O camarada Wagner vem cobrando, em reuniões da DN, que, em nossas Teses Fundacionais, não há nada sobre o combate ao sectarismo, sendo que Trotsky afirmava que o combate ao oportunismo e ao sectarismo deveria ser uma batalha constante em nossa organização. Na ocasião, não tive acordo com o camarada, considerando que, sim, devemos combater o sectarismo, mas que a pressão fundamental que sofríamos era o oportunismo, e que por isso, neste momento, o combate ao sectarismo seria secundário. Depois de refletir sobre essa questão, acho que o companheiro Wagner tinha razão e que eu estava equivocado.
Considero que sobre nós há, sim, uma pressão sectária, que se expressa em elementos de ultraesquerdismo, ultimatismo e autoproclamação. Somos muito poucos, fomos expulsos recentemente do PSTU, estamos numa batalha contra todo o oportunismo, e é normal que surjam entre nós visões sectárias. É um subproduto do nosso isolamento da classe e dos movimentos sociais e do peso do reformismo. E pode ser fatal, derivando em uma política estéril como a de tantas seitas que conhecemos. Não é nosso objetivo construir uma seita, e temos que ter política para isso. Esse sectarismo se expressa entre nós de diversas formas:
1- O problema da palavra de ordem
Aprovamos na Direção Nacional a palavra de ordem “Contra Lula e Bolsonaro, nas lutas e nas eleições, no 1º e no 2º turnos”, que foi nosso eixo no Congresso da CSP-Conlutas e capa de nosso jornal nº 0. Considero este eixo correto, parte fundamental de nosso perfil. Já adianto que não considero que houve nada de antidemocrático em termos aprovado este eixo na DN. Desde 2023, como mínimo, vimos defendendo esta linha política ainda no PSTU. Só demos uma formulação mais acabada a uma linha política que já tínhamos, afiando-a para o debate na CSP-Conlutas.
Mas acho que há um erro na interpretação deste eixo. É uma palavra de ordem, hoje, para propaganda, parte de nosso perfil; neste sentido, está correta. No 2º semestre, poderá se converter numa palavra de ordem para a ação no período eleitoral. Mas hoje não é para a ação, porque, assim sendo, estaríamos colocando um eixo eleitoral antes de se abrir, de fato, a conjuntura eleitoral. Como sempre, o sectarismo leva ao oportunismo. Hoje, o centro da conjuntura são as lutas e greves em curso pelo país afora (FASUBRA, municipais em várias cidades, especialmente da educação, metroviários, lutas por moradia, etc.). E nos falta uma palavra de ordem para este processo.
Explicando com um exemplo, numa determinada fala nossa em uma assembleia de greve, afirmou-se: “Temos que derrotar Lula e Bolsonaro, no 1º e no 2º turnos”. Quando se diz que temos que derrotar Lula nas eleições, compreende-se votar em algum candidato contra Lula, e que não seja Bolsonaro. Como não há outro que possa derrotar Lula no momento, fica apenas um ponto de interrogação, ou seja, uma política estéril. Uma simples expressão de radicalismo, que não dialoga e não serve para nada. Sei que o eixo do jornal não é derrotar Lula nas eleições, mas é o que se depreende ao transformarmos um eixo de perfil, corretíssimo para os debates com a vanguarda, como foi no congresso da CSP-Conlutas, numa linha para as lutas em curso.
Outra expressão disso se deu no próprio Congresso da CSP-Conlutas, em que, no afã de combater a política eleitoral oportunista do PSTU e demais correntes, secundarizamos o tema do balanço da CSP-Conlutas que, nos últimos quatro anos, passou pano para Lula, sem convocar uma única luta de fato contra o governo e suas medidas.
A tarefa prática colocada aos trabalhadores e seus aliados nas lutas em curso não é votar contra Lula e Bolsonaro nas eleições, mas derrotar os ataques que vêm do governo Lula, dos governos estaduais e municipais. Por isso, proponho ajustar nossa palavra de ordem para “Unir as lutas para derrotar os ataques de Lula, governadores e prefeitos” (adaptando para cada estado ou cidade), e tomar o “Contra Lula e Bolsonaro, nas lutas e nas eleições” como um complemento a esta linha. Pelo menos até se abrir a campanha eleitoral.
2- O problema da autoproclamação
Nós (e o MRS) somos os únicos revolucionários consequentes na realidade atual. Mas isso não significa que todo o demais existente nos movimentos sociais seja lixo reformista. Há muitos setores honestos e de luta, mas que não têm clareza sobre estratégia e projeto revolucionários. Por exemplo, os grupos da educação do RJ e RS que compuseram conosco no congresso da CSP-Conlutas. Existem revolucionários inconscientes lá fora. E não são tão poucos. Há, inclusive, setores reformistas, mas muito combativos, como é o caso do PCBR e da UP. Não são iguais aos burocratas pelegos da CUT. Negar esta realidade, com uma política de nos afirmarmos em abstrato como os únicos de luta e considerar todo o resto como pelegos, não nos ajuda em nada. Nem a ganhar os revolucionários inconscientes, nem a desmascarar os setores combativos do reformismo.
Nem todo o reformismo é pelego. Se fosse, nossa luta seria muito mais fácil. Há setores muito combativos, às vezes, inclusive, mais do que nós. O caso clássico é o dos movimentos guerrilheiros da década de 60 do século passado. Eram reformistas, mas dando suas vidas com armas nas mãos. Hoje, este setor, felizmente, já não existe. Mas há setores combativos hoje, como os acima citados. No fundo, uma política autoproclamatória nos leva a não travar a disputa com estes setores, fechando-nos em autoafirmação vazia.
Um exemplo destes últimos dias foi a discussão que houve no grupo de WhatsApp sobre a Flotilha a Gaza, que seria oportunista, que só quer aparecer, que suas ações não servem pra nada e que não ajudam a luta palestina, que faz turismo às custas dos movimentos sociais quando estes recursos poderiam ser mais bem utilizados, que são uns fracos fazendo passeios e que não aguentariam um dia combatendo em Gaza. Tudo isso, no limite e em abstrato, até poderia ser verdade. Mas nós, por acaso, temos combatentes treinados para lutar com armas nas mãos em Gaza? É uma autoafirmação vazia e estéril. Podemos ter muitas diferenças com a Flotilha, mas são lutadores, parte do campo da resistência mundial contra Israel e, neste sentido, apesar de todos os seus defeitos e o oportunismo de seus dirigentes, são companheiros de luta que merecem nosso apoio e solidariedade incondicionais. Não são a direção do PT ou da CUT. Em última análise, irão, por seu programa reformista, capitular logo mais à frente, como perante um novo governo trabalhista em Israel, por exemplo. Mas fazer política elaborando tudo “em última análise”, e não da forma concreta em que se apresenta na realidade, é sectarismo vazio. Por outro lado, não entender que, “em última análise”, são reformistas seria oportunismo.
Claro, pode-se dizer que esta não é, nem nunca foi, a política do MPR. Sim, é a mais pura verdade. O MPR não é, em minha opinião, uma organização sectária, nem autoproclamatória nem ultimatista. Coloquei aqui o exemplo somente para mostrar que a pressão sectária existe, é real, atua sobre nossas fileiras, como bem localizou o camarada Wagner. E, portanto, deve ser combatida por nós e incorporada às nossas Teses Fundacionais.
3- Sectarismo em relação a potenciais processos de aproximação/fusão com outros setores e de crise em outras organizações
Outra expressão se deu ao redor do processo de discussão com o MRS e a TS. Não me refiro aqui aos erros cometidos pelo Secretariado na questão do Comitê de Enlace, cuja autocrítica do processo já é parte de nosso patrimônio comum. E nem às preocupações legítimas de que não devemos ser apressados em processos de fusões, de que devemos conhecer bem essas organizações antes de avançarmos a unificações. Me refiro ao pouco interesse pelo tema, à ausência de empolgação com a possibilidade aberta de uma fusão com o MRS, ao desprezo pela importância de processos de fusão, a uma compreensão da construção do futuro partido como resultado exclusivo do nosso crescimento orgânico, captando um a um. Ouvimos falas, na própria DN, do tipo “essa não é a prioridade agora, e sim nosso pré-congresso”, como se as duas coisas fossem excludentes. Também escutamos, na mesma DN e de forma totalmente leviana, repetições entre nós das calúnias do PSTU contra estes camaradas. O objetivo aqui não é crucificar ninguém, mas alertar que esta pressão sectária existe e atua sobre nós.
Esta questão também se expressa, em relação a outros processos. Por exemplo, estamos testemunhando uma crise brutal do PCBR, resultado da pressão do lulismo sobre esta organização. Jones Manoel, maior figura deles, rompeu com a organização para apoiar Lula no 1º turno (e, em primeiro lugar, para se eleger). Colocou o conjunto da organização contra a parede, forçando sua capitulação. Uma organização cheia de jovens muito combativos e aguerridos, que não querem apoiar Lula, pelo menos no 1º turno. Que política tivemos para incidir nesta crise? Absolutamente nenhuma. Nenhum artigo, nenhum post, nenhuma orientação nas circulares, nenhuma iniciativa de conversar com estes camaradas, nenhum ponto para discutir o caso na DN ou no Secretariado. Este tema mereceria uma reunião extraordinária da DN para avaliar e tirar uma política para este fenômeno.
Pode-se argumentar que nos faltaram pernas, que deveríamos ter tido um artigo a respeito, etc. Mas não é isso. É que não se vê nenhuma importância na possibilidade de ganharmos 10 quadros jovens desta organização. Afinal, “são stalinistas”. Não há compreensão sobre a importância de tais processos para a nossa construção. De quanto isso nos enriqueceria. O PCBR está numa grande crise e vai perder quadros, já está perdendo. Estes podem vir para nós, ou para o PSTU, para o PCB, para a UP, o PSOL, etc. Se não ganharmos pelo menos alguns, será uma derrota nossa. Não é falta de pernas, é toda uma concepção estreita, sectária e unilateral do processo de construção de um partido revolucionário.
Na verdade, não estamos aplicando o que nós mesmos definimos: que existe um espaço mais amplo que nós para a construção de um partido revolucionário no Brasil. Foi por termos esta caracterização que lançamos o MPR, em vez de fundarmos de imediato uma nova organização somente a partir da FDU/FDR. Foi por isso que aprovamos uma tática de plenárias abertas para atrair setores de fora para esta construção. Acho que isso não foi feito nas regionais. Na regional de Florianópolis, tivemos plenárias com a participação de gente da TS, da OCI, do PCBR e, inclusive, de gente ligada à UP. Acho que foi o único lugar onde isso foi feito. Mas foi feito somente no início e depois ficou de lado também. O MPR e sua direção simplesmente não enxergam a importância de tais processos. E, ao final, ao não testar estas possibilidades, chegarão à conclusão de que o problema não estava em nós, mas na ausência do tal “espaço maior do que nós”. Não, camaradas, o problema não está na realidade, mas em nós mesmos. Por isso, esta carta à DN é um apelo a incorporarmos o combate ao sectarismo, como bem apontado pelo camarada Wagner, como um dos eixos de nossas Teses Fundacionais.
Por último, esta é minha compreensão sobre o problema do sectarismo entre nós, e não necessariamente coincide em tudo com o que o camarada Wagner pensa, com quem não tive tempo de discutir este texto, e que, portanto, não tem nenhuma responsabilidade sobre o que escrevo aqui, apesar de ter sido quem me inspirou a levantar este debate.
