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Home»Internacional»A universidade saiu às ruas para enfrentar os cortes de Milei
Internacional

A universidade saiu às ruas para enfrentar os cortes de Milei

Por: Mariana Romero*, GOI da Argentina
20/05/2026Nenhum comentário8 Mins Read
Marcha Universitária em 12 de maio de 2026
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Defender a educação pública como bandeira da classe trabalhadora torna-se indispensável!

Mais de um milhão e meio de pessoas se mobilizaram em todo o país durante a 4ª Marcha Federal Universitária, em 12 de maio, numa das maiores demonstrações de força social contra os cortes do governo de Javier Milei. A mobilização em massa do dia confirmou que a defesa da universidade pública continua sendo uma bandeira profundamente enraizada na consciência popular, mas também colocou em evidência um desafio político central: transformar essa enorme força social em um plano de luta progressista e unificado de toda a classe trabalhadora, capaz de enfrentar não apenas os cortes na educação, mas todo o programa de austeridade.

Todas as universidades públicas da Argentina registraram salas de aula vazias, laboratórios paralisados, aulas públicas nas ruas, professores em greve, estudantes organizando assembleias e comunidades inteiras mobilizadas em defesa da educação pública. Não se trata de episódios isolados nem de um conflito meramente setorial. O que atravessa hoje o sistema universitário argentino é uma crise estrutural que coloca em questão o próprio sentido da universidade pública e seu lugar em um país submetido a um novo ciclo de ajuste.

O ataque à universidade pública não pode ser analisado fora do contexto político e econômico atual. O governo de Javier Milei promove um programa de guerra social contra a classe trabalhadora: demissões, diluição salarial, destruição de políticas públicas e transferência de recursos aos grandes grupos econômicos. Nesse esquema, a educação, a saúde e a ciência voltam a ser consideradas “gastos” e, portanto, alvos privilegiados de cortes.

Mas seria um erro limitar a crítica apenas ao governo nacional. O ajuste não avança apenas por decisão da Casa Rosada: ele precisa de governadores, legisladores, reitores e dirigentes sindicais dispostos a administrar suas consequências.

Uma universidade em estado de emergência

Hoje, as universidades nacionais atravessam uma situação-limite. O orçamento está praticamente congelado diante de uma inflação persistente; os salários de docentes e não docentes continuam perdendo poder aquisitivo; as bolsas de estudo são insuficientes; os hospitais universitários funcionam sob pressão e inúmeras pesquisas estão paralisadas.

Os dados mostram uma orientação política clara: esvaziar para disciplinar.

Não se trata de “falta de recursos”, trata-se de prioridades, porque dinheiro há. Enquanto se garante o pagamento da dívida e se cumprem as exigências do Fundo Monetário Internacional, condena-se a universidade pública à deterioração; e isso tem consequências concretas:

  • demissões de docentes por salários de miséria;
  • pluriemprego e precarização do trabalho;
  • abandono dos estudos por motivos econômicos;
  • deterioração da infraestrutura, científica e tecnológica;
  • encerramento de programas de extensão e acompanhamento.

Quando um governo decide que a educação deve ser um privilégio e não um direito, ele redefine o país que pretende construir: um país para poucos.

A crise é federal: da Universidade de Buenos Aires à Patagônia, do norte ao sul

O ajuste não atinge uma universidade isolada: atinge todo o sistema universitário nacional.

A Universidade de Buenos Aires (UBA), a maior universidade do país, com mais de 300 mil estudantes, vem denunciando o colapso orçamentário de seus hospitais universitários, a impossibilidade de sustentar a pesquisa científica e a perda salarial de milhares de docentes.

A Universidade Nacional de Córdoba (UNC), berço da Reforma Universitária de 1918, voltou a mobilizar dezenas de milhares de estudantes, professores e trabalhadores, reivindicando aquela tradição histórica de luta por uma universidade pública, gratuita, laica e democrática.

A Universidade Nacional de La Plata (UNLP), um dos centros científicos mais importantes da América Latina, denunciou que o corte de verbas compromete laboratórios, projetos estratégicos e programas de extensão territorial.

No norte da Argentina, a situação também é crítica: a Universidade Nacional de Tucumán, a Universidade Nacional de Salta, a Universidade Nacional de Jujuy e a Universidade Nacional do Nordeste denunciaram cortes orçamentários, paralisação das obras de infraestrutura e dificuldades para manter as bolsas de estudo.

Na Patagônia, universidades como a Universidade Nacional do Comahue, a Universidade Nacional da Patagônia e a Universidade Nacional de Río Negro enfrentam, ainda, um problema adicional: o custo de funcionamento é muito maior devido à extensão territorial, ao transporte e aos serviços, o que torna ainda mais brutal o impacto do ajuste.

É por isso que o conflito universitário não é específico de Buenos Aires nem setorial: é profundamente federal.

Raízes históricas de uma crise persistente

A crise atual não surgiu com Milei; durante os anos 90, sob o governo de Carlos Menem, a universidade foi reorganizada com base em critérios neoliberais: eficiência, concorrência, avaliação contínua e busca por financiamento privado. A aprovação da Lei do Ensino Superior, em 1995, consolidou uma lógica de mercantilização que nunca foi revertida.

Os governos kirchneristas ampliaram o orçamento e o número de matrículas, mas mantiveram intacta essa arquitetura estrutural. Houve expansão, mas não transformação de fundo. Mais estudantes ingressaram, sim; mas a desigualdade persistiu: mais acesso formal, menos igualdade material. A universidade se popularizou, mas a permanência continuou sendo um privilégio.

Os limites do peronismo provincial e a cumplicidade dos governadores

Seria um erro pensar que o ajuste se explica apenas por Milei. O governo nacional pode aplicar seu programa porque há uma rede de governadores que, mesmo se declarando opositores, garantem a governabilidade.

Na Província de Buenos Aires, Axel Kicillof denuncia o ajuste nacional, mas administra suas consequências sem romper com o quadro de austeridade. O mesmo ocorre com outros governadores provinciais do peronismo: Ricardo Quintela, Osvaldo Jaldo, Gildo Insfrán e Sergio Ziliotto.

Todos questionam retoricamente a “motosserra”, mas nenhum promove uma ruptura real com o programa de ajuste, e isso fica evidente porque não rejeitam o acordo com o FMI, não rompem com o pagamento da dívida, não colocam o orçamento para a educação como prioridade absoluta, nem convocam uma mobilização sustentada. Tudo se resume a uma fórmula conhecida: administram o ajuste enquanto dizem enfrentá-lo. Essa é a verdadeira cumplicidade.

A quarta Marcha Nacional Universitária: uma manifestação histórica

Em 12 de maio de 2026, realizou-se a quarta Marcha Nacional Universitária desde o início do governo de Javier Milei. Embora a grande mídia tenha se encarregado de não transmiti-la e de evitar que se falasse dela, não foi apenas mais uma mobilização.

Foi uma manifestação política de enorme magnitude: centenas de milhares — mais de um milhão e meio em todo o país, segundo várias estimativas — participaram em Buenos Aires, Córdoba, La Plata, Rosario, Mendoza, Tucumán, Neuquén, Salta e dezenas de cidades.

A mobilização em massa revelou algo fundamental: a universidade pública continua sendo uma causa popular profundamente enraizada na consciência social argentina.

Marcharam professores, funcionários não docentes, estudantes, cientistas, artistas, sindicatos, organizações sociais e famílias inteiras. Isso demonstra que a defesa da universidade deixou de ser uma reivindicação exclusivamente universitária para se tornar uma bandeira de todo o povo trabalhador.

Mas toda grande mobilização levanta uma questão política: o que fazer com essa força?

Ultrapassar a burocracia sindical: organizar um plano de lutas progressivo

A quarta marcha demonstrou força social; agora é preciso transformar essa força em organização política. Não basta realizar marchas isoladas ou jornadas simbólicas; é necessário um plano de luta progressivo e unificado:

  • greve nacional da educação;
  • coordenação entre universidades, escolas e instituições de ensino superior;
  • assembleias em cada local de trabalho e estudo;
  • plenárias de delegados com mandato;
  • articulação com trabalhadores e trabalhadoras da saúde, do setor público e da indústria.

Tudo isso é fundamental para a preparação de uma greve geral que derrote definitivamente o plano econômico de Milei; porque a classe trabalhadora não só tem capacidade de resistir, mas também potencial para disputar a liderança política!

A burocracia sindical demonstrou seus limites; muitas lideranças administram o conflito, fragmentam a luta e negociam derrotas parciais. Convocam mobilizações, mas evitam levá-las às suas últimas consequências. Chamam à luta, mas freiam a possibilidade de uma verdadeira greve nacional que unifique todas as reivindicações.

A defesa da universidade pública não pode ficar subordinada a essa lógica. A classe trabalhadora precisa se organizar a partir da base, democraticamente, com independência política, para enfrentar não apenas uma medida do governo, mas um regime social que pretende descarregar a crise sobre aqueles que vivem de seu trabalho.

Unificar as lutas para derrotar o ajuste

A luta universitária deve se unir aos e às trabalhadoras e trabalhadores que enfrentam demissões, àqueles que lutam por salários, àqueles que defendem a saúde pública, ao movimento estudantil, aos movimentos sociais e ao conjunto da classe trabalhadora.

Porque o problema não é apenas educacional; o que está em debate é um modelo de país. Defender a educação pública hoje implica enfrentar e derrotar o ajuste em todas as suas formas: o ajuste brutal de Milei e também as administrações provinciais que, com outro discurso, garantem sua continuidade.

Porque, quando atacam a universidade pública, não atacam apenas professores e estudantes. Atacam o futuro de todo um povo, e essa luta não se delega. Ela se organiza, se constrói e se vence nas ruas!

*Delegada escolar do SUTEBA (Sindicato Unificado dos Trabalhadores da Educação da Província de Buenos Aires)

Argentina educação Marcha Universitária Milei peronismo
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