejos se chocam com o elemento central da realidade: a revolução ucraniana, apesar de dezenas de milhares de mortos e da imensa destruição de suas cidades, mantém-se viva na resistência militar contra Putin. A população ucraniana está cansada da guerra, desiludida com Zelensky, mas não aceita ceder territórios a Putin. A guerra da Ucrânia mostra claramente o que um povo em armas, numa guerra de libertação nacional, é capaz de fazer, mesmo nas condições mais desfavoráveis. Por isso, Zelensky se vê obrigado a negociar melhores condições para o fim da guerra. Sabe que, se assinar a entrega do Donetsk a Putin, haverá, no dia seguinte, uma nova Maidan nas ruas de Kiev que derrubará seu governo. Por muito menos, em 2025, a tentativa de Zelensky de impedir uma investigação de corrupção em seu círculo próximo levou milhares de ucranianos a saírem às ruas em todas as maiores cidades ucranianas, obrigando Zelensky a recuar. Um evento que, não por acaso, ficou conhecido como “mini-Maidan”.
Por outro lado, Putin tampouco pode aceitar condições mais favoráveis à Ucrânia sem perder o controle do país. No meio do fracasso de sua “Operação Militar Especial”, ele precisa de algo para apresentar como “vitória” ao público interno. É por isso que hoje vemos uma situação de impasse nas negociações.
A difícil situação da Rússia
Desde 2023, usando toda a força bruta disponível, total predomínio aéreo e superioridade em infantaria e artilharia, Putin só conseguiu tomar cerca de 1% do território ucraniano, a um custo altíssimo em vidas de soldados russos (200 mil mortos e uma quantidade ainda maior de feridos graves) e de equipamento militar. A Ucrânia, em desvantagem numérica, aplica a tática de recuar lentamente, cobrando caro por cada hectare tomado pelo exército russo, desgastando-o. É esse o caráter da guerra hoje, uma guerra de desgaste. Desde 2023, a única cidade de tamanho considerável tomada pela Rússia foi Pokrovsk, com 60 mil habitantes. É muito pouco.
A Rússia perdeu duas vezes mais soldados na guerra do que a Ucrânia, talvez inclusive mais. A razão para isso é política. O soldado ucraniano tem moral elevado, defende seu país contra um agressor externo, é visto como um herói em seu país. O soldado russo é o oposto; é um mercenário, de moral baixo, visto em seu país como alguém que vai à guerra por dinheiro, porque não sabe fazer mais nada. O soldado ucraniano vem da classe trabalhadora, da juventude linha de frente da revolução ucraniana. O soldado russo é um marginal, lúmpem, presidiário, que vai só pelo dinheiro ou para sair da prisão, vem dos setores mais degradados da sociedade russa. O grosso dos soldados, por isso, vem das regiões mais decadentes e pobres da Rússia, onde não há perspectiva de trabalho minimamente digno. Isso se reflete no terreno da tática militar. As decisões engessadas e burocráticas do Alto Comando russo, aplicadas cegamente pelos níveis inferiores da hierarquia militar, não são páreo para a flexibilidade e a iniciativa das bases do exército ucraniano, que vêm revolucionando as táticas militares. É comum, por exemplo, que tropas ucranianas se neguem a cumprir ordens de ataque quando consideram que estas estão erradas ou que arriscam demasiadamente as vidas dos soldados ucranianos, e obriguem seu Alto Comando a levar isso em conta.
O alegado apoio do povo russo a Putin de fato existe. O nível de consciência é muito baixo. As pessoas desejam o fim da guerra, mas compreendem isso no sentido de Putin: o fim da guerra pressupõe algum grau de vitória russa, ou seja, de tomada de territórios ucranianos. O incipiente movimento de oposição à guerra e a Putin em 2022 foi totalmente derrotado. Esse é um ponto forte de Putin, sem dúvida.
Mas essa é uma verdade relativa. Esse apoio é passivo, não há nenhum entusiasmo com a guerra entre a população russa. Ela apoia a guerra desde que não tenha que combater. Que lutem presidiários e marginais (se morrerem, “tanto melhor”) ou mercenários (se morrerem, “foram porque quiseram, por dinheiro, ninguém os obrigou”). Essa situação impede Putin de decretar uma mobilização geral hoje, tendo de se apoiar em setores mercenários e marginais da sociedade. Isso limita muito suas possibilidades, pois estes setores, dispostos a combater por dinheiro, começam a rarear, mesmo com soldos que podem atingir até US$ 4.000,00 mensais. As prisões russas já estão quase vazias. Um exemplo foi a tomada de parte do território russo de Kursk por tropas ucranianas em 2024. Os russos não aceitavam combater sequer para defender “sua pátria”. Putin teve que, por isso, recorrer a soldados norte-coreanos, uma desmoralização (além de um fracasso militar). Putin não tem condições, hoje, de incrementar qualitativamente suas tropas; no máximo, tem conseguido repor as baixas. Isso faz com que sua vantagem numérica em força viva em relação à Ucrânia seja relativizada.
A situação também é complexa em relação a armamentos e equipamentos militares. Nestes quatro anos, Putin apoiou-se nas imensas reservas de armas da época soviética, mas estes estoques também diminuíram muito. Estas reservas, acumuladas durante décadas de Guerra Fria, já caíram pela metade. A metade restante é a mais antiga, em mau estado e ultrapassada tecnologicamente. A Rússia não tem condições, hoje, de repor estes armamentos e equipamentos militares na proporção necessária. Além disso, os avanços na técnica militar, com o uso intensivo de drones, reduziram muito a vantagem de Putin sobre a Ucrânia em armamento pesado. Hoje, a guerra é travada em pequenos grupos que possam se ocultar dos drones, outro motivo pelo qual o avanço russo é muito lento.
E, na economia, também se acumulam contradições. Há aumento do custo de vida e das tarifas públicas e queda na produtividade. Há grave falta de mão de obra para a indústria militar e retração na indústria não-militar. Há queda contínua nos preços do petróleo e do gás, que a Rússia exporta, e falta crônica de investimentos no setor. O governo já gastou mais da metade do fundo de reserva, construído ao longo de décadas de vendas de petróleo e gás a preços altos. A economia ameaça entrar em recessão, mesmo com os altíssimos investimentos estatais na indústria de guerra. O investimento privado no país é o mais baixo em décadas. O projeto de “substituição de importações” de Putin é um fracasso. Hoje, a Rússia depende totalmente das importações da China. Os gastos anuais com a guerra atingiram 5,1% do PIB em 2025, equivalente a 140 bilhões de dólares, o que também é insustentável.
Para piorar a situação de Putin, mísseis e drones ucranianos começam a atingir as cidades russas, corroendo o “contrato social” da guerra, pelo qual o governo “pode tudo, desde que garanta a segurança e a economia”. A tomada do território russo de Kursk por tropas ucranianas foi um duro golpe para Putin, bem como os atuais ataques ucranianos no interior do território russo.
Tudo isso faz com que Putin não tenha condições de manter o atual modelo de guerra, de lenta ofensiva permanente com mercenários e altas perdas em soldados e equipamentos, torrando as reservas soviéticas de armamentos e o fundo monetário de reserva. Por isso, Putin se aferra a Trump, na esperança de conseguir arrancar na mesa de negociações o que não pôde no campo de batalha. Isso mostra que a possibilidade de derrotar Putin militarmente está aberta.
Situação na Ucrânia: cansaço e resistência heroica
Desde o início da guerra, o povo ucraniano vem demonstrando uma heroica disposição de combate. Mas a situação na Ucrânia é difícil. São quatro anos de bombardeios, mortes e destruição. Há uma combinação de heroica resistência e cansaço da guerra. O governo Zelensky e a burguesia ucraniana cumprem o papel de sabotadores da guerra. A economia não foi colocada a serviço da defesa do país, mas a serviço de garantir os lucros da burguesia. O governo apostou todas as fichas na dependência do apoio norte-americano e europeu, em vez de girar a economia para a produção de armamentos. Há fábricas metalúrgicas fechando ou produzindo para exportação, em vez de produzirem armamentos. Há exemplos absurdos de burgueses ucranianos que venderam suas fábricas a burgueses russos, que as fecharam, sucatearam ou reduziram sua produção. Além disso, há grandes escândalos de corrupção envolvendo membros do alto escalão do governo que tentam enriquecer com a guerra. Há desmoralização porque todos sabem que só os trabalhadores vão para a guerra, enquanto os filhos da burguesia compram suas dispensas militares. Além disso, Zelensky aprovou uma série de leis antitrabalhistas.
Apesar do cansaço da guerra, do descontentamento com o governo e da decepção com os “parceiros ocidentais”, os ucranianos mantêm a resistência e o desgaste da ofensiva russa. Ainda há reservas, como indicam as recentes pesquisas, em que a maioria da população se mantém contrária a um “acordo de paz” que implique a entrega de territórios ucranianos. Existem ainda esperança numa vitória e um profundo orgulho do combate travado contra as tropas de Putin.
Para vencer a guerra, é necessário nacionalizar a grande indústria, colocá-la a serviço da defesa nacional e independizar-se da pressão dos imperialismos europeu e americano. Ou seja, é necessário um governo dos trabalhadores em armas.
Belarus, ponto vulnerável de Putin, mas esquecida por todos
Há um grande silêncio da imprensa mundial sobre a Belarus. Mas ela é uma peça-chave no desenrolar da guerra. A Belarus não é o bastião de Putin, e sim seu ponto vulnerável.
A revolução ucraniana teve seus reflexos na Belarus em 2020, num forte movimento que abalou a ditadura de Lukashenko, no poder desde 1994, mas não a derrubou. Com o apoio de Putin, houve uma fortíssima repressão, com milhares de presos e emigrados. Lukashenko conseguiu se manter no poder, mas uma profunda insatisfação permanece por baixo da sociedade, que odeia a ditadura de Lukashenko. É um governo frágil e dependente de Putin, como Assad na Síria. Não possui nenhuma base de apoio na população, mantém-se apenas graças ao aparato repressor e, contrariamente ao que parece, é extremamente frágil. Neste contexto, há todos os motivos para traçar paralelos com o regime de Assad que, em questão de dias, transformou-se em pó ao primeiro abalo.
A perda da Belarus seria um duro golpe para Putin em termos militares e, ainda mais, em termos políticos. A economia bielorrussa depende das encomendas de guerra do governo russo, fornecendo maquinaria, peças de reposição, tubos metálicos, equipamento e vestimentas ao exército russo. O restante da economia bielorrussa é decadente, com baixa produtividade. A situação econômica piora. De janeiro a novembro de 2025, houve uma queda de 2,7% na indústria, com -3,7% na indústria da capital. Há forte escassez de mão de obra industrial. Este é um problema que afeta principalmente as grandes fábricas metalúrgicas, onde trabalham dezenas de milhares de operários.
O povo bielorrusso nunca aceitou a guerra contra a Ucrânia e vê os soldados ucranianos como heróis. É por isso que Lukashenko não se atreveu a meter a Belarus na guerra, apesar de ser tão próximo a Moscou. Os bielorrussos não aceitariam, em nenhuma hipótese, lutar contra a Ucrânia, que veem como país irmão.
Muito pior que a queda de Assad, a queda do regime de Lukashenko seria um fator decisivo para a derrota de Putin na Ucrânia, com consequências estratégicas para a Europa Oriental. Se o exército ucraniano entrasse na Belarus, seria recebido como libertador, com confraternização das massas, o que provocaria uma nova explosão revolucionária. Nem mesmo quem é parte do regime bielorrusso o defenderia, ele se dissolveria mais rápido que o regime de Assad.
Isso significaria, na prática, a derrota de Putin na guerra e a vitória dos povos da Ucrânia e da Belarus. Por meio de centenas de milhares de emigrantes ucranianos e bielorrussos e da solidariedade da Europa Oriental, que se fortaleceu nos últimos anos, isso provocaria uma explosão de entusiasmo revolucionário na Lituânia, na Polônia e em toda a região. É exatamente por isso que o governo burguês da Ucrânia não faz isso e, ao contrário, construiu uma barreira na fronteira e prefere cortejar o regime de Lukashenko. O mesmo faz Trump, que negocia com Lukashenko a retirada das sanções.
Conclusões
O atual modelo de guerra travado por Putin é insustentável no médio prazo, talvez inclusive no curto. Putin não tem nenhuma possibilidade de vencer a guerra em termos militares. Para ser exato, Putin já foi derrotado em seu plano inicial de derrotar o processo revolucionário ucraniano e impor um governo títere em Kiev. O que ele faz agora é administrar esta derrota, tentando encontrar alguma saída que possa vender ao público interno russo como vitória, como a conquista da região de Donetsk. Militarmente, Putin está muito longe de conseguir, inclusive, este objetivo rebaixado. Precisaria de, no mínimo, dois anos no ritmo atual, o que, como vimos acima, é insustentável. Por isso, tenta consegui-lo com a ajuda de Trump, que força a Ucrânia a aceitar a entrega de Donetsk. Por outro lado, a Ucrânia já é vitoriosa em sua tarefa fundamental, defender Kiev e impedir que Putin impusesse um títere no governo. A possibilidade de derrotar Putin militarmente, portanto, está colocada.
A saída para Putin é um acordo com Trump que obrigue a Ucrânia a capitular. Mas a resistência ucraniana segue viva e não aceita, hoje, uma capitulação. Por isso, a situação militar vive um impasse e as tais “negociações de paz” também. Mas a resistência ucraniana também se choca com o governo Zelensky que, com sua política burguesa, mina a disposição de luta ucraniana e submete o país a uma dependência crescente do imperialismo ocidental. A luta do povo ucraniano contra a agressão de Putin e a do povo bielorrusso contra a ditadura de Lukashenko, sustentada por Putin, são dois lados da mesma luta. Construir a unidade entre estes dois povos contra Putin é a tarefa mais estratégica na região.
A luta pela libertação nacional na Ucrânia e na Belarus, como em qualquer outro país oprimido, enfrenta o sistema capitalista desses países, dependentes e semicoloniais. É uma luta democrática que, portanto, possui profundo potencial anticapitalista. A burguesia destes países, sedenta de capital estrangeiro, é agente da opressão e da submissão. A luta pela libertação nacional só pode ser bem-sucedida se indissoluvelmente ligada à luta pela libertação social dos trabalhadores.
A guerra da Ucrânia é um acontecimento central da luta de classes mundial, porque opõe, de forma direta, militar, a revolução nacional-democrática ucraniana à contrarrevolução de Putin no meio da Europa. Uma vitória da Ucrânia significaria uma vitória do campo da revolução, enquanto uma vitória de Putin significaria uma vitória da contrarrevolução. Em ambos os casos, com consequências para todos os explorados e oprimidos do planeta.
Por tudo o que foi dito acima, estamos incondicionalmente ao lado do povo trabalhador ucraniano, em defesa de seu direito à autodeterminação e à libertação nacional e pela derrota de Putin na guerra. Ao mesmo tempo, não depositamos nenhuma confiança nem no governo Zelensky, legítimo representante dos grandes oligarcas ucranianos, nem, muito menos, nas ditas “democracias ocidentais”, que, sob um discurso de apoio à Ucrânia, negociam sua derrota com Putin. Foi o povo trabalhador da Ucrânia que derrubou o governo pró-Putin de Yanukovich em 2014 na Maidan, foi o povo trabalhador da Ucrânia que expulsou as tropas de Putin de Kiev, Kharkov, Odessa e Kherson em 2023, foi a luta do povo trabalhador da Ucrânia que impediu Putin de salvar seu aliado Assad na Síria no começo de 2025. E é o povo trabalhador da Ucrânia que pode derrotar o carrasco Putin.
