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Home»Internacional»O Paraguai precisa de uma revolução socialista. Preparemos a insurgência contra o capitalismo!
Internacional

O Paraguai precisa de uma revolução socialista. Preparemos a insurgência contra o capitalismo!

Por: Insurgencia - Paraguai
31/03/2026Nenhum comentário20 Mins Read
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Nós, que impulsionamos este manifesto, somos a Insurgencia, uma nova organização política que pretende construir um partido operário, revolucionário, internacionalista e comunista no Paraguai, diante da crise do capitalismo e da falência das esquerdas integradas a projetos burgueses de conciliação de classes.

Essa tarefa é urgente. Por caminhos distintos, a esquerda paraguaia abandonou a independência política da classe trabalhadora e acomodou-se à ordem capitalista dependente.

Na Insurgencia, não nos proclamamos um partido revolucionário acabado. Nosso grupo coloca-se a serviço dessa construção a partir de um programa socialista que deve ser debatido e construído de forma democrática.

Por isso, convocamos militantes e ativistas a discutir, sem compromissos prévios, o programa, a política, os métodos e o tipo de partido de que a classe trabalhadora precisa para enfrentar os governos burgueses, romper com o capitalismo e lutar até conquistar o poder operário e socialista.

Convocamos um processo de aproximação, debate e elaboração coletiva, ligado à intervenção na luta de classes: nas mobilizações populares, nos sindicatos, na juventude, no movimento camponês e em todos os setores oprimidos.

A classe trabalhadora paraguaia precisa de uma organização própria, independente de todas as frações da burguesia, capaz de unificar as lutas em torno de um programa de combate ao capitalismo nacional e ao imperialismo, abrindo caminho para uma transformação socialista. Este manifesto é um primeiro passo nesse sentido.

Um mundo cada vez mais polarizado

O capitalismo, em sua agonia, arrasta o mundo à barbárie. Bilhões de pessoas sofrem com guerras, genocídios, fome, doenças, exploração, desemprego, informalidade e o colapso dos serviços públicos. A violência, os baixos salários e a opressão esmagam a classe trabalhadora, enquanto uma minoria concentra quase toda a riqueza.

A dicotomia apresentada por Rosa Luxemburgo —socialismo ou barbárie— nunca foi tão atual. No século XXI, o capitalismo já não esconde sua face: convive abertamente com a barbárie. O genocídio em Gaza, transmitido em tempo real para o mundo, é uma prova brutal disso. O 1% mais rico concentra cerca de 45% da riqueza global e emite a mesma quantidade de carbono que os dois terços mais pobres da humanidade.

A crise de 2008 e a gestão criminosa da pandemia aprofundaram essas tendências. No entanto, a classe trabalhadora e os povos oprimidos não estão derrotados. Milhões resistem e se mobilizam contra os ataques do capital e de seus governos, sejam eles de direita, de extrema direita ou falsamente “progressistas”. A luta do povo palestino contra o genocídio e a resistência do povo ucraniano diante da invasão russa expressam momentos centrais da luta de classes mundial.

A realidade desmente o pessimismo e o ceticismo da esquerda. Greves e rebeliões abalam países de todos os continentes. A juventude precarizada, as mulheres, os povos oprimidos e os povos indígenas entram em cena, derrubam governos e desestabilizam regimes. O internacionalismo operário não morreu: ele se expressa na solidariedade ativa com a Palestina e em lutas que atravessam fronteiras. Grandes mobilizações percorrem os Estados Unidos, o Irã, o Sudeste Asiático e a Europa Oriental. Na América Latina, as massas tomam as ruas na Argentina, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Brasil…

Até mesmo os setores mais precários despertam para a luta. Os trabalhadores “uberizados” e das plataformas digitais protagonizaram greves históricas, rompendo a fragmentação individualista imposta pelos algoritmos e desafiando o poder das grandes corporações tecnológicas.

Nesse contexto, a juventude empobrecida tem protagonizado as lutas. Ela representa a face mais visível da precariedade laboral e da incerteza, sendo também a principal vítima de problemas de saúde mental decorrentes do mal-estar social; no entanto, assume o papel mais dinâmico nas rebeliões globais.

Se essas lutas não avançam rumo a revoluções socialistas, não é por falta de combatividade das massas, mas pelo papel das direções reformistas, nacionalistas, neo-stalinistas e das burocracias sindicais que as canalizam dentro dos limites do capitalismo. O imperialismo não se sustenta apenas pela repressão, mas também recorre ao engano de um capitalismo “democrático” ou “humano”, idealizado e defendido por líderes que falam em nome do povo enquanto preservam a ordem existente.

O mesmo ocorre com as lutas das mulheres e dos setores oprimidos, como o movimento LGBT+ e o dos povos indígenas, cujo potencial transformador é neutralizado por lideranças burguesas que os reduzem à promessa de reformar a democracia capitalista. Eles querem nos vender um reformismo sem reformas, que, há mais de um século, promete humanizar a exploração, enquanto esta se agrava. Para nós, a verdadeira utopia não é o socialismo mundial, mas acreditar que um sistema baseado na exploração e no lucro possa deixar de produzir barbárie.

Paraguai: crescimento capitalista, miséria estrutural

Muitos meios de comunicação, inclusive no exterior, destacam o crescimento econômico e a “estabilidade macroeconômica” do nosso país, mas esses indicadores não conseguem esconder as profundas desigualdades de uma estrutura social degradada.

A pobreza continua sendo estrutural. Em 2024, 20,1% da população — quase 1,2 milhão de pessoas — vive em situação de pobreza e mais de 240 mil em extrema pobreza, com maior incidência no campo. O sistema previdenciário tem baixa cobertura: apenas 21% da população tem acesso ao IPS. Apenas 55% das pessoas com mais de 65 anos recebem algum tipo de aposentadoria, a partir de 33% do salário mínimo. Envelhecer no Paraguai é terrível.

A saúde pública está desmoronando: 71% da população não possui seguro médico formal. A face mais cruel desse drama foi vista durante a pandemia da COVID-19. O déficit habitacional ultrapassa um milhão de moradias, em um contexto de especulação imobiliária crescente nos centros urbanos. 62,5% da população ocupada trabalha na informalidade, sem direitos trabalhistas, aposentadoria nem estabilidade. Entre os jovens de 15 a 19 anos, a informalidade ultrapassa 90%. Estima-se que 57% ganhem até um salário mínimo, em um contexto de disparidades de gênero e de desigualdades entre áreas urbanas e rurais. As mulheres ganham 21% a menos do que os homens. No campo, a pobreza é de 34% e o analfabetismo chega a 7%, em contraste com os 20% e 2% das cidades, respectivamente. Em outras palavras, o crescimento se sustenta sobre trabalho barato e precário.

A mão de obra paraguaia está entre as mais baratas da região, devido à baixa escolaridade, à informalidade estrutural e à escassa sindicalização, o que resulta na degradação dos direitos trabalhistas. A média de anos de estudo não chega a 10, e a evasão escolar alimenta o mercado de trabalho precário.

Esse atraso não é acidental: ele é funcional a um modelo que requer mão de obra barata e substituível para maximizar o lucro do capital nacional e estrangeiro.

A crise social também se manifesta no aumento da criminalidade. Em zonas fronteiriças como Amambay, registram-se mais de 60 homicídios por cada 100.000 habitantes, superando amplamente a taxa do Brasil (22 por cada cem mil).

A burguesia nacional nunca desenvolveu um projeto de industrialização nem de desenvolvimento tecnológico próprio. Sua estratégia histórica tem sido exportar matérias-primas e importar manufaturas, tecnologia e conhecimento. Ela investe pouco em ciência e na formação da força de trabalho. Como reflexo, a UNA não figura entre as 1.000 melhores universidades do mundo nem entre as 100 melhores da região. A economia sustenta-se no agronegócio, nas rendas, nos privilégios fiscais, nas empresas extrativas e nos negócios ligados à lavagem de dinheiro e ao tráfico de drogas. Estima-se que essa acumulação “ilegal” represente entre 8% e 13% do PIB. As elites econômicas se contentaram em ser sócias menores do imperialismo e administradoras locais da pilhagem.

A estrutura agrária reflete essa lógica. Segundo a Oxfam, o Paraguai é um dos países com maior desigualdade na distribuição da terra: cerca de 2,6% dos proprietários concentram 85% das terras produtivas. O avanço do agronegócio, em grande parte nas mãos de estrangeiros, expulsa camponeses, destrói comunidades indígenas, concentra riqueza e torna a economia dependente das oscilações do mercado internacional. Não pode haver soberania alimentar nem desenvolvimento nacional com base no latifúndio, na monocultura e na estrangeirização.

Assim, o tão alardeado “crescimento macroeconômico” beneficia investidores estrangeiros, o capital financeiro e setores rentistas, mas não se reflete no bolso da classe trabalhadora. Não melhora salários, aposentadorias nem serviços públicos; pelo contrário, estes tendem a se deteriorar. O Paraguai se promove como paraíso fiscal – com uma carga tributária de pouco menos de 12% do PIB – e como país com poucas regulamentações trabalhistas e ambientais, aberto à exploração do trabalho. Não é um modelo fracassado, mas sim bem-sucedido para a burguesia local e o imperialismo.

Os serviços públicos estão em ruínas. Embora o acesso à água potável ultrapasse 80%, apenas 16% dos domicílios dispõem de esgoto sanitário e menos de 11% das águas residuais recebem tratamento.

A sindicalização é baixa, limitada pela informalidade, pela perseguição patronal e por um Estado que prioriza a “liberdade de empresa” em detrimento dos direitos trabalhistas.

Esse quadro não é uma anomalia, mas o resultado da condição do Paraguai como país capitalista dependente, periférico e tardio: uma semicolônia do imperialismo norte-americano, submetida também aos interesses das burguesias do Brasil e da Argentina. O agronegócio, as maquilas brasileiras e os escandalosos tratados de Itaipu e Yacyretá mostram como a riqueza produzida é transferida sistematicamente para o capital estrangeiro e para uma minoria local associada. Nenhum setor da burguesia, nem mesmo aquele que se apresenta como “progressista”, está disposto a enfrentar essa ordem.

Por isso, esse cenário não será revertido com eleições nem com reformas superficiais. A conquista das liberdades democráticas, a questão da terra e a libertação nacional não podem ser resolvidas sob o capitalismo nem sob a direção da burguesia. Somente uma revolução socialista, com a classe trabalhadora como vanguarda das classes exploradas, pode romper a dependência, enfrentar o imperialismo e colocar a riqueza social a serviço das maiorias. Em suma, a emancipação nacional e social não virá de cima nem das urnas: será obra consciente da classe trabalhadora organizada.

Socialismo ou barbárie

Diante da destruição da humanidade e do planeta promovida pelo capitalismo, defendemos que a única saída para evitar a barbárie é a revolução socialista mundial, primeiro passo rumo à sociedade comunista, sem classes nem Estado.

A revolução socialista é uma necessidade imediata para a sobrevivência da humanidade. As condições objetivas para a revolução proletária, como escreveu Trotsky, não só estão maduras em todos os países, como também começam a se deteriorar. O que falta é o elemento subjetivo: uma organização revolucionária coerente, formada pelos melhores elementos de nossa classe e forjada nas principais batalhas contra a burguesia e seus governos.

Concretamente, falta um partido revolucionário no Paraguai que, fazendo parte de uma Internacional e participando das lutas operárias e dos setores oprimidos, se apresente como alternativa programática e política, conduzindo esses processos para uma estratégia de tomada do poder: derrubar governos e destruir o Estado burguês, expropriar a burguesia e, em um movimento ininterrupto, avançar para a construção do socialismo em escala nacional e internacional, instaurando o poder político do proletariado, que governará por meio de seus próprios órgãos de classe e exercerá a democracia operária.

A traição da esquerda paraguaia e a necessidade de um novo partido revolucionário

A maior parte da esquerda paraguaia carece de um programa autenticamente marxista. A influência do PCP, expoente clássico do stalinismo, difundiu a ideia de que no Paraguai não havia condições “maduras” para uma revolução socialista. Defendia que, primeiro, deveria se desenvolver o capitalismo industrial sob a direção de uma burguesia “industrialista e desenvolvimentista”.

Esse raciocínio levou a maior parte da esquerda, durante décadas, a buscar líderes ou movimentos burgueses supostamente “progressistas” e “patrióticos”. Essa capitulação buscava impulsionar um capitalismo “nacional” para que, em um futuro indeterminado e sob um capitalismo hipoteticamente “desenvolvido”, se abrisse uma etapa de luta direta pelo poder e pelo socialismo. Seguindo as teses stalinistas da revolução por etapas, eles não consideram que a totalidade da burguesia seja intrinsecamente contrarrevolucionária. Pelo contrário, dividem-na em burgueses “produtivos” e “improdutivos”, “patrióticos” e “vendidos”, “industrialistas” e “parasitas”, com o único objetivo de justificar alianças com os primeiros. Assim, alimentaram ilusões reacionárias em figuras como o coronel Franco, Félix Estigarribia, Domingo Laíno, Caballero Vargas ou Fernando Lugo.

Com a mesma lógica, encaram a campanha pela soberania energética. Não se propõem a recuperar a energia com uma perspectiva revolucionária e socialista, com base na luta por um Governo Operário e Popular. O que propõem é renegociar tecnicamente os tratados das usinas hidrelétricas para baratear a energia aos empresários e às indústrias nacionais. Pretendem, com isso, gerar empregos e aumentar o consumo local para promover um utópico “crescimento soberano”. Dito de outra forma, quando Canese e os dirigentes do SITRANDE falam de uma “grande unidade de todos os setores patrióticos” para que as hidrelétricas “financiem o desenvolvimento”, estão propondo, na realidade, subsidiar e “reduzir custos” para a burguesia “produtiva”; ou seja, puro e simples desenvolvimentismo burguês disfarçado de soberania.

Nós defendemos que a energia paraguaia deve ser a base material de uma economia socialista, democraticamente planejada pela classe trabalhadora auto-organizada, e não um subsídio para a indústria ou para que “bons empresários” continuem nos explorando.

É preciso aceitar que não há setores progressistas da burguesia e que a economia mundial, dominada por um imperialismo decadente, cria condições objetivas para o socialismo em escala global. O que falta é o elemento subjetivo: uma liderança revolucionária coerente com essa tarefa histórica.

A idealização da burguesia nacional causou inúmeras derrotas. A lógica das etapas rigidamente separadas acaba gerando ilusões em setores patronais.

Uma característica comum da esquerda paraguaia é seu caráter reformista, com forte orientação nacionalista, que aceita a gestão do capitalismo e renuncia à independência política da classe trabalhadora. Há décadas predomina a lógica da conciliação de classes, concretizada na Frente Guasú e em outras experiências. Estas buscam alianças permanentes com supostas frações progressistas e patrióticas da burguesia nacional. A história mostra que essa estratégia é uma utopia reacionária que acumula derrotas.

Um exemplo disso é como a esquerda concretiza sua estratégia para derrotar o Partido Colorado. Sem dúvida, é necessário derrotar esse partido nefasto, mas o lema de “todos contra o Partido Colorado”, frequente na mídia “progressista”, traduz-se em uma política de conciliação de classes que, na prática, implicaria trocar um senhor por outro. A derrota do Partido Colorado é planteada de forma limitada ao terreno eleitoral e por meio de “frentes amplas” com setores burgueses, como ocorreu em 2008 com a chapa Lugo-PLRA. Nesse contexto, foram incentivadas expectativas em figuras e partidos burgueses sob a lógica do “mal menor”, contra o Partido Colorado, preparando o terreno para uma profunda desmoralização.

Essa orientação tem suas raízes no legado teórico e prático do stalinismo e do maoísmo, reproduzido no Paraguai pelo PCP e pelo Partido Paraguay Pyahurã, e assumido, com nuances, por grande parte da esquerda. Daí provém um nacionalismo romântico que idealiza o Paraguai do século XIX, reivindica heróis burgueses da independência e busca herdeiros imaginários de um projeto desenvolvimentista. Não é por acaso que essas correntes têm oscilado entre o castro-chavismo, a defesa do regime cubano e a justificativa de potências capitalistas, como a Rússia e a China, sob um discurso aparentemente “anti-imperialista”, mas sem conteúdo de classe.

A partir de 2008, com o apoio e a participação no governo de Lugo ao lado do PLRA, a esquerda deu um salto em sua adaptação às instituições burguesas. O PCP chegou a afirmar que aquele governo era “o primeiro passo rumo ao socialismo”. Nesse contexto, setores da esquerda ocuparam ministérios, cadeiras parlamentares e cargos estatais a serviço de uma estratégia gradualista e conciliadora, chegando ao envolvimento em casos de corrupção, como o PMAS. A promessa de “disputar espaços” terminou, mais uma vez, na administração da ordem existente. O gradualismo facilitou o retorno fortalecido do Partido Colorado em 2013, que capitalizou o ceticismo gerado pelas promessas não cumpridas do luguismo.

Após essa experiência de governo, a esquerda saiu mais desacreditada e frágil, apesar do que proclamavam seus dirigentes. Isso não deve surpreender: os projetos de conciliação de classes levam à desmobilização, à desmoralização e a novas derrotas.

Hoje, em cada conjuntura eleitoral, essa esquerda volta a se aliar a setores burgueses para enfrentar o Partido Colorado, aceitando programas liberais com um verniz “social”. Seu horizonte não é a transformação revolucionária, mas a obtenção de concessões assistenciais para conter o potencial das massas trabalhadoras.

No Paraguai, como no resto do continente, essas organizações não são um mal menor, são um obstáculo. Ao se oporem à independência de classe e sustentarem alianças interclassistas, contribuem para a continuidade de um sistema que reproduz a miséria e a exploração. Daí a necessidade de construir uma alternativa socialista, revolucionária e internacionalista para as lutas da classe trabalhadora.

O PT (do Paraguai) deixou de ser uma alternativa revolucionária

O Partido dos Trabalhadores (PT) do Paraguai aderiu à deriva burocrática da direção da LIT-QI, que abandonou princípios fundamentais do trotskismo, em particular o centralismo democrático, a liberdade de crítica e princípios morais elementares.

O XVI Congresso da LIT-QI, realizado em setembro, consolidou uma guinada teórica e política de adaptação às democracias liberais e deu lugar a métodos burocráticos incompatíveis com uma organização revolucionária.

Essa guinada foi acompanhada por uma campanha de perseguições, sanções e expulsões contra quem questionou esse rumo. A direção internacional, liderada pelo PSTU do Brasil, agiu como uma fração secreta que expulsou delegados da oposição e impediu a representação das minorias, transformando o Congresso em uma assembleia de uma única fração. Esse método provocou rupturas e expulsões em vários países e levou, na prática, ao desmantelamento da antiga LIT-QI.

No Paraguai, a maioria do PT seguiu essa orientação em novembro. Embora tenha reconhecido o caráter burocrático das expulsões, decidiu alinhar-se à fração majoritária internacional e aplicar sua política, o que resultou em nossa expulsão por mantermos posições críticas e recusarmo-nos à autocensura.

Durante o processo, defendemos a unidade do partido e propusemos um regime excepcional que permitisse debater, sem sanções, e suspender, por um ano, a adesão a qualquer internacional. A proposta foi rejeitada. A direção do PT optou por seguir cegamente a fração internacional, que havia orientado os partidos nacionais a realizar suas próprias purgas. Nossa expulsão expressa, portanto, não um problema disciplinar, mas uma diferença política de fundo quanto ao rumo do trotskismo e ao caráter da organização internacional.

Nós, que fomos expulsos, continuamos militando pela construção de uma organização revolucionária, socialista e internacionalista, baseada em um verdadeiro centralismo democrático e na tradição programática do trotskismo. Reivindicamos a história de luta do PT e de sua militância, mas sustentamos que a orientação atual enfraquece o projeto revolucionário. Confiamos que a experiência e a luta de classes permitam um balanço crítico e futuras reaproximações com base em princípios. Esta é uma dura derrota, mas não pode se traduzir em desmoralização nem em dispersão. Por isso, mais do que nunca, devemos nos comprometer com a construção de um novo partido revolucionário.

Como deve ser o partido revolucionário que defendemos?

Em primeiro lugar, deve ser um partido internacionalista, ou seja, pertencer organicamente a uma organização internacional revolucionária democraticamente centralizada. Concretamente, isso significa adotar a estratégia de reconstruir a IV Internacional fundada por Trotsky, que foi a continuação da III Internacional de Lenin, dissolvida por Stalin.

É por isso que hoje fazemos parte do Comitê Internacional pela Reconstrução da LIT de Nahuel Moreno (CIR), o que implica reconstruir a LIT-QI, hoje destruída por sua própria direção, sobre suas bases fundacionais, atualizadas com a acumulação teórica, programática e moral construída desde os anos 90, o que inclui:

O balanço dos processos do Leste Europeu e o papel histórico do stalinismo, que foi o de ter impulsionado a restauração do capitalismo na ex-URSS e em todos os antigos Estados Operários, e da maioria do chamado trotskismo do pós-guerra;

A oposição revolucionária a qualquer governo burguês e a rejeição a toda conciliação de classes.

A rejeição a partidos “amplos” com reformistas ou centristas, os mal chamados “partidos anticapitalistas”;

A defesa intransigente da moral revolucionária, exigindo ainda maior rigor diante das violações cometidas por dirigentes.

Deve ser um partido autenticamente comunista, ou seja, marxista, leninista, trotskista e morenista.

Marxista, porque nosso objetivo é que o proletariado e seus aliados tomem o poder, destruam o Estado burguês e instaurem a ditadura revolucionária do proletariado, isto é, o poder político da classe trabalhadora materializado em um Estado operário que inicie a transição para o socialismo.

Reafirmamos que o sujeito da revolução socialista não é a “cidadania” nem os “99%”, mas o proletariado, especialmente o industrial, que deve liderar todos os setores explorados e oprimidos. O socialismo mundial será o primeiro passo rumo ao comunismo, uma sociedade sem classes nem Estado.

Leninista, porque entendemos que o capitalismo, em sua fase imperialista, é um sistema em agonia, marcado por guerras, crises e revoluções; e porque devemos construir partidos de combate com um regime de centralismo democrático.

Esse regime significa ampla liberdade de discussão e total disciplina na ação, rejeitando o centralismo burocrático, o culto aos dirigentes, bem como qualquer modelo federativo ou de frações permanentes. Contra o partido monolítico do stalinismo, afirmamos que a centralização é para a ação, não para disciplinar o pensamento da militância.

Trotskista, porque a história confirmou a análise de Trotsky sobre a burocratização da ex-URSS e seu prognóstico: sem uma revolução política que expulsasse a burocracia stalinista do poder, o capitalismo seria restaurado, mais cedo ou mais tarde, por essa mesma casta.

A derrota das revoluções políticas em Berlim Oriental, Hungria, Tchecoslováquia e Polônia permitiu a permanência dessa burocracia, que, na década de 80, restaurou o capitalismo na ex-URSS (como antes na Iugoslávia e na China) e se transformou em nova classe dominante. O mesmo ocorreu em Cuba na década de 90.

A teoria da revolução permanente e o conceito de revolução política demonstraram sua validade histórica e são ferramentas para varrer as burocracias dos sindicatos e das organizações do movimento estudantil, camponês, de mulheres, indígena e LGBT+.

No entanto, se o programa de Trotsky passou no teste dos fatos, o mesmo não ocorreu com o movimento trotskista sem Trotsky. A maioria agiu como um apêndice do stalinismo, adotando sua visão de mundo e seus métodos burocráticos.

Nos últimos 35 anos, grande parte do trotskismo abandonou a luta pela revolução socialista e construiu partidos reformistas, autodenominados “anticapitalistas”, traindo, mais uma vez, o legado da IV Internacional, destruída pelo revisionismo já na década de 1950.

Queremos construir o oposto dessas experiências, apoiando-nos no arsenal teórico e programático da LIT-QI fundada por Moreno, a corrente trotskista que melhor resistiu à prova dos fatos.

Nos declaramos trotskistas e morenistas porque defendemos o programa da revolução socialista mundial e, nessa batalha, combatemos intransigentemente as concepções e os métodos do stalinismo em todas as suas variantes.

Lutaremos por um partido operário, inimigo irreconciliável da burguesia, do imperialismo e de seus governos. Denunciaremos e lutaremos de forma permanente para derrotar todos os governos capitalistas, inclusive aqueles que se autodenominam de “esquerda” ou “progressistas”. Não apoiamos nem participamos de nenhum governo burguês por princípio.

Como construir esse partido?

Como propusemos no início, queremos que a construção do novo partido seja um processo democrático, com reuniões de debate, crítica e estudo, no qual todos e todas participem sem distinções nem compromissos prévios.

Convocamos aqueles que reconhecem a necessidade de um partido verdadeiramente comunista, internacionalista e enraizado na classe trabalhadora, baseado em um verdadeiro centralismo democrático, a se juntar a essa tarefa comum que unifique teoria, programa e ação revolucionária.

Não pretendemos fazer isso sozinhos. Impulsionaremos um processo vivo que sirva de ponto de partida para reconstruir uma corrente internacional que, ao mesmo tempo, avance na reconstrução da IV Internacional. Queremos discutir programa, regime, estatutos, símbolos, a partir da intervenção concreta na luta de classes, para que o partido seja produto de um esforço militante.

Venha conosco construir essa nova ferramenta para a revolução socialista!

É hora da Insurgencia!

capitalismo comunismo miséria Paraguai
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