Este texto parte de um acordo com a política eleitoral já aprovada por nossa Direção Nacional, ou seja, que, qualquer que seja a tática que usemos, ela deve estar a serviço da política de “Contra Lula e Bolsonaro, no 1º e no 2º turnos”. Esta política, já aprovada, que nos diferencia de praticamente todas as organizações da esquerda brasileira, que não nos confunde com nenhum dos campos burgueses em disputa, é um grande acerto de nosso jovem movimento.
E dentro desta política geral, cabem várias táticas: o voto nulo, o boicote às eleições, o voto em branco, o lançamento de uma anticandidatura, o voto no PSTU e, inclusive, o voto em outras candidaturas, como a da UP ou a do PCB. Podem ser táticas melhores ou piores, corretas ou erradas, mas nenhuma delas está em contradição com a política principista por nós já aprovada.
Portanto, estamos diante de uma discussão puramente tática. E, por isso, o debate tem que ser tranquilo. Quem defende uma destas possíveis táticas acima não é melhor ou pior revolucionário do que quem defende outra delas, já que todas estão de acordo com nossa política de “Contra Lula e Bolsonaro, no 1º e no 2º turnos”. Debates muito acalorados de tática eleitoral, entre revolucionários, são sintoma de que algo não está bem. Ou há uma pressão oportunista, ou uma pressão sectária. Pois não estamos nessa para eleger alguém. Para os aparatos, as disputas de tática eleitoral são de vida ou morte, pois vivem disso. Para nós, não.
Dito isso, o que determina nossa tática? Como definir qual delas é a melhor para nós? Como é uma questão tática, já que nossos princípios estão resguardados pela correta política de “Contra Lula e Bolsonaro, no 1º e no 2.º turnos”, a resposta não estará nos livros, na teoria nem na lógica. O critério é muito simples: qual destas táticas nos ajuda mais a construir nosso partido ao redor da política de “Contra Lula e Bolsonaro, no 1º e no 2º turnos”? Qual delas permitirá maior alcance para essa nossa política?
Bom, não há resposta óbvia. Depende de onde queremos nos construir. Em conversa com companheiros que militam na educação no RS, estes argumentaram que, para se construírem, o melhor seria apoiar a candidatura de Rejane, do PSTU, ao governo do estado do RS, pois esta candidatura conta com a simpatia de todo um setor de professores indignado com o apoio do PT e do PSOL à candidatura burguesa de Juliana Brizola, que até pouco estava no governo Leite. Me parece que estes camaradas têm razão. Por outro lado, conversando com camaradas que atuam na juventude de periferia, onde as candidaturas do PSTU são inexpressivas, onde não tocam, pois não expressam nenhum conteúdo antirregime, o voto nulo ou uma anticandidatura do Altino (uns gostam mais de uma, outros de outra, todos com bons argumentos) causaria grande simpatia, refletindo o ódio e a desconfiança destes setores na democracia burguesa. Parece-me que estes camaradas também têm razão. Conversando com um pequeno grupo anarquista, estes também deram bons argumentos para defender o boicote às eleições. Por outro lado, vendo os números da candidata da UP à presidência nas pesquisas e a quantidade de ativistas que eles têm reunido, é possível que possam juntar ao seu redor um setor expressivo de vanguarda, que devemos disputar, o que seria também um argumento para indicar voto nessa candidatura. É uma vanguarda combativa, que não quer votar em Lula; por isso, vota na UP. Obviamente, no 2º turno, a UP trairá estes votos que, de conteúdo, são contra o PT, para que migrem para Lula. Isso não se dará sem crises. Ficaremos só olhando ou disputaremos? Tampouco está descartado que o PSTU ocupe este espaço “contra todos”, apesar de parecer pouco provável, pois é uma organização muito decadente. Em qualquer caso, nosso voto não seria uma adesão, mas um voto muito crítico, para disputar a linha da campanha, denunciando ambas as organizações por não serem consequentes no combate ao lulismo.
Poderíamos fazer uma opção, de apostar em um determinado setor de militância e definir a tática que melhor se aplica para amplificar nossa política neste setor, mas com prejuízo em outros setores. Parece-me que é o que fazem os camaradas que defendem voto nulo ou voto em Hertz.
Mas o que é importante, de fato, aqui? Que os ativistas que optarem por votar nulo, por votar numa anticandidatura, por boicotar as eleições, por votar no PSTU ou mesmo na UP/PCB, todos estão aplicando nossa política “Contra Lula e Bolsonaro”. Pelo menos no 1º turno. E queremos atingir todos esses, pois são o que há de melhor no ativismo. Não teria sentido, perante um ativista que quer votar nulo porque odeia Lula, Bolsonaro e o sistema, convencê-lo a votar no PSTU. Ele já está com nossa política de “Contra Lula e Bolsonaro”. Da mesma forma, seria vazio tentar convencer alguém que vota no Hertz a votar nulo. O mesmo para quem defende votar na UP ou chamar o boicote às eleições. Ou seja, o estratégico para nós não deve ser uma disputa sobre a forma concreta do voto, mas seu conteúdo: “Contra Lula e Bolsonaro”.
Parece-nos, portanto, que o melhor para nossa construção, e que não entra em contradição com nossa política, é encontrar uma tática que atinja todos estes setores.
Houve uma experiência assim na Rússia, ainda antes da ocupação da Crimeia, quando ainda era possível fazer política de forma mais aberta por lá. Havia um forte sentimento anti-Putin no ativismo, mas este se dividia entre os que queriam votar nulo, boicotar, votar “contra todos” (havia essa opção), votar em qualquer partido de “oposição” contra Putin, etc. E viviam numa disputa fratricida entre seitas, disputando quem era mais revolucionário. Nosso partido lá de então, o POI, teve então uma política oposta, de que todos que votavam contra Putin, de uma forma ou de outra, eram grandes ativistas, e que era necessário uni-los para seguir lutando contra Putin pós-eleições, pois Putin só poderia ser derrotado nas ruas. E assim se discutia com todos, com os que boicotavam, com os que anulavam, com os que votavam “contra todos”, com os que votavam no PC tapando o nariz, etc. Obviamente, dentro das modestas forças do POI.
Acreditamos que devemos buscar algo semelhante como tática eleitoral, uma tática aberta e flexível, que permita colar nos professores do RS, nos jovens de periferia, na base da UP, e assim por diante. E neste marco, de combate a Lula e Bolsonaro, desmascarar o PSTU, a UP, o PCB, etc., por sua vacilação no combate ao governo Lula (a UP sequer toca no assunto), em especial chamando todos estes setores a não votarem nem em Lula nem em Bolsonaro no 2º turno, contra a orientação de todas essas organizações.
Diremos: “Vote contra Lula e contra Bolsonaro!” a todos os ativistas. Aos que consideram que devemos boicotar as eleições, diremos: “muito bem, estamos juntos! Mas devemos trabalhar junto com aqueles que votam nulo ou que votam em candidaturas à esquerda”. Aos que votam no PSTU ou na UP, diremos: “muito bem, estamos juntos, contra Lula e Bolsonaro. Mas devemos ser contra Lula e Bolsonaro também no 2º turno, e nos unirmos aos que boicotam ou votam nulo, para combatermos nas ruas qualquer um que ganhe, pois qualquer um deles irá governar para a burguesia”. O mesmo para os que têm simpatia por anular o voto.
Repetindo, muito mais importante do que dizer a um ativista que pretende votar em Hertz ou Samara “anulem seus votos”, o que seria estéril; ou vice-versa, dizer a alguém que pretende votar nulo “vote em Hertz”, seria dizer “muito bem, apoiado, o importante é votar contra Lula e Bolsonaro. Façamos isso juntos, no 1º e no 2º turnos!”. Desta forma, deslocamos o debate da forma concreta do voto “Contra Lula e Bolsonaro” para o conteúdo geral que nos interessa: ganhar estes ativistas a serem contra as duas opções burguesas, no 1º e no 2º turnos, e assim desmascarar suas direções oportunistas que pretendem votar em Lula no 2º turno, além de combater o regime democrático-burguês e chamar a organizar a luta contra qualquer um que porventura vença as eleições.
Em cada setor ou situação, podemos adaptar esta política, de maneira a colar no setor que nos interesse mais, e inclusive definir apoios concretos a alguma candidatura local ou voto nulo, por exemplo. Nos estados, a crise tende a ser maior, pelo menos em parte deles, por não terem figuras com o peso de Lula e por girarem ainda mais à direita. Já citamos que, no RS, PT e PSOL não lançarão candidatos próprios e apoiarão a candidatura burguesa de Juliana Brizola. Da mesma forma, em SC, PT e PSOL apoiarão a candidatura de Merísio, bolsonarista arrependido, o que tem gerado crise nas bases destes partidos. Em situações assim, é possível que candidaturas à esquerda, como o PSTU e a UP, tenham um espaço muito superior ao de eleições passadas. Em tais casos, podemos avaliar, em cada estado, o chamado ao voto.
Esta tática não tem nada a ver com liberar o voto. Repetindo, o fundamental é transladar o centro de gravidade do voto em si, voto nulo x voto no candidato tal, para o porquê do voto ter um conteúdo anti-Lula e anti-Bolsonaro nos dois turnos. Significa compreender que a forma concreta do voto é secundária em relação ao conteúdo de “Contra Lula e Bolsonaro”. O fundamental é combater os dois campos burgueses (ou três, caso se afirme uma terceira candidatura burguesa expressiva, como Caiado/Zema), com as armas que forem. E preparar as condições para combater qualquer um que ganhar as eleições. E que tenhamos flexibilidade para aproveitar os diferentes espaços. Com um objetivo claro, construir o MPR, ganhando os melhores ativistas “contra Lula e Bolsonaro”, independentemente do formato concreto que estes escolherem para expressar seu voto.
