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Home»Internacional»O capitalismo prepara uma nova pandemia
Internacional

O capitalismo prepara uma nova pandemia

por: João Paulo
26/08/2026Nenhum comentário6 Mins Read
Epidemia de Ebola no Congo
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Em meio à crise do capitalismo decadente, doenças emergentes e reemergentes ganham destaque diário na mídia internacional. Um conjunto de fatores ambientais, sociais e políticos favorece o aumento vertiginoso do número de infecções e de mortes por vários tipos de vírus, bactérias e outros patógenos, que afetam principalmente o proletariado dos países oprimidos.

Um dos casos mais emblemáticos da atualidade é o surto de Ebola no Congo. Com uma taxa de mortalidade de cerca de 50%, a cepa do atual surto está se espalhando muito rapidamente, ultrapassando a velocidade de propagação de surtos anteriores. Até o momento, 2.640 mortes foram anunciadas. Assume-se hoje que, muito provavelmente, o surto tenha se iniciado por contato com morcegos na província mineira de Ituri. A falta de saneamento e de tratamento de saúde adequado, a destruição do habitat natural desses animais pela mineração, a aglomeração de milhares de mineiros (toneladas de minérios essenciais para tecnologias de ponta são exportadas pelo país) e a guerra que assola o leste do país contribuíram para o quadro atual no Congo.

Junto ao Ebola, uma série de outras doenças reemergentes que estavam “controladas” está ressurgindo. Nos EUA, está ocorrendo o maior surto de sarampo dos últimos 35 anos. O índice de vacinação abaixo da meta de imunidade de rebanho (95%) explica, em grande parte, a situação. Robert Kennedy Jr., ministro da saúde de Trump, consolidou uma política de desmonte das campanhas de vacinação. Há vacinas, mas devido às campanhas antivacina da ultradireita e ao afrouxamento das regras de vacinação, muitas crianças deixam de ser vacinadas.

A campanha anticiência e antivacina de Trump foi muito além da ideologia. Cortes internos na área de epidemiologia e vigilância sanitária, somados ao desmantelamento da agência de ajuda internacional dos Estados Unidos, provocaram escassez de vacinas em países subdesenvolvidos. Consequentemente, os esforços de contenção de várias doenças nos próprios EUA foram enfraquecidos. Devido aos cortes na área da vigilância sanitária, um parasita (Cyclospora) associado à contaminação de vegetais causou um surto de pelo menos 3 mil infecções nos EUA. O corte de fomento à ajuda humanitária em países pobres fechou cerca de 1.700 clínicas de tratamento de HIV/AIDS ao redor do mundo, principalmente na África. Estimativas indicam possíveis 160 mil e 2,2 milhões de mortes por malária e tuberculose, respectivamente, como consequência dos cortes na ajuda humanitária1. Os EUA não foram os únicos. Japão, França e Alemanha também cortaram verbas de programas e de fundos de apoio humanitário.

A principal ameaça: a gripe aviária

A gripe aviária, ou H5N1, ameaça cada vez mais. Antes, restringia-se aos animais de granja, o que já causava um imenso dano, por forçar o abate de milhares de animais em casos de surtos. Atualmente, o vírus circula em mais de 500 espécies de aves selvagens. Aves marinhas têm tido colônias dizimadas, com taxas de mortalidade gigantescas, mas não apenas isso. Após modificações evolutivas, o vírus passou a infectar mamíferos. Visons (mamíferos peludos explorados para a fabricação de casacos) foram infectados em viveiros e centenas de milhares precisaram ser abatidos na Finlândia e na Espanha. Milhares de elefantes e lobos-marinhos apareceram mortos devido à doença em praias da América do Sul, com evidências de contágio direto nas colônias. O ápice ocorreu com a infecção de vacas leiteiras e de cerca de 41 trabalhadores da pecuária leiteira nos EUA. O vírus já consegue se transmitir entre vacas, visons, leões-marinhos, felinos e já foi identificado em suínos. Essa evolução gradual do vírus aponta para uma futura adaptação da transmissibilidade entre humanos.

Crise ecológica, econômica e de saúde

Essa realidade decadente do capitalismo mostra que a crise de saúde mundial é um projeto do grande capital. Assim como a pandemia da COVID permitiu que grandes empresas tecnológicas e de comércio eletrônico acumulassem bilhões de dólares em lucros, provocassem a bancarrota de milhares de pequenas e médias empresas e destruíssem milhões de postos de trabalho, reduzindo a renda da classe trabalhadora, as múltiplas emergências de saúde atuais significam a continuidade desse estado de guerra social contra a classe trabalhadora. A falta de iniciativa para evitar uma nova pandemia não é novidade. A própria pandemia de COVID era prevista anos antes de brotar; cientistas alertavam para o perigo de uma epidemia mortal. Porém, a acumulação capitalista não podia parar. O genocídio mundial, resultante da combinação da exploração da força de trabalho humana em meio a uma pandemia, tornou-se uma equação social e, assim como as guerras, demonstrou grande proveito para a recuperação das taxas de lucro em queda.

Os cortes sociais em saúde, ajuda humanitária e saneamento por governos de esquerda e de direita em vários países; as privatizações, o próprio modelo de produção intensiva do agronegócio, que confina animais e facilita o surgimento e a proliferação de novas variantes, tudo isso é um caldo de cultivo para o surgimento de uma nova pandemia. A destruição da natureza para a abertura de novas fronteiras agrícolas e o roubo de terras públicas aumentam o contato com animais silvestres e a possibilidade de expansão e de surgimento de doenças. O aquecimento global amplia a abrangência de arboviroses, espalhando dengue, zika e febre oropouche2 para novas áreas. A aglomeração humana em polos industriais, zonas mineiras e periferias de grandes cidades é outro elemento moderno que propaga doenças a uma velocidade cada vez maior e de difícil controle.

É possível perceber, portanto, como os grandes capitalistas, de forma consciente e, ao mesmo tempo, espontaneamente, formam múltiplas crises que se alimentam. A crise de saúde é mais uma marca dessa crise mais ampla de toda a sociedade. Enquanto grandes redes farmacêuticas e de saúde enriquecem, múltiplas doenças, algumas de fácil controle, como o sarampo, expõem a classe trabalhadora ao adoecimento e à morte. A decomposição do capitalismo impõe à classe trabalhadora a necessidade de se mobilizar para colocar a tecnologia e o conhecimento científico a serviço da saúde dos trabalhadores e de toda a humanidade. Não é possível que, após a pandemia da COVID, em que trabalhadores do mundo se levantaram contra as crises do sistema capitalista (incluindo a luta por vacinas), o mundo assista de camarote à proliferação de doenças com a ameaça cada vez maior de uma nova epidemia mundial. É necessário, mais do que nunca, expropriar a burguesia para investir na prevenção de doenças emergentes e no tratamento público e gratuito de saúde. Precisamos derrubar o capitalismo e a barbárie social em que vivemos para construir o socialismo no mundo e então organizar uma outra relação entre o homem e a natureza.

  1. The impact of U.S. foreign aid reduction on global health Tomomi Tezuka, Naomi Ito and Kenzo Takahashi ↩︎
  2. A febre Oropouche é uma doença viral transmitida pela picada do mosquito maruim, com sintomas semelhantes aos da dengue. ↩︎

capitalismo ebola ecologia epidemia gripe aviária pandemia saúde
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