Recentemente, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) divulgou uma pesquisa sobre o endividamento das famílias brasileiras. Obviamente, estas famílias são as dos trabalhadores, principalmente os de baixa renda, cujos salários nunca chegam ao fim do mês e, por isso, veem-se obrigados a recorrer aos mais variados tipos de empréstimos para que o arroz com feijão seja posto na mesa até o fim de cada mês.
Segundo a pesquisa, 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas em março, pouco mais do que os 77,1% de 12 meses atrás. Esses dados mostram que se trata de uma situação crônica, o que confirma o que todos os trabalhadores sabem: o salário é muito baixo no Brasil. O salário mínimo (SM) de R$ 1.600 seria uma gozação, se não fosse trágico. Quase 35 milhões de trabalhadores recebem 1 SM para sobreviver, e cerca do dobro tentam viver com 2 SM. Apenas 7,6% da população trabalhadora recebe mais de 5 SM. Mas isso não é tudo. A renda média de 40% da população mais pobre corresponde a R$ 600. Isso porque, há alguns meses, o Brasil saiu do “mapa da fome” da ONU.
Mas, segundo a CNC, as coisas vão melhorar. Ela diz que o “endividamento continuará avançando até os resultados da flexibilização da política monetária chegarem efetivamente ao consumidor final”. Esse prazo é de alguns meses, segundo o Banco Central. Nesse meio tempo, os preços continuarão a aumentar até engolirem os tais resultados da flexibilização da política monetária, e a mesa do “consumidor final” continuará vazia no fim do mês.
Mas de que se trata essa flexibilização? Da redução da taxa de juros de 15% para 14,75% mensais, determinada pelo Banco Central, cujo presidente é o amigo do Lula e banqueiro Gabriel Galípolo! 0,25% de redução! Se um trabalhador fizesse um empréstimo de R$ 1.000, pagaria R$ 1.150 no primeiro mês, com juros de 15%. Mas, com juros de 14,75%, ele pagará R$ 1.147,50. Uma redução de R$ 2,50! Ao que parece, não é apenas no cinema que tem comédia. Se o saudoso Paulo Gustavo (Minha mãe é uma peça) estivesse vivo, ia querer participar.
Para “resolver” a situação, o governo anunciou o lançamento do programa Desenrola 2.0 para a renegociação das dívidas com os bancos. O primeiro Desenrola ocorreu no fim de 2023, mas, após apenas 18 meses, a porcentagem de endividados não só alcançou o nível anterior, como também o ultrapassou. É, claramente, uma medida eleitoral. O que não quer dizer que não deva ser aproveitada pelos endividados.
Alguns números
Em entrevista ao programa CNN Money, o diretor da LCA Consultoria, Eric Brasil, mostrou-se surpreso com tanto endividamento:
“A gente tem [porcentagem] mínima histórica de desemprego, a renda está subindo, a inflação, que no Brasil é elevada, está relativamente controlada e, mesmo assim, a inadimplência está subindo.”
De fato, quase 30% das famílias endividadas são consideradas inadimplentes, isto é, contraíram dívidas que não conseguem pagar. E isso quando, segundo o IBGE, a renda familiar aumentou 29% em relação a 2019. Apesar disso, o consumo nesse mesmo período aumentou apenas 12,6%. Isso significa que uma parcela considerável da renda é destinada ao pagamento de dívidas.
Muitas reportagens sobre esse tema não conseguem explicar por que, em um cenário de aumento de renda e baixo desemprego, a popularidade do governo Lula está em queda. Segundo a pesquisa da Atlas Intel/Bloomberg, a desaprovação do governo passou de 51,5% em fevereiro para 53,5% em março de 2026. Outras pesquisas mostram a mesma tendência.
Chegou a hora de dizer: “Elementar, meu caro Watson” (os fãs do Sherlock Holmes vão entender). A renda familiar total aumentou justamente porque o desemprego caiu, isto é, porque há mais pessoas empregadas. Mas a renda familiar individual caiu, porque o aumento de empregos ocorreu, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o Caged, na faixa entre 1 e 1,5 salário mínimo.
Juntando estes números, pode-se dizer que os trabalhadores, principalmente os de baixa renda, estão cobertos de razão ao repudiar o atual presidente, que gosta de dizer que os brasileiros precisam fazer 3 refeições por dia, mas nada faz para garantir isso. Por outro lado, o atual candidato ao cargo, Flávio Bolsonaro, nem isso diz. A única diferença entre eles é que o Lula usa um discurso “progressista” para atacar os trabalhadores, enquanto o Flávio (e, antes, o Bolsonaro) usa um discurso reacionário.
Endividamento em outros países
Em 2024, ainda sob a presidência de Biden, o portal CNN Brasil estampou a seguinte manchete: “Dívida dos americanos tem novo recorde, mas rendimentos crescem”. É a mesma situação do Brasil atualmente e, apesar do aumento da renda familiar (e, também, do baixo desemprego), o Partido Democrata de Biden perdeu a eleição para Trump.
Sob o governo Trump, o ídolo dos Bolsonaros, a dívida total das famílias subiu para US$ 18,8 trilhões no final de 2025. Um recorde. O tarifaço, a perseguição e deportação de imigrantes, o favorecimento da burguesia do setor de alta tecnologia e, agora, a guerra no Irã irão piorar a situação ainda mais.
No Reino Unido, o valor total das dívidas familiares foi de 79% do PIB, no final de 2025. Isso equivale a cerca de US$ 2,8 trilhões. Poderíamos continuar listando países mais ricos e mais pobres, todos com a mesma realidade: famílias trabalhadoras que precisam contrair dívidas para sobreviver. Na China, por exemplo, o endividamento é de 60% do PIB, o que equivale a quase US$ 12 trilhões!
Seja sob um governo chamado de progressista, como o de Lula, seja sob um governo de extrema-direita, como o de Trump ou de Bolsonaro, os trabalhadores sempre sairão perdendo. Estes governos são fantoches dos grandes capitalistas e fazem de tudo para defender seus interesses. E o que lhes interessa, nessa fase de decadência do capitalismo, é pagar salários cada vez mais baixos para garantir seus lucros.
Por que os salários são baixos?
Os trabalhadores, em qualquer país capitalista, sempre produzem mais riquezas do que o salário que recebem. Esta é a base da exploração no capitalismo. A riqueza excedente, produzida pelos trabalhadores, fica nas mãos dos proprietários de fábricas, do comércio, dos bancos e das fazendas. Como dizia Marx: “A acumulação de riqueza num polo é, ao mesmo tempo, a acumulação de miséria, o suplício do trabalho, a escravidão, a ignorância, a brutalização e a degradação moral no polo oposto”.
Acumulação de miséria significa endividamento, a única forma dos trabalhadores escaparem da fome, do despejo de sua casa, da perda do automóvel por não pagar o financiamento e da dívida no bar do seu Zé…
É por isso que, ano após ano, os governos lançam programas de renegociação de dívidas, sem que, algum dia, elas acabem. As dívidas só terão fim quando os trabalhadores receberem o equivalente, na forma de salário, a toda a riqueza que produzem, sem que os capitalistas fiquem com uma parte. Para que isso aconteça, é necessária a organização dos trabalhadores para tomar o poder por meio de uma revolução e confiscar as fábricas dos grandes capitalistas, que serão administradas pelos próprios trabalhadores.
O futuro de liberdade da classe trabalhadora é o comunismo.
