Em uma ponta, BRB e Master: o Brasil dos capitalistas
Recentemente, o BRB – Banco de Brasília – virou notícia após comprar títulos do Banco Master no valor de 22 bilhões, dos quais estima-se que 12 bilhões são títulos podres. O governo do Distrito Federal (GDF) bateu à porta de outros bancos e do governo federal para impedir a liquidação do banco. E conseguiu.
Lula deu ordens ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, para formular um plano de reestruturação e salvar o BRB, com o aval do ministro do STF, Luiz Fux. Segundo o ministro da Fazenda, em entrevista ao jornal Valor Econômico, a quebra do banco acarretaria um rombo de R$ 17 bilhões. Mas se não vai quebrar, alguém pagará a conta.
O GDF comprometeu-se a captar R$ 8,8 bilhões até o início de junho para “capitalizar” o banco. O jeito foi vender a dívida que empresas e a população têm com o Distrito Federal (DF), no valor de R$ 52 bilhões, que será transformada em títulos para negociar no mercado por R$ 22 bilhões. Isto é, o DF perderá R$ 30 bilhões. Na prática, será a população que arcará com os custos dessa operação, por meio de cortes no orçamento das áreas sociais.
Essa venda da dívida permitirá receber do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) – que virou a tábua de salvação de políticos e banqueiros corruptos – um empréstimo de até R$ 6,5 bilhões, que supera o limite permitido para esse tipo de operação.
O plano de reestruturação acertado com o governo Lula consiste em uma “reorganização fiscal”. Quem já não ouviu falar em “ajuste fiscal” exigido pelo FMI para emprestar a países em dificuldade? Uma das medidas permanentes é um forte corte nos gastos públicos, inclusive com o congelamento dos salários e demissões de servidores, e privatizações.
No plano de reestruturação acontece a mesma coisa. Segundo a Folha de São Paulo, “o acordo prevê a adoção de medidas de ajuste fiscal pelo governo de Celina Leão. O governo [do DF] não poderá dar aumento salarial aos servidores, criar cargos ou realizar concursos“.
O mistério da salvação do BRB está desvendado. Depois de todas as falcatruas cometidas por seus diretores, quem pagará as contas pela perda estimada de R$ 12 bilhões em “investimentos” no Master e pela perda de R$ 30 bilhões em dívidas ao DF serão a população e o funcionalismo público. É assim que funciona a política na democracia burguesa: os capitalistas e seus representantes no aparato de Estado ganham bilhões em uma canetada e os trabalhadores pagam a conta.
Na outra ponta, o Bolsa Família: o Brasil dos trabalhadores e do povo pobre
Outro fato que virou notícia foi a declaração do apresentador Luciano Huck em um fórum da Esfera Brasil no Guarujá. O apresentador “amigo” dos pobres disse que o Bolsa Família desestimula a população a procurar emprego, como divulgado pela mídia:
“Na verdade, elas criam um monte de atalhos para conseguir ficar no programa de distribuição de renda e proteção social ad aeternum (eternamente).“
Para traduzir em linguagem popular, ele quis dizer que o brasileiro não gosta de trabalhar, ou que é vagabundo. Justo uma figura cuja profissão é ganhar rios de dinheiro em cima da boa-fé do povo pobre que, desesperado para melhorar de vida, participa de seu programa na esperança de ganhar barras de ouro, reforma da casa, etc.
Mas não é só ele que despreza o Bolsa Família. Segundo o economista Pedro Fernando Nery, em coluna no jornal Estado de São Paulo de 26 de maio, o “programa perdeu R$ 30 bilhões em apenas dois anos“, pois “em março, a despesa acumulada com o Bolsa em 12 meses caiu abaixo de R$ 160 bilhões. Há dois anos, eram quase R$ 190 bilhões”.
Não se trata de defender o Bolsa Família à maneira dos reformistas, para defender cegamente o governo Lula. O Bolsa Família é um programa compensatório para amenizar a vida da população presa na pobreza extrema e evitar revoltas contra essa situação terrível. Mas é muito limitado, não só em relação ao valor pago, mas também ao seu alcance. Enquanto 40% da população mais pobre (cerca de 84 milhões) recebe, em média, R$ 6001, o BF beneficia cerca de 20 milhões com um valor médio de R$ 660. Isto é, a meta do governo é manter 40% da população na pobreza, para fazer propaganda de que o país saiu do mapa da fome.
O exército industrial de reserva
O que o governo não faz é industrializar o país, garantir empregos formais a todos os trabalhadores, pagar o salário mínimo calculado pelo DIEESE, de R$ 7.100, e outras medidas fundamentais para tirar a classe trabalhadora da pobreza. Mas há um motivo para não se fazer isso: vivemos em um país capitalista.
E, no capitalismo, a falta de oportunidades de emprego não é culpa da classe trabalhadora, mas do próprio sistema. O desemprego não existe porque não há estímulo, como Luciano Huck pensa, nem porque os trabalhadores preferem receber ajuda do governo sem precisar trabalhar.
O capitalismo cria desemprego porque o investimento em equipamentos para a expansão da produção é muitas vezes maior do que o investimento em força de trabalho, isto é, na contratação de trabalhadores. Isso cria uma população excedente em relação às necessidades dos capitalistas e, por isso, por mais que se procure, os empregos não aparecem. Em países com desenvolvimento capitalista limitado, como o Brasil, a situação é ainda pior. Além de ser explorado por seu patrão, o trabalhador, quando arruma emprego, é explorado pelo “patrão” do patrão, o capital estrangeiro. Essa dupla exploração torna-se superexploração e, por isso, salários ainda mais baixos.
Além disso, como diz Marx em O Capital2, essas “grandes massas humanas“, ou exército industrial de reserva, “precisam estar disponíveis para serem subitamente alocadas nos pontos decisivos” do mercado de trabalho, durante os ciclos de expansão da economia. Durante os ciclos de retração, essa massa de desempregados serve para pressionar o salário dos que trabalham para baixo. Seja durante o crescimento econômico, seja na retração, os capitalistas sempre ganham.
Quando eles ganham, nós perdemos
Por isso, não se trata de dois Brasis separados, como a mídia gosta de afirmar: ricos de um lado, pobres de outro. Capitalistas e trabalhadores são classes antagônicas da sociedade, mas em um único sistema. Os capitalistas alimentam-se da pobreza dos trabalhadores. O Estado, mesmo nesse regime de democracia burguesa apodrecido, age para garantir essa relação. Não passa de um balcão de negócios da burguesia.

De um lado, alguns supostos bandidos vestidos de banqueiros fazem cerca de R$ 50 bilhões, no caso do Master, e R$ 17 bilhões, no caso do BRB, sumirem pelo ralo.
Do outro, trabalhadores lutam para sair do nível de pobreza extrema (rendimento domiciliar per capita de R$ 218 mensais – IBGE) para estacionarem no nível de pobreza geral (rendimento familiar per capita de R$ 665 mensais), que é praticamente o valor médio do Bolsa Família, apenas para serem comparados a vagabundos por um apresentador de TV.
Por um lado, esses antros de bandidos são socorridos prontamente pelo Estado, para não prejudicar os “pobres” investidores, com dinheiro do FGC, que, hipoteticamente e mentirosamente, é considerado dinheiro privado.
Por outro, o governo Lula exige o fim do reajuste salarial aos funcionários públicos, proíbe novas contratações e concursos públicos e reduz o orçamento anual do Bolsa Família em cerca de R$ 30 bilhões.
Governador e CLDF, r$mbo no BRB é culpa de vocês
É o que dizia a faixa levada pelos servidores, organizados pelos Sindicatos dos Professores no DF (Sinpro-DF), dos Servidores e Empregados da Assistência Social e Cultural do GDF (Sindsasc) e outros, em manifestação contra o acordo. Para eles, a medida transfere à população e aos servidores públicos o custo de uma crise causada pela gestão do governo.
“Diante da aprovação do PL na CLDF, é fundamental que toda a categoria compareça à mobilização. Precisamos fortalecer ainda mais esse ato e deixar claro que essa conta não é nossa”, afirmou a diretora do Sinpro, Márcia Gilda3.
Em uma tacada, o Estado pode arcar com uma perda de R$ 17 bilhões para socorrer o BRB, mais do que o orçamento mensal do Bolsa Família de R$ 13 bilhões, que é dividido entre quase 20 milhões de pessoas.
Nesses Brasis que são um só, a riqueza de uma ponta é fruto da pobreza da outra, e nenhuma política pública compensatória resolverá isso. Apenas o fim do capitalismo e da exploração, por meio de uma revolução social, e a vitória do comunismo, podem tirar todo o povo trabalhador da pobreza.
Notas:
- Marcos Margarido, Endividamento familiar: uma praga da classe trabalhadora. ↩︎
- Marx, O Capital, Volume 1, capítulo 23: A lei geral da acumulação capitalista. Boitempo Editorial, 3ª edição, pág. 708. ↩︎
- https://www.brasildefato.com.br/2026/06/10/sindicatos-mantem-ato-unificado-contra-acordo-que-transfere-crise-do-brb-a-populacao-do-df/ ↩︎
