Em uma transmissão nacional anunciada e amplamente divulgada, o presidente do país fez declarações contundentes sobre as Malvinas. “As Malvinas são argentinas por história e por direito. Não há discussão a esse respeito”, disse ele enquanto lia o anúncio de sanções econômicas contra as empresas envolvidas na exploração de recursos (hidrocarbonetos e pesca) nas ilhas e na criação de uma base naval conjunta (com os Estados Unidos) na Terra do Fogo.
Isso chama a atenção, já que o próprio Milei se declarou fervoroso admirador de Margaret Thatcher (primeira-ministra britânica durante a guerra que ordenou o afundamento do ARA Gral. Belgrano fora da zona de combate). Para citar um exemplo recente, quando os jogadores da seleção argentina ergueram a bandeira das Malvinas após a vitória contra a Inglaterra, ele próprio e vários funcionários os criticaram. A ministra libertária Monteoliva havia acordado com os EUA a proibição de referências às Malvinas e a exibição do “mapinha” (nas palavras da ministra) das Malvinas durante a partida contra a Inglaterra. A própria Patricia Bullrich havia se oferecido para “ceder” as Malvinas em troca das vacinas da Pfizer durante a pandemia. Como cereja do bolo, em 2024, Caputo ordenou o envio de 37 toneladas de ouro das reservas do Banco Central para Londres (!) a fim de gerar “retornos” financeiros… Ou seja, nem ele nem seu gabinete jamais abraçaram a causa das Malvinas; pelo contrário, dedicaram-se a minimizá-la e até a reprimi-la. Então, o que mudou? Estamos diante de uma guinada em direção à soberania nacional, após o discurso proferido por Milei?
O circo de Trump
A situação nacional não pode ser compreendida sem uma análise do contexto internacional e de seus atores. Donald Trump foi derrotado na guerra mais importante que os Estados Unidos travaram nos últimos 20 anos. Apesar de ter ameaçado aniquilar o povo iraniano, derrubar seu regime, destruir seu programa nuclear e seu arsenal de mísseis e até mesmo pretender controlar o Estreito de Ormuz, após quase 8 meses de guerra aberta, foi Trump quem teve de se retirar e assinar um memorando vergonhoso. As baixas americanas e a perda de equipamentos continuam aumentando a cada dia. Isso, sem dúvida, é um golpe fatal para Trump, que vinha vitorioso de sua aventura na Venezuela, onde sequestrou Maduro com a ajuda do próprio regime chavista (que continua no poder, colaborando com a pilhagem de Washington).
O Irã tem outra dimensão e colocou em evidência as alianças e a fraqueza dos Estados Unidos. A OTAN recusou-se a se envolver totalmente. Não enviou tropas e declarou que não participaria da guerra. França, Itália, Alemanha, Espanha e… Grã-Bretanha. Esta última, mais especificamente a Inglaterra, recusou-se até mesmo a ceder a base da ilha “Diego García” (estrategicamente localizada na região) para que os bombardeiros ianques pousassem e atacassem a partir de lá.
Essas divergências não se devem ao fato de a OTAN ser contra essa guerra ou de ter se aliado ao Irã. A realidade é mais fria: Trump cortou o fluxo de dólares para a Europa destinado à Ucrânia e transferiu esse custo para a OTAN. Ele exigiu um aumento no orçamento militar e lançou uma série de medidas comerciais contra as economias europeias. Além de ameaçar ficar com a Groenlândia (sob controle da Dinamarca), entre outras coisas.
Trump também relançou a Doutrina Monroe 2.0: retomar o controle total e absoluto de seu “quintal”, eliminando influências “indesejáveis” e aprofundando o controle econômico, militar e político. É assim que ele se refere à América Latina e, seguindo esse plano, apoiou financeiramente governos como os de Milei, Kast, Bukele, Noboa, Fujimori, Paz e Espriella. Mas também conseguiu que governos “progressistas” ou “opositores” a Washington aceitassem essa ofensiva, começando pela Venezuela, passando por Petro e Sheinbaum e chegando até o próprio Lula da Silva. Uma verdadeira ofensiva de recolonização.
Agora, pretende usar seu controle sobre o continente para pressionar tanto a Europa quanto a China em sua luta para manter a hegemonia global dos Estados Unidos como principal potência imperialista, em um contexto de crise econômica e guerras.
Milei é o palhaço
Compreendendo esse contexto, não surpreende a venda de armamento de segunda mão de Trump para Milei. Faz parte do “cenário” dessa peça teatral. Os caças F-16 estão fora de linha e sem armamento eficaz nem alcance sobre as ilhas. Os veículos Striker também estão fora de produção, são caros de manter e não possuem armamento, etc. Aproveitando esses “brinquedos usados”, agora Trump joga sua carta e manda Milei ler seu discurso “ameaçador” contra a Inglaterra, com o objetivo de abrir uma nova frente contra ela. Forçá-la a destinar recursos financeiros e fazer com que, finalmente, aumente seu orçamento militar na OTAN. A realidade é que as Forças Armadas argentinas não têm a menor chance de ameaçar a ocupação britânica nas Malvinas. Ao contrário de 1982, carecem de submarinos, aviões de reabastecimento, porta-aviões, meios de ataque às forças navais, equipamentos e tropas treinadas, entre outras coisas.
Mas o circo durou pouco. Poucas horas após a transmissão nacional, surgiram várias informações que destruíram qualquer credibilidade nas declarações de Milei. A anunciada “base conjunta” havia sido uma iniciativa do peronismo (no governo de Alberto Fernández — é isso que o peronismo entende por soberania ao instalar uma base norte-americana na Patagônia), que o próprio Milei suspendeu por falta de orçamento. As sanções anunciadas pelo presidente contra empresas que operam nas Malvinas fazem parte de uma lei em vigor há anos. Mas, curiosamente, nenhum governo a pôs em prática. O próprio governo beneficiou, por meio do RIGI, estas empresas, e o próprio Elztain, sócio de Javier Milei e membro declarado da seita judaica Chabad Lubavitch, é acionista de uma petrolífera que explora os recursos nas ilhas. Então, em que ficamos?
A pista sionista
Como se faltasse um “número” nesse espetáculo circense, o ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvr, de extrema direita, fez um comentário oportunista pedindo que “a Inglaterra cesse a ocupação”. Algo correto, se não viesse de um dos principais responsáveis pela ocupação e pelo genocídio na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, no Líbano e na Síria… Ben-Gvr é um sionista confesso que se dedicou pessoalmente a torturar os tripulantes das “frotas da paz”, declarou que é obrigação de seus soldados “atirar em crianças e burros” na fronteira, chegando a parabenizar pessoalmente atiradores de elite após fuzilarem garotos palestinos. Em poucas palavras, Ben-Gvr é um flagelo humano a serviço do expansionismo sionista e do genocídio.
Milei, por sua vez, tem sido um fantoche tanto de Trump quanto de seus interesses no Oriente Médio, exagerando (chegando a chorar no Muro das Lamentações) seu “amor” pela causa sionista e de suas seitas. É ele quem, em plena guerra e genocídio contra os palestinos, viajou para abraçar Netanyahu, entre outros gestos. É também ele quem, de mãos dadas com Patricia Bullrich e a Mossad, impulsiona um projeto de entrega de recursos e territórios a capitais sionistas em nosso país, mais especificamente na Patagônia.
Por tudo isso, não é por acaso que Elstain esteja envolvido na exploração de petróleo nas Malvinas e que a própria “Navitas”, que atua na extração de petróleo na região, seja de origem israelense. Nem Trump, nem Netanyahu, nem Ben Gvr querem que a Argentina recupere as Malvinas. Seus interesses são apropriar dos recursos e de um ponto geopolítico estratégico.
As Malvinas são soberania
A causa das Malvinas não é um capricho, muito menos uma causa perdida, como muitos representantes deste e de governos anteriores tentaram nos fazer acreditar. A corajosa manifestação popular com a bandeira durante a Copa do Mundo contra a Inglaterra deixou em evidência o sentimento de reparação coletiva que pulsa e exige que a causa das Malvinas não caia no esquecimento. Trata-se de uma reivindicação popular anti-imperialista que expõe a injustiça provocada pelas potências que invadem, ocupam e assassinam, movidos por ambições coloniais.
A reivindicação pela recuperação das Malvinas é justa e faz parte da luta anti-imperialista e anticolonial continental. Assim o demonstrou a solidariedade dos povos, liderada pelo Peru, durante a guerra de 82.
O que a história nos ensina é que nem as ditaduras genocidas, nem os governos “populares” e muito menos as acrobacias retóricas dos governos de direita ou “libertários”, podem recuperar o que foi perdido às mãos da pilhagem, pois todos eles se mostraram, em maior ou menor grau, subservientes aos interesses imperialistas.
As Malvinas devem ser recuperadas pela força da mobilização, em um processo anti-imperialista continental que enfrente as multinacionais saqueadoras que extraem nossos recursos e destroem nossa natureza e nossos próprios trabalhadores em troca de moedas. Mineradoras, petrolíferas, empresas pesqueiras, todas a serviço da “coroa” da burguesia mundial. Esse processo de mobilização não deve ficar preso às “regras” da guerra militar burguesa. É necessário um processo popular e massivo, que surja de baixo e reclame o que foi roubado da classe trabalhadora e dos povos pobres da América Latina. Que exproprie empresas, maquinário, tecnologia e força motriz. Que confisque os fundos das multinacionais e assuma o poder, destituindo os entreguistas. É uma dinâmica própria de uma revolução operária e popular continental. Esse processo revolucionário começa hoje em cada mobilização, denúncia ou luta contra esses interesses estrangeiros e seus governos que nos entregam e impõem austeridades.
Sem dúvida, a recuperação das Malvinas implicará uma luta anti-imperialista e anticolonial continental, assim como, em sua época, foi a façanha independentista que derrotou a ocupação espanhola e as invasões inglesas e francesas.
