O autocandidato ao Prêmio Nobel da Paz, Donald Trump, mete-se em outra guerra. O apoio ativo ao genocídio na Palestina por Israel não bastou. Os dois países – e é secundário saber se é por desejo de Israel, como tem dito a mídia, ou de Trump – atacam o Irã e o Líbano de maneira feroz, utilizando armamentos de última geração, como drones guiados por IA e mísseis Tomahawk.
Os analistas enfatizam os motivos políticos por trás desta continuação do genocídio palestino, mas há um aspecto pouco debatido: a possibilidade da produção de armas ser uma medida que atrase ou amenize a crise econômica que pode atingir os EUA.
A possibilidade de crise e a guerra no Irã
A economia dos EUA cresceu apenas 1,4% no quarto trimestre de 2025, bem abaixo das previsões de 3%. Em 2025, o PIB cresceu 2,2%, abaixo dos 2,4% registrados em 2024. A ostentação de Trump e de seus assessores sobre o boom econômico dos EUA não parece mais tão convincente. Sem os investimentos em IA, o crescimento real do PIB dos EUA teria ficado bem abaixo de 2% no ano passado.
A taxa de poupança pessoal caiu para 3,6% da renda em dezembro de 2025, uma queda de 1,9% desde abril de 2025. Isso significa que, em 2025, os americanos só conseguiram sustentar seu consumo utilizando suas economias ou aumentando suas dívidas.
2025 foi o ano mais fraco para o crescimento do emprego em anos sem recessão há duas décadas. A economia dos EUA adicionou apenas 181 mil empregos, ou 15 mil por mês. Em 2024, houve a criação de 1,5 milhão de novos empregos e, em 2014, de 3 milhões1.
E 2026 promete um aumento do desemprego. Os anúncios de cortes nos primeiros meses do ano atingiram os níveis mais altos desde 2009. Em janeiro, as empresas anunciaram mais de 108.000 demissões, um aumento de 200% em relação ao final de 2025. Muitas dessas demissões ocorreram no setor mais dinâmico da economia, o de alta tecnologia. A Amazon efetuou cerca de 16.000 demissões em janeiro e promete chegar a 30.000. A Meta cortou centenas de cargos no início de 2026. Outras empresas, menos conhecidas, seguiram pelo mesmo caminho.
Outro fantasma que assombra a economia norte-americana é a inflação, que pode ser puxada pelos aumentos de impostos de importação e, agora, pelo aumento do preço do petróleo devido à guerra contra o Irã. A taxa de inflação anual, medida em janeiro, foi de 2,4%. É baixa em comparação ao padrão brasileiro, mas a meta oficial do Banco Central dos EUA é de 2% ao ano. A tendência é de aumento deste índice e alguns analistas falam da possibilidade de estagflação (estagnação econômica com inflação), o que seria um desastre para Trump2.
Normalmente, os governos adotam políticas fiscais (por exemplo, o controle da taxa de juros), ao lidar com crises econômicas, aumentando ou diminuindo o consumo e/ou o salário real. Mas existe outra possibilidade. É o Estado tornar-se consumidor de mercadorias que não integram o consumo privado, como os armamentos.

- Figura: Países produtores de armas (% da produção mundial). A China não está incluída por falta de dados.
É neste cenário que a guerra contra o Irã pode atuar como um “colchão” contra uma possível crise. Pode, por exemplo, evitar o aumento do desemprego à medida que postos de trabalho são criados na indústria de guerra e absorver capital ocioso.
A ofensiva atual utiliza tecnologias de altíssimo custo, como bombardeiros B-2 Spirit (US$ 4 milhões cada) e mísseis Tomahawk (US$ 1,5 milhão). As bombas de profundidade chegam a US$ 3 milhões. Os drones suicidas LUCAS, utilizados às centenas em cada ataque, custam US$ 35 mil cada um, mas unidades mais sofisticadas, como o Road Runner, chegam a custar entre US$ 150 e 500 mil, e os drones reutilizáveis MK-9, US$ 34 milhões. Tudo isso sem contar os custos operacionais. O uso massivo dessas armas representa a destruição física do capital acumulado em armamentos (além da destruição do país atacado), abrindo espaço para novos contratos bilionários com a indústria bélica, como a Northrop Grumman, a Raytheon, a Boeing e a Lockheed.
Como o Estado financia a guerra
Quem garante todo esse custo é o Estado, por meio dos impostos cobrados dos contribuintes, isto é, de parte do salário dos trabalhadores e do lucro das empresas. No entanto, em um país cuja taxação das indústrias é cerca de zero, são os trabalhadores que carregam o peso da fabricação de armas nas costas. Em 2025, o governo dos EUA destinou cerca de US$ 870 bilhões à Defesa3. Esse gasto atua como investimento com lucro garantido para as empresas de guerra, em um momento em que o lucro das empresas não-financeiras dos EUA sofreu uma redução de 2,5% no terceiro trimestre de 2025.
Tem-se argumentado que esse tipo de trabalho é improdutivo, isto é, que não produz valor nem mais-valia (lucro) para o capitalista. Uma das razões apresentadas é que as armas não são reprodutivas, pois não voltam ao processo de produção, seja como meios de produção, seja como meios de subsistência da classe trabalhadora. Mas os armamentos enquadram-se na mesma categoria que os produtos de luxo, que Marx nunca considerou improdutivos, mas sim uma mercadoria especial: “… por produto de luxo entendemos toda produção que não é requerida para a reprodução da força de trabalho”4.
O que isso quer dizer?
Um meio de produção (as máquinas) ou um alimento, por exemplo, são valores de uso5 necessários à reprodução da força de trabalho. A máquina entra no processo de produção para reproduzir novas mercadorias. O alimento, que fornece energia ao trabalhador, reproduz sua força de trabalho e permite que ele retorne à produção no dia seguinte. Ambos são reprodutores de valor.
Já os armamentos não são necessários à reprodução da força de trabalho, não são consumidos pelos trabalhadores nem pelas indústrias. Ao contrário, eles destroem outros valores de uso, como os meios de produção e a força de trabalho (seres humanos). Mas não é por ser destrutivo de valor de uso que o trabalho envolvido em sua produção seja improdutivo de valor. A produção de armas transforma valores de uso (matérias-primas, máquinas, força de trabalho) em novas mercadorias, produzidas sob as relações de produção capitalistas, cuja venda é lucrativa.
É irrelevante se o capitalista obtém seu capital de outros capitalistas (por exemplo, dos banqueiros) ou do Estado, e se vende seus produtos a outros capitalistas, aos trabalhadores ou ao Estado. O essencial é que lhe dê lucro. Esse é o único objetivo do capitalista.
Então, as armas produzem valor para o capitalista, sua produção extrai mais-valia do trabalho dos operários e tem um mercado garantido: o governo. Nesse caso, sua produção pode funcionar como medida anticrise?
Os armamentos como “arma” contra as crises
As crises econômicas surgem quando a taxa de lucro obtida em investimentos produtivos é insuficiente e não permite novos investimentos sem que o capitalista tenha prejuízo6. Neste cenário, o Estado entra com o capital para a produção de armas e, assim, mantém a valorização do capital investido e o lucro capitalista. O Estado funciona como um indutor da produção, que vai das fábricas de armamentos aos seus fornecedores de matérias-primas e de máquinas.
O Estado é o único comprador7 e paga à vista. Estas características são uma grande vantagem em relação às demais mercadorias. Não há concorrência no mercado, por isso não há risco de superprodução e a venda (o lucro) está garantida. O capitalista não precisa adiantar seu capital (que pode permanecer no mercado financeiro) para a produção, pois este é adiantado pelo próprio Estado.
Em relação à lucratividade, há efeitos contraditórios. Por um lado, o setor de armamentos apresenta uma composição orgânica de capital alta8, devido à incorporação de tecnologias de ponta na produção. Isso reduz a taxa média de lucro9, embora a massa de lucro obtida nesse negócio seja muito alta.
Por outro lado, o Estado apropria-se de uma parte da riqueza social dos capitalistas e dos trabalhadores por meio dos impostos, para redistribuí-la aos produtores de armas.
Na prática, há uma extração de mais-valia extra dos trabalhadores, por assim dizer. O Estado opera, assim, uma gigantesca redistribuição de valor dos trabalhadores para os capitalistas, aumentando a taxa de lucro da classe capitalista.
Essa é a “racionalidade” da produção de armas. O valor é redistribuído e, assim, as crises de realização do capital (que ocorre na venda) e de lucratividade (que ocorre na produção) são aliviadas pela produção de meios de destruição. Estes valores de uso podem não ser utilizados (de modo que o seu próprio valor é desperdiçado) ou ser utilizados, de modo que o seu próprio valor, bem como outros valores, são destruídos10. Mas o lucro do capitalista é garantido.
Os limites da economia de guerra
Alguns economistas marxistas, como Paul Sweezy e Paul Baran, desenvolveram a teoria da “economia permanente de guerra”11, segundo a qual a economia capitalista moderna tende à estagnação devido ao domínio dos monopólios, que limitam a concorrência e geram um excedente econômico. Esta teoria baseia-se na falta de compradores suficientes para absorver toda a produção e é conhecida como subconsumismo12. Nesse contexto, a “economia permanente de guerra” surge como um mecanismo central para sustentar a acumulação de capital e evitar crises profundas, ao transformar o Estado em comprador do “excedente”.
Porém, essa teoria não explica que o consumo familiar nos Estados Unidos (país utilizado como exemplo da economia permanente de guerra) represente, historicamente, entre 65% e 70% do PIB e que tal consumo, em geral, atinja um pico às vésperas das crises, enquanto o orçamento militar dos EUA, embora seja gigantesco, correspondeu a 3,4% do PIB norte-americano em 2024. Também não explica por que os países imperialistas europeus, que não adotam esta política de guerra permanente, tampouco têm crises de subconsumo recorrentes.
Outra vertente afirma que a produção de meios de destruição em massa desempenha a função das crises econômicas, ao destruir forças produtivas necessárias à reprodução do capital, mas de forma permanente, e não, como nas crises, periodicamente.
Isso é verdade, mas essa arma de estímulo à economia não pode ser permanente. Embora seja produtiva de mais-valia, a produção de armas não é reprodutiva e, portanto, ameaça a reprodução da sociedade. Sua produção restringe o volume de valores de uso que podem ser empregados para fins reprodutivos. Se levado ao absurdo, esse raciocínio acabaria com a “galinha dos ovos de ouro do capital”: a força de trabalho.
Outro problema é o déficit orçamentário do Estado ao se tornar o comprador exclusivo de armamentos. A dívida pública dos EUA equivale a 120% do PIB, ou cerca de US$ 38 trilhões. A desaceleração do crescimento da produtividade, os déficits orçamentários crônicos e a dívida pública crescente enfraquecem o poder econômico do imperialismo norte-americano. Hoje, muitos países estão se desfazendo de títulos do Tesouro dos EUA e as principais agências de classificação de risco rebaixaram o grau de risco dos EUA para “AA”13 (AAA é o grau de menor risco), além da desvalorização do dólar no mercado mundial.
Outro limite, muito importante, são as consequências políticas das guerras. Quando o resultado da utilização de armamentos em guerras é negativo, como as derrotas no Vietnã, na ocupação do Iraque e no Afeganistão, o enfraquecimento econômico transforma-se em enfraquecimento político e de hegemonia mundial.
Trump, com suas guerras particulares (avaliadas como vitórias garantidas), procura dar um fôlego à economia, mas, ao que parece, está afundando o poço da crise. Após a terceira semana de guerra, sem qualquer previsão de fim próximo, Trump começa a dar sinais de desespero. Acusa os países da OTAN de covardes por não ajudar os EUA e pediu ao Congresso a liberação de mais US$ 200 bilhões, pois é muito caro matar os “bad guys” (homens maus). Ao que parece, o custo político da guerra do Irã está vencendo a guerra do lucro.
Notas:
- Dados obtidos em: Michael Roberts, US economy: jobs and AI ↩︎
- Idem. ↩︎
- O orçamento de Defesa (de Guerra, segundo Trump) dos EUA equivale à soma dos orçamentos dos 9 países seguintes. O segundo maior orçamento é o da China, de cerca de 290 bilhões de dólares. Ver: Top 10 Defense Spending Countries in 2025: Statistics and Facts Analysis 2024 to 2035 ↩︎
- Karl Marx, O Capital, Vol. III. São Paulo: Boitempo Editorial, pág. 136. ↩︎
- Toda mercadoria tem um valor de uso, isto é, uma utilidade para quem a compra, mas não para o capitalista que a produz. A este, interessa apenas o valor da mercadoria, que se transforma em lucro ao ser vendida, não sua utilidade. O conceito de valor de uso pode ser encontrado em: K. Marx, O Capital, Vol. I, Cap. 1: A mercadoria. ↩︎
- Prejuízo não significa necessariamente perda, redução do capital, mas sim uma taxa de lucro mais baixa do que a esperada. ↩︎
- Não levamos em conta as armas de porte individual, que representam uma pequena parcela da produção de armamentos. ↩︎
- A composição orgânica de capital é a relação entre o capital constante (máquinas) e o capital variável (salários). Quanto mais alta, maior é o valor do capital empregado em máquinas em relação ao capital empregado em salários. Uma composição orgânica mais elevada resulta em uma taxa de lucro mais baixa. Ver: K. Marx, O Capital, Vol. I, Cap. 23: A lei geral da acumulação capitalista. ↩︎
- A taxa de lucro é obtida dividindo-se o capital investido (em máquinas, matérias-primas e salários) pela mais-valia. Ela pode ser calculada para cada empresa no ato da produção. A taxa média de lucro não é a média aritmética das diversas taxas de lucro; ela só pode ser calculada após as mercadorias serem levadas ao mercado. Ver Marx, O Capital, Vol. III, Seção 2: A transformação do lucro em lucro médio ↩︎
- Ver: Guglielmo Carchedi, Frontiers of Political Economy, Verso Ed., 1991, pag. 198 ↩︎
- Ver: P. Sweezy e P. Baran, Capitalismo monopolista. Zahar Editores, 1974. ↩︎
- Ver: P. Sweezy, Teoria do desenvolvimento capitalista. Zahar Editores, 1976. Este tema será abordado em outro artigo. ↩︎
- Moody’s rebaixa nota de crédito dos EUA e tira país do clube de elite “AAA” ↩︎
