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Home»Internacional»O “progressista” Lula e a guerra contra o Paraguai
Internacional

O “progressista” Lula e a guerra contra o Paraguai

Por Insurgência (Paraguai)
01/08/2026Nenhum comentário7 Mins Read
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Há poucos dias, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva declarou, por ocasião da reabertura da empresa Avibras — dedicada à produção de material bélico e tecnologia militar —, sua visão sobre a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870):

“Nós gostamos da paz. Mas não podemos esquecer que, certo dia, o Paraguai decidiu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá. Ao mesmo tempo, invadiu o Uruguai. Ao mesmo tempo, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia não ser nada durou cinco anos. E aquela guerra deve ter consumido o equivalente a cinco orçamentos do país daquela época“

Essas declarações provocaram uma legítima indignação na opinião pública paraguaia, onde, em tom nacionalista, quase todas as forças políticas — tanto da direita quanto da esquerda — se manifestaram para questionar suas palavras. Proferidas pelo chefe de Estado da principal economia sul-americana e utilizadas para justificar, no âmbito interno, o aumento dos gastos militares, as declarações de Lula não só são factualmente e historicamente equivocadas, como também funcionam como uma demonstração velada de força regional.

Diante disso, é imprescindível definir uma posição socialista e internacionalista.

Lula não fez mais do que repetir a visão chauvinista e imperial da historiografia oficial brasileira. Essa interpretação, escrita pelos vencedores, faz um recorte arbitrário para sustentar a caricatura do Paraguai como país agressor e, portanto, único “responsável histórico” pelo principal conflito bélico sul-americano.

É verdade que o ditador Francisco Solano López ordenou, em 27 de dezembro de 1864, o ataque e a ocupação da fortaleza de Coimbra e, dias depois, a tomada de Corumbá, no Mato Grosso. Também é verdade que, em 1865, duas colunas paraguaias avançaram em direção ao Rio Grande do Sul e que, diante da recusa do governo de Bartolomé Mitre em permitir a passagem de tropas para auxiliar o governo oriental — enquanto a Argentina colaborava abertamente com a esquadra brasileira —, López ocupou a província de Corrientes. No entanto, é absolutamente falso que o Paraguai tenha invadido o Uruguai: as tropas paraguaias nunca pisaram em solo uruguaio, após serem derrotadas em Yatay, em agosto de 1865, e se renderem em Uruguaiana, em setembro daquele mesmo ano.

O que Lula omite, seguindo a narrativa nacionalista do Estado brasileiro, é o processo prévio de ingerência externa na República Oriental do Uruguai, iniciado em 1863. Esse processo culminou com o bloqueio e o bombardeio de cidades uruguaias pela esquadra imperial — com o apoio político e logístico do governo de Buenos Aires — e com a invasão terrestre das tropas brasileiras em 16 de outubro de 1864. Essa crise regional precedeu e determinou as decisões de López. A invasão brasileira ao Uruguai e a derrubada do governo branco, aliado de Assunção, foram interpretadas pelo governo paraguaio como o primeiro passo para o estrangulamento comercial e político de seu país, quando não como o prelúdio de uma agressão militar à sua própria soberania. Por isso, após advertir explicitamente a diplomacia imperial de que qualquer agressão militar ao Uruguai seria considerada um casus belli1, o governo paraguaio decidiu tomar a iniciativa e invadir o Mato Grosso.

Assim, é desonesto e carece de rigor ignorar a crise interna do Uruguai e a ingerência político-militar do Império do Brasil e da oligarquia portenha naquele país, uma vez que a Guerra contra o Paraguai foi, na realidade, uma consequência direta desse processo.

A visão expressada por Lula reforça a narrativa dos países vencedores. É evidente que suas declarações buscam agradar à cúpula das Forças Armadas brasileiras, no âmbito de uma política de concessões e crescentes incentivos orçamentários aos quartéis, mantida desde o início de seu mandato em 2023. As declarações de Lula não são um mero deslize individual nem um lapso retórico, mas a consequência direta da colaboração de classes. Tampouco decorrem de ignorância histórica. Ele sabia muito bem o que estava dizendo e a quem queria agradar com essa posição: à hierarquia militar e aos setores mais conservadores da sociedade brasileira.

Não deve surpreender, por sua vez, o alvoroço gerado no Paraguai, já que o país não apenas perdeu “cinco orçamentos nacionais daquela época”, mas sofreu uma derrota nacional histórica: em pouco mais de cinco anos, perdeu cerca de dois terços de sua população total e mais de 80% de sua população masculina, foi privado dos territórios que reivindicava como próprios, sofreu a ocupação das tropas vencedoras até 1876 e ficou asfixiado por uma pesada dívida de guerra imposta por seus algozes.

Tudo isso sem contar que, desde então, sua condição como Estado ficou reduzida à de um país satélite, submetido não apenas aos imperialismos hegemônicos, mas também às burguesias regionais do Brasil e da Argentina. A opressão nacional exercida pelo Estado brasileiro é ainda mais acentuada: o Tratado de Itaipu continua sugando a energia paraguaia para favorecer a burguesia do sudeste brasileiro; a expansão do agronegócio na fronteira deslocam comunidades camponesas e indígenas, e a política do “usem e abusem”, promovida pelos governos locais de Horacio Cartes e Santiago Peña, atrai capitais brasileiros para saquear os recursos do país e se aproveitar da mão de obra barata oferecida pela classe dominante paraguaia.

Em suma, com base no genocídio e na espoliação histórica do século XIX, a burguesia brasileira — por meio do agronegócio, das multinacionais e das corporações energéticas — utiliza o Paraguai como um enclave por meio da exploração do trabalho e do extrativismo. A burguesia paraguaia, hoje representada pelo cartismo e pelo governo de Peña, confirma a incapacidade estrutural das elites locais de concretizar a independência nacional, pois, longe de combater a subjugação, atuam como parceiros secundários e administradores da pilhagem que nós, trabalhadores, sofremos.

É lamentável como a chamada esquerda brasileira — cujo nacionalismo e estreiteza de visão a impediram de incorporar as lições da guerra de conquista e extermínio promovida por sua burguesia no século XIX — tenha mantido silêncio a esse respeito. Além de exalar chauvinismo, a maior parte da esquerda brasileira se mostra incapaz de formular uma crítica séria a Lula, por ter capitulado diante de seu projeto burguês “desenvolvimentista” e apoiá-lo ou tolerá-lo como um “mal menor” diante do bolsonarismo, ainda mais no contexto de um ano eleitoral.

Por sua vez, a esquerda nacionalista e provinciana paraguaia, embora tenha questionado as declarações de Lula, aproveitou a oportunidade para reproduzir o dogma de que “López é a causa paraguaia e vice-versa”. Nem uma única crítica histórica a López, o intocável. No entanto, embora o marechal e a classe dominante paraguaia liderassem uma nação oprimida sob o ataque de potências regionais, isso não significa que representassem os interesses das classes trabalhadoras da época.

O povo pobre paraguaio — camponeses, trabalhadores rurais, indígenas e negros — enfrentou o invasor ao lado de López diante de um inimigo comum, mas com base em interesses de classe antagônicos. Essa é a dinâmica de classe que a esquerda paraguaia, educada nas distorções teóricas do stalinismo, é incapaz de assimilar.

Da mesma forma, embora a percepção de López sobre o cerco diplomático e militar que se fechava sobre Assunção em 1864 fosse plausível, seus cálculos político-militares revelaram-se desastrosos: nem Urquiza nem os federais argentinos se uniram à luta contra Mitre, e sua estratégia de “guerra relâmpago”, mal equipada, mal conduzida e sem clareza operacional, terminou em um fracasso retumbante que, em menos de um ano, colocou o país na defensiva. A causa do povo paraguaio, como nação oprimida, era justa; mas López, por mais que isso desagrade aos nacionalistas de direita ou de esquerda, foi um péssimo líder político e militar.

As declarações de Lula, fiéis à velha tradição expansionista do Brasil, devem servir não apenas para compreender o passado, mas também para revelar as relações assimétricas de dominação e o lugar de subordinação que o Paraguai ocupa na geopolítica regional. Trata-se de uma oportunidade indispensável para contrapor uma perspectiva de classe e internacionalista aos discursos chauvinistas de ambos os lados da fronteira, sejam eles provenientes da direita ou das correntes reformistas que se dizem socialistas.

Insurgência (Paraguai)2

28 de julho de 2026

  1. Casus belli: expressão em latim que significa “casos de guerra”. É usado para designar um evento ou ato que um país utiliza para iniciar um conflito armado contra outro país. ↩︎
  2. Insurgência, organização socialista paraguaia que compõe o CIR – Comitê Internacional pela Reconstrução da LIT-QI ↩︎

Brasil Lula Paraguai Tríplice Aliança
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