Introdução
Este texto parte de documentos anteriores, especialmente o BDI 25 sobre as tendências da situação mundial, apresentado pela FDR ao Congresso da LIT, e as declarações do CIR sobre os últimos acontecimentos da luta de classes internacional. Foi fruto de uma primeira discussão na Direção Nacional do MPR e ainda apresenta muitas debilidades. Portanto, precisa ser discutido em profundidade no conjunto do MPR e no CIR para que possamos avançar nessa análise.
Procuramos abordar a atual conjuntura internacional a partir de uma revisão das principais análises, caracterizações, políticas e polêmicas do BDI 25, submetendo-as ao crivo dos fatos posteriores. Por isso, seria importante que todos os companheiros relessem esse documento e que os companheiros que aderiram recentemente ao MPR tomassem conhecimento dele.
Mas, obviamente, o principal objetivo deste texto é atualizar a análise da conjuntura para que a militância do MPR discuta e intervenha na luta de classes. Isso é ainda mais necessário porque já faz quase um ano que elaboramos o BDI 25 (maio de 2025) e, nesses dez meses, houve vários acontecimentos que, em nossa opinião, embora não tenham modificado as tendências mais gerais da situação, alteraram significativamente a conjuntura.
Por último, este documento foi aprovado pela Direção Nacional do MPR em sua reunião de 14/15 de março, com a participação de alguns camaradas do CIR. Mas é um documento limitado, pois carece de elaboração internacional e de contribuições de organizações de outros países para enriquecer este debate, culminando em uma discussão no âmbito do CIR. Este é só um primeiro passo.
O que foi comprovado do Documento Alternativo sobre Tendências da Situação Mundial – (BDI 25)
Os acontecimentos da luta de classes no período de dez meses que é objeto desse documento – o fracasso das negociações para terminar a guerra da Ucrânia; o precário acordo de cessar-fogo em Gaza com a continuidade das violações por parte de Israel; a agressão militar de Trump à Venezuela e a capitulação do regime chavista; o bloqueio dos EUA do petróleo para Cuba; a resistência de massas à política de Trump contra os imigrantes e as manifestações contra o ICE; o ataque de Israel e dos EUA às instalações nucleares do Irã; o levante das massas contra a ditadura dos aiatolás no Irã; a atual ofensiva militar dos EUA e Israel contra o Irã e a resposta deste país – confirmaram algumas caracterizações centrais que fizemos no Documento sobre Tendências da Situação Mundial da FDR, a saber:
- A crise do capitalismo mundial e a ofensiva econômica do imperialismo contra as massas para tentar revertê-la, assim como suas ações políticas e militares recolonizadoras contra países semicoloniais, continuam e se aprofundam.
- Essas ações continuam provocando todo tipo de respostas das massas ao redor do mundo, como na Ucrânia, na Palestina, agora no Irã e em vários países, inclusive nos Estados Unidos.
- A situação política mundial está mais do que nunca caracterizada pelo enfrentamento entre revolução (por ex., a feroz resistência das massas ucranianas que há quatro anos impedem a vitória russa; a resistência palestina que, apesar do genocídio, impediu até agora a ocupação de Gaza e a destruição da Resistência palestina; a heroica luta das massas iranianas contra a sangrenta ditadura dos aiatolás) e contrarrevolução (o imperialismo norte-americano nos casos da Venezuela e do Irã, o Estado nazi-sionista de Israel e o imperialismo contra os palestinos e demais povos da região, e a ditadura iraniana assassina).
- Isso confirma o que dizíamos no BDI 25: “Os elementos que mais caracterizam a situação mundial atual são a crise e a ofensiva do imperialismo e das burguesias, por um lado, e a reação das massas, por outro. Em especial, na época imperialista, a luta de classes assume a forma de agudos enfrentamentos militares ou guerras que não envolvem só a burguesia e o proletariado, mas também a pequena burguesia e setores populares e, inclusive, setores burgueses enfrentados. É o que acontece hoje na Guerra da Palestina, que envolve vários países do Oriente Médio, e na guerra da Ucrânia. Esses são hoje os epicentros da luta de classes mundial”. Os acontecimentos posteriores, além de confirmar essa caracterização e essa tendência, mostram que elas se agravaram.
- Os acontecimentos desse período desmentiram, mais uma vez e categoricamente, que a situação política mundial esteja caracterizada pela disputa de hegemonia entre o suposto bloco China-Rússia e o imperialismo estadunidense. A China e a Rússia passaram longe de tentar interferir em defesa da Venezuela, de Cuba ou do Irã, citando apenas os mais recentes episódios, a exemplo da sua total omissão em relação ao genocídio em Gaza e às repetidas agressões ao Irã. Limitaram-se a protestos protocolares e inúteis e submeteram-se totalmente aos Estados Unidos.
- Ficou mais claro ainda, ao contrário do que diziam a direção da LIT e do PSTU e conforme ao que dizíamos no BDI 25, que o mundo não caminha para a Terceira Guerra Mundial, já que China e Rússia não têm interesse nem condições de enfrentar militarmente os EUA e buscam apenas defender suas áreas de influência regional, livres da contaminação revolucionária (Ucrânia) ou, no máximo, no caso da China, colocar-se em uma posição neutra para fortalecer sua posição econômica.
- Também se confirma o aumento do declínio econômico do imperialismo estadunidense. Isso se vê claramente no crescimento exponencial do seu déficit tríplice – comercial, orçamentário e de poupança doméstica x investimentos – e da dívida pública, que não foram revertidos pelas medidas de Trump, assim como no enfraquecimento do dólar. Esse declínio econômico é acompanhado por uma crescente crise social e política interna.
- Ficou claro que estava correta a afirmação de que “O governo Trump é uma expressão e uma nova tentativa de superar essa crise econômica e política do imperialismo”. A ofensiva econômica de Trump, com a decisão de aumentar as tarifas de importação dos EUA para todos os países do mundo, tanto as semicolônias quanto os países imperialistas aliados e as potências emergentes, buscou atacar o tríplice déficit e a dívida pública do Estado norte-americano, reverter o enfraquecimento do dólar e forçar os países a capitularem e aceitarem acordos comerciais.
- Isso se combina com a ação reacionária de Trump no interior dos Estados Unidos contra os imigrantes e os setores oprimidos, o que acirrou tremendamente a resistência das massas contra o ICE e as mobilizações contra o governo.
- Os governos que se dizem “progressistas” demonstraram, como dissemos, ser totalmente pró-imperialistas. Todos (incluindo a China e a Rússia) aceitaram as novas tarifas, limitando-se a algumas negociações, e aceitaram entregar as riquezas dos seus países (como tudo indica que foi o caso da cessão das terras raras pelo governo Lula) e acatar as imposições políticas do imperialismo, continuando a implementar todos os planos neoliberais. Os aparatos contrarrevolucionários, partidos reformistas e centrais sindicais burocráticas são parte da tentativa de encobrir essa política, ao exaltar os discursos de Lula, Petro da Colômbia e Cláudia Sheinbaum do México como manifestações de “soberania” e de um suposto enfrentamento a Trump.
- A decadência do imperialismo estadunidense evidencia-se também na sua dificuldade de controlar regiões inteiras e conflitos ao redor do mundo, como afirmado no BDI 25. Por exemplo, as tentativas dos EUA e de seu agente, Israel, de controlar a situação da luta de classes no Oriente Médio (primavera árabe, revolução e guerra civil na Síria, ataque do Hamas a Israel) têm, ao contrário, aumentado exponencialmente a instabilidade permanente da região. É o que acontece hoje com a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, que vem desestabilizando todo o Oriente Médio e provocando uma crise mundial.
- Reafirmamos que a crise da ordem mundial é, essencialmente, a crise do imperialismo estadunidense, como assinalamos no BDI 25: “A crise da ordem mundial é a crise do imperialismo estadunidense e de sua incapacidade e dos seus agentes para controlar e estabilizar regiões inteiras do mundo”.
- Essa crise estrutural vem desde a década dos anos 1970 do século XX, passou por um relativamente breve período de duas décadas de recuperação com a restauração do capitalismo nos ex-Estados operários burocratizados, mas voltou com muita força a partir da crise econômica mundial de 2008. Com o agravante de que, depois da queda da União Soviética e dos regimes stalinistas do Leste europeu, o imperialismo já não conta com a colaboração contrarrevolucionária do aparato stalinista mundial para controlar a situação da luta de classes em boa parte do mundo.
- Por outro lado, reafirmamos a caracterização de que, na conjuntura atual, há condições favoráveis para que nossos partidos intervenham nas crescentes mobilizações das massas e façam propaganda na vanguarda das lutas e entre os operários mais avançados para construir partidos revolucionários.
O que é preciso atualizar sobre a conjuntura
Se, por um lado, tivemos esses acertos estratégicos, é preciso assinalar que houve importantes mudanças na conjuntura, nesses últimos meses, desde a publicação daquele documento (maio/junho de 2025).
- A crise econômica continua. O aumento das tarifas não gerou resultados significativos para o imperialismo estadunidense. Ao contrário, aumentou a falta de confiança nas ações do governo Trump e no próprio dólar. A isso, somou-se a derrota de Trump na Suprema Corte, que considerou ilegal o aumento das tarifas. Essa decisão reflete a insatisfação de um setor da burguesia estadunidense, principalmente importadora, com os prejuízos que vem sofrendo com o aumento das tarifas e com a desvalorização do dólar.
- Mas o próprio declínio do imperialismo, sua crise econômica, a reação das massas e o acirramento da luta de classes, que se expressa agudamente nas guerras, obrigam o imperialismo a tentar reverter a sua decadência e fortalecer a sua hegemonia. Para isso, o governo Trump vem combinando pressões econômicas e políticas contra todos os países, com uma escalada de pressões e agressões militares contra países semicoloniais independentes, como o Irã.
- Isso explica por que o governo Trump vem assumindo uma atitude ofensiva do ponto de vista político-militar, por exemplo, na Venezuela. Os EUA bombardearam instalações militares em Caracas, sequestraram o presidente Maduro e forçaram um setor do chavismo, encabeçado pela nova presidente, Delcy Rodríguez, a aceitar as ordens do imperialismo. O novo governo chavista preservou seu regime ditatorial à custa de fazer um acordo para entregar o petróleo do país e obedecer às ordens de Trump, aceitando, assim, a transformação da Venezuela em um verdadeiro protetorado dos EUA.
- Também faz parte dessa ofensiva do imperialismo a proibição de que a Venezuela exporte petróleo para Cuba, levando ao extremo o bloqueio econômico e, agora, energético à ilha, para estrangular sua economia e tentar promover a queda do regime e a restauração das propriedades da burguesia “gusana” de Miami.
- Essa atitude se combina com as ameaças contra o México e a Colômbia e a formação do chamado Escudo das Américas, em acordos com governos de direita da América Latina (Argentina, Paraguai, Chile, Equador e El Salvador, entre outros), para supostamente combater os cartéis de tráfico de drogas, classificando esses grupos criminosos latino-americanos como Organizações Terroristas Estrangeiras. Essa medida abre as portas para a intervenção de forças militares estadunidenses contra esses cartéis, abolindo o que resta da soberania dos países, com a anuência de seus governos. Os ataques de Trump às embarcações que classifica como ligadas ao “narcoterrorismo” no Pacífico e no Caribe já causaram mais de 150 mortes.
- Essa iniciativa não visa eliminar ou combater efetivamente o narcotráfico, pois nem menciona o tráfico interno nos EUA, que é o mais importante, porque abastece o maior mercado consumidor do mundo, para onde todas as drogas convergem. Na verdade, essa repressão busca controlar e garantir preços elevados das drogas. E, principalmente, é um instrumento político de submissão dos governos da região para reprimir a imigração e, principalmente, combater a influência chinesa na América Latina.
- Dessa forma, Trump aumenta sua ofensiva recolonizadora contra os países semicoloniais da América Latina, aplicando a chamada doutrina “Donroe” (tomando como referência a Doutrina Monroe, a América para os americanos, mas substituindo o M pelo D de Donald).
- Os governos ditos “progressistas” capitularam totalmente à agressão militar e política do governo Trump contra a Venezuela, como demonstra claramente o protesto meramente protocolar do Brasil, da Colômbia, do México, do Chile e do Uruguai. Sem falar dos governos que apoiaram completamente o imperialismo estadunidense, como foi o caso de Milei da Argentina. Não há dúvidas de que a tendência seja a não existência e qualquer resistência das burguesias latino-americanas a essa ofensiva.
- Neste sentido, é interessante comparar a posição dos governos latino-americanos “progressistas” no começo dos anos 2000 que, sob a pressão das revoluções daquele período, agiram para sepultar a proposta da ALCA. Alguns, como Chávez, denunciaram ser um acordo comercial colonizador. Agora, os mesmos governos “progressistas” e a esquerda que os apoia exaltam o Acordo União Europeia-Mercosul (congelado pelo Parlamento Europeu) como uma grande conquista, sem mencionar que é tão colonizador quanto a ALCA.
- A recente iniciativa de Trump de um “Conselho de Paz”, formado por 60 países que seria, no papel, uma iniciativa para “promover a estabilidade e a paz em regiões afetadas ou ameaçadas por conflitos” e que, supostamente, teria como primeiro objetivo a reconstrução da Faixa de Gaza, é uma clara tentativa contrarrevolucionária. Busca, em primeiro lugar, ocupar Gaza com forças militares imperialistas, desarmar e eliminar o Hamas. Mas seu objetivo pode ser mais amplo: enfraquecer ou até substituir a ONU, que é abertamente pró-imperialista, mas na qual os EUA perdem constantemente votações, por um novo órgão internacional ainda mais submisso ao imperialismo estadunidense.
- Ao mesmo tempo, Trump procura subjugar seus sócios imperialistas menores, como é o caso dos países europeus. Essa atitude em relação a estes sócios ficou clara no caso das declarações e pressões que seu governo fez para se apoderar da Groenlândia; nas constantes humilhações a que submete os governos europeus, no desprezo pela OTAN, etc. Trump foi obrigado a recuar temporariamente, tanto pela reação dos países europeus quanto porque teve que se voltar para outros alvos, como o Irã, mas pode voltar à carga.
- Essa política ofensiva do imperialismo estadunidense, no entanto, não é uma demonstração de força, mas sim da sua crise e da debilidade relativa da hegemonia mundial que ainda mantém. Essa debilidade fica clara se analisarmos os limites desta ofensiva. Não é uma política de guerra combinada com ocupação militar, como foi a Guerra ao Terror de George W. Bush, a partir do atentado às Torres Gêmeas em 2001, que foi o pretexto para as invasões e ocupações do Afeganistão e do Iraque.
- A política atual do imperialismo não pode ser a mesma porque essas duas guerras do começo do século XXI exigiram ocupações muito longas, milhares de soldados estadunidenses mortos e feridos, gastos de mais de 3 trilhões de dólares e, principalmente, porque terminaram em derrotas desastrosas do imperialismo. Essas derrotas foram elementos políticos que se combinaram às contradições econômicas e impulsionaram a crise econômica de 2008, como a LIT caracterizou naquele momento. Depois desse desgaste e das derrotas nessas guerras, há um sentimento na população americana contra a entrada dos EUA em uma nova guerra e, principalmente, contra o envio de tropas. Por isso, Trump age com uma mescla de agressão militar à distância, com mísseis e bombardeio aéreo, e pressão negociadora, mas sem o envio de tropas, pelo menos até agora.
A guerra dos EUA-Israel contra o Irã
- O elemento mais recente desta ofensiva imperialista e, de longe, o centro da conjuntura mundial é o ataque conjunto dos EUA e de Israel ao Irã, com bombardeios intensos, o assassinato do aiatolá Khamenei, de vários líderes e chefes militares do regime e a destruição de uma parte significativa do aparelho militar do Irã.
- Trump e Netanyahu têm o objetivo de destruir a maior parte da estrutura militar do Irã, impedindo, inclusive, o desenvolvimento do seu programa nuclear. Pretendem derrubar o regime dos aiatolás ou, como mínimo, exercer pressão militar e política para que o governo iraniano capitule e ceda o controle do petróleo do país, a terceira maior reserva mundial. No entanto, até agora (no vigésimo primeiro dia da guerra) isso não tem funcionado.
- É importante analisar, em primeiro lugar, o que Trump pretende com essa guerra. Até mesmo publicações burguesas, como The Economist, questionam a falta de uma estratégia clara por parte do governo. O ataque foi motivado, em linhas gerais, pela política de ofensiva do imperialismo estadunidense contra os países semicoloniais, principalmente os que ainda são independentes, e pela intenção de se apoderar do petróleo do Irã.
- Mas também foi uma forma de desviar a atenção do público interno dos graves problemas e crises que atingem sua administração. Trump enfrenta a resistência de importantes setores de massas à sua política contra os imigrantes e à repressão da polícia anti-imigração (o ICE), que ataca e ocupa os estados dirigidos pelo Partido Democrata e as chamadas “cidades-santuários”. O ICE chegou a assassinar dois cidadãos estadunidenses brancos, Renée Good e Alex Pretti, o que é especialmente chocante para esse setor da população.
- A resistência de massas manifestou-se não só em mobilizações de oposição em mais de duas mil cidades em todo o país, sob o lema NO KINGS, como também no apoio dos trabalhadores brancos aos imigrantes, inclusive com um fato inédito: a greve geral do estado de Minnesota para protestar contra o ICE e a política do governo contra os imigrantes. Foi a primeira greve geral de um estado dos EUA em 80 anos.
- Essa resistência, segundo o Wall Street Journal, está fazendo Trump reconhecer a membros do seu governo que algumas políticas de deportação foram longe demais, geraram reação negativa e que é necessário mudar a abordagem do governo. Segundo o jornal, ele defendeu dar mais foco à prisão de “criminosos” e reduzir operações amplas. Diante das mobilizações, Trump foi obrigado a concluir a “operação especial” do ICE em Minnesota e retirar boa parte de seus agentes.
- A atual insatisfação popular nos EUA também está atrelada ao alto custo de vida, às tarifas de importação e às preocupações com a economia. Como resultado da combinação desses fatores, há, segundo pesquisas (a última do The Economist), uma desaprovação da população ao governo Trump de 58% e uma aprovação de apenas 38% (em outras pesquisas, 36%).
- Além disso, o presidente enfrenta problemas políticos com setores da própria burguesia estadunidense que se refletem, por exemplo, na decisão da Suprema Corte que declarou ser ilegal o aumento de tarifas imposto por Trump. Ou com o escândalo do esquema de pedofilia do caso Epstein, que envolve grandes bilionários e eminentes políticos e em que fica cada vez mais claro o envolvimento de Trump.
- Este quadro ameaça conduzir o governo a uma derrota importante nas eleições de meio de mandato, a serem realizadas em novembro, o que o transformaria em um governo fraco, com minoria no Congresso, o que é chamado nos EUA de um “pato-manco”.
- Por tudo isso, a guerra contra o Irã ajuda a desviar a atenção dessa situação interna, além de estimular a indústria militar a repor uma enorme quantidade de armamentos (mísseis, bombas, drones) consumidos nos bombardeios ou destruídos pela ação do inimigo.
- Netanyahu vive uma situação interna similar em Israel: o país enfrenta problemas econômicos e haverá eleições este ano, que não pode perder, pois está sob a ameaça de um julgamento por corrupção. Além disso, Israel é um enclave militar cuja existência e sobrevivência dependem da manutenção de um estado de guerra permanente. Por outro lado, a existência de Israel é uma peça-chave para o domínio dos EUA no Oriente Médio e isso tem enorme importância para sua política externa.
- Esses foram os principais motivos que levaram os EUA e Israel a atacarem o Irã, e não o pretexto da proximidade da obtenção de armas nucleares por este país, o que, segundo vários especialistas, ainda está longe de acontecer, e muito menos porque o regime dos aiatolás estivesse pensando em atacar os EUA ou Israel nesse momento.
- Dito isso, apesar da enorme desigualdade de meios militares, o ataque imperialista foi respondido duramente pelas forças armadas iranianas, com mísseis e ataques de drones contra Israel e contra as bases norte-americanas no Oriente Médio, além de atacar países que abrigam bases dos EUA na região do Golfo Pérsico. O Irã também fechou o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do tráfego de petróleo mundial. Israel, por sua vez, atacou o Hezbollah e as regiões sul e leste do Líbano. O Hezbollah entrou na guerra ao lado do Irã e está enfrentando e bombardeando Israel.
- A guerra de Trump contra o Irã, portanto, está muito longe de ser o passeio que foi a agressão militar à Venezuela, resolvida pela capitulação do chavismo. A Revolução de 1979 que derrubou o governo do Xá Reza Pahlevi, um títere do imperialismo, transformou o Irã em um país independente do imperialismo. A contrarrevolução promovida pela casta teocrática xiita, apoiada pela maioria da burguesia, instituiu a sangrenta ditadura vigente até hoje, mas não conseguiu alterar o caráter do país.
- O setor burguês que controla o Estado iraniano é uma potência regional, preparou-se para enfrentar Israel, desenvolveu uma importante indústria bélica de mísseis e drones e também armou e treinou aliados como o Hezollah, o Hamas e os Houthis. As Forças Armadas iranianas, principalmente a Guarda Revolucionária, têm experiência de oito anos (1980-1988) de guerra contra o Iraque de Saddam Hussein e de décadas de enfrentamentos com Israel.
- É claro que, diante de um ataque combinado da maior potência militar do mundo, os EUA, e da quarta, Israel, é possível que a burguesia e o governo dos aiatolás sejam derrotados militarmente ou capitulem ao imperialismo. Mas até o momento em que escrevemos esta minuta, no vigésimo primeiro dia de guerra, o governo e as Forças Armadas iranianas têm se recusado a se render. A própria escolha do sucessor de Khamenei, seu filho, Mojtaba Khamenei, um “linha-dura” estreitamente ligado à Guarda Revolucionária, mostra a disposição de desafiar Trump.
- A guerra está provocando grandes contradições para o imperialismo. A repercussão mundial do conflito tende a aumentar exponencialmente com o prolongamento da guerra, que não tem término à vista. A economia mundial está sendo afetada pelo aumento dos preços do petróleo, potencializado pelo fechamento do Estreito de Ormuz. Nesses dias, o preço do barril de petróleo, que esteve por muito tempo em torno de 60 dólares, atingiu, por várias vezes, e até ultrapassou US$ 120 e tem se mantido acima de US$ 100. Isso significa um aumento da inflação de combustíveis em todos os países, inclusive nos EUA, com reflexos em todos os preços.
- A guerra afeta em especial os países do Oriente Médio: tanto os que mantêm bases militares dos EUA e sofreram retaliações do Irã, quanto os que sofrem repercussões econômicas e os que sofreram ataques de Israel, como é o caso do Líbano, que está sob uma ofensiva israelita contra o Hezbollah e a invasão de suas tropas no sul do país.
- O regime iraniano adotou a estratégia de bombardear com mísseis e drones as instalações de petróleo e gás dos países do Golfo Pérsico, aliados dos EUA que abrigam bases militares estadunidenses, como os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein, o Kuwait, o Catar, Omã e a Arábia Saudita. Só a planta de Gás Natural Liquefeito de Ras Laffan, no Catar, perdeu 17% da sua capacidade de produção após um ataque do Irã. Esses países, que se transformaram nos últimos anos em centros de turismo, negócios, eventos esportivos e conexões aeroportuárias entre a Europa, os EUA e a Ásia, foram severamente prejudicados. Somente o setor turístico da região está perdendo cerca de US$ 600 milhões por dia.
- Outro país que pode ser afetado por uma guerra prolongada é o Iraque. O comércio bilateral entre os dois países somou 12 bilhões de dólares em 2024. Estima-se que o Irã forneça cerca de um quinto dos bens de consumo do Iraque e o país é governado por uma burguesia xiita muito ligada ao regime iraniano. O Irã é, além disso, o principal fornecedor de energia ao Iraque. O Estado iraquiano depende, em grande medida, da venda de petróleo, e o bloqueio do tráfego naval pelo Estreito de Ormuz afeta fortemente suas receitas.
- Depois de vinte e um dias de confrontos, em que a resposta do Irã aos bombardeios dos EUA e de Israel se manteve e as repercussões não só no Oriente Médio, mas também em nível mundial, Trump, que começou dizendo que a guerra poderia seguir por quatro ou cinco semanas, declarou que ela havia praticamente terminado. Evidentemente, esta declaração reflete a pressão devido ao aumento dos preços do petróleo e à instabilidade gerada no Oriente Médio e na economia mundial.
- Mas, ao fim desses vinte e um dias, a guerra não dá sinais de acabar no curto prazo. O governo Trump, que gastou US$ 11,3 bilhões na primeira semana do conflito, pediu mais US$ 200 bilhões ao Congresso dos EUA para manter o esforço de guerra.
- O problema é que, quanto mais a guerra se prolonga, mais as contradições internas dos EUA aumentam. As pesquisas mostram que apenas um em cada quatro estadunidenses apoia a guerra contra o Irã. Setores do movimento MAGA (Make America Great Again), a base política de Trump, já se manifestaram contra esse ataque relembrando a promessa de Trump de não conduzir os EUA a novas guerras. O diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, Joe Kent, um militar condecorado, funcionário do governo e membro do MAGA, renunciou ao cargo por discordar da guerra.
Estamos ao lado do Irã contra os EUA e Israel! Pela derrota do imperialismo e de seus agentes!
- Nossa posição em relação à guerra, expressa na Declaração do CIR, pautou-se pela denúncia da agressão militar imperialista, pela defesa do Irã e pela unidade de ação militar com o governo iraniano contra o agressor. No entanto, isso não pressupõe qualquer apoio político à brutal ditadura dos aiatolás. Ao contrário, reivindicamos, mais do que nunca, nosso chamado a derrubar essa ditadura.
- Nossa posição segue os ensinamentos de Trotsky, que defendia que, em caso de enfrentamento entre a Inglaterra, democrática e imperialista, e o Brasil, país semicolonial governado pela ditadura de Getúlio Vargas, os revolucionários deveriam estar no campo militar do Brasil de Vargas. Ou que, no enfrentamento do Japão imperialista com o exército chinês nacionalista de Chiang Kai-shek, os revolucionários deveriam formar um bloco militar com este último.
- Nessa mesma linha, seguimos a tradição da LIT e a posição do PST argentino, dirigido por Moreno, que defendeu o lado da Argentina na Guerra das Malvinas, em unidade de ação militar com a ditadura de Galtieri contra a Inglaterra imperialista de Thatcher, sem deixar de denunciar politicamente a ditadura e preparando sua derrubada posterior.
- O recente processo revolucionário de massas no Irã contra a ditadura, que ocupou o polo mais avançado da luta de classes no mundo no começo deste ano, não acabou, já que as condições que o motivaram, a crise econômica e, principalmente, o ódio à brutal ditadura repressora, não desapareceram.
- A dimensão das mobilizações contra a ditadura em dezembro e janeiro deste ano evidencia-se pela quantidade de mortos pelo regime nos enfrentamentos: o governo admite cinco mil, ONGs falam em nove mil, mas possivelmente foram muito mais. Isso mostra que milhares de manifestantes estiveram dispostos a enfrentar a morte para derrubar a ditadura dos aiatolás. Outro elemento significativo é a morte, reconhecida pelo regime, de 600 policiais nas mãos dos manifestantes, que mostra o nível de enfrentamento violento e armado das mobilizações.
- Momentaneamente, as enormes e radicalizadas mobilizações e as greves contra a situação econômica e a ditadura dos aiatolás arrefeceram, tanto pela pressão natural de unidade contra o ataque imperialista quanto pela feroz repressão do regime.
- Por isso, defendemos que, para que todo o povo lute contra o imperialismo, é preciso ter liberdades democráticas no país, liberdade de organização para partidos e sindicatos, liberdade para os presos políticos e os detidos nos protestos e armamento generalizado da população para enfrentar uma possível invasão terrestre.
- Nossa política central no mundo hoje é a luta contra o imperialismo. Chamamos especialmente a classe trabalhadora e os povos de todo o mundo, em especial os trabalhadores estadunidenses, a se mobilizar contra a guerra desencadeada pelos Estados Unidos e por Israel e prestar solidariedade ativa ao Irã. Defendemos a vitória militar do Irã contra seus agressores.
- Este é um momento especialmente importante para denunciar o papel nefasto do imperialismo estadunidense, de seu agente, Israel, e de seus aliados submissos (Europa, Japão e outros). Também para denunciar a passividade cúmplice da China e da Rússia e o papel covarde dos governos ditos “progressistas” da América Latina, que não defendem efetivamente nem o Irã nem Cuba. Ao mesmo tempo, explicar à classe trabalhadora e aos oprimidos que essa guerra (assim como a da Ucrânia e a de Gaza) mostra como o sistema capitalista em decadência agrava brutalmente as crises econômica, social e ambiental e arrasta o mundo inteiro à barbárie.
- É preciso aproveitar a percepção negativa das massas sobre os ataques e o próprio papel dos Estados Unidos para denunciar o imperialismo. Por exemplo, uma pesquisa no Brasil da Genial/Quaest de 13 de março mostra que 48% dos entrevistados têm uma opinião desfavorável dos Estados Unidos e somente 38% têm um julgamento favorável. Isso em um país fortemente influenciado ideológica e culturalmente pelos EUA.
- O desfecho dessa guerra pode ter várias conclusões. Se o imperialismo estadunidense fosse obrigado a interromper o ataque sem obter a queda ou a capitulação do regime iraniano, seria uma tremenda derrota para Trump, pois provocou uma grande crise no Oriente Médio e no mundo, sem nenhuma conquista efetiva. Um cenário deste tipo poderia aumentar a desaprovação interna a seu governo e levar à derrota nas eleições.
- Não podemos descartar também que, diante dessa possibilidade, Trump se veja obrigado a intensificar ainda mais as ações militares e até mesmo a tentar derrubar o regime com o envio de tropas. Netanyahu e Trump falam da possibilidade de uma incursão por terra para ocupar e controlar a ilha de Kharg, por onde 90% do petróleo do Irã é exportado. Dois mil e quinhentos fuzileiros navais estão sendo deslocados para a região. Ao mesmo tempo, Israel fala em invadir para se apoderar das reservas de urânio enriquecido do país.
- Isso significa que haverá uma incursão terrestre? É difícil prever porque é uma decisão muito arriscada para o imperialismo. Uma invasão terrestre pode significar o atolamento das duas potências em um “pântano” difícil de sair, mas pode ser que Trump e Netanyahu sejam obrigados a uma “fuga para adiante” para não reconhecer o fracasso do ataque ao Irã. Em outras palavras, uma vez desencadeada, uma guerra tem uma dinâmica própria, de ação e reação, de intervenção de outros agentes, que muitas vezes foge ao controle de quem a iniciou. Por isso, não podemos descartar que Trump e Netanyahu decidam enviar tropas.
- Se, ao contrário, o regime iraniano capitula ou se rende, diante do poderio militar muito superior dos EUA e de Israel, provavelmente essa derrota aceleraria a crise do regime e a queda da ditadura. É impossível prever agora, no meio da batalha, qual dessas hipóteses vai se impor. O desfecho dessa guerra determinará, em grande medida, a situação da luta de classes mundial no futuro imediato.
Direção Nacional do MPR
20/03/2026
