Nas últimas semanas, o Papa Leão XIV fez um pronunciamento histórico. Pediu perdão aos povos escravizados de origem africana e indígena pela legitimação, pela Igreja Católica, da escravidão. Essa prática teve aval jurídico e teológico do papado durante os séculos XV e XVI e serviu para que a classe comercial da época — que mais tarde se consolidaria como burguesia — realizasse a chamada acumulação primitiva de capital.
Esse capital inicial, oriundo de sangue, saque, sofrimento, humilhações e mortes, foi essencial para financiar a Revolução Industrial, que teve início no século XVIII na Inglaterra. Mais tarde, esse processo espalhou-se pela Europa, impulsionado principalmente pelos países que enriqueceram com as grandes navegações e com a colonização na África e nas Américas, como a França e a Holanda.
Para entender como chegamos até aqui, precisamos voltar no tempo. A burguesia surgiu por volta do século XI, impulsionada por avanços técnicos na agricultura, que levaram a um aumento da população durante o feudalismo. Nesse cenário, as Cruzadas — guerras religiosas organizadas pela Igreja — reabriram as rotas comerciais entre o Ocidente e o Oriente, fazendo com que as cidades e o comércio renascessem. Nesse novo ambiente, os mercadores acumulavam cada vez mais riquezas. Tratava-se de uma classe social em clara ascensão econômica, embora o poder político ainda estivesse nas mãos da nobreza (a aristocracia feudal).
É desse longo processo histórico — que começou nos burgos (cidades medievais), expandiu-se com o comércio oriental, fortaleceu-se nas cidades italianas, mudou a mentalidade das pessoas com o Renascimento, dominou continentes com as navegações e revolucionou a produção com a máquina a vapor — que a burguesia impôs o capitalismo no mundo e tornou-se a classe dominante. A escravidão, abençoada pela Igreja Católica, esteve diretamente a serviço desse projeto.
O papel da Igreja, contudo, foi além de abençoá-la jurídica e teologicamente. Na América Latina, por exemplo, a catequização muitas vezes desarmou cultural e fisicamente os povos indígenas, facilitando a ação violenta dos bandeirantes na caça e escravização desses povos. Além disso, a própria Igreja Católica foi proprietária de engenhos e de milhares de pessoas escravizadas na produção de cana-de-açúcar por séculos. Foram escravos que ergueram boa parte das igrejas construídas no Brasil no período colonial.
Não é de hoje que a instituição tenta reescrever seu papel na história para se autopreservar. Logo nos primeiros séculos, após se tornar a religião oficial do Império Romano, a Igreja passou a perseguir quem não fosse cristão. Na Idade Média, aliou-se a reis e dinastias que atuavam como seus “cães de guarda” contra invasões, protegendo as imensas extensões de terra, ouro e poder que o clero possuía. Essas dinastias impuseram o catolicismo pela espada. Séculos depois, para fortalecer as monarquias absolutistas (e a si mesma), a Igreja justificou a colonização e o tráfico negreiro, afirmando que o poder dos reis provinha diretamente de Deus.
Essa postura de aliança com os poderosos continuou no século XX. No início do nazismo, o Vaticano assinou acordos que neutralizaram a oposição católica a Hitler (a Concordata de 1933) e, mais tarde, setores majoritários da Igreja formaram o braço direito de violentas ditaduras militares na América Latina. Nos países do bloco socialista, onde a burguesia havia sido expropriada, mas o Estado acabou burocratizado pelo stalinismo, a liderança da Igreja Católica não apoiou os trabalhadores que lutavam por uma verdadeira democracia operária. Em vez disso, aliou-se à CIA e a grupos que defendiam o retorno do capitalismo, destruindo a propriedade coletiva.
Não negamos a importância histórica de um pedido de desculpas, mas a instituição faz isso pressionada pela realidade, e não por puro arrependimento. Em 2023, o Vaticano já havia repudiado a “Doutrina da Descoberta” devido à forte pressão dos povos indígenas, e o Papa Francisco já havia se desculpado pela violência colonial no Canadá e na Bolívia. Esse recuo atual é fruto de séculos de resistência de quem sofreu a escravidão na pele e de seus descendentes, que lutam até hoje por dignidade. É também o reflexo de uma instituição que perdeu milhões de fiéis para outras religiões e precisa se adaptar para continuar influente.
Hoje, o capitalismo vive uma fase de decadência e barbárie. A Igreja não atua para ajudar a classe trabalhadora a superar esse sistema, mas para dar sobrevida a ele, vendendo ilusões que atrasam a aquisição de consciência pelo povo. Para piorar, o Vaticano abriga e financia, com bilhões de dólares arrecadados em todo o mundo, alas ultraconservadoras e de extrema-direita.
Sabemos que a Igreja possui um patrimônio bilionário em imóveis históricos pelo mundo, mas suas receitas são descentralizadas e muitas dioceses gastaram fortunas nos últimos anos pagando indenizações de processos de abuso sexual (o que é uma migalha frente aos crimes bárbaros que cometeram). O ponto central, portanto, não é apenas o dinheiro guardado, mas o papel de dominação ideológica que a Igreja exerce, atuando ao lado dos ricos para frear processos revolucionários. A religião católica insta o povo pobre e os trabalhadores a se resignarem à miséria e à injustiça em que vivem, em nome da salvação da alma.
Por isso, há tanta indignação com a hipocrisia desse pedido de desculpas do Papa Leão XIV, que não vem acompanhado de ações concretas para os povos que foram saqueados e hoje amargam a miséria e o racismo estrutural. Uma retratação de verdade exige muito mais do que palavras. A Igreja Católica deveria:
- Criar um grande fundo global financiado por suas riquezas para ações de reparação histórica;
- Exigir publicamente dos governos a demarcação e titulação imediata das terras quilombolas e indígenas;
- Apoiar a criação de impostos progressivos sobre as grandes fortunas e heranças dos bilionários, assim como a expropriação das fortunas surgidas pela escravidão, revertendo esses valores em moradia, saúde e educação para as periferias;
- Defender que as instituições religiosas paguem impostos sobre seus grandes faturamentos comerciais;
- Praticar a verdadeira tolerância religiosa, com o combate ao racismo religioso contra as religiões de matriz africana.
Nada apagará o passado de uma instituição que sobreviveu à queda de Roma e ao fim do feudalismo, sempre se adaptando para servir aos novos senhores da vez: a burguesia. Não estamos aqui fazendo um debate teológico, criticando a Bíblia ou questionando a fé de cada trabalhador — que deve ser respeitada. O objetivo é que a classe trabalhadora conheça a fundo a história real das instituições para que possa exigir coerência entre as palavras e a prática.
Referências:
Revista Piauí. Hitler, Mussolini e o Papa.
Lucas Ferraz. Abertura de arquivo secreto: Vaticano abre os segredos do pontificado de Pio XII.
Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Igreja, entre o apoio e a resistência ao golpe civil-militar de 1964. Entrevista especial com Antônio Cechin.
CartaCapital. Conclave vigiado: como a CIA fez do Vaticano um campo de batalha da Guerra Fria.
BERNSTEIN, Carl; POLITI, Marco. Sua Santidade: João Paulo II e a História Oculta do Nosso Tempo. Rio de Janeiro: Record, 1996.
