Em 2019, Jair Bolsonaro chegou ao poder com quase 58 milhões de votos (55,13%), obtidos no segundo turno das eleições presidenciais contra Fernando Hadadd (PT), que teve 47 milhões (44,87%). Na Câmara Federal, o partido de Bolsonaro, na época o PSL, saltou de 1 para 52 deputados, tornando-se a segunda maior bancada, atrás apenas do PT, que havia eleito 54. No Senado, ambos elegeram 4 senadores. Este resultado expressou, de forma distorcida, a polarização social e política presente naquela conjuntura.
A ultradireita é um fenômeno mundial, subproduto da deterioração do capitalismo. No Brasil, ela desenvolveu-se na esteira do desgaste dos governos do PT (Lula e Dilma), que frustraram as expectativas da classe trabalhadora. A piora das condições de vida da pequena burguesia e de setores proletarizados, após 14 anos de gestões petistas, foi fundamental para a eleição de Bolsonaro.
Com um discurso antissistema, Jair Bolsonaro tornou-se um fenômeno de massas. Em seu governo, mesmo com a pandemia de Covid-19, um número considerável de trabalhadores o acompanhava em ‘motociatas” que aglutinavam milhares em vários cantos do país. Em setembro de 2021, seus apoiadores chegaram a ocupar 14 quarteirões da Avenida Paulista, momento em que enfrentou explicitamente o poder Judiciário, na pessoa do ministro Alexandre de Moraes. Este foi o auge da ultradireita que, diferente do que diz toda a esquerda reformista, não se tratava de um governo fascista.
A resposta negacionista e desdenhosa diante da pandemia, os atritos com outros poderes da ordem burguesa, além do movimento de massas pelo “Fora Bolsonaro” (travado pelas direções do PT, CUT, UNE e MST), trouxeram certa instabilidade a seu governo, que não conseguia unir a burguesia em torno de si. Esta o via com muitas desconfianças, pois Bolsonaro era um deputado do “baixo clero” político que ascendeu rapidamente ao poder. No cenário internacional, a derrota de Donald Trump para um segundo mandato também contribuiu para o seu enfraquecimento. Com a reversão do julgamento de Lula no STF e a possibilidade de derrota nas eleições, Bolsonaro flerta com uma saída golpista, inflamando sua base para desconfiar do processo eleitoral caso não fosse reeleito.
Em 2022, o resultado das eleições ainda expressou a polarização: enquanto Lula obteve 50,9% do eleitorado (60.345.999 votos), Bolsonaro conseguiu 49,1% (58.206.354), o que manteve, na prática, a quantidade de votos da eleição passada. No Congresso, o partido de Bolsonaro (agora PL) elegeu 99 deputados e 8 senadores, enquanto a Federação PT/PcdoB/PV elegeu 81 deputados e 4 senadores. A pequena margem de diferença levou Bolsonaro a tentar um golpe de Estado.
O plano de golpe, concretizado na minuta impressa que destituía ministros do STF, todavia, não saiu do papel. O clã Bolsonaro não conseguiu apoio nem do grosso da burguesia, nem da maioria da cúpula das Forças Armadas. Então, o principal líder da ultradireita no Brasil deixou o país, cabisbaixo e deprimido. De lá para cá, a ultradireita não só perdeu força, como também se encontra derrotada e dividida.
A invasão das sedes dos três poderes, em 8 de janeiro de 2023, colocou a ultradireita numa situação ainda mais delicada: ficou na defensiva, enquanto fortaleceu o governo Lula e o STF, sobretudo Alexandre de Moraes, que saíram como “salvadores” e “heróis” da democracia burguesa, com a ajuda de grande parte da esquerda reformista.
Em nossa avaliação, os acontecimentos de 8 de janeiro precisam ser melhor estudados, pois os indícios concretos até o momento não indicam que fossem uma continuidade do golpe de Bolsonaro, conforme o governo Lula, o STF, a burguesia liberal e praticamente o conjunto da esquerda brasileira, como PT, PSOL, PCB, PCBR, UP e PSTU, dizem. De todo modo, o 8 de janeiro resultou num grande revés para o bolsonarismo.
Após a derrota nas eleições de outubro de 2022, seguida da derrota na tentativa de golpe em novembro-dezembro de 2022, o 8 de janeiro de 2023 levou a ultradireita a uma enorme dificuldade para reproduzir a força que possuía. Suas bandeiras, que antes eram “Intervenção Militar, já!” e “Bolsonaro presidente”, tornaram-se: “Anistia já!” e “Liberdade para Bolsonaro”, ou seja, passaram a um nível totalmente defensivo. O lobby de Eduardo Bolsonaro junto ao governo Trump para incluir produtos brasileiros nas taxações dos EUA, uma medida desesperada para salvar o pai e a si próprio da cadeia, apenas agravou a situação.
Deste modo, a prisão definitiva de Bolsonaro e de ex-integrantes do primeiro escalão de seu governo, incluindo generais, fato inédito na história do país, não se trata de um acontecimento qualquer, um ponto “fora da curva” na correlação de forças, como se a prisão do principal representante da ultradireita brasileira não tivesse ligação alguma com a luta de classes nem com a mudança de conjuntura no país.
Todavia, a maioria das organizações de esquerda, como PT, PSOL e PSTU, com diferentes matizes, avalia que, mesmo após a prisão de Bolsonaro, ainda há o perigo de uma “volta do fascismo” ou que é necessário combater de igual modo “o governo e a ultradireita”, como na variante usada pela direção do PSTU. Estas elaborações impressionistas sobre a força da ultradireita na conjuntura atual usam destes argumentos para justificar o seu apoio direto ao governo de conciliação de classes de Lula-Alckmin, como faz o PSOL, ou indireto, como faz o PSTU ao se limitar a fazer exigências ao governo, e raramente denunciando-o, justamente porque há “o perigo da ultradireita”.
A força da ultradireta na presente conjuntura
Em agosto do ano passado, logo após a prisão domiciliar de Bolsonaro, deputados do PL ocuparam a mesa diretora do Senado e da Câmara. Na ocasião, exigiram que fossem pautados o projeto de anistia e o impeachment de Alexandre de Moraes. O episódio, porém, não foi acompanhado de qualquer expressão real nas massas, que continuaram a viver normalmente. No dia seguinte, a mesa foi desocupada e os trabalhos legislativos foram retomados.
Com a prisão definitiva de Bolsonaro, os atos que a ultradireita convocou em apoio ao ex-presidente ficaram muito aquém das expectativas. A greve dos caminhoneiros, que prometia paralisar o país, simplesmente não ocorreu, um fiasco! Como desdobramento, a divisão que já havia entre um bolsonarismo mais extremista e uma ultradireita mais institucional e dentro da ordem, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, tende a se intensificar.
A caminhada de Nikolas.
A ultradireita está derrotada, porém, é preciso considerar que não está morta. Além da considerável representação parlamentar e nos estados, há uma grande incidência ideológica na juventude, em particular na geração Z. Todavia, a conjuntura de polarização social e política de dois anos atrás não existe mais, a não ser para amedrontar lutadores honestos para cerrar fileiras em torno do campo burguês dirigido por Lula.
Neste sentido, a caminhada de Nikolas, como tentativa de sensibilizar sua base e tirá-la do imobilismo, também não alcançou seu propósito. O auge desta ação, em Brasília, aglutinou cerca de 18 mil pessoas, segundo cálculos de pesquisadores da USP, ou seja, bem distante dos 100 mil que já estiveram neste mesmo local em apoio a Bolsonaro, em anos anteriores. Contudo, esta ação não somente revelou o quanto a ultradireita está profundamente dividida (Flávio Bolsonaro, por exemplo, estava fora do país), como também indica uma tendência à fragmentação e disputa do legado social do que outrora foi o bolsonarismo.
É necessário um combate teórico e ideológico à ultradireita, mas, para derrotá-la politicamente, é preciso responder às questões concretas da classe trabalhadora, e não é possível respondê-las sem denunciar duramente os ataques do governo. É preciso denunciar o regime democrático-burguês como uma ditadura do capital sobre os trabalhadores, incluindo o poder Judiciário, que aparenta estar acima das classes. É preciso combinar a denúncia do governo Lula com a da falsa oposição de direita, que se unem na hora de atacar os trabalhadores. A recente greve nacional dos trabalhadores dos Correios e da Petrobrás, como a atual ocupação indígena no porto da Cargill, em Santarém (PA), contra a privatização do rio Tapajós, demonstram, na prática, qual é a principal tarefa dos trabalhadores e dos povos oprimidos na presente conjuntura.
