“Todos os caminhos levavam a Manchester na década de 1840. Se Engels não tivesse vivido em Manchester, sua concepção de classe e suas teorias sobre o papel da classe operária na história poderiam ter sido muito diferentes. Manchester teve importância política central na história mundial moderna.”
Asa Briggs
Manchester desempenhou um papel fundamental no surgimento do marxismo. Berço da Revolução Industrial, a partir da segunda metade do século XVIII, uma floresta de chaminés expelia fumaça das fábricas têxteis, onde cada máquina de tear a vapor substituía dezenas de teares manuais espalhados pelas casas dos artesãos.
Foi lá que Engels entrou em contato com as fábricas da época e, principalmente, com a classe operária moderna. Manchester era o centro do movimento cartista e dos sindicatos em desenvolvimento, assim como das agitações nas fábricas pelo fim do trabalho infantil e pela jornada de dez horas. Esta foi garantida por leis aprovadas em 1847 e 1850, bem como folgas aos sábados à tarde. Esta vitória foi comemorada por Marx no primeiro volume de O Capital.
Engels tinha 22 anos quando, em 1842, foi trabalhar na Victoria Mill (Moinho Victoria), em Salford, cidade próxima a Manchester, de propriedade da empresa Ermen & Engels. Este último era Friedrich Engels Sr., o pai de Engels. Seu trabalho era garantir que os irmãos Ermen, sócios do pai, não utilizassem o dinheiro da empresa para seus próprios negócios.
Salford tinha cerca de 50 mil habitantes na época e 25 fábricas têxteis até 1870; outras 11 seriam construídas até a primeira década do século XX.

Logo que chegou, Engels começou a frequentar o Hall da Ciência, a apenas cinco minutos do escritório da Ermen & Engels. Ele não conseguia acreditar no que estava testemunhando. “A princípio, não é possível superar a surpresa de ouvir, no Hall da Ciência, trabalhadores comuns falando com clareza sobre assuntos políticos, religiosos e sociais. …O salão socialista, com capacidade para cerca de 3.000 pessoas, lotava todos os domingos”.
Lá, conheceu os socialistas utópicos owenistas, como John Watts, e os principais cartistas, como James Leach e Julian Harney. Ele visitou West Yorkshire, onde se encontrou com seu compatriota George Werth, em Bradford, e reuniu-se com Julian Harney, editor do jornal cartista The Northern Star, sediado em Leeds. Ele passaria a colaborar com os jornais The Northern Star, dos cartistas, e The New Moral World, do socialista utópico Robert Owen.

Foi lá onde Engels provavelmente conheceu a operária Mary Burns, sua companheira até sua morte, aos 41 anos, em 1863. Ela seria seu passaporte nas favelas da classe operária de Manchester, locais onde, de outra forma, ele seria possivelmente espancado e roubado.


Engels também teve contato com Heinrich Bauer, Joseph Moll e Karl Schaper em Londres, dirigentes de uma sociedade secreta, a Liga dos Justos, que viria a se tornar a Liga Comunista em 1847, episódio contado no filme O Jovem Marx. Eles eram “os primeiros operários revolucionários que eu conheci… nunca esquecerei a profunda impressão que causaram em mim, que queria, então, apenas me tornar um homem”.
Em sua viagem para Manchester, Engels parou em Colônia (Alemanha) para se encontrar com Marx, de quem conhecia as publicações. Nesse encontro, ele comprometeu-se a ser o correspondente do Neue Rheinische Zeitung na Inglaterra, jornal publicado por Marx. Foi o início de uma amizade e de trabalho conjunto por toda a vida.

Foi deste início de colaboração que Marx passou a estudar os economistas políticos clássicos da Inglaterra, que teve como resultado O Capital. Os textos enviados por Engels para publicação, escritos em Manchester, convenceram-no. Primeiro, Esboços de uma crítica da economia política, de 1843; e depois, uma trilogia sobre A situação da classe operária na Inglaterra, de 1844, que seria publicada em 1845 como livro.
Em 1844, Engels volta para a Alemanha e participa, com armas em punho, da revolução de 1848, a chamada Primavera dos Povos. A Liga Comunista é fundada em pleno processo revolucionário, e o Manifesto Comunista é lançado. Mas a derrota obriga-o a exilar-se em Manchester em novembro de 1850. Ele voltou a trabalhar na empresa da família, como assistente geral. Havia vários motivos para isso. Um deles era evitar uma possível prisão pela polícia prussiana por seu envolvimento nas revoltas na Alemanha. Outro foi manter a publicação do Neue Rheinische Zeitung a partir de Londres, onde Marx vivia desde 1849 (leia sobre isso em “Marx em Londres. Um pequeno relato”).
Entre 1844 e 1850, Marx e Engels tornaram-se “Marx-Engels”, dois homens com uma ideia única, até suas mortes. Em 1845, os dois passaram algumas semanas em Manchester, certamente uma ideia de Engels, para estudar os economistas políticos clássicos da Inglaterra. O local de estudo era a Biblioteca de Chetham, a mais antiga biblioteca pública do país, que possuía uma vasta coleção de obras que lhes interessavam. A pequena sala onde eles estudaram está preservada e é um ponto turístico da cidade.
Engels ficaria mais 20 anos em Manchester. Nesse período, ajudou Marx na redação de artigos para o New York Daily Tribune, o jornal dos EUA para o qual Marx trabalhava, e correspondiam-se diariamente para discutir as descobertas de Marx que lemos hoje em O Capital ou as questões sobre a I Internacional, após sua fundação em 1864.

Engels vivia uma espécie de vida dupla. Por um lado, era um respeitado homem de negócios e figura de destaque na comunidade alemã de Manchester. Por outro, morava com Mary Burns, sua irmã Lizzie e sua sobrinha, de apelido Pumps, em outro endereço. Ser um empresário com uma companheira operária, sem contrair casamento, era algo escandaloso perante a sociedade vitoriana de meados do século XIX. Para manter essa vida dupla em segredo, Engels mudava-se frequentemente tanto da residência “oficial” quanto de sua casa com Mary Burns.
As residências de Engels
Nessa época, os homens solteiros alugavam quartos mobiliados, onde os proprietários ou arrendatários encarregavam-se das tarefas domésticas dos inquilinos. Engels fazia isso em sua vida “oficial”, enquanto alugava casas para a família. Nessas, as irmãs Mary e Lizzie eram as inquilinas que, por sua vez, alugavam quartos a outras pessoas.
Sua primeira residência em 1850 foi na Rua Great Ducie, 70, em quarto alugado pela Sra. Tatham. Era um local perto do escritório da Ermen & Engels. Em outubro de 1852, a Sra. Tatham mudou-se para o número 48 da mesma rua, e Engels seguiu-a. Não se tem notícias de onde Mary e Lizzie Burns moravam nesse período.
No início de 1853, Engels escreveu a Marx dizendo que iria se mudar para um local mais barato, para economizar. Provavelmente, Mary Burns morou com ele, pois não há registro de seu nome na Rua Burlington, 17, em Chorlton-on-Medlock, e sim de um homem chamado Frederick Mann Burns. Vários registros confirmam que esse nome falso era seu, para “legalizar” seu casamento com Mary Burns e evitar pagar dois aluguéis.
Mas sua real identidade foi descoberta e, em maio de 1854, ele foi obrigado a se mudar e novamente constituir duas residências. A oficial ficava na Rua Walmer, 5, em Rusholme, perto do pub Albert Inn, ainda existente, provavelmente frequentado por Engels. Ao mesmo tempo, “Frederick Mann Burns” mudou-se para a Rua Cecil, 27, também em Chorlton-on-Medlock.
A profissão que constava em sua identidade falsa era a de vendedor, para justificar sua ausência por períodos mais longos, pois lá também moravam inquilinos.

Em 1855, Engels (ainda como Frederick Mann Burns) e família mudaram-se para a Grove House, na Rua Moss Lane East, 374, em Rusholme.
Depois, entre 1856 e 1864, morou na Rua Thorncliffe Grove, 6, uma casa nova, tendo como senhorio Mr. Charles Lee. Esta rua ficava a oeste da Oxford Road e a norte do Whitworth Park, e no local hoje há uma moradia estudantil, a Aberdeen House. Há uma placa azul nesta moradia, indicando que “Frederick Engels, filósofo social e escritor, morou na Rua Thorncliffe, 6, que ficava neste local”.
Mas a saga não termina aí. Em 1864, Engels ainda se mudou para uma casa na rua Dover, 56 e, depois, para o número 25 da mesma rua, provavelmente para ter outro inquilino, seu novo amigo Samuel Moore, no quarto ao lado. Moore seria o tradutor para o inglês de O Capital (publicado em 1887, 20 anos depois da edição alemã) e, com Engels, do Manifesto Comunista.
E, finalmente, Engels mudou-se para a Rua Mornington, 86, em Chorlton-on-Medlock, em 1869. Foi sua última residência oficial em Manchester.
A família Engels, por sua vez, mudou-se, em 1859, para a Rua Rial, 7, em Hulme, perto da Rua Upper Medlock. Era uma casa nova, cujo primeiro inquilino era Frederick Boardman, outro pseudônimo de Engels.

Em abril de 1862, “Frederick e Mary Boardman” alugaram outra casa, na Rua Hyde, 252, em Ardwick. Mary Burns morreu nesta casa em 7 de janeiro de 1863, aos 41 anos.
Após a morte de Mary, Engels manteve uma vida em comum com Lizzie. Os pais das duas irmãs eram irlandeses, e Lizzie era uma ativista pela independência da Irlanda. Conta-se que Lizzie teria ajudado na fuga de dois membros da Sociedade Feniana, uma organização que lutava pela independência da Irlanda, e que eles teriam se escondido em uma casa alugada por “Frederick Burns” (outro pseudônimo de Engels), na Rua Richmond Grove, para abrigar a sede da regional de Manchester da I Internacional. Foi lá onde ocorreu o Congresso da I Internacional em 1865.
Lazer
Quando foi para a Inglaterra pela primeira vez, em 1842, Engels morava em Chorlton-on-Medlock e trabalhava no escritório da empresa, ambos em Manchester, mas frequentemente ia à fábrica em Salford. Segundo o historiador Tony Flynn, Engels tentou montar uma célula comunista no pub The Grapes, na Rua Church, perto da fábrica. O pub ficava em Eccles, um bairro operário com muita agitação na época.
Após as visitas à Biblioteca Chetham, conta-se que os dois amigos iam ao pub Coach and Horses, onde ficavam conversando por horas.
Em sua segunda estadia, Engels frequentou o pub The Golden Lion, na Rua Deansgate, cujo quintal era avistado da sala do escritório da Ermen & Engels, onde trabalhava.
O proprietário, James Benfield – também proprietário do prédio onde ficava o escritório -, era uma pessoa de sua confiança, pois Engels pediu a Marx que enviasse as cartas mais comprometedoras para o endereço do pub, para evitar sua interceptação pela polícia. O modo pelo qual Engels se referia a Benfield em suas cartas para Marx sugere que ele também o conhecia. Provavelmente, os dois amigos iam ao pub pra conversar e tomar uma cerveja durante as várias idas de Marx à cidade.
Quando Engels e família se mudaram para o bairro de Ardwick, é provável que ele frequentasse o Wellington Inn, devido à proximidade de suas residências.

Engels reunia-se com seus amigos, como Carl Schorlemmer, um famoso cientista e comunista, Heinrich Caro, Ludwig Mond e Samuel Moore, nos clubes Schiller-Anstalt e Albert, criados pela comunidade de expatriados alemães. O Albert Club ficava na Dover House – demolida em 1969 – na esquina da Rua Oxford com a Rua Dover. Entre 1860 e 1868, o Schiller-Anstalt, do qual Engels tornou-se presidente, tinha instalações na Rua Cooper.

Outro passatempo de Engels era a caça à raposa, esporte popular em seu tempo. Ele escreve a Marx, exultante, contando que ele e outros cavalgaram por 7 horas antes de, finalmente, alvejarem uma raposa. O próprio Marx experimentou o exercício por 2 horas em uma de suas idas a Manchester, segundo uma carta de Engels a Jenny Marx.
Trabalho oficial
A ida para Londres estava ligada ao fim de seu trabalho na empresa Ermen & Engels. Engels trabalhava no escritório da empresa, na esquina da Rua King West com a Rua Southgate, no centro da cidade. Em 1862, assinou um contrato de 7 anos com a E&E, de 100 libras (mais de 10 mil libras em 2024) por ano e uma participação nos lucros. Ele ficou encarregado da administração do escritório e obrigado a cumprir horário integral, o que era um peso terrível.
Finalmente, no fim de 1868, Gottfried Ermen propôs o rompimento antecipado do contrato – depois de muitos atritos entre os dois – em troca de uma indenização e, em 30 de junho de 1869, Engels deixou a empresa. No dia seguinte, escreveu para Marx: “O doux commerce (doce comércio) acabou e sou um homem livre”. Marx respondeu felicitando Engels por sua “fuga da escravidão do Egito” e completou: “vou tomar todas em sua homenagem”.
Outro local que Engels frequentava como homem de negócios era o Royal Exchange, o centro do comércio têxtil mundial. Ele não perdia a oportunidade de alfinetar seus “colegas”. Durante a crise econômica de 1857, ele escreveu: “Estou sempre profetizando um futuro adverso e os burros ficam duplamente irritados”.
Quando necessário, recebia os “filisteus”, como os descrevia, em sua residência oficial. Esses homens de negócios não sabiam nada sobre sua atividade política.

Há um belo relato da filha caçula de Marx, Eleanor, que estava hospedada na casa do “tio Engels” quando ele voltou de seu último dia de trabalho na Ermen & Engels.
“Eu estava com Engels quando seu trabalho forçado chegou ao fim e vi o que ele deve ter passado por todos aqueles anos. Nunca esquecerei a alegria com que ele exclamou ‘Pela última vez!’, quando calçou as botas para ir ao escritório. Algumas horas depois, estávamos no portão esperando por ele. Nós o vimos vindo pelo pequeno campo em frente à casa. Ele balançava seu bastão no ar e cantava, com o rosto radiante. Então, comemoramos com champanhe e ficamos felizes”.
O motivo de tanta alegria era que Engels odiava seu trabalho, mas o suportava porque sabia que tinha de trabalhar para ajudar Marx financeiramente.
Naquele dia, ele recuperou a liberdade para se dedicar exclusivamente à luta pelo comunismo.
Notas:
Texto baseado no livro Frederick Engels in Manchester, the search for a shadow, de Roy Whitfield,
e Engels in Manchester, de Simon Webb,
além de artigos de jornais de Manchester e de Salford.
