No texto do Martín Hernández, na Marxismo Vivo de 2016, “A relação dos revolucionários com as correntes burguesas, reformistas e oportunistas nas eleições”1, diz:
Os bolcheviques usaram as eleições burguesas para lutar pelo programa do partido e, dessa forma, avançar a consciência da classe operária. Esse era o principal objetivo de sua participação eleitoral.
Na medida em que as eleições não são uma luta por esta ou aquela reivindicação, mas sim o momento em que cada partido apresenta suas saídas para o país, região ou cidade, os bolcheviques aproveitaram o momento privilegiado das eleições para apresentar sua saída revolucionária por meio da propaganda do conjunto do seu programa e da agitação em torno de algumas de suas consignas (as “três baleias” de que Lenin falava), as quais concretizavam as tarefas centrais da revolução naquele momento.
Moreno referiu-se a este último aspecto, dizendo:
Um dos segredos de uma boa campanha eleitoral é justamente saber como levantar duas ou três consignas de agitação que sejam de fácil entendimento para o conjunto do movimento de massas.
Mas essas propostas revolucionárias que os bolcheviques apresentaram nas eleições eram, necessariamente, diferentes das propostas apresentadas pela burguesia e seus agentes reformistas, oportunistas e centristas. Portanto, eles se preocupavam não apenas em se diferenciar desses setores, mas também em combatê-los (“desmascará-los”) como a única maneira das massas, influenciadas por esses setores, poderem avançar em sua consciência.
Partindo do pressuposto de que as eleições burguesas para os bolcheviques e para nós servem “para lutar pelo programa do partido e, dessa forma, avançar a consciência da classe operária” e que “esse era o principal objetivo de sua participação eleitoral” e que temos que nos diferenciar e combater as propostas da “burguesia e seus agentes reformistas, oportunistas e centristas”, vamos debater a melhor forma de fazê-lo e assim construir o partido.
Polêmicas
Método
Primeiro, se foi correto ou não apresentar a política “Contra Lula e Bolsonaro no 1º e no 2º turnos”, defendida no jornal n. 0 e apresentada no Congresso da CSP-Conlutas, ocorrido de 18 a 21 de abril de 2026.
JP e Carlos Oliveira dizem que foi parcialmente correta. Afirmam que “essa política careceu de um debate amplo no conjunto do Movimento e foi adotada sob pressão sindical do Congresso da CSP, mas nos parece parcialmente correta”.
Vamos separar aqui dois temas: o balanço e a política.
Sobre o balanço de que deveria ter sido mais debatido na base e na direção do MPR, me parece correto parcialmente.
Primeiro, porque o debate de nem Lula, nem Bolsonaro foi parte de todo o debate desde o ano passado com o PSTU por sua capitulação ao petismo, entrando no jogo de que o principal era a luta contra a ultradireita, o perigo do golpe etc., todo o jogo eleitoral do PT e do PSOL, UP, PCB, PCBR, MRT etc. Portanto, não é verdade que a base não tinha ou não conhecia esta política. E aqui tem outro debate: se o secretariado poderia fazer o jornal com esta política, apesar de não ter sido debatida mais na base do MPR e na direção. Podemos fazer este debate de outra forma. Se, pelo erro de não ter debatido mais e acertado tudo na direção e na base, era correto ir para o Congresso da CSP-Conlutas apenas com os debates sindicais, sem polarizar sobre o tema eleitoral, que é um dos centros da capitulação do PSTU e da CSP-Conlutas?
Para mim, era uma obrigação ter feito o jornal desta forma e teria um balanço muito negativo se não o fizesse, até porque este debate foi um dos principais temas que debatemos durante todo o período anterior. Tanto é assim que o debate sobre a tática eleitoral do MPR até agora discorre sobre o que faremos no primeiro turno: se uma anticandidatura, se voto nulo ou voto crítico no PSTU. Mas, no segundo turno, até agora o debate é não votar nem em Lula, nem na família Bolsonaro e nem em outra alternativa burguesa, caso apareça. E sabemos que sofreremos uma pressão enorme para nos “escondermos” no segundo turno pela luta eleitoral do “mal menor” burguês do Lula feita pelo PT, PSOL, setores da burguesia, PCB, UP, PCBR, MRT e PSTU.
Conteúdo sobre o primeiro turno
JP e Carlos dizem: “e que, no primeiro turno, não votará nem por Lula nem por Bolsonaro. Centra, assim, sua intervenção no combate aos dois principais projetos burgueses que polarizam a eleição, secundarizando a denúncia da farsa eleitoral e do regime democrático burguês”.
Aqui é parte do balanço, talvez do jornal. Mas vejamos: no editorial do jornal, páginas 2 e 3, tem dois textos: “Contra Lula e Bolsonaro / Nas Lutas e nas eleições / No primeiro e segundo turnos”, assinado pelo Bernardo Cerdeira, e outro assinado pelo Martín Hernández, cujo título é “As eleições e a luta pelo poder da classe operária”. Este segundo texto diz, por exemplo, “As eleições burguesas não são o caminho para a classe trabalhadora tomar o poder”, “o sufrágio universal é uma armadilha para manter a dominação”, “A história demonstra que nenhum partido operário revolucionário jamais conseguiu tomar o poder e expropriar a burguesia por meio das eleições”, etc. Ou seja, joga por terra a “secundarização da farsa eleitoral e do regime democrático burguês”.
Quais são as propostas para o primeiro turno?
JP e Carlos defendem o voto nulo no primeiro e no segundo turnos.
Lucas defende:
“Se o regime irá operar as eleições normalmente (não estamos em uma situação pré-revolucionária), creio que o melhor seria participar das eleições com nossas candidaturas. Mas hoje, estando sem a legalidade, a única alternativa seria reivindicar uma filiação democrática ao PSTU”. E segue: “Caso não consigamos a cessão democrática, creio ser ultratático chamar voto crítico no PSTU no primeiro turno, bem como a exigência de voto no 2º turno”.
Ou seja, defende pedir a legalidade ao PSTU e votar em Hertz, do PSTU, para garantir a legalidade.
Z. defende:
Aproveitar esse período de pré-campanha eleitoral e lançar uma pré-campanha do MPR em torno dos seguintes eixos: 1 – “Contra os governos e as candidaturas burguesas de Lula e Bolsonaro no 1º e no 2º turnos!”; 2 – “Construir uma alternativa operária, socialista e revolucionária para saída da crise!”; 3 – “Venha com Altino metroviário e o MPR construir essa alternativa”. Ou seja, uma anticandidatura porque não temos legalidade.
Ot. defende:
Essas perguntas são chaves para a definição de uma tática dessas e, na minha avaliação, elas são respondidas negativamente, ou seja, chamar o voto em Hertz mais nos atrapalharia do que nos ajudaria em nossa política em direção ao movimento de massas. Nossa política deve englobar exigências às candidaturas da esquerda reformista e centrista, incluindo a candidatura de Hertz.
O que fazer no primeiro turno?
Não vejo possibilidade de ter uma anticandidatura como defendeu Z. de Altino para presidente, sem legenda. Primeiro, não temos este peso social para ter uma anticandidatura; corremos o risco de cairmos em descrédito. Por exemplo, somos pouco conhecidos, assim como o PSTU. Nas eleições de 2022, o candidato do PSTU ao governo de São Paulo, Altino, recebeu 14.859 votos no primeiro turno.
Não vejo a possibilidade de pedir legenda ao PSTU; eles negaram ao MRT e vão negar para nós também, porque exigiriam apoio sem críticas às suas candidaturas a presidente, governadores e senado etc., o que não é possível para nós, porque parte da nossa campanha será denunciar as vacilações do PSTU e outros setores. Aqui há um problema de conteúdo.
E acho que a melhor opção seria chamar voto crítico no Hertz Presidente e avaliar nos estados se vale a pena votar em algum candidato a governador do PSTU ou não.
E por quê?
A candidatura do PSTU para presidente apresenta um programa que levanta as principais bandeiras que defendemos. Mas nosso voto crítico terá que ser muito crítico pelas vacilações do PSTU ao governo Lula, em que eles falam que são oposição de esquerda, mas estão presos ao medo da volta da direita, ultradireita, seguindo a lógica da sociedade dividida em blocos eleitorais e não mais em classes.
O que o PSTU vai fazer no segundo turno? Alguns apostam que votará no Lula, outros que chamará o voto nulo. Mas, mesmo que seja nulo, deve ter a mesma linha do MRT nas últimas eleições para presidente: voto nulo com a cabeça debaixo da terra e os pés de fora chamando o voto contra Bolsonaro, ou seja, um voto indireto no Lula, com o argumento de não perder o diálogo com a base e seus “likes”.
O mais provável é que, se o PSTU chamar voto nulo, entrará em crise por causa dos likes de Gustavo Machado e Mandi e do medo de se deslocar da dita “vanguarda”. A pressão será enorme sobre eles e também sobre nós. E se o PSTU chamar voto crítico no Lula da Frente Ampla, vai se desmoralizar com um setor radicalizado, ou seja, a vida do centrismo de direita não será fácil.
O argumento de que o voto crítico no PSTU não vale a pena porque eles são pequenos e não são relevantes faz sentido. Vejamos:
| Ano eleitoral | Candidato(a) à presidência – PSTU | Votos absolutos | Percentual de votos válidos |
| 2022 | Vera Lúcia | 25.614 | 0,02% |
| 2018 | Vera Lúcia | 55.762 | 0,05% |
| 2014 | Zé Maria | 91.209 | 0,09% |
| 2010 | Zé Maria | 84.606 | 0,08% |
| 2002 | Zé Maria | 402.040 | 0,47% |
| 1998 | Zé Maria | 202.565 | 0,30% |
A queda percentual no número de votos válidos do PSTU de 2014 para 2022 foi de 77,78%.
Queda na proporção de votos válidos: passou de 0,09% (2014) para 0,02% (2022), representando uma redução de 77,78% na sua participação sobre o eleitorado total.
Queda em números absolutos: saiu de 91.209 votos (2014) para 25.614 votos (2022), o que significa uma diminuição de 71,92% no total de eleitores do partido.
O debate sobre voto nulo, ou voto crítico, no PSTU no primeiro turno faz sentido. Mas as duas táticas se dão no marco de uma política geral para as massas, não para a vanguarda, de voto contra as alternativas burguesas e seus aliados reformistas. O PSTU parte do polo revolucionário e caminha para o reformismo, um centrismo de direita neste sentido, para onde está indo. Portanto, nenhuma nem outra tática pode ficar presa à ideia de qual política é melhor para a vanguarda, seja ela qual for, mas tem que levar em consideração para se ter a linha fina da tática.
Neste sentido, com a linha correta para as massas, para melhor disputar a vanguarda e construir o partido revolucionário, o melhor é termos uma tática fina que faça sentido do início ao fim, voto crítico no PSTU vacilante contra Bolsonaro e Lula, mesmo sabendo que eles são pequenos. Isso se dá também porque estamos em construção e parte da vanguarda sabe que fomos expulsos do PSTU e que temos diferenças grandes, mas que somos uma organização com vocação para ter uma política de gente grande, que pensa nos passos para a frente.
Outro aspecto é a disputa com os autonomistas, anarquistas e ultraesquerdistas que negam o processo eleitoral. Aqui também podemos entrar em vários debates. Desde os autonomistas que não votam em “ninguém”, mas que, diante da ultradireita e do perigo do “fascismo”, votam em Lula desde o primeiro turno ou só no segundo. Entra na mesma lógica dos blocos e de um perigo fascista à nossa porta. Ou os setores que negam os partidos revolucionários, ou que, diante do desgaste justo com as eleições e com o estado burguês, negam os partidos da classe trabalhadora, os partidos revolucionários, fazem campanha contra os partidos, mesmo que muitos se comportem como partidos, os “sem-partido”, como ocorreu em 2013 etc.
Temos que ter uma campanha ofensiva contra Lula e Bolsonaro, mostrar para que servem na prática, a política de todos eles em defesa do arcabouço fiscal, de privatizações e desmonte dos serviços públicos, ataques aos trabalhadores, serviçais ao imperialismo, a serviço do agronegócio, mantenedores da atual dívida pública, que ninguém defende a Petrobras 100% do povo brasileiro para baratear o gás de cozinha e o combustível, a estatização das maiores riquezas do país para investir na educação, saúde, transporte gratuito, industrialização e investimento para defender o meio ambiente e os povos indígenas e ribeirinhos, etc. Que só uma saída revolucionária pode aplicar este programa, que o jogo das eleições burguesas é uma mentira para os trabalhadores e a juventude.
Temos que ser ousados, defender nosso programa para as massas e disputar a vanguarda, em particular, a juventude trabalhadora. Há um espaço à esquerda da Frente Ampla que está sendo disputado por todo tipo de reformismo, estalinismo e centrismo. E nossa localização revolucionária contra todas as alternativas burguesas nas ruas e nas urnas, no primeiro e no segundo turno, com um projeto revolucionário e socialista, pode nos fortalecer ideológica e politicamente e com um saldo positivo de construção para o momento em que nos encontramos.
Vamos à luta! Vamos construir um partido revolucionário diferente de toda a esquerda brasileira.
