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Home»Eleições 2026»O voto nulo ajuda o bolsonarismo?
Eleições 2026

O voto nulo ajuda o bolsonarismo?

Por: Bernardo Cerdeira
17/09/2026Nenhum comentário6 Mins Read
Os Bolsonaros
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Ouça o áudio:

Diante da posição do MPR, que defende o voto nulo nas eleições de 2026, surgiram muitos comentários nas redes sociais afirmando que o voto nulo favorece o “inimigo”, ou seja, o bolsonarismo. Outros dizem que menosprezamos a ameaça de golpe ou de regime autoritário se Flávio Bolsonaro vencer. Ou que não vemos o perigo do “neofascismo”. A única alternativa seria votar pelo “mal menor”, em Lula.

O que é fascismo?

A maioria das pessoas, inclusive as de vanguarda, pensa que as correntes reacionárias de direita são fascistas. Seja porque têm um discurso reacionário, racista, homofóbico, misógino, ou porque defendem medidas autoritárias contra o regime democrático, inclusive em campanhas eleitorais. Também é comum denominar todas as ditaduras militares repressoras como fascistas. 

Essas impressões não são verdadeiras. Os regimes políticos decorrentes da chegada das correntes de direita ao governo são reacionários, mas muito diferentes entre si. Uma coisa são partidos ou líderes populistas de direita que disputam eleições, outra coisa são ditaduras militares e outra coisa são movimentos fascistas. 

O fascismo foi um tipo específico de movimento de massas, gerado nas décadas de 20 e 30 do século passado, que constituiu organizações paramilitares compostas por milhares de milicianos recrutados entre ex-militares e policiais, desempregados e pequenos proprietários arruinados. Essa força paramilitar era paga e armada pelo capital financeiro para atacar sindicatos, partidos de esquerda e assassinar militantes, ativistas operários e setores oprimidos, como os judeus e os ciganos. Hitler chegou a organizar 400 mil milicianos armados antes da tomada do poder. Foi uma reação brutal da burguesia imperialista, principalmente na Alemanha e na Itália, diante da possibilidade da vitória da revolução socialista nesses países.

É muito importante saber distinguir entre as diferentes correntes da direita, porque, caso surjam movimentos fascistas, os trabalhadores terão de estar preparados para identificá-los e combatê-los com organizações de autodefesa de milhares de operários armados. As eleições não são capazes de derrotar o fascismo justamente porque se trata de um movimento armado que não respeita o regime democrático e quer destruí-lo.

O bolsonarismo não é um “neofascismo”

O bolsonarismo, assim como Trump e outras correntes políticas chamadas de ultradireita, é reacionário, mas não é fascista. Não organizam milicianos armados para assassinar militantes de esquerda. Ao contrário, tentam ganhar o poder do Estado por meio de eleições e participam do jogo eleitoral da democracia burguesa. Quando perdem, em geral aceitam o resultado e deixam o governo, como Orban na Hungria.

Mas por que existe esse temor atual ao fascismo? Há vários fatores que o explicam, como o crescimento do bolsonarismo e seu discurso reacionário, mas há um elemento fundamental. O partido reformista-burguês, como o PT, e o reformista, como o PSOL, incentivam esse medo ao agitar a ameaça do “neofascismo” para aparecerem como a única alternativa capaz de barrá-lo. O objetivo é fazer com que os setores críticos coloquem de lado suas objeções e votem tapando o nariz, em nome do “mal menor”.

O que o PT e seus satélites, como o PCdoB e o PSOL, não dizem é que o bolsonarismo cresceu justamente pelo desgaste dos governos “progressistas” que implementaram políticas burguesas neoliberais contra os trabalhadores e perderam apoio, inclusive entre sua antiga base operária, o que favoreceu a ascensão da ultradireita. Por isso, apoiar os governos ditos “progressistas” não combate a ultradireita. 

O bolsonarismo e o golpe

Muitos ativistas também argumentam que o bolsonarismo pode não ser um movimento fascista, mas sim uma perigosa corrente que, se chegar ao governo, pode dar um golpe de Estado. Esse raciocínio não faz sentido porque, se Flávio for eleito e dominar o aparato do Estado, inclusive as Forças Armadas, poderá governar como fez seu pai durante quatro anos, sem precisar apelar a um golpe.

Houve, sim, uma conspiração de Bolsonaro e de várias figuras do seu governo para dar um golpe, mas essa tentativa ocorreu em novembro de 2022, depois de perder a eleição para Lula e não porque tivesse ganho. A conspiração fracassou porque não havia condições políticas para um golpe vitorioso. Foi barrada pela cúpula das Forças Armadas brasileiras, pelo imperialismo e pela maioria da burguesia, refletindo, também, a rejeição a um golpe entre a maioria da classe trabalhadora e da classe média. 

O 8 de janeiro de 2023, por outro lado, não foi um golpe. Foi uma ação estimulada por Bolsonaro para satisfazer os setores radicalizados que protestavam contra o resultado das eleições em frente aos quartéis. Ele incentivou essa ação, mesmo sabendo que a depredação dos edifícios dos três poderes não era um golpe nem conseguiria provocá-lo. Ao mesmo tempo, viajou aos EUA e disse que não tinha nada a ver com o ocorrido, deixando os manifestantes arcarem com anos de prisão. Foi uma verdadeira traição.

Desde o fracasso do 8 de janeiro, o bolsonarismo sofre sucessivas derrotas: a reação da burguesia e do imperialismo à depredação dos prédios; a prisão e condenação dos manifestantes; o julgamento e a prisão de Bolsonaro e de integrantes do seu governo; a decretação de sua inelegibilidade, etc. Os atos convocados em defesa da anistia aos presos foram se reduzindo cada vez mais. O bolsonarismo, hoje, não tem força para libertar Bolsonaro. E, se não teve apoio para dar um golpe em 2022, teria muito menos agora.

“Voto útil” e o “mal menor”

Mas vários ativistas honestos, mesmo aceitando que o bolsonarismo não é fascismo e que não haveria sentido em Flávio Bolsonaro, ao ganhar a eleição e estar no governo, promover um golpe, têm outra dúvida: o voto nulo não ajuda uma corrente reacionária a ganhar a eleição? Lula, pelo menos não seria um “mal menor”? Nesse sentido, não seria melhor um “voto útil” em Lula?

Não é possível responder a essas perguntas sem antes analisar o que significam as eleições nessa falsa democracia dos ricos, dos grandes capitalistas. Os trabalhadores brasileiros elegeram Lula e o PT para governar o país por 24 anos, com a única exceção de 2018. Qual foi o resultado? As condições de vida dos trabalhadores estão cada vez piores; nenhum dos graves problemas da classe operária e do povo pobre e oprimido foi solucionado e a organização da classe se enfraqueceu. 

Lula e o PT podem não ser tão reacionários quanto o bolsonarismo, mas, de outro ponto de vista, causam mais prejuízos à classe trabalhadora porque se aliam aos capitalistas, atacam os trabalhadores, desmobilizam suas lutas e sua organização e criam ilusões de que sua vida vai mudar unicamente pela ação passiva do voto. 

Essa passividade é o pior dos males para a classe trabalhadora, pois só a luta pode mudar sua vida. Todas as conquistas da classe foram obtidas pela luta, e sua libertação definitiva só será alcançada com uma luta máxima: a revolução socialista. O verdadeiro voto útil é aquele que eleva sua consciência e organização e favorece a construção de um partido revolucionário. Por isso, o voto nulo nessa eleição é o único “voto útil”.

Publicada originalmente no Jornal do MPR nº 4.

Bolsonaro fascismo Flávio Bolsonaro ultradireita
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