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Home»Teoria e História»Engels e Marx e o combate ao reformismo na social-democracia alemã
Teoria e História

Engels e Marx e o combate ao reformismo na social-democracia alemã

Por: Engels e Marx. Introdução de Marcos Margarido
25/02/2026Nenhum comentário18 Mins Read
Eduard Bernstein
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Introdução

Em 1879, o Partido Operário Social-democrata da Alemanha (SPD) começava a mostrar sinais do surgimento de uma ala reformista em seu seio. Era uma tentativa de adaptar o partido às Leis Antissocialistas, oficialmente denominadas “Lei contra as aspirações perigosas da social-democracia”. Elas formavam um conjunto de medidas repressoras, promulgadas em outubro de 1878, durante o Império Alemão, sob a liderança do Chanceler (Primeiro-Ministro) Otto von Bismarck. Aproveitando-se de um atentado contra o imperador Guilherme I, Bismarck acusou os socialistas e chamou novas eleições, que lhe deram maioria para aprovar as leis no Reichstag (o parlamento alemão). Elas proibiam todas as associações, reuniões e jornais social-democratas. Mas não baniram a bancada parlamentar do SPD, o que transformou seus deputados nos principais porta-vozes da política do partido, reduzindo muito o peso político das bases operárias. Isso foi complementado por uma rede clandestina de agentes, jornais impressos no exterior e clubes recreativos.

Entre esses jornais, havia o Anuário para a Ciência e Política Socialista de Zurique, que, em sua primeira edição, publicou o artigo “O Movimento Socialista na Alemanha em Retrospecto”, assinado por Höchberg, Bernstein e Schramm, três dirigentes reconhecidos. O objetivo dos autores era mudar a linha do partido para adaptá-la às exigências das leis antissocialistas e, assim, voltar a ser reconhecido legalmente. Esse artigo levou Engels e Marx a escreverem uma carta à direção do partido alemão, August Bebel, Wilhelm Liebknecht, Wilhelm Bracke, entre outros, para alertá-los sobre o artigo e a influência que o reformismo começava a exercer e o combate insuficiente travado contra eles.

Em troca de correspondências entre eles, é visível a disposição de cortar laços com o partido se a direção não fizesse uma crítica dura e pública contra essa ala. Em 9 de setembro de 1879, Engels escreve a Marx: “O Anuário… felizmente nos permite simplesmente dar a essas pessoas, de forma definitiva, as razões pelas quais é absolutamente impossível para nós cooperar com um órgão no qual Höchberg tenha algo a dizer”. E Marx responde: “Liebknecht não tem discernimento … Concordo plenamente com sua opinião de que não há mais tempo a perder para anunciar, de forma direta e implacável, nossa opinião sobre o desvio [oportunista] do Anuário… Se eles continuarem a agir da mesma forma em relação ao órgão [oficial] do partido, devemos repudiá-los publicamente. Nesses assuntos, não há mais nenhuma questão de boa índole“.

Reproduzimos, abaixo, parte da carta escrita por Engels e assinada também por Marx, enviada em setembro de 1879.

Carta de Marx e Engels a August Bebel, Wilhelm Liebknecht, Wilhelm Bracke e outros.

(2) A linha proposta para o jornal1

(…)

O ataque a Kayser2 é agora a ocasião para convencer Hirsch, em todos os sentidos, de que o novo jornal não deve, de forma alguma, copiar os “excessos” do Laterne e ocupar-se tanto com o radicalismo político, mas sim manter uma linha desapaixonada, socialista em princípio. E isso foi dito tanto por Viereck quanto por Bernstein, que, pelo simples fato de ser moderado demais, parece ser o homem certo, porque, afinal de contas, não se pode navegar com “todas as cores” [isto é, com toda a política do SPD] no momento.

Mas por que emigrar, se não for para navegar com suas próprias cores? Não há nada que impeça isso no exterior. A imprensa, a assembleia e as leis penais alemãs não existem na Suíça. Portanto, não é apenas possível, mas também um dever dizer coisas que não poderiam ser ditas em casa, sob as leis alemãs em geral, mesmo antes da Lei Antissocialista. Pois aqui estamos não apenas diante da Alemanha, mas diante da Europa, e é um dever, à medida que as leis suíças o permitam, declarar à Europa os métodos e os objetivos do Partido Alemão sem dissimulação. Qualquer pessoa que queira vincular-se às leis alemãs na Suíça só prova que é digna dessas leis e que, de fato, não tem nada a dizer que não fosse permitido na Alemanha antes das leis de exceção. Também não se deve considerar a possibilidade de os editores serem temporariamente impedidos de retornar à Alemanha. Quem não estiver pronto para correr esse risco não está apto a um cargo de honra tão exposto.

E mais. As leis de exceção baniram e ilegalizaram o Partido Alemão precisamente porque ele era o único partido de oposição sério na Alemanha. Se, em um órgão publicado no exterior, o partido mostrar sua gratidão a Bismarck, renunciando a esse papel de único partido de oposição sério, mostrando-se simpático e dócil e aceitando o castigo com uma atitude “desapaixonada”, isso só prova que ele mereceu o castigo. De todos os jornais alemães produzidos na emigração para o exterior desde 1830, o Laterne é certamente um dos mais moderados. Mas se até mesmo o Laterne foi ousado demais, então o novo órgão só pode comprometer o Partido aos olhos de seus simpatizantes fora da Alemanha.

(3) O Manifesto dos três de Zurique3

Nesse meio tempo, o Anuário de Höchberg chegou até nós, contendo um artigo: “O Movimento Socialista na Alemanha em Retrospecto”, que, como o próprio Höchberg me disse, foi escrito pelos mesmos três membros da Comissão de Zurique. Nele, fazem sua crítica sincera do movimento até o momento e, com ela, propõem um programa para a linha do novo órgão, se isso depender deles.

Logo no início, lemos:

“O movimento que Lassalle considerava eminentemente político, para o qual ele convocou não apenas os trabalhadores, mas também todos os democratas honestos, à frente dos quais deveriam marchar os representantes independentes da ciência e todos os que estivessem imbuídos de um verdadeiro amor pela humanidade, foi reduzido sob a presidência de Johann Baptist Schweitzer à luta unilateral pelos interesses dos trabalhadores industriais.”

Não examinarei se, ou até que ponto, isso seja historicamente correto. A acusação especial feita aqui contra Schweitzer é que ele transformou o lassalleanismo, que aqui é considerado um movimento democrático-filantrópico burguês, em uma luta unilateral pelos interesses dos operários, aprofundando seu caráter de luta da classe operária contra a burguesia. Ele também é criticado por sua “rejeição à democracia burguesa”. E o que a democracia burguesa tem a ver com o Partido Social-Democrata? Se ele consiste de “homens honestos”, não pode desejar que seja admitida e, se mesmo assim deseja ser admitida, isso só pode ser para iniciar uma briga [interna].

O partido de Lassalle4 “escolheu comportar-se da maneira mais unilateral possível como um partido operário”. Os cavalheiros que escrevem isso são membros de um partido que se comporta, da maneira mais unilateral possível, como um partido operário e estão, atualmente, investidos de cargos e dignidades nesse partido. Aqui há uma incompatibilidade absoluta. Se eles são sérios sobre o que escrevem, devem deixar o Partido ou, ao menos, renunciar a seus cargos e dignidades. Se não o fizerem, estarão admitindo que propõem utilizar sua posição oficial para combater o caráter proletário do partido. Portanto, se o partido mantiver seus cargos e dignidades, estará traindo a si próprio.

Na opinião desses senhores, portanto, o Partido Social-Democrata não deve ser um partido operário unilateral, mas um partido de “todos imbuídos de um verdadeiro amor pela humanidade”. Ele deve provar isso, acima de tudo, deixando de lado suas paixões proletárias grosseiras e colocando-se sob a orientação de burgueses educados e filantrópicos para “cultivar o bom gosto e aprender as convenções sociais” (página 85 do jornal Anuário para a Ciência…). Assim, até mesmo o “comportamento desonesto” de muitos líderes dará lugar a um “comportamento burguês” totalmente respeitável. (Como se o comportamento externamente desonesto daqueles aqui mencionados não fosse o mínimo pelo qual pudessem ser reprovados!) Então, também, “numerosos adeptos dos círculos das classes educadas e proprietárias aparecerão. Mas esses só serão conquistados se a (…) agitação conduzida for para alcançar sucessos tangíveis”.

O socialismo alemão “deu muita importância à conquista das massas e, ao fazê-lo, negligenciou a propaganda enérgica (!) entre os chamados estratos superiores da sociedade”. E então “o partido ainda carece de homens capazes de representá-lo no Reichstag”. No entanto, é “desejável e necessário confiar o mandato a homens que tenham tempo e oportunidade para se familiarizarem plenamente com os materiais relevantes. O trabalhador simples e o pequeno autônomo… só têm o tempo livre necessário para isso em casos raros e excepcionais”. Portanto, eleja-se burgueses!

Em resumo: a classe operária, por si só, é incapaz de sua própria emancipação. Para esse fim, ela deve se colocar sob a liderança de burgueses “educados e proprietários”, que são os únicos que têm o “tempo e a oportunidade” para se familiarizar com o que é bom para os operários.

E, em segundo lugar, a burguesia não deve ser combatida, mas sim conquistada por meio de uma propaganda enérgica.

Mas se alguém quiser conquistar os estratos superiores da sociedade, ou apenas seus elementos bem-dispostos, não deve assustá-los de forma alguma. E aqui os três de Zurique acham que fizeram uma descoberta tranquilizadora:

“Precisamente no momento atual, sob a pressão da Lei Antissocialista, o Partido está mostrando que não está inclinado a seguir o caminho da revolução sangrenta violenta, mas está determinado (…) a seguir o caminho da legalidade, ou seja, da reforma”. Portanto, se os 500.000 a 600.000 eleitores social-democratas – entre um décimo e um oitavo de todo o eleitorado e distribuídos por toda a extensão do país – têm o bom senso de não dar murro em ponta de faca e tentar uma “revolução sangrenta” de um contra dez, isso prova que eles também se proíbem de tirar proveito, em qualquer momento futuro, de um tremendo evento externo, de um súbito surto revolucionário decorrente dele, ou até mesmo de uma vitória do povo obtida em um conflito resultante dele. Se Berlim voltar a ser tão inculta a ponto de ter um 18 de março5, os socialdemocratas, em vez de participarem da luta como “ralé com mania de barricadas” (página 88), devem “seguir o caminho da legalidade”, agir pacificamente, desfazer as barricadas e, se necessário, marchar com o glorioso exército contra as massas unilaterais, incultas e sem instrução. Ou, se os senhores afirmam que não foi isso que quiseram dizer, o que quiseram dizer então?

Mas o que se segue é ainda melhor.

“Quanto mais calmo, objetivo e ponderado for o Partido , portanto, na maneira como ele apresenta suas críticas às condições existentes e as propostas de mudança, menos possível será a repetição da atual estratégia bem-sucedida (quando a Lei Antissocialista foi aprovada), pela qual a reação consciente intimidou a burguesia pelo medo do bicho-papão vermelho.” (Página 88.)

A fim de aliviar a burguesia do último vestígio de ansiedade, deve ser provado de forma clara e convincente que o bicho-papão vermelho é, de fato, apenas um bicho-papão e não existe. Mas qual é o segredo do bicho-papão vermelho, se não é o medo da burguesia da inevitável luta de vida ou morte entre ela e o proletariado? Medo da decisão inevitável da luta de classes moderna? Acabe com a luta de classes e, então, a burguesia e “todos os independentes” … “perderão o medo de andar de mãos dadas com o proletariado”. E os que serão enganados serão justamente os operários.

Portanto, que o partido prove, por meio de sua atitude humilde e arrependida, que, de uma vez por todas, deixou de lado as “impropriedades e excessos” que provocaram a Lei Antissocialista. Se ele prometer voluntariamente que só pretende agir dentro dos limites da Lei Antissocialista, Bismarck e a burguesia certamente terão a gentileza de revogar essa lei finalmente supérflua!

“Que ninguém nos entenda mal”; não queremos “desistir de nosso partido e de nosso programa, mas pensamos que nos próximos anos teremos o suficiente para fazer se concentrarmos toda a nossa força e energia na realização de certos objetivos imediatos que, de qualquer forma, devem ser alcançados antes que se possa pensar na realização de fins mais abrangentes”. Então, os burgueses, pequenos burgueses e trabalhadores que estão “atualmente assustados… com as demandas de longo alcance, juntar-se-ão a nós em massa”.

O programa não deve ser abandonado, mas apenas adiado – para um período indefinido6. Devemos aceitá-lo, embora não realmente para nós próprios e em nossa própria vida, mas postumamente, como uma herança a ser transmitida aos filhos e netos. Nesse meio tempo, deve-se dedicar “toda a força e energia” a todo tipo de lixo insignificante e a remendar a ordem capitalista da sociedade, a fim de, pelo menos, produzir a aparência de que algo está acontecendo sem, ao mesmo tempo, assustar a burguesia. Nesse ponto, devo realmente elogiar o comunista Miquel7, que demonstrou sua crença inabalável na inevitável derrocada da sociedade capitalista no decorrer das próximas centenas de anos, realizando golpes com entusiasmo, contribuindo com seu melhor para o crash de 1873 e, assim, realmente fazendo algo para alimentar o colapso da ordem existente.

Outra ofensa às convenções sociais também foram os “ataques exagerados aos promotores de empresas”, que eram, afinal, “apenas crianças de seu tempo”; “o abuso de Strousberg e pessoas semelhantes… teria sido melhor se fosse omitido”. Infelizmente, todo mundo é apenas uma “criança de seu tempo” e, se isso for uma desculpa suficiente, ninguém mais deveria ser atacado; toda controvérsia e toda luta de nossa parte cessam; aceitamos calmamente todos os chutes que nossos adversários nos dão porque nós, que somos tão sábios, sabemos que esses adversários são “apenas crianças de seu tempo” e não podem agir de outra forma. Em vez de retribuir seus chutes com juros, deveríamos ter pena desses infelizes.

Por outro lado, o apoio do partido à Comuna teve a desvantagem, no entanto, “de que as pessoas que, de outra forma, estavam dispostas a nos apoiar foram alienadas e, em geral, o ódio da burguesia contra nós aumentou”. Além disso, “o Partido não é totalmente isento de culpa pela introdução da Lei de Outubro8, pois tinha aumentado o ódio da burguesia de forma desnecessária”.

Aqui está o programa dos três censores de Zurique. Em termos de clareza, não deixa nada a desejar. Muito menos para nós, que estamos muito familiarizados com toda essa fraseologia dos dias de 1848. São os representantes da pequena burguesia que se apresentam aqui, ansiosos para que o proletariado, sob a pressão de sua ala revolucionária, possa “ir longe demais”. Em vez de uma oposição política decidida, um compromisso geral; em vez da luta contra o governo e a burguesia, uma tentativa de vencer [provavelmente uma referência a vitórias eleitorais] e persuadir; em vez de uma resistência desafiadora aos maus-tratos vindos de cima, uma submissão humilde e uma confissão de que a punição foi merecida. Conflitos historicamente necessários são todos reinterpretados como mal-entendidos, e toda discussão termina com a certeza de que, no fim das contas, todos concordam com o ponto principal. As pessoas que se apresentaram como democratas burgueses em 1848 poderiam muito bem ser consideradas social-democratas agora. Para elas, a república democrática era impossível de conquistar e, para essas pessoas, a derrubada do sistema capitalista é igualmente remota e, portanto, não tem absolutamente nenhum significado para a política prática atual; pode-se mediar, fazer concessões e filantropizar o quanto quiser. O mesmo ocorre com a luta de classes entre o proletariado e a burguesia. Ela é reconhecida no papel porque sua existência não pode mais ser negada, mas na prática ela é abafada, diluída, atenuada.

O Partido Social-Democrata não deve ser um partido operário, não deve se sobrecarregar com o ódio à burguesia ou a qualquer outra pessoa; deve, acima de tudo, fazer uma propaganda enérgica entre a burguesia: em vez de enfatizar os objetivos de longo alcance que assustam a burguesia e que, afinal, não são alcançáveis em nossa geração, ele deve dedicar toda a sua força e energia às pequenas reformas pequeno-burguesas que, ao fornecer à velha ordem da sociedade novos suportes, talvez possam transformar a catástrofe final em um processo de dissolução gradual, fragmentado e, se possível, pacífico. Essas são as mesmas pessoas que, sob o pretexto de uma atividade incansável, não apenas não fazem nada, mas também tentam impedir que qualquer coisa aconteça, exceto conversas; as mesmas pessoas cujo medo de toda forma de ação em 1848 e 1849 obstruiu o movimento a cada passo e, finalmente, provocou sua queda; as mesmas pessoas que veem uma reação e depois ficam bastante surpresas ao se encontrarem finalmente em um beco sem saída, onde não é possível resistir nem fugir; as mesmas pessoas que querem confinar a história em seu estreito horizonte pequeno-burguês e sobre cujas cabeças a história invariavelmente segue a ordem do dia.

Quanto ao seu conteúdo socialista, já foi adequadamente criticado no Manifesto [Comunista], capítulo X, “Socialismo Alemão ou Verdadeiro”. Quando a luta de classes é abandonada como um fenômeno desagradável e “grosseiro”, nada resta como base para o socialismo além do “verdadeiro amor pela humanidade” e da fraseologia vazia sobre “justiça”.

É um fenômeno inevitável, enraizado no curso do desenvolvimento, o fato de que as pessoas que até então eram das classes dominantes se juntem ao proletariado militante e contribuam com elementos culturais. Afirmamos isso claramente no Manifesto Comunista. Mas aqui há dois pontos a serem observados:

Primeiro, para serem úteis ao movimento proletário, essas pessoas devem trazer-lhe elementos culturais de verdade. Porém, para a grande maioria dos burgueses alemães convertidos, esse não é o caso. Nem o Zukunft [Futuro] nem o Neue Gesellschaft [Nova Sociedade] contribuíram com algo que pudesse fazer o movimento dar um passo a mais. Aqui há uma falta absoluta de material cultural, seja concreto ou teórico. Em seu lugar, temos tentativas de harmonizar as ideias socialistas adotadas superficialmente com os mais variados pontos de vista teóricos que esses senhores trouxeram da universidade ou de outros lugares e que, devido ao processo de decomposição em que os remanescentes da filosofia alemã estão atualmente envolvidos, são uns mais confusos do que os outros. Em vez de começar a estudar a fundo a nova ciência [isto é, o comunismo], cada um deles preferiu ajustá-la ao ponto de vista que já possuía para criar sua própria ciência, sem mais delongas, e então se apresentar com a alegação de que estava pronto para ensiná-la. Portanto, há tantos pontos de vista entre esses senhores quanto cabeças; em vez de produzirem clareza em um só caso, produziram uma confusão desesperadora – felizmente, quase exclusivamente entre eles mesmos. Elementos culturais cujo primeiro princípio é ensinar o que não aprenderam podem muito bem ser dispensados pelo partido.

Em segundo lugar, se pessoas desse tipo, de outras classes, unirem-se ao movimento proletário, a primeira condição é que não tragam consigo nenhum resquício de preconceito burguês, pequeno-burguês, etc., mas que adotem de todo o coração o ponto de vista proletário. Mas esses senhores, como já foi provado, estão cheios de ideias burguesas e pequeno-burguesas. Em um país tão pequeno-burguês como a Alemanha, essas ideias certamente têm sua própria justificativa. Mas somente fora do Partido Operário Social-Democrata. Se esses senhores formarem um partido pequeno-burguês social-democrata, têm todo o direito de fazê-lo; poderíamos então negociar com eles, formar um bloco de acordo com as circunstâncias, etc. Mas, em um partido operário, eles são um elemento adulterador. Se existem razões para tolerá-los no momento, também é um dever apenas tolerá-los, mas não lhes permitir nenhuma influência na liderança do partido e permanecer ciente de que o rompimento com eles é apenas uma questão de tempo. O tempo, aliás, parece ter chegado. Para nós, é incompreensível como o Partido pode continuar a tolerar os autores deste artigo em seu meio. Mas se a liderança do partido cair, em maior ou menor medida, nas mãos de tais pessoas, o partido será simplesmente castrado e a energia proletária chegará ao fim.

Quanto a nós [Engels e Marx], tendo em vista todo o nosso passado, há apenas um caminho possível. Por quase quarenta anos, enfatizamos a luta de classes como a força motriz imediata da história e, em particular, a luta de classes entre a burguesia e o proletariado como a grande alavanca da revolução social moderna; portanto, é impossível para nós cooperar com pessoas que desejam eliminar a luta de classes do movimento. Quando a [Primeira] Internacional foi formada, formulamos expressamente o grito de guerra: a emancipação da classe operária deve ser obra da própria classe operária. Portanto, não podemos cooperar com pessoas que dizem que os operários não têm instrução suficiente para se emanciparem e que precisam, primeiro, ser libertados por burgueses filantrópicos e pequenos burgueses. Se o novo órgão do partido adotar uma linha que corresponda aos pontos de vista desses senhores, e for burguês e não proletário, então não nos restará nada, por mais que lamentemos, a não ser declarar publicamente nossa oposição a ele e dissolver a solidariedade com a qual até agora representamos o partido alemão no exterior. Mas é de se esperar que as coisas não cheguem a esse ponto.

Notas:

  1. Neste item, do qual apresentamos apenas os parágrafos finais, Engels e Marx criticam a linha editorial proposta para o novo jornal oficial do partido, a ser editado em Zurique, que não deveria seguir a linha radical do jornal Laterne, cujo editor era Hirsch. Por isso Marx afirma, em sua carta a Engels, que “se eles continuarem a agir da mesma forma com o órgão [oficial] do partido, devemos repudiá-los publicamente.” ↩︎
  2. Kayser, deputado social-democrata que votou a favor da tributação indireta, cuja abolição é exigida pelo programa do partido, e de verbas para Bismarck, quebrando uma tática fundamental do SPD: nem um centavo para esse governo. Hirsch criticou a posição de Kayser no Laterne. ↩︎
  3. Referem-se a Karl Höchberg (codinome Ludwig Richter), Eduard Bernstein e Carl August Schramm. ↩︎
  4. Ferdinand Lassalle, socialista alemão, que passou de uma luta comum com Marx durante a Revolução Prussiana de 1848 até romperem relações em 1864. A partir daí, passou a dar apoio crítico ao Império alemão, fazendo negociações com Bismarck. É considerado, pelos atuais dirigentes da social-democracia alemã, o fundador do partido (o que não é historicamente correto). (nota do tradutor) ↩︎
  5. Em 18 de março de 1848 eclodiram sangrentos combates de barricadas em Berlim, marcando o auge da Revolução de Março na Prússia, parte das revoluções de 1848 na Alemanha e na Europa. ↩︎
  6. Essa frase antecipa em 12 anos o Programa de Erfurt, do qual se diz, injustamente, defender o socialismo apenas nos discursos dos dias de festa. (nota do tradutor) ↩︎
  7. Comunista em sua juventude, tornou-se líder dos Nacional-Liberais nos anos 1860, o partido da grande burguesia alemã. De 1890 até o fim de sua vida (1901), foi Ministro Prussiano das Finanças (nota dos editores das Obras Completas de Marx e Engels). ↩︎
  8. A lei antissocialista. (nota do tradutor) ↩︎
Bernstein Engels lei antissocialista oportunismo reformismo social-democracia
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