Recentemente, dois escândalos ganharam manchetes nos principais jornais e sites do Brasil e dos EUA: o caso da rede de tráfico de menores de Epstein e do famoso banco Master e suas falcatruas. Ambos aparentemente não possuem nada em comum, porém, além de serem escândalos que envolvem a grande burguesia e seus lacaios em ambos os países, é interessante notar dois elementos importantes:
1- Trata-se de situações em que a política e a economia se confundem, nos interiores dos quais os notórios burgueses e seus representantes políticos se imiscuem num nó de relações econômicas e políticas imbricadas. É muito difícil, senão impossível, separar os interesses econômicos de grupos burgueses de suas relações políticas;
2- Essas relações político-econômicas, que estamparam manchetes e portais de outras nações mundo afora, condensam-se nas instituições dos Estados-nação, demonstrando, didaticamente, o que o marxismo sempre denunciou: o caráter de classe do Estado burguês moderno, mesmo nas democracias mais funcionais e “progressistas”.
A teia de relações espúrias do Master
O banco Master vendeu ativos podres, títulos sem lastro, em um esquema de fraude financeiro que, além de envolver cerca de 400 fundos de previdência de municípios e Estados. Fez negócios escusos com o Banco de Brasília (BRB) e o Banco do Pará, e teve sua liquidação protelada pelo Banco Central. Após a prisão do seu presidente, Daniel Vorcaro, a relação promíscua do banco com entes públicos ganhou notoriedade. Ministros do STF possuíam parentes com relações econômicas diretas com o banco e os fundos ligados a ele, o que levantou suspeitas de uso de laranjas. Os ministros do STF Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, que tinham irmãos, primos e esposas, como parceiros de negócios em resort, serviços financeiros e serviços jurídicos, ganharam o centro dos holofotes. O presidente do STF, Luís Edson Fachin, viu-se obrigado a propor um Código de Conduta para os magistrados, porém o desgaste político da corte já havia ocorrido.
Porém, as relações espúrias não ficaram só no STF. O BRB comprou ativos podres e amargou um prejuízo entre 12 e 17 bilhões de reais. O governador bolsonarista do DF, Ibaneis Rocha, encontrou-se pessoalmente com Vorcaro e estava consciente da operação, conforme diz o ex-presidente do banco e também a PF. No RJ, o fundo de previdência dos servidores do Estado (Rioprevidência) fez compra de cerca de R$ 1 bilhão em papéis podres de entidades ligadas ao banco. Da mesma forma, o Banco do Pará investiu cerca de 95 milhões no ecossistema financeiro do Master. Pelo menos 100 fundos de previdência, como os dos estados do Amapá, Amazonas, Maceió e de várias capitais e cidades do interior, também figuram nas listas de entidades públicas que “investiram” cerca de R$ 1,5 bilhão no Master.
O PT e Bolsonaro também estão relacionados a Vorcaro. Na Bahia, após o PT privatizar a Empresa Baiana de Alimentos, o ex-sócio de Vorcaro, Guga Lima, deixou com a rede do banco uma montanha de ativos por meio dos empréstimos consignados de milhares de funcionários públicos do estado da Bahia. A Empresa Baiana era dona de uma rede de supermercados (Cesta do Povo), que fornecia alimentos baratos comprados principalmente pelo programa de consignáveis Credcest. Após a privatização da EBAL e do Cesta do Povo em 2018, o governo do PT (Rui Costa) autorizou a ampliação da margem de desconto no programa Credcest. O programa alavancou o Master, que usava recebíveis para captar recursos no mercado e montar fundos de investimento. Ou seja, ocorreu a privatização de uma empresa pública e o endividamento dos trabalhadores, a serviço da concentração e da especulação de capital.
Em relação ao bolsonarismo, o cunhado de Vorcaro e ex-parceiro de negócios, Fabiano Zettel, pastor da Igreja Lagoinha, foi o principal doador, como pessoa física, das campanhas de Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas em 2022. A Igreja Lagoinha (MG), do pastor Valadão, é investigada por lavagem de dinheiro e também na CPI do INSS. Zettel também tinha laços com Toffoli. Ciro Nogueira, do PP, figura que transita entre os diversos partidos do Congresso, já havia apresentado, em 2024, proposta de ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para pessoas físicas com investimentos penalizados por fraudes e falências, de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.
O caso do Banco Master mostra como as instituições do Estado estão a serviço do capital. Certa vez, Marx e Engels disseram que o Estado é um comitê de gestão de negócios da burguesia. O caso do Master, no qual o próprio Vorcaro admite que não teve definição política, é taxativo. Segundo Vorcaro, há “virtude em políticos de várias vertentes” (Revista Piauí); há “muita gente boa em Brasília”. Como diria Marx em Crítica ao Programa de Gotha, “A liberdade do Estado moderno não é senão a liberdade daqueles que dominam economicamente. O parlamento é uma ‘casa de conversação’, uma fachada democrática atrás da qual a burguesia exerce seu poder por meio do governo e da administração”. Que a administração dos negócios seja feita no Palácio do Planalto, na Faria Lima ou no Tayayá Resort, no Paraná, é um mero detalhe.
Assim como no Brasil, os negócios nos EUA também são resolvidos e administrados em momentos inusitados, muitas vezes descontraídos, como demonstrado pelas revelações sobre o traficante Jeffrey Epstein.
Epstein, o traficante internacional de negócios e pessoas
Ganharam repercussão internacional novamente os crimes sexuais de Epstein, notório burguês dos EUA, que fez fortuna e fama entre famosos, capitalistas e políticos. Milhares de documentos publicados reforçaram o que já se sabia sobre Epstein. Passando por figuras como Trump, Chomsky, Bill Clinton, o ex-príncipe Andrew e Bill Gates, além de centenas de figuras menores, Epstein estendia sua influência para Israel, Noruega, Arábia Saudita, Inglaterra, etc. Muito se fala dos estupros e do tráfico de crianças, adolescentes e jovens em sua mansão nas Ilhas Virgens Britânicas e demais propriedades. Com base em seus e-mails, é possível saber que os crimes sexuais eram repugnantes, violentos e escatológicos. Fala-se abertamente de assassinatos, ocultação de cadáveres e rituais de canibalismo nos diálogos interceptados. Porém, engana-se quem acredita que os crimes violentos de Epstein sejam o centro da sua vida e carreira. O tráfico de mulheres e crianças e os abusos – ao mesmo tempo em que eram um hobby – estava a serviço, principalmente, da consolidação da influência de Epstein e seu grupo. Muitos políticos de ultradireita, mas não somente (lembremos de Chomsky e Bill Gates), usavam Epstein e seus contatos como plataformas para transações econômicas. Ao mesmo tempo em que Epstein usava da chantagem para consolidar sua posição, em troca de não expor a rotina escabrosa de figuras proeminentes da burguesia, a burguesia usava Epstein como facilitador de suas perversidades econômicas, misóginas e sexuais.
De florestas no Amapá a imóveis na Noruega, da família real britânica ao príncipe saudita, Epstein tinha negócios com muita gente. Os bancos não podiam se queixar, muito menos bloquear as contas por onde os lucros do tráfico de influência e de mulheres eram movimentados. O Deutsche Bank processou cerca de US$ 260 milhões, enquanto o JP Morgan transacionou US$ 1 bilhão. O Citibank, o HSBC e o Bank of America também constam nas listas de bancos participantes das transações. As vítimas do traficante declaram publicamente que os bancos eram cúmplices e ignoravam fatos já públicos após sua primeira condenação em 2008. O sistema financeiro é acusado, mesmo nos EUA, de facilitar as operações de Epstein.
A democracia burguesa não serve aos trabalhadores
No momento em que a ultradireita mundial tenta capitanear o desgaste dos regimes democráticos burgueses no mundo, qual deve ser a postura dos revolucionários frente a escândalos que mostram as entranhas do modo de produção capitalista e a relação do Estado burguês com a economia? Historicamente, não interessa aos marxistas a defesa da democracia burguesa. Tratando-se de um regime desenvolvido por excelência na fase imperialista e decadente do capitalismo, a democracia burguesa é sempre uma ditadura contra os trabalhadores, muito benéfica para os negócios dos diversos setores burgueses, mas sempre implacável contra o proletariado. No caso dos EUA e do Brasil, o que mais interessa aos revolucionários nos escândalos é expor e denunciar o caráter dessas democracias, isto é, quais classes elas representam. Não interessa aos revolucionários salvar um ou outro bloco burguês, que, por um momento, podem se encontrar em alguma disputa mais acintosa pela maior parcela de exploração dos trabalhadores. Para entender mais, parafraseamos Lenin:
“A democracia burguesa, apesar de suas formas parlamentares pomposas, é, na realidade, uma ditadura da burguesia. O parlamento é uma ‘sociedade de debates’, um ‘clube de tagarelas’, enquanto o verdadeiro trabalho de governo é feito nos ministérios, nos quartéis-generais e nos escritórios dos bancos. O executivo, com sua burocracia e forças coercitivas, é o ‘comitê executivo dos negócios comuns de toda a classe burguesa’.”
