Contra a violência machista e as medidas de austeridade que desmantelam as políticas de gênero. Onze anos após o primeiro grito coletivo, neste dia 3 de junho, voltamos às ruas!
Onze anos após o surgimento do movimento Ni Una Menos, a violência machista continua ceifando vidas, enquanto o governo de Javier Milei aprofunda o desmantelamento – das já poucas e com escasso financiamento – das políticas públicas, supostamente destinadas a preveni-la e combatê-la. Os feminicídios não diminuem; a pobreza atinge com maior dureza as mulheres trabalhadoras e as dirigentes da CGT e das CTAs mantêm uma passividade inadmissível diante de um ajuste que também tem rosto de mulher, especialmente de mulher trabalhadora. Neste dia 3 de junho, voltamos às ruas para exigir justiça por Agostina e por todas as vítimas da violência machista, reivindicar orçamento e políticas de gênero. Exigindo uma greve nacional que una a luta contra a opressão a todas as lutas contra o ajuste econômico.
3 de junho: onze anos de luta, uma emergência que continua
Quando centenas de milhares de pessoas lotaram as praças do país em 3 de junho de 2015, ficou claro que a violência machista não era um problema privado nem uma soma de casos isolados. Era uma problemática estrutural que atravessava toda a sociedade e, sobretudo, a classe trabalhadora.
Onze anos depois, a realidade demonstra que aquela mobilização histórica conseguiu instigar o debate e conquistar direitos importantes, mas não pôde pôr fim à violência de gênero.
De acordo com o Observatório Ahora Que Sí Nos Ven, entre junho de 2015 e maio de 2026, foram registrados mais de 3.200 homicídios relacionados à violência de gênero, incluindo feminicídios, transfeminicídios, travesticídios e feminicídios relacionados. Por trás de cada número há projetos de vida interrompidos, famílias destruídas e milhares de meninas e meninos que cresceram sem suas mães.
Até agora, no governo de Milei, os feminicídios somam 1 a cada 31/33 horas, totalizando 300 por ano. A persistência e o aumento desses crimes revelam que a violência machista continua sendo uma das expressões mais brutais das desigualdades que atravessam a sociedade argentina.
O crime que comoveu o país
O desaparecimento e o posterior assassinato de Agostina Vega, de apenas 14 anos, provocaram profunda comoção social. Seu nome se soma a uma lista que não deveria existir. Como ocorre em tantos casos, a indignação coletiva volta a evidenciar a insuficiência das respostas do Estado diante da violência contra mulheres, meninas e adolescentes. Não procuraram Agostina “porque achávamos que ela estava com um namoradinho”; o assassino (Gabriel Barrelier) havia sido solto por um crime de sequestro e o promotor do caso, Raúl Garzón, ao tomar conhecimento do brutal feminicídio, não teve ideia melhor do que parabenizar os cães farejadores e evitar chamar o assassinato e o desmembramento de Agostina de “feminicídio”.
Agostina deveria estar planejando seu futuro. Hoje, ela transforma-se em bandeira de luta e símbolo de uma realidade intolerável. Seu assassinato evidencia a necessidade urgente de fortalecer todos os mecanismos de prevenção, proteção e assistência às vítimas de violência de gênero.
Ajuste de classe: quando o Estado criminaliza as mulheres trabalhadoras
O governo promove projetos que colocam o foco do debate nas chamadas “denúncias falsas”. A principal impulsionadora dessa agenda é a senadora Carolina Losada, que propõe alterações no artigo 245 do Código Penal para endurecer as penas contra quem fizer denúncias consideradas falsas. Na Câmara dos Deputados também há antecedentes nesse sentido, impulsionados por setores libertários.
Para as mulheres trabalhadoras, o problema de fundo é outro. Longe de haver uma epidemia de denúncias falsas, milhares de situações de violência nunca chegam a ser denunciadas. O medo, a dependência econômica, a revitimização judicial, as ameaças e a falta de respostas do Estado continuam sendo obstáculos permanentes para milhares de nós. Os dados falam por si: um relatório do Observatório de Violência de Gênero do Ministério Público analisou mais de 8 milhões de processos criminais em 17 províncias entre 2023 e 2025; as denúncias falsas representaram 0,09% do total e os depoimentos falsos, 0,025%. Este dado refuta empiricamente a premissa central do projeto de lei! Então, o que esta lei busca? O projeto para endurecer o artigo 245 do Código Penal não busca “segurança jurídica”, mas sim disciplinar a força de trabalho feminina. Enquanto o Estado corta abrigos e assistência jurídica, desvia o foco do debate para os 0,09% de “denúncias falsas” a fim de individualizar um problema estrutural.
O objetivo concreto é claro: gerar medo de denunciar e manter a dependência econômica que prende milhares de mulheres trabalhadoras ao lar e ao trabalho precário. É a imposição que funciona como violência: o Estado, enquanto aparato da classe dominante, utiliza o direito penal para garantir mão de obra barata e impedir que o conflito deixe de ser responsabilidade de quem governa. Por isso, enquanto se discutem punições mais severas para quem faz denúncias falsas, o verdadeiro debate deveria centrar-se em como garantir acesso efetivo à justiça, proteção integral e acompanhamento às vítimas.
Enquanto a violência machista continua sendo uma emergência social, o governo nacional avança com uma política sistemática de desmantelamento dos poucos e mal financiados programas destinados a combatê-la. O fechamento do Ministério das Mulheres, Gêneros e Diversidade, o esvaziamento de áreas especializadas, os cortes orçamentários e a redução de equipes territoriais constituem parte de uma orientação política que considera os direitos conquistados como um gasto dispensável. No entanto, por trás de cada programa eliminado, há mulheres concretas que perdem acesso à assistência jurídica, ao acompanhamento psicológico, a subsídios de emergência e a espaços de acolhimento diante de situações de violência extrema.
O governo, em sua “batalha cultural”, proibiu o uso do termo “feminicídio” em todos os órgãos do Estado. Busca, como disse Milei, “tirar peso” dos assassinatos de mulheres. O que ele omite é que, tanto no caso de Agostina quanto na imensa maioria dos feminicídios, os responsáveis são homens e o motivo decorre de uma estrutura em que a mulher é tratada como objeto: de consumo, de posse ou de descarte. Quando se cortam as já escassas políticas públicas, aumenta a vulnerabilidade. Quando se destroem os dispositivos de assistência, fortalecem-se as condições que permitem que a violência continue.
Por isso, o ajuste não é uma discussão econômica abstrata. Tem consequências diretas na vida de milhões de mulheres trabalhadoras. São a expressão mais extrema de uma estrutura social atravessada por desigualdades econômicas, culturais e políticas. As mulheres continuam suportando níveis mais altos de precarização do trabalho, salários mais baixos, sobrecarga de tarefas domésticas e de cuidados não remunerados, além de múltiplas formas de discriminação e de violência. Nos bairros populares, onde o ajuste atinge com mais força, essas desigualdades se aprofundam. Por isso, a luta contra a violência de gênero não pode ser separada da luta por trabalho, moradia, saúde, educação e orçamento para políticas públicas. Também é imprescindível avançar nas condições materiais que, muitas vezes, impedem a saída de relações afetivas violentas: a dependência econômica, a falta de moradia e a feminização da pobreza.
É possível reverter essa situação
Não existe uma solução única para uma problemática que tem raízes econômicas, sociais, culturais e políticas no sistema capitalista. Mas existem medidas concretas que poderiam contribuir para reduzir a violência de gênero:
- Declarar Emergência Nacional em matéria de violência contra a mulher.
- Garantir o orçamento necessário destinado a políticas de prevenção e assistência.
- Salário igual para trabalho igual, com controle das organizações de trabalhadoras e trabalhadores.
- Comitês de trabalhadoras e trabalhadores contra a violência de gênero nos locais de trabalho e de estudo.
- Direito efetivo ao aborto legal, seguro e gratuito e acesso universal à saúde reprodutiva.
- Redução da jornada de trabalho sem redução salarial, para distribuir o trabalho existente e combater o desemprego.
- Acesso pleno aos direitos trabalhistas para todas as trabalhadoras, inclusive as que trabalham na informalidade ou no emprego doméstico.
- Desenvolvimento massivo de serviços públicos de assistência (creches, refeitórios, lavanderias públicas), financiados pelo Estado e administrados com a participação de trabalhadoras e trabalhadores e das comunidades.
- Defesa irrestrita da educação e da saúde públicas.
É necessário fazer um balanço político que abranja os diferentes governos que se sucederam desde 2015 — peronistas, radicais e, atualmente, libertários — que não conseguiram reverter uma realidade que continua ceifando vidas. As conquistas obtidas nesses anos, que o governo de Milei pretende erradicar, não foram concessões dos governos nem uma iniciativa surgida das instituições. Foram produto da mobilização de milhões de mulheres, pessoas de diversas identidades, trabalhadoras e trabalhadores e jovens, que conseguiram impor suas reivindicações por meio da organização e da luta.
Consideramos que é necessário construir uma ferramenta política revolucionária, que organize a revolta contra este sistema capitalista que nos mata todos os dias; essa violência não pode ser dissociada das condições materiais em que vivem milhões de mulheres. A precarização do trabalho, os baixos salários, a falta de moradia, a sobrecarga de tarefas de cuidado e a dependência econômica constituem fatores que agravam situações de vulnerabilidade e opressão. É por isso que a luta contra a violência machista não se ganha nos tribunais. Ela se ganha transformando as condições materiais da maioria da classe trabalhadora. E essa luta a vencemos juntos: homens e mulheres trabalhadores contra o mesmo inimigo, o capital que lucra com a precariedade; enquanto a organização priorizar os lucros em detrimento da vida, a violência continuará sendo funcional ao sistema. Dividir-nos é o que o ajuste precisa. Unir-nos é o que o fere.
A dívida da CGT e das CTAs
A violência machista não pode ser combatida apenas pelas organizações políticas de esquerda ou feministas. Ela também deve ser uma causa central do movimento operário organizado. Porque são as mulheres trabalhadoras e pobres que mais sofrem com o machismo e têm menos recursos para se defender. Elas sofrem uma dupla opressão, por serem mulheres e por serem trabalhadoras; são exploradas e oprimidas. Nós, mulheres, somos maioria em setores estratégicos como educação, saúde, administração pública e serviços. Somos também quem suporta a maior carga de trabalho doméstico e de cuidados não remunerados.
A CGT e as CTAs, com sua passividade, permitem que o ajuste econômico de Milei e companhia seja aplicado. Diante da Reforma Trabalhista, que é o ataque mais forte à classe trabalhadora em décadas, suspenderam as greves para seguir pela “via judicial”. O resultado? A Reforma Trabalhista está em pleno vigor e a CGT e as CTAs não dizem uma única palavra a respeito. Com as mulheres acontece o mesmo ou pior. Agora convocam uma marcha pacífica, sem greve, para “mostrar” descontentamento com o governo de Milei. Um governo que se dedicou a perseguir, reprimir e aplicar medidas de austeridade contra trabalhadores, aposentados, pessoas com deficiência e mulheres.
Cada demissão no setor público e/ou privado, cada deterioração salarial, tem um impacto diferenciado sobre nós. Por isso, é impossível separar a luta contra a violência machista da luta contra a austeridade. As dirigentes sindicais têm a responsabilidade de convocar um verdadeiro plano nacional de lutas que unifique todas as demandas populares: salários, emprego, orçamento para a educação, saúde pública, defesa das aposentadorias e políticas contra a violência de gênero. E nós, trabalhadores e trabalhadoras, devemos impor, a partir de cada lugar e com a raiva dos cortes que sofremos, as medidas necessárias para que isso aconteça. Em primeiro lugar, assembleias de base e reuniões de ativistas. E se os dirigentes sindicais acomodados e subornados não se mexerem, temos que retomar o caminho que tantas vezes serviu aos trabalhadores e trabalhadoras: impulsionar medidas, ultrapassar as lideranças e impor ações em nossa defesa.
Neste dia 3 de junho, devemos exigir que a CGT e as CTAs rompam com a passividade e convoquem uma greve nacional, com mobilização, para enfrentar o conjunto das políticas de austeridade.
Os feminicídios não são fatos isolados. São a expressão mais extrema de uma estrutura social atravessada pelas desigualdades econômicas, culturais e políticas do capitalismo. A dependência econômica, a precarização do trabalho, a feminização da pobreza e a crise habitacional funcionam, muitas vezes, como obstáculos concretos para que milhares de mulheres saiam de situações de violência.
Por isso, a luta contra a violência machista requer muito mais do que respostas judiciais. Ela precisa de orçamento, trabalho, moradia, educação, saúde pública e direitos sociais. Precisa enfrentar as bases materiais do sistema capitalista que reproduzem a desigualdade, lutando sem trégua contra o governo e seu ajuste pró-imperialista e construindo uma saída operária e socialista. Só assim poderemos dar espaço a uma sociedade em que o machismo não mate 1 mulher por dia e tenhamos a igualdade social que merecemos.
Neste dia 3 de junho, vamos ocupar as ruas
Onze anos depois do Ni Una Menos, continuamos levantando as mesmas bandeiras porque as causas que deram origem àquela mobilização permanecem vigentes. Voltamos às ruas por Agostina. Por aquelas que já não estão mais entre nós. Por aquelas que continuam enfrentando situações de violência todos os dias. Pelas trabalhadoras que sofrem as consequências do ajuste. Pela defesa de cada política pública conquistada ao longo de anos de luta. Porque a violência machista e o ajuste não são problemas separados: fazem parte de uma mesma realidade que descarrega a crise sobre as mulheres e os setores populares.
Por isso, neste dia 3 de junho, exigimos justiça por Agostina e tantas outras, orçamento e organização.
- Exigimos da CGT e das CTAs uma greve nacional e um plano de lutas coerente. Greve ou renunciem!
- Porque ainda nos faltam muitas.
- Porque o ajuste também é violência.
- Porque cada direito conquistado foi fruto da mobilização coletiva.
- Contra o ajuste de Milei e seu plano pró-imperialista!
- Fora Milei!
- Pelos direitos das mulheres trabalhadoras!
- Contra a Reforma Trabalhista!
- Contra a precarização do trabalho!
- Pela organização independente de nossa classe!
- Pela luta por uma sociedade socialista!
Nem uma a menos! Queremos estar vivas!
