O levante popular
A Bolívia vem vivendo, há quase um mês, uma verdadeira rebelião popular contra o governo de direita de Rodrigo Paz Pereira, eleito em novembro de 2025. O desfecho da situação no país andino vai influenciar toda a América Latina.
A posição do governo Lula, que seria fundamental para apoiar a luta do povo boliviano, mostrou-se, ao contrário, uma vergonhosa defesa do governo Paz, em consonância com governos de direita e com o imperialismo americano. Mas, antes de esmiuçar essa adesão, é preciso entender o que está acontecendo na Bolívia.
A rebelião começou contra as políticas neoliberais desse governo. Ele suspendeu os subsídios à farinha de trigo, ingrediente fundamental na alimentação popular, e aos combustíveis. Propôs uma lei que facilitava a alienação das pequenas propriedades camponesas (que foi obrigado a revogar pela pressão da luta) e planeja privatizações. Para culminar, o povo ainda sofre com uma inflação crescente que chegou a 20%.
O levantamento popular começou com bloqueios de 53 estradas e com uma marcha de dezenas de milhares de camponeses, que caminharam mais de 300 km até a capital, La Paz. A mobilização camponesa combinou-se com o chamado da Central Operária Boliviana (COB) a uma greve geral para reivindicar aumento salarial de 20%. As reivindicações escalaram e, atualmente, concentram-se em uma única demanda: a renúncia de Rodrigo Paz.
Nesse mês, já houve vários episódios de dura repressão das forças policiais contra as massas rebeladas. A polícia assassinou 6 manifestantes e feriu dezenas de pessoas. O governo decretou a prisão de 24 dirigentes sindicais, inclusive o presidente da COB. O Congresso aprovou uma lei que facilita a decretação do estado de sítio pelo governo.
O imperialismo apoia o governo de Paz contra as mobilizações
Christopher Landau, vice-secretário do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que corresponde ao Ministério das Relações Exteriores no Brasil, declarou em uma conferência: “Não se enganem: isso é um golpe financiado por uma aliança perigosa entre política e crime organizado na região”. A acusação de ligação de movimentos sociais ao crime organizado é um pretexto conhecido para justificar a repressão e as intervenções militares.
Ele ainda afirmou esperar que outros países da América do Sul condenem o que classificou como uma tentativa de golpe capaz de ameaçar governos democraticamente eleitos. Landau disse ainda que o governo do presidente Donald Trump trabalha para evitar que forças antigoverno e anti-institucionais prevaleçam.
Os governos de direita da região apoiaram Rodrigo Paz. Javier Milei, por exemplo, manifestou apoio a Rodrigo Paz diante da onda de mobilizações e greves. Além de fornecer respaldo político, o governo argentino enviou aviões cargueiros com “ajuda humanitária” ao governo boliviano.
Governo Lula de braços dados com o governo de direita
Mas a surpresa para muitos ativistas de esquerda (não para nós, do MPR) foi que Lula tomou posição em defesa do governo Paz, disfarçando sua cumplicidade com “respeito… ao Estado de Direito”.
O site oficial do governo informa que:
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu, na tarde desta segunda-feira, 25 de maio, telefonema do presidente da Bolívia, Rodrigo Paz. Os dois mandatários conversaram sobre a situação humanitária enfrentada pela Bolívia em decorrência de protestos e bloqueios de estradas, que vêm provocando o desabastecimento de algumas regiões do país.
A posição do governo Lula é clara: segundo ele, a situação humanitária é causada por protestos e bloqueios, não pelas medidas do governo nem pela repressão desencadeada por ele. Em seguida, Lula deixa claro de que lado está: “O presidente Lula reiterou sua solidariedade ao governo e ao povo bolivianos e ressaltou a importância do pleno respeito às instituições democráticas e ao Estado de Direito“.
A posição de Lula é claríssima. Solidariedade a um governo de direita, repressor do povo, assassino de manifestantes e que decreta a prisão de 24 dirigentes sindicais. Respeito às supostas “instituições democráticas”, como a polícia, que reprime, fere e mata o povo. Respeito ao “Estado de Direito”, cujo parlamento vota uma lei que facilita o estado de sítio e prepara a repressão generalizada.
Por último, uma pérola de hipocrisia: a pedido do presidente Rodrigo Paz, Lula “determinou o envio de ajuda humanitária à Bolívia”. A mesma política de Milei para romper o bloqueio das estradas realizado pelas organizações operárias e populares.
Não há dúvida de que Lula curvou-se às pressões de Trump e assumiu as mesmas posições de Milei, Kast e de outros governos serviçais ao imperialismo. O MPR repudia essa posição vergonhosa de Lula contra os trabalhadores, camponeses e todo o povo do país vizinho e apoia incondicionalmente a sua rebelião.
Todo ativista honesto no Brasil precisa exigir dos partidos que se dizem de esquerda e das centrais sindicais o repúdio às declarações de Lula e a solidariedade com o povo boliviano em sua justa luta para derrubar o governo de Paz Pereira.
