O final de 2025 e o início de 2026 ficarão marcados como o momento em que o papo bonito do governo Lula bateu de frente com a realidade da classe trabalhadora.
Enquanto o governo Lula vende a imagem de um novo Brasil, com seu Arcabouço Fiscal e promessas de diálogo, as greves na Petrobras e nos Correios, ocorridas há dois meses, mostraram a verdade nua e crua.
As greves não foram só por aumento de salário. Foram um grito de basta contra um governo que, na prática, segue a mesma cartilha de austeridade para agradar o mercado financeiro. Enquanto o agronegócio e os acionistas da Petrobras recebem bilhões, o que sobra para os trabalhadores é enrolação, desconto no salário pelos dias parados e ataques aos direitos conquistados.
Essas lutas escancararam um cenário que muita gente não queria ver: o terceiro governo Lula não só manteve a precarização que “herdou”, como também piorou a situação das estatais por meio de um novo tipo de privatização, realizada por partes com concessões e parcerias público-privadas.
Greve dos Correios arrancou vitórias, mas o governo Lula segue atacando
Muita combatividade nas ações e na consciência de classe foram os elementos determinantes que contribuíram para impor uma derrota à direção da empresa e ao governo Lula. O TST foi obrigado a garantir o acordo coletivo com vitórias parciais e a manter cláusulas que as diretorias sindicais pelegas já tinham jogado no lixo.
O reajuste salarial e dos benefícios de 5,10% ficou aquém do que queríamos, diante da histórica defasagem salarial praticada na ECT. Mas a proposta do governo Lula era de 0% para os trabalhadores da estatal que paga os menores salários, em relação às demais empresas públicas. A manutenção do acordo coletivo de trabalho com vigência anual foi outra importante vitória contra a pretensão patronal de acordo com vigência bianual.
Além disso, a manutenção de vale-alimentação extra, adicional de 200% para trabalho em dias de repouso e gratificação de férias em 70% foram importantes vitórias parciais. Mas, orientada pelo governo Lula, a direção dos Correios recorreu ao STF para derrubar as conquistas obtidas no julgamento da greve pelo TST.
O STF decidiu pela suspensão. Foi a mesma tática suja já usada pelo governo de extrema-direita, ou seja, a continuidade da judicialização adotada pelo governo Bolsonaro para esmagar o trabalhador que carrega a empresa dos Correios nas costas.
Desmonte do plano de saúde e jornada 12×36
Sob orientação do governo Lula, a alta direção da ECT está desmontando o plano de saúde e tentando enfiar goela abaixo a jornada 12×36, que é a escravidão moderna.
Se a jornada 12×36 nos Correios for implantada, haverá o aprofundamento dos graves problemas já existentes em uma categoria marcada por sobrecarga, metas intensas e alto índice de adoecimento mental. Turnos de 12 horas ampliam a exaustão física e psicológica, prejudicam o sono, aumentam o risco de acidentes e reduzem a capacidade de recuperação entre um dia e outro. Em um ambiente já precarizado, com falta de pessoal e pressão constante, essa jornada intensifica transtornos como ansiedade, depressão e burnout, além de comprometer a saúde a longo prazo.
Além disso, o modelo 12×36 afeta diretamente a vida social e familiar dos trabalhadores, que passam a organizar sua rotina em torno da fadiga e não do convívio. A dificuldade de conciliar trabalho e estudos, cuidados domésticos e lazer, somada à possível redução de oportunidades de horas extras e ao aumento de gastos indiretos, gera impacto financeiro e emocional. Assim, em vez de representar modernização, a jornada 12×36 tende a agravar a precarização e o adoecimento já presentes na realidade laboral dos Correios.
“Reestruturação” e a conversa enganosa da “não privatização”
Nos Correios, a cara de pau é a estratégia oficial. Lula vai na TV dizer que a estatal não será privatizada, mas o tal “Programa de Reestruturação dos Correios” que eles criaram é um passo a passo macabro para entregar a empresa de bandeja ao capital privado. Quando o governo fala em Parcerias Público-Privadas (PPPs) e no interesse de grupos estrangeiros, ele confessa o plano entreguista. Se não dá para vender a empresa inteira de uma vez, fatiam e entregam as partes que mais lucram.
O plano também é covarde na proposta de PDV, na qual a demissão em massa está disfarçada. A meta do governo Lula é botar 15 mil trabalhadores na rua, com a desculpa de “cortar custos”. Além disso, o governo quer entregar o patrimônio do povo brasileiro, pois já está em andamento o fechamento de agências e leilões de prédios históricos que o povo trabalhador construiu.
O papelão dos burocratas sindicais na blindagem ao governo e na traição à categoria
Um ataque desses não acontece sem a ajuda de quem deveria estar ao lado dos trabalhadores. A cúpula das federações sindicais (FENTECT e FINDECT), submissa ao governo, fez um tremendo papelão. Passaram mais de cinco meses enrolando com “mesas de negociação” que não davam em nada, engolindo a conversa mole da empresa de crise financeira da ECT.
Os dirigentes sindicais pelegos tentaram empurrar acordos rebaixados, aceitando a retirada de direitos históricos. Na prática, viraram o RH da empresa nos sindicatos. A preocupação deles era blindar o Lula, não desgastar o “governo amigo”, e quem pagou o pato foi a categoria. Essa política de conciliar com o patrão deixou boa parte da vanguarda lutadora desarmada, enquanto eles enfiavam a faca nas costas dos trabalhadores, como fez o ministro Guilherme Boulos (PSOL/SP).
A força da base e a greve como única resposta
Contra a paralisia dos burocratas sindicais, a força da greve veio da vanguarda lutadora da categoria, do chão de fábrica, que atropelou e passou por cima das direções, com rebeliões de base nas assembleias lotadas. A atuação aguerrida dos militantes do Movimento por um Partido Revolucionário (MPR) foi fundamental para furar o bloqueio imposto pelos dirigentes sindicais burocratas e governistas.
Desde o começo, os militantes do MPR denunciaram que essa história de renovar o acordo todo mês era uma armadilha e que só com a greve a categoria conseguiria alguma vitória. Os militantes do MPR, com a militância da CSP-Conlutas, estiveram na linha de frente das paralisações em dezembro de 2025.
É hora de reorganizar a oposição e retomar a greve nacional
O resumo da ópera é claro: o governo Lula atua como “amigo urso” do trabalhador e quer retirar direitos. Já a maioria das diretorias dos sindicatos é um obstáculo que a base lutadora da categoria precisa derrubar.
Agora não é hora de recuar. É necessária a reconstrução de um Movimento Nacional de Oposição Sindical para retomar as entidades das mãos desses pelegos. A proposta em debate é a convocação de um Encontro Nacional de Base de verdade, com delegados eleitos nos locais de trabalho, sem o filtro das cúpulas e dos aparatos governistas. Só com independência de classe e autonomia diante do governo Lula será possível barrar os ataques, impedir as demissões e garantir que a riqueza que a classe trabalhadora produz não acabe no bolso dos banqueiros e bilionários.
A luta vai continuar, e os trabalhadores não vão pedir licença ao governo Lula nem a seus aliados sindicais burocratas!
