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Home»Internacional»O pretexto imperialista e o perigo de negar nossa opressão
Internacional

O pretexto imperialista e o perigo de negar nossa opressão

Por Ale Cuervo, GOI (Argentina) e membro do CIR
28/07/2026Nenhum comentário9 Mins Read
Foto: Peter Kyle, ex-Secretário de Estado de Negócios e Comércio do Reino Unido
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Com o fim da Copa do Mundo, desencadeou-se uma onda de acusações contra a Argentina. Primeiro nas redes sociais e, em seguida, nos meios de comunicação tradicionais. Artistas e figuras públicas internacionais repercutiram essas acusações, assim como organizações e setores progressistas dos países imperialistas. Samuel L. Jackson compartilhou uma imagem que chamava nosso país de “um dos países mais racistas do mundo, se não o mais racista” e pedia às pessoas negras que não apoiassem a Seleção (argentina). Juntaram-se a ele Pedro Pascal, Rosalía, Mía Khalifa e meios de comunicação da Europa e dos Estados Unidos, que, a partir de episódios isolados, construíram um retrato geral da sociedade argentina. Um país inteiro, 47 milhões de pessoas, no banco dos réus.

Essa campanha vai desde absurdos, como a hipocrisia de denunciar a seleção argentina por não ter prestado homenagem ao vencedor, até a denúncia de ações racistas e/ou xenófobas.

Mas por que esse julgamento mundial sobre o racismo argentino ocorre justamente agora, como se a Argentina fosse o único e maior país racista do mundo?

De onde vem esse ataque?

Em 15 de julho, após vencer a Inglaterra, os jogadores argentinos exibiram uma bandeira com a frase “As Malvinas são argentinas”. A FIFA havia proibido previamente a entrada de qualquer bandeira com essa frase, e o governo de Milei endossou a proibição. Foram os torcedores e os jogadores que passaram por cima da proibição.

A reação britânica foi imediata e oficial. O ministro Peter Kyle exigiu uma “investigação exaustiva”. O porta-voz do governo respondeu: “A Copa do Mundo pode não ser nossa, mas as Malvinas são”. Por sua vez, os liberais democratas solicitaram, por meio de carta, que os jogadores fossem excluídos da final. E a conservadora Kemi Badenoch advertiu: “Já lutamos por esse território antes. Faremos isso novamente, se for necessário”. Mas a reação não foi apenas britânica. Governos de outros países imperialistas também questionaram os “modos” argentinos, encontrando eco até mesmo em políticos do próprio governo argentino e seus aliados. A FIFA abriu um processo contra a Argentina.

Quatro dias depois, veio a onda de acusações de racismo.

É assim que funciona a ideologia dominante: quando um país semicolonial levanta uma reivindicação anticolonial, surge a punição moral. Primeiro o Estado, com o regulamento em mãos. Depois, a indústria do entretenimento, com o dedo acusador.

Mas essa tentativa de domesticação não se limita apenas ao Reino Unido por causa das Malvinas; há uma questão de classe da burguesia mundial, que precisa que os trabalhadores e o povo latino-americano sejam disciplinados para aprofundar seu plano de esvaziamento e saque de nossos países. Um exemplo disso é a nova lei fundiária proposta pelo governo de Milei, que elimina restrições para que empresas multinacionais se apropriem de terras argentinas.

Por isso, essa ofensiva também serve para dividir. Se os trabalhadores latino-americanos são “os racistas”, a solidariedade entre os povos oprimidos se rompe, e cada um fica sozinho diante da ofensiva imperialista na região.

Alguns fatos, sem maquiagem

No entanto, em meio à mistura de provocações e mentiras propagadas, há denúncias de fatos reais que devem ser repudiados e apontados.

Um torcedor gritou para um streamer negro, o estadunidense IShowSpeed, “ir chorar no zoológico”. Dias depois, outros fizeram gestos de macaco para ele. Latas de cerveja e xingamentos foram lançados contra a torcida egípcia. Tudo isso tendo como pano de fundo o canto contra os jogadores franceses.

É verdade que Speed foi provocativo sistematicamente durante todo o torneio. Mas isso explica o clima; não justifica a forma que a resposta assumiu.

E aqui surge a primeira desculpa que precisamos desmontar, porque circula muito entre nós: “são apenas expressões, carregadas da malícia típica de torcidas, depois convivemos todos muito bem”. Isso é falso e perigoso. Falso, porque o preconceito expressado nas arquibancadas é o mesmo que depois decide quem é contratado num emprego e quem não é. E perigoso, porque essas “meras expressões” são exatamente a munição com que estão atirando contra nós hoje. Cada gesto filmado se tornou uma prova em um julgamento contra todo o país. Minimizar o racismo não nos defende: nos deixa desarmados.

Quem falou, e desde onde?

Bem, vamos ver quem foram os porta-vozes mais grosseiros do racismo nesta Copa do Mundo. O assessor presidencial Santiago Caputo postou “que droga ser negro” quando o Brasil foi eliminado. A vice-governadora de Mendoza, Hebe Casado, chamou a França de “seleção africana de modos grosseiros”, devido à ascendência africana de seus jogadores.

Foram os políticos do governo que cobram taxas pela saúde e pela educação de estrangeiros, que criminalizam os protestos e que desvalorizam a mão de obra imigrante, que conscientemente propagaram o racismo mais explícito desta Copa do Mundo.

Porque o racismo não é um defeito moral dos povos: é uma ferramenta do capital. Karl Marx, há mais de 150 anos, dizia, a respeito da opressão da Irlanda pela Inglaterra, que o operário inglês que desprezava o irlandês tornava-se instrumento de seu próprio patrão. Aqui acontece o mesmo com os trabalhadores bolivianos, paraguaios e peruanos: oficinas têxteis clandestinas, olarias, fazendas, canteiros de obras. O preconceito, longe de ser um acidente cultural, é o que torna lucrativo pagar a alguém só metade do salário.

Nossa história completa

Nos debates dos últimos dias, surge um argumento válido: a Argentina foi, durante o século XX, um país de portas abertas, que se construiu através da mistura de nacionalidades, línguas e costumes, com uma imigração maciça — sobretudo europeia, mas também latino-americana — que moldou nossa cultura. Isso é verdade e é uma característica profundamente positiva.

Mas é apenas metade da história. A outra metade é o desaparecimento da população negra da história nacional — incluindo sua participação decisiva nas guerras de independência — e o extermínio dos povos originários nas campanhas do deserto, que abriram espaço para essa mesma imigração.

Da mesma forma, são inegáveis a repressão, as detenções, os assassinatos e todo tipo de discriminação por “aparência”. Primeiramente por parte das instituições estatais, mas presente em toda a sociedade. O mestiço, produto direto dessa mistura de nacionalidades com a qual nosso país foi construído, não é quem ocupa as posições de poder, mas quem sofre com isso.

Reconhecer as duas metades é a única coisa que nos permite responder com autoridade.

Por que as escalas não se equiparam?

O fato do racismo existir na Argentina, assim como existe onde exista o capitalismo, não significa que seja igual em todos os lugares. E convém explicar o porquê, não apenas comparar.

A Argentina é um país semicolonial; ou seja, subordinado ao capital financeiro, exportador de matérias-primas e submetido ao mecanismo de saque da dívida externa. É um elo que, oprimido pelo imperialismo, reproduz em parte essa opressão no interior da América do Sul.

Essa posição explica a forma que o racismo assume aqui, que é mais marcado pela classe social do que por uma política estruturada de pureza racial. Os “negros” são também os trabalhadores e os pobres, não apenas as pessoas de pele negra. Nesse sentido, a Argentina não precisa de muros nem de deportações em massa, pois sua função na divisão mundial do trabalho não exige expulsar trabalhadores, mas sim baratear sua força de trabalho. Os países imperialistas, por outro lado, constroem aparatos estatais inteiros de exclusão porque administram migrações em massa que eles próprios geram com a pilhagem.

Lenin mostrou que a opressão nacional não é um resquício do passado, mas uma característica do capitalismo em sua fase imperialista. Aqueles que hoje nos dão lições de antirracismo são os Estados que organizaram o tráfico negreiro, o genocídio colonial, a ocupação das Malvinas em 1833 e que hoje sustentam a OTAN, armam guerras e deportam trabalhadores. Não se trata de dois pesos e duas medidas: é a medida de quem manda.

Os povos oprimidos compreenderam

Enquanto as celebridades faziam acusações, na Escócia hasteavam bandeiras argentinas e, na Irlanda, estimava-se que 90% do país apoiava a Albiceleste. A banda irlandesa The Wolfe Tones tem uma música censurada no Reino Unido desde 1983 até hoje, justamente por afirmar que as Malvinas são argentinas. Também houve simpatia em Bangladesh e em outros países que sofreram o domínio britânico.

Os povos oprimidos pelo mesmo império não se deixaram confundir.

As duas armadilhas

Por um lado, existe o perigo de ceder à confusão e a uma política que pretende apresentar os Estados imperialistas como tribunais morais do mundo.

Por outro lado, diante do ataque, boa parte da sociedade — incluindo muitos que se dizem progressistas — reage com um nacionalismo defensivo: “aqui não há racismo, somos um país aberto e mestiço”.

Essa resposta é útil ao governo de Milei, cujo plano de cobrar taxas de saúde e educação de estrangeiros constitui um ato repugnante de xenofobia; da mesma forma, as declarações de Caputo e Casado não são um deslize, mas a expressão de um programa. A campanha externa produz o reflexo defensivo, e o reflexo defensivo blinda o governo que oprime. Os dois pólos se retroalimentam.

A distinção é decisiva: o nacionalismo do oprimido contra o opressor é progressivo. O nacionalismo que nega a própria opressão — que exercemos tanto internamente quanto sobre nações mais fracas — é reacionário, mesmo que seja defendido por quem se diz de esquerda. Defender as Malvinas contra o colonialismo britânico é uma tarefa justa. Usar essa defesa para encobrir o que acontece em uma oficina têxtil em Flores1 é fazer o jogo do governo.

A quem nos dirigimos

Nosso problema não é o povo inglês, nem o espanhol, nem o norte-americano. São as monarquias e os governos que ocupam nosso território, os governos que deportam, a FIFA que proíbe. Estendemos a mão ao trabalhador inglês e o convidamos a enfrentar seu próprio governo e suas leis anti-imigração, assim como os trabalhadores bolivianos enfrentam o deles e nós enfrentamos o nosso.

A unidade latino-americana dos trabalhadores não se constrói negando nossas misérias, mas lutando contra elas, ao mesmo tempo em que lutamos contra o imperialismo.

Por isso, a verdadeira resposta a essa campanha não é defender a “argentinidade”, mas algo muito maior. O caminho não é nos fecharmos como nação, mas nos reconhecermos como classe, superando as divisões racistas e entre nações: reconhecer que o trabalhador boliviano, o peruano, o paraguaio e o argentino compartilham o mesmo inimigo, e que os planos de Milei atendem aos mesmos interesses que os dos governos que oprimem o resto da América Latina.

Essa é a única fronteira que importa: não aquela que separa argentinos de bolivianos ou de ingleses, mas aquela que separa os de cima dos de baixo, que separa os trabalhadores dos grandes patrões multinacionais.

Texto em português extraído em: https://cir-internacional.org/pt/o-pretexto-imperialista-e-o-perigo-de-negar-nossa-oppressao/ e na versão original em: https://cir-internacional.org/es/la-coartada-imperialista-y-el-peligro-de-negar-nuestra-opresion/

  1. Flores é um bairro tradicional na cidade de Buenos Aires (Argentina). Historicamente abrigou fábricas de roupas e costura. ↩︎
Argentina FIFA Malvinas Milei racismo Xenofobia
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