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Home»Teoria e História»Marx em Londres. Um relato ilustrado
Teoria e História

Marx em Londres. Um relato ilustrado

Por: Marcos Margarido
01/04/2026Nenhum comentário13 Mins Read
Karl Marx, 1818 (Tréveris, Alemanha) - 1883 (Londres, Reino Unido).
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Karl Marx chegou a Londres, aos 31 anos, em agosto de 1849. Logo depois, sua esposa, Jenny von Westphalen, e seus filhos, Jenny, Laura e Edgar, juntaram-se a ele. A família hospedou-se no German Hotel, próximo à Praça Leicester, um destino popular dos alemães em Londres, até achar um apartamento na Rua Anderson, 4, em Chelsea, mas foi despejada por não pagar o aluguel. Seu biógrafo, Franz Mehring, afirma que o arrendatário não repassou o dinheiro ao proprietário. Heinrich Bauer, outro refugiado alemão, sugeriu que eles se mudassem para a Rua Dean, 64, no Soho, um bairro barato com uma longa história de imigração. Eram dois quartos, alugados por um negociante de rendas.

Hotel German, ainda existente, na Rua Leicester
Apartamento na Rua Anderson, em Chelsea.

Depois de “um verão infeliz, com 4 crianças”, conforme conta Jenny Marx, mudaram-se para um lugar mais espaçoso, com 3 quartos, no número 28 da mesma rua, onde ficariam por 6 anos.

Soho era um ponto de encontro natural para os exilados após a derrota da revolução de 1848. Para os cerca de 1.000 refugiados alemães em Londres no início da década de 1850, o pub Red Lion, na Rua Great Windmill, 20, era um importante centro político. O andar superior do prédio abrigava a Sociedade Educacional dos Trabalhadores Alemães, que tinha cerca de 250 membros e era utilizada como sede clandestina da Liga dos Justos. Foi lá que se realizou o segundo congresso da Liga Comunista (ex-Liga dos Justos), em 1847, quando o Manifesto Comunista foi aprovado. Naquela ocasião, Marx e Engels ficaram em Londres de 29 de novembro a 8 de dezembro. Essa história está bem contada no filme O Jovem Marx.

Marx era ativo na Sociedade Educacional. Lá, ele dava cursos de economia aos alemães exilados e dirigia um comitê de ajuda aos exilados pobres.

Nesse período, Marx teve estreito contato com os dirigentes da Liga Comunista. Todos eram trabalhadores no período de transição do capitalismo “artesanal” para o industrial. Karl Schapper era tipógrafo, Joseph Moll era relojoeiro, Heinrich Bauer, sapateiro, e Johann Eccarius — que teria uma participação importante na vida de Marx — era alfaiate. Também conheceu dirigentes cartistas, como Julian Harney, que já havia conhecido Engels em Manchester, William Lovett e Ernest Jones, descendente de uma família da nobreza inglesa. Jones, por quem Marx tinha grande estima, era advogado e dedicou sua vida à defesa dos explorados. Ele escrevia para o jornal cartista People’s Paper, editado por Jones. Ernest Jones morreu aos 50 anos. Seu funeral teve a presença de 80 mil pessoas, segundo jornais da época.

Local do pub Red Lion, na Rua Great Windmill

O Red Lion ficava perto da Rua Dean e também era um ponto de encontro social, onde Marx bebia, fumava, jantava e jogava xadrez com seus compatriotas. Aos domingos, a família Marx caminhava até o parque Hampstead Heath para fazer piqueniques. Certamente, Engels juntava-se a Marx nestas atividades políticas e de lazer, depois de voltar para Manchester em 1850 e mudar-se para Londres em 1870.

O Soho não era o bairro badalado dos dias de hoje. Era muito insalubre, empobrecido e superlotado, com uma média de 14 pessoas por casa. Em 1854, foi atingido por um surto de cólera, cuja origem foi descoberta pelo médico John Snow: uma fonte comunitária de água na Rua Broad, mostrando que a doença era transmitida pela água. Os Marx escaparam do cólera, mas não da pobreza e das doenças da região. Com uma alimentação precária e sua família de sete pessoas — ou oito, se contarmos Helene Demuth, a ajudante doméstica de Jenny — amontoadas em três cômodos, eles adoeciam com frequência, sofrendo de furúnculos, carbúnculos, resfriados, tosse, hemorroidas e reumatismo.

Residência da família Marx na Rua Dean, 28.
Em destaque, placa onde se lê: “Karl Marx morou aqui em 1851-56”.
Charge mostrando a pobreza no Soho durante a epidemia de cólera

Sem trabalho regular, Marx constantemente pedia dinheiro emprestado a seus amigos, especialmente a Engels, para pagar o “padeiro, o leiteiro, o homem do chá, o verdureiro, as contas do velho açougueiro” e outras despesas. Ou saíam de casa por vários dias para não serem cobrados.

Marx penhorou várias vezes os pertences da família, como seu casaco, e inclusive a prata da família de Jenny, e passou um fim de semana na cadeia depois que um penhorista achou que itens tão preciosos só poderiam ter chegado às mãos de um refugiado pobre por meio de roubo. Três de seus seis filhos morreram na Rua Dean: Guido, em 1850, com menos de um ano; Francisca, em 1852, com um ano; e Edgar, em 1855, com oito anos.

O objetivo de Marx era dar continuidade à publicação da Neue Rheinische Zeitung, uma revista político-econômica. Para isso, pediu a Engels, que então vivia como exilado político na Suíça, que viesse para a Inglaterra. Engels voltou para Manchester em 1850. O novo jornal teve seis edições mensais. O rápido declínio da onda revolucionária de 1848 levou ao seu fim. Além disso, a situação econômica da Inglaterra, que gerava grande desemprego e fome naqueles anos, foi contornada, dando lugar ao crescimento econômico e ao fim da agitação política.

Com o passar da década de 1850, a sorte da família melhorou. Marx obteve uma renda mais estável como correspondente europeu do New York Daily Tribune, um jornal democrático e abolicionista, de grande circulação entre os trabalhadores de Nova Iorque. Entre 1851 e 1862, Marx publicou, com a ajuda de Engels, 487 artigos sobre assuntos europeus e mundiais para o público americano, muitas vezes ganhando mais de 100 libras por ano nesse trabalho. Mas o jornal enfrentou dificuldades financeiras e Marx foi demitido. Então, ele passou a colaborar com artigos para a Nova Enciclopédia Americana, dos mesmos editores do New York Daily Tribune. Foram publicados 67 artigos, dos quais os escritos sobre temas militares foram de Engels.

Em 1856, Jenny recebeu duas heranças no valor total de 270 libras esterlinas, quantia substancial naquela época, o que permitiu que a família, agora com 3 filhas — Jenny, Laura e Eleanor —, deixasse o Soho.

Em setembro de 1856, estabeleceram-se em uma pequena casa na Grafton Terrace, 9, em Kentish Town, subúrbio de Londres na época. Era um bairro recém-urbanizado. O bairro estava em obras, e Jenny reclamou que “era preciso abrir caminho sobre montes de lixo e, em tempo chuvoso, o solo vermelho pegajoso acumulava-se nas botas, de modo que era depois de uma luta cansativa e com os pés pesados que se chegava à nossa casa”. Mas era uma casa, não quartos alugados. Por isso, Jenny estava encantada com esta “pequena casa, pertinho do romântico Hampstead Heath, não distante do adorável Primrose Hill”. Ao poder dormir em sua própria cama, sentar em sua cadeira, com uma sala de visitas e dois banheiros (isto é, dois vasos, não banheiros como os de hoje), ela exclamou: “nós imaginávamos estar morando em um castelo mágico”.

Casa dos Marx na Rua Grafton Terrace, 9.

Mas o idílio não durou. O isolamento, a falta de amigos para as filhas, a varíola que Jenny contraiu em 1860, e da qual nunca se recuperou, a icterícia de Eleanor e os furúnculos de Marx, sua perda de emprego no New York Daily Tribune em 1861, fizeram com que Marx escrevesse a Engels reclamando que “a situação estava totalmente insuportável… não consigo trabalhar, primeiro porque perco a maior parte do tempo tentando conseguir algum dinheiro e parte… porque meu poder de concentração intelectual está minado por problemas domésticos. Os nervos de minha esposa estão arruinados pela sujeira”.

Marx e Engels com as filhas de Marx, Jenny, Eleanor e Laura, em 1864.

Foi nesse período que ele tentou arranjar emprego na ferrovia Greater Western, mas não foi aceito porque sua escrita à mão era indecifável (o único que conseguia entendê-la era Engel e suas filhas).

A situação melhorou consideravelmente em 1864, quando Marx recebeu uma herança de 250 libras da família, pela morte da mãe, e de 800 libras de seu velho amigo, Wilhelm Wolf, que faleceu em maio daquele ano. Assim, a família mudou-se para uma casa próxima, na Rua Modena Villas, 1 (depois Rua Maitland Park). Lá, puderam ter animais de estimação, cada filha pôde dormir em seus próprios quartos, e Marx tinha um escritório com uma pequena biblioteca. Mas estes “luxos” eram caros — o aluguel era o dobro do da casa anterior, além dos impostos — e, depois de dois anos, Marx estava novamente sem dinheiro.

A situação voltou a melhorar em 1869, quando Engels retirou-se da Ermen & Engels (leia sobre isso no artigo “Engels em Manchester. Um relato ilustrado”). Ele usou sua indenização para pagar 100 libras de dívidas de Marx e garantir-lhe uma pensão de 350 libras anuais. A família, finalmente, conseguiu estabilidade financeira.

Suas filhas trilharam caminhos próprios. Laura casou-se com o comunista francês Paul Lafargue em 1868 e mudou-se para Paris; em 1872, Laura casou-se com Charles Longuet, um communard (membro da Comuna de Paris) e estudante de medicina na época; e Eleanor, a mais nova, tornou-se professora em uma escola de segundo grau para moças em Brighton, em 1873.

Réplica do escritório de Marx na casa da Rua Modena Villas, no Museu Marx-Engels em Moscou.

Em 1875, o casal Marx muda-se para a última residência de suas vidas, uma casa menor na mesma Rua Maitland Park, 41.

Última moradia do casal Marx, na Rua Maitland Park, 41.
A I Internacional

Apesar da mudança para o subúrbio, Marx permaneceu conectado ao centro de Londres. Primeiro, porque seus estudos na Sala de Leitura do Museu de Londres continuaram. Segundo, porque a Associação Internacional dos Trabalhadores (I Internacional) foi fundada em setembro de 1864.

Este foi um ano de muita agitação sindical, de lutas pela redução da jornada de trabalho para 9 horas, principalmente pelos sindicatos de metalúrgicos, carpinteiros e pedreiros, que haviam fundado o Conselho de Sindicatos de Londres (precursor do Trades Union Congress, o TUC). Foram eles que chamaram a uma reunião no St. Martin’s Hall para um congraçamento com sindicalistas franceses, para a qual Marx foi convidado por um sindicalista inglês, como representante dos trabalhadores alemães. Ele sentou-se e ficou “calado”, como escreveu depois.

Durante a reunião, foi proposta a formação de uma Associação Internacional de Trabalhadores, e assim a I Internacional foi fundada. Ela era composta, principalmente, por sindicalistas ingleses, além de representações francesas, italianas e alemãs: ele e Eccarius.

Marx aprovou a ideia, algo que buscava desde a fundação da Liga Comunista, e escreveu o Inaugural Address (Manifesto de Fundação) da Associação. Os estatutos da Internacional também foram de sua autoria. Logo tornou-se o membro mais importante do Conselho Geral, que se reunia todas as terças-feiras à noite, primeiro na Rua Greek, 18, no Soho e, dois anos depois, na Rua Bouverie, em Holborn.

Nessa função, Marx teve seu primeiro contato contínuo com representantes da classe operária britânica e escreveu obras como a Guerra civil na França, uma análise magistral da Comuna de Paris, que inspira revolucionários de todo o mundo até hoje. Também escreveu Salário, preço e lucro, que era um curso para o Conselho Geral, para combater a posição dos proudhonistas franceses, que eram contra a luta por aumento de salários.

Local onde o Conselho Geral da I Internacional realizava suas reuniões, na Rua Greek.

Em 1871, houve a Comuna de Paris, que levantou o ânimo da classe operária europeia, mas a derrota selou o fim da I Internacional. Sua obra sobre a Comuna, no entanto, trouxe notoriedade a Marx em Londres, que ficou conhecido como “o doutor do terror vermelho”, uma reputação que impediu que seu pedido de cidadania britânica fosse concedido alguns anos depois.

No congresso de Haia de 1872, Engels propôs que o Conselho Geral da I Internacional fosse deslocado para Nova Iorque. Após quatro anos ela foi dissolvida.

A Sala de Leitura do Museu Britânico

A Sala de Leitura do Museu Britânico, precursora da Biblioteca Britânica, forneceu a Marx toda a base documental para seus estudos de economia política. Essa extraordinária e única instituição londrina possuía milhares de volumes sobre história, política e economia, abrigava jornais de todo o mundo e disponibilizava, pública e gratuitamente, documentos governamentais, como debates parlamentares, procedimentos de comitês e relatórios de funcionários, como inspetores de fábrica e médicos.

Ela foi tão importante que Marx comentou: “A enorme quantidade de material relacionado à história da economia política reunido no Museu Britânico e o fato de Londres ser um ponto de observação vantajoso da sociedade burguesa… levaram-me a começar tudo de novo, desde o início, e a trabalhar cuidadosamente com o material disponível”.

Sala de Leitura do Museu Britânico, onde Marx estudou a partir de 1857. Antes havia uma sala menor, que se tornou insuficiente para o número de leitores.

Marx recebeu seu primeiro tíquete de leitor em junho de 1850. A Sala de Leitura forneceu informações empíricas cruciais para seus artigos no New York Daily Tribune e para sua obra mais importante, O Capital, cujo primeiro tomo foi publicado em 1867, seguido de dois tomos editados por Engels e de um quarto, intitulado Teorias da Mais-Valia, editado por Kautsky. Neste período, também escreveu a “Circular ao Comitê Central da Liga Comunista” (1850), A luta de classes na França (1850) e O Dezoito Brumário de Louis Bonaparte (1852).

Enquanto morava no Soho, ele ia ao Museu a pé. Em Kentish Town, tomava ônibus e começou a levar sua filha mais nova, Eleanor, para ajudar na pesquisa. Eleanor adquiriu seu próprio cartão de leitora e tornou-se uma usuária ávida. Foi lá que conheceu Edward Aveling, seu futuro companheiro. Dada a singularidade da coleção da Sala de Leitura e sua centralidade em sua pesquisa, é difícil imaginar o desenvolvimento do pensamento ou da obra de Marx em qualquer outra cidade a não ser Londres.

O fim

Os últimos anos da vida de Marx foram de muitos sofrimentos, a começar pelo fim da Internacional e pela derrota da Comuna, mas também por doenças, viagens a locais mais saudáveis para se recuperar e pela perda da capacidade de trabalho, mas não da capacidade intelectual, como demonstrado pela magistral Crítica do Programa de Ghota, dirigida ao partido alemão, que capitulava aos lassaleanos.

Também enfrentou tragédias pessoais. A primeira, a morte de Jenny Marx, por câncer no fígado. O casal dormiu em quartos separados nesse período, fato lamentado por Eleanor: “Eles, que eram tão ligados, cujas vidas tornaram-se uma só, nem podiam ficar no mesmo quarto”. Jenny morreu em dezembro de 1881. No enterro, ao qual Marx não pôde ir porque estava de cama, Engels disse: “É a morte do próprio Marx“.

O golpe final veio em janeiro de 1883, com a morte de sua filha mais velha Jenny, de câncer na bexiga. Eleanor viajou a Ventnor para dar a notícia a Marx, que estava lá convalescendo. Em março, Marx estava morto, em sua cadeira favorita, no escritório.

Marx foi enterrado no mesmo túmulo de Jenny, no cemitério local, em Highgate. Embora nascido na Alemanha, um local tranquilo no norte de Londres foi o mais apropriado para o descanso final de Marx, cuja vida e obra foram tão profundamente moldadas por esta cidade.

Notas:

Baseado no livro Marx in London, an Illustrated Guide, de Asa Briggs e John Callow;

no texto Karl Marx’s London, publicado no site Migrationmuseum.org;

e em Karl Marx, a história de sua vida, de Franz Mehring.

Comuna de Paris Engels I Internacional Jenny Marx Karl Marx Londres Museu Britânico
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