A nossa espécie, o Homo sapiens, surgiu há aproximadamente 200 mil anos (*). É o que os biólogos chamam de “ser humano anatomicamente moderno”, o resultado de um processo evolutivo de milhões de anos. Por volta de 60 mil anos atrás, ocorreu o que a paleoantropologia chama de “revolução do paleolítico superior” (RPS), um período marcado por um grande avanço na arte, nas ferramentas e na organização social. Ainda há um debate científico sobre se essa mudança foi um salto repentino ou o resultado de milênios de pequenos avanços acumulados.
A transição geológica do Pleistoceno para o Holoceno, ocorrida há cerca de 10 mil anos com o fim da Era do Gelo, trouxe a estabilização do clima mundial. Esse fator foi fundamental para o desenvolvimento da agricultura, pois permitiu ciclos climáticos muito mais previsíveis e regulares.
Antes disso, nossa espécie já havia se espalhado pelo mundo. Principalmente após a “revolução do paleolítico superior” (RPS), na qual houve uma explosão criativa, resultando em um salto de qualidade, não apenas nas formas de expressão artística, mas também nas ferramentas de defesa, nos abrigos, nas vestimentas e na organização das comunidades. Foi uma caminhada longa a partir da RPS, de pelo menos 50 mil anos até o clima se estabilizar. Os grupos humanos se espalharam pelo planeta, dividiram-se e aprenderam com as particularidades de cada região que ocupavam, especializando-se naquilo que as necessidades locais exigiam. Aos poucos, ao longo de milênios, num longo processo de erros e acertos, fomos aprendendo com a natureza. No fim da última era glacial, ocorreu o evento mais importante da história da nossa espécie: a Revolução Agrícola.
Até então, a humanidade vivia em pequenos grupos isolados. Além de enfrentar as armadilhas da natureza, esses grupos podiam entrar em conflito direto pela comida. Naquela época, todos participavam e eram importantes para a sobrevivência coletiva, na busca constante por alimento e segurança. De uma forma ou de outra, todos os membros do grupo aprendiam sobre caça, pesca, colheita e defesa. A vida era uma batalha diária para sobreviver em meio à natureza selvagem. Quantos de nossos ancestrais não morreram consumindo plantas venenosas antes que o grupo acumulasse o conhecimento necessário para identificá-las?
A Revolução Agrícola não aconteceu do dia para a noite, tampouco em um único lugar. O desenvolvimento da agricultura ocorreu de forma autônoma e independente em pelo menos sete regiões do planeta. Cada uma tinha suas peculiaridades, com plantas e animais domesticáveis próprios, e isso ocorreu em épocas históricas completamente distintas. Por exemplo: enquanto no Oriente Médio o trigo foi domesticado há cerca de 11.500 anos, na China o cultivo do arroz começou há cerca de 10.000 anos, e nos Andes a batata foi domesticada há 7.000 anos. A Revolução Agrícola foi um processo que se desenvolveu aos poucos, ao longo de milênios, avançando de forma diferente em cada canto do mundo.
O aspecto mais revolucionário da agricultura foi a criação do excedente. Antes, nossa espécie era limitada pelas ameaças do ambiente; caçava, colhia e pescava apenas o necessário para alimentar pequenos grupos que, devido a essa dinâmica difícil, não conseguiam crescer. O excedente agrícola — isto é, a sobra da produção além do que o grupo precisava consumir imediatamente — permitiu avanços sociais inimagináveis. A agricultura nasceu perto dos grandes rios devido à necessidade de água. Foi nesses locais que as populações começaram a se fixar e a formar as primeiras aldeias. Com fartura de recursos, essas populações cresceram rapidamente.
O ser humano deixou de se organizar em pequenos bandos — nos quais todos desempenhavam o mesmo papel na subsistência — e passou a viver em grandes sociedades. O avanço das técnicas e o conhecimento sobre plantio permitiram que uma parte dessas populações ficasse livre do trabalho direto na terra. Isso só foi possível graças ao excedente agrícola.
A divisão social do trabalho surgiu justamente pela necessidade de organizar, estocar e controlar o excedente da produção. Basicamente, foi uma divisão de tarefas: uma pequena parte da sociedade especializou-se em administrar o que era produzido e deixou de trabalhar diretamente na terra ou nas oficinas. Enquanto isso, a grande maioria continuou na produção direta, com a “mão na massa”. Após milhares de anos, os grupos que aprenderam a controlar a produção agrícola formaram as primeiras castas burocráticas. Esse grupo passou a planejar a construção das cidades e a criar exércitos para protegê-las — desarmando a maioria da população nesse processo.
Quanto mais o excedente crescia, mais a divisão social do trabalho avançava e mais as cidades se desenvolviam. É nesse processo histórico que surgem a propriedade privada, as classes sociais, o Estado e o exército. Afinal, não seria possível alimentar soldados e burocratas — que não estavam diretamente envolvidos na produção de alimentos — se não houvesse a sobra garantida pela produção de outros.
Esse excedente só existia porque a enorme maioria da população era mantida ocupada e responsável pelo trabalho pesado. A produção perdeu o caráter coletivo de antes, em que todos tinham consciência de seu papel. Ela passou a ser imposta pela força, sob a justificativa ideológica de que o Estado era necessário para manter a ordem e garantir a distribuição para todos. Para que isso fosse feito de forma “eficiente”, a casta burocrática organizou o Estado e um exército. Essas forças serviam tanto para proteger a população contra invasores externos quanto para esmagar as rebeliões internas dos que questionavam o sistema. À medida que a sociedade avançava, a burocracia acumulava privilégios e poder, enquanto os que realmente produziam ficavam com a menor parte do que produziam.
O surgimento da escrita é fruto direto desse processo e representou outro salto revolucionário. Ela não nasceu para a poesia, mas sim como uma necessidade contábil da burocracia para controlar os estoques de grãos e os impostos.
Como vimos, esse processo magnífico ocorreu de forma diferente e independente em lugares e tempos distintos. Mas o ser humano já havia se espalhado por quase todo o globo. Enquanto em algumas regiões a agricultura se desenvolveu por extrema necessidade, em outras, a abundância natural de alimentos tornava a sobrevivência mais fácil (o chamado excedente pré-agrícola). Por isso, o ritmo de desenvolvimento foi diferente. Enquanto em alguns lugares erguiam-se pirâmides, cidades, canais de irrigação e sistemas de escrita, na maior parte do planeta continuavam a existir tribos e pequenos grupos nômades ou seminômades, que viviam da caça e da colheita.
À medida que essas populações com desenvolvimentos sociais completamente diferentes se encontravam, os grupos tecnicamente mais atrasados passavam a assimilar o conhecimento acumulado por milhares de anos pelas civilizações agrícolas. Isso acontecia por meio de migrações, guerras ou trocas comerciais. Os povos caçadores-coletores não precisavam repetir todo o lento processo de experimentação de milênios para aprender a plantar; eles assimilavam a técnica já pronta.
Embora o domínio da agricultura tenha começado em poucos lugares, esse conhecimento se espalhou rapidamente por diversas vias. Isso fez com que grupos tecnicamente “atrasados” se nivelassem aos que começaram antes. Trata-se de um processo que começa de forma totalmente desigual e depois se combina. Grupos humanos com culturas, técnicas e tempos históricos distintos, mesmo vivendo na mesma época, passavam a ampliar o conhecimento geral que impulsionava as forças produtivas da humanidade.
É claro que essa não é uma regra mecânica da História. Ainda hoje existem grupos nômades caçadores-coletores. Da mesma forma, existem povos seminômades que desenvolveram a agricultura em uma relação simbiótica e respeitosa com a natureza, como muitas populações indígenas no Brasil.
A assimilação e o desenvolvimento combinado também ocorreram de forma extremamente violenta. Foi o que aconteceu quando a então nascente burguesia europeia iniciou as Grandes Navegações e a colonização das Américas e da África. Utilizando-se da escravidão, do genocídio, da humilhação e da opressão, a burguesia impôs o seu modo de vida a populações inteiras que viviam em tempos históricos totalmente diferentes, sem qualquer respeito aos processos internos, às culturas, às religiões, às línguas ou à relação desses povos com a natureza.
Por um lado, o excedente agrícola liberou o ser humano para o pensamento abstrato, para o desenvolvimento da ciência, da filosofia, da rica cultura e das religiões. Ele permitiu o aumento da população e garantiu que a nossa espécie pudesse se reproduzir e se preservar, ensinando-nos a dominar os mares e a conectar o mundo. Por outro lado, esse mesmo excedente deu origem às classes sociais, à propriedade privada e ao Estado. Os avanços inegáveis da humanidade vieram de mãos dadas com a desigualdade social extrema.
À medida que o conhecimento agrícola melhorava, mais excedentes eram produzidos e mais especialistas surgiam, como artesãos e comerciantes. Houve uma melhoria no conforto material (roupas, moradias, vida urbana, meios de transporte). Com isso, as divisões de classe se aprofundaram e surgiram as aristocracias, as nobrezas, os reis e os grandes imperadores.
No entanto, em nenhuma época da história humana existiu uma classe social que liderasse uma revolução produtiva tão profunda quanto a burguesia. Ao impulsionar a Revolução Industrial a partir do século XVIII, a capacidade de produção de excedentes atingiu níveis antes inimagináveis.
A Revolução Industrial só foi possível após séculos de acúmulo de riquezas (capital), baseado na exploração do comércio colonial e na escravização de povos negros e indígenas. A burguesia desempenhou um papel revolucionário inegável na história, mas o fez de forma extremamente violenta. A partir dali, o excedente da produção não se limitava mais à agricultura, mas também à oferta massiva de produtos para todos os aspectos da vida humana. Pela primeira vez na história, as crises econômicas, as guerras e as revoluções não passaram a ser motivadas pela falta de produtos, mas pelo excesso — produz-se tanto que o mercado capitalista não consegue absorver.
O desenvolvimento da Revolução Industrial, que começou na Inglaterra com a máquina a vapor e depois avançou com a eletricidade e o petróleo, espalhou-se pelo mundo em poucas décadas. O planeta foi dominado pela burguesia, por meio de seus bancos e de empresas multinacionais. Fábricas foram instaladas em vários países de forma acelerada. Ou seja, o desenvolvimento do capitalismo industrial combinou-se com formas de organização social já existentes. A burguesia impôs o capitalismo por meio da guerra, da espoliação e de invasões violentas, nivelando diferentes processos históricos à lógica do capital e explorando e oprimindo igualmente os trabalhadores em todos os cantos do mundo.
Assim como as castas burocráticas dominaram e controlaram o excedente agrícola produzido nas primeiras civilizações, hoje a burguesia domina e controla o excedente produzido não por ela, mas pelo conjunto de bilhões de trabalhadores. São os trabalhadores que estão envolvidos coletivamente na produção, distribuição e circulação de mercadorias.
O mecanismo que os capitalistas usam para controlar a produção e derrotar as revoluções que tentam pôr fim a essa injustiça é o mesmo do passado: utilizam o Estado, o exército e as leis para consagrar a propriedade privada. Tudo isso com o apoio de aparelhos ideológicos que operam a favor da burguesia, como as grandes mídias, as escolas, o cinema e as religiões.
O Homo sapiens surgiu há 200 mil anos. Foram pelo menos 190 mil anos vivendo totalmente da caça e da coleta, de forma nômade ou seminômade. Os grupos eram pequenos e agiam coletivamente para se proteger, com o envolvimento de todos. O salto que demos com a Revolução Agrícola e o excedente de produção nos proporcionaram, em pouco tempo, avanços impensáveis. Porém, a minoria que se libertou do trabalho direto acabou oprimindo e explorando a maioria que continuou produzindo. Mesmo com a desigualdade social, houve avanço técnico, científico e cultural.
A burguesia cumpriu seu papel histórico no passado, mas hoje trava o progresso da humanidade. O novo tipo de excedente vindo da Revolução Industrial não se traduz em bem-estar para o ser humano porque uma pequena minoria detém o controle privado dos meios de produção (as fábricas, as terras, as máquinas). A burguesia não trabalha na produção; esta é realizada socialmente por toda a classe trabalhadora. Os capitalistas apenas controlam o processo e ficam com o lucro. Eles não cumprem mais nenhum papel progressista; limitam o desenvolvimento da humanidade para sustentar seu próprio poder, ganância e luxo.
A burguesia é uma classe social em decadência. Por travar o avanço das forças produtivas e operar em uma lógica de crescimento infinito em um planeta com recursos finitos, ela gera crises repetidas, guerras e a superexploração da classe trabalhadora, mesmo diante de um nível de tecnologia e produtividade jamais visto na história.
Se a humanidade alcançou um desenvolvimento incrível em pouco tempo com a Revolução Agrícola, hoje, com a tecnologia e a capacidade produtiva que temos, as possibilidades de uma sociedade justa e socialmente igualitária são imensas. A tarefa crucial do nosso tempo é superar o modo de produção capitalista e enviar a burguesia definitivamente para o museu da história.
A classe dominante jamais aceitará perder seus privilégios por “tomar consciência” de que está atrapalhando o progresso. Nenhuma classe dominante na história cedeu seu lugar de bom grado. A classe trabalhadora tem uma grande missão histórica: organizar-se politicamente em um partido revolucionário para expropriar a burguesia, primeiro em nível nacional, construindo uma lança revolucionária que lutará permanentemente contra o imperialismo até a derrota final do capitalismo em todo o mundo.
Cada vitória socialista em um novo país será parte de um amplo desenvolvimento social que vai se combinando progressivamente na construção de uma nova sociedade mundial.
Essa é a resposta à mentira stalinista que prega a teoria do “socialismo em um só país” de forma isolada, como se isso fosse possível ou suficiente para derrotar o imperialismo. Historicamente, essa visão stalinista serviu apenas para trair revoluções, criar ditaduras burocráticas, favorecer setores capitalistas e aplicar a política de conciliação com o imperialismo. A libertação dos trabalhadores será internacional ou não será.
NOTAS
(*) Alguns estudos atuais sugerem que o Homo sapiens surgiu há cerca de 300 mil anos.
Referências:
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DIAMOND, Jared. Armas, germes e aço. Rio de Janeiro: Record, 2017.
ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo: Expressão Popular, 2012.
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MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto comunista. São Paulo: Boitempo, 2000.
MORENO, Nahuel. As revoluções do século XX. São Paulo: Editora “Instituto José Luiz e Rosa Sundermann, 2003.
NOVACK, George. O desenvolvimento desigual e combinado na história. São Paulo: Sundermann, 2008.
NEVES, Walter (org.). Assim caminhou a humanidade. São Paulo: Palas Athena, 2015.
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