Os povos originários trazem no sangue e no rosto a marca da resistência de sua cultura e a batalha pela sobrevivência.
Os Waiãpis são pouquíssimo conhecidos no Brasil, o que comprova a falsa ideia, defendida pela classe dominante, de que vivemos em um país de democracia e harmonia raciais — narrativa criada para encobrir profundas desigualdades históricas.
Eles possuem uma história antiga de combate aos colonialismos português, francês e holandês. No passado distante, fugiram da escravização indígena rumo à Amazônia Oriental, desde o alto rio Oiapoque, as cabeceiras do rio Jari, o Xingu e as montanhas do Tumucumaque, até as fronteiras do Amapá com a Guiana Francesa.
Foi assim que conseguiram defender sua cultura e sua língua, com pouca interferência externa. Aliás, são conhecidos como um dos povos indígenas que mantiveram o maior isolamento histórico até o século XX.
Somente na década de 1970 começaram os primeiros contatos com as aldeias, a partir da abertura da rodovia BR-210, conhecida como Perimetral Norte, que visava ligar, por terra, o Amapá ao Estado do Amazonas. Foi mais um megaprojeto da ditadura militar, que rasgou a floresta ao meio e violentou de todas as formas quem ali vivia.
Hoje, residem em uma área de 607 mil hectares, uma das terras indígenas mais preservadas do país, que abrange florestas primárias intocáveis e regiões montanhosas da Serra do Tumucumaque, ricas em recursos hídricos e minerais, como ouro, manganês e ferro.
Os Waiãpis tiveram que lutar muito desde o início para preservar suas terras, seu modo de vida e sua cultura. O profundo conhecimento da floresta, a defesa territorial e sua organização política interna foram fundamentais para conquistarem o reconhecimento de suas terras no oeste do Amapá e no norte do Pará, homologadas em 1996.
Dois anos antes, haviam se articulado por meio das lideranças de suas aldeias para criar a Apina, Conselho das Aldeias Waiãpis, para demarcar suas terras, gerir o território e defender os direitos do povo. A cobiça cada vez maior de grandes mineradoras nacionais e internacionais, garimpeiros, governos e políticos influentes ligados a essas burguesias trouxe, nos últimos 30 anos, mais violência para a Terra Indígena. A tese do Marco Temporal, em discussão no Supremo Tribunal Federal (STF), que dificulta a demarcação das terras indígenas, é mais um exemplo desse desrespeito.
Como resultado dessas pressões, avançaram a flexibilização da exploração mineral, o desmatamento ilegal e o agronegócio, acelerando a crise climática no país e no mundo.
Recentemente, vimos o enfraquecimento do licenciamento ambiental avançar por meio do Projeto de Lei 2.159/2021, considerado por ambientalistas o maior retrocesso ambiental desde 1988.
É importante destacar o papel exercido pelo senador Davi Alcolumbre (União Brasil), presidente do Senado e grande empresário amapaense, aliado político do presidente Lula e do senador Randolfe Rodrigues (PT).
A chamada Lei Geral do Licenciamento Ambiental abre espaço para obras e empreendimentos (estradas, hidrelétricas, minerações, oleodutos e gasodutos) sem análise adequada das consequências sociais e ecológicas, aumentando o risco de desmatamento, degradação florestal e poluição da água e do solo em biomas sensíveis, como a Amazônia.
Comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais podem ter seus direitos e territórios afetados sem consulta prévia adequada. Na realidade, o que fez Lula, mesmo com vetos parciais a essa lei, foi alterar as regras para facilitar a execução de projetos considerados “estratégicos ou prioritários” para o “desenvolvimento econômico” da região, com menor rigor na fiscalização ambiental.
A aprovação irresponsável da exploração de petróleo na foz do rio Amazonas pela Petrobrás, somada à continuidade das concessões cada vez maiores para a exploração devastadora da madeira nas áreas da Floresta Nacional do Amapá (FLONA) e da Floresta Estadual (FLOTA) – ambas em território amapaense – reserva 58% de seus ricos territórios preservados e intactos para a comercialização. São milhões de hectares de florestas ameaçadas de destruição, e isso precisa ser denunciado.
Lula não só deu continuidade à política degradadora do meio ambiente do governo Bolsonaro como a aprofundou, como demonstra a privatização de trechos de hidrovias, incluindo a do rio Tapajós, no Pará.
Essa devastação compromete todo um riquíssimo ecossistema e é mascarada pelo discurso de “desenvolvimento sustentável” e “manejo florestal empresarial”, defendidos pelos governos da Frente Ampla de Lula e de Clécio Luiz (União Brasil) no Amapá, que reúne partidos tradicionais da direita, além de PCdoB, PSOL e PT.
Para o bravo povo Waiãpi — assim como para trabalhadores extrativistas rurais, ribeirinhos, quilombolas e comunidades tradicionais — que veem reduzir drasticamente os frutos, a caça, a pesca, as raízes medicinais e a saúde de seus igarapés e rios, manter a floresta em pé é uma questão de sobrevivência.
Seus parceiros de classe não estão no Planalto ou no governo estadual, mas na aliança com os sindicatos e os trabalhadores da cidade, na busca e construção de uma alternativa revolucionária de partido, que saiba combinar as lutas locais e imediatas com aquelas estratégicas, de caráter socialista, apontando para a necessidade de que a classe trabalhadora e seus aliados tomem a condução da sociedade em suas próprias mãos.
