Tarcísio e Feder tentaram impor um programa de exclusão
No início do mês de maio, em várias unidades regionais de ensino (antiga diretoria de ensino), foi informado às escolas que seriam indicadas ao Programa de Ensino Integral e, em mais uma ação antidemocrática, os conselhos escolares (os órgãos deliberativos das escolas) não puderam decidir sobre a adesão ao programa; apenas os responsáveis pelos estudantes (pais, mães, tutores) foram “autorizados”. Outra medida antidemocrática foi que, em muitas regiões, a lista de escolas indicadas nem sequer foi previamente divulgada, o que dificultou ainda mais a organização do debate nas unidades escolares.
Na zona sul de São Paulo, a Secretaria de Educação indicou 15 escolas localizadas no Jardim São Luís, Capão Redondo e parte da M Boi Mirim, sendo uma delas o principal polo do EJA – Ensino de Jovens e Adultos (o que levaria ao seu desmonte) na região do Capão Redondo.
O Programa de Ensino Integral (PEI) propõe às escolas dois turnos de funcionamento: o primeiro, destinado ao ensino fundamental, seria das 07 às 14, e o segundo, destinado ao ensino médio, das 14:15 às 21:15, o que dificulta a vida da juventude trabalhadora, que se veria no dilema entre estudar e trabalhar para auxiliar em casa. Além de seu caráter excludente, ao colocar o jovem trabalhador para fora da escola, o governo aplica o PEI sem mudar a estrutura das escolas, que hoje estão desmontadas e sobrevivem dia após dia com os escassos recursos que lhes são oferecidos.
A comunidade escolar na zona sul de SP se levantou
Com a experiência da implantação desse modelo em outras escolas da região, estudantes do ensino fundamental e médio se organizaram para demonstrar sua insatisfação diante do ataque de Tarcísio e do secretário de Educação, Renato Feder. Na escola Monsenhor João Batista de Carvalho, localizada na divisa do Capão Redondo com o Jardim São Luís, os estudantes organizaram um protesto na manhã do dia 8 de maio: saíram das salas e ocuparam o pátio com cartazes de “Não ao PEI!” e exigiram ser ouvidos.
Na semana seguinte, iniciou-se o processo de consulta pública à comunidade escolar, e a revolta dos estudantes contra o PEI espalhou-se como um rastilho de pólvora até outras escolas. Ocorreram protestos dos ensinos fundamental e médio, como nas EE Carolina Cintra, Octalles Marcondes Ferreira e Lins do Rêgo, entre outras.
“Por uma semana, os muros que separam uma escola da outra já não existiam mais; era como se todos os estudantes fossem de uma mesma escola, pois as exigências levantadas em um cartaz por uma escola a metros de distância ecoavam em outra escola da mesma forma”, relatou um professor.
A presença e o ativismo da comunidade escolar nessa luta foram decisivos, desde os atos contrários ao PEI até a organização da panfletagem e do diálogo com familiares e vizinhos. Ocorreram situações em que os estudantes passaram de porta em porta chamando seus vizinhos (responsáveis por alunos matriculados nas escolas indicadas) a comparecerem nos dias de votação. Combinada a essa movimentação de convocação de amigos e familiares, ocorreram protestos em várias escolas, organizados pelos estudantes, desde piquetes na entrada do local de votação até atividades artísticas para a conscientização dos estudantes sobre o caráter excludente da proposta do governo.
A derrota de Tarcísio e Feder
Com a auto-organização das comunidades escolares, motivadas pela experiência com os problemas das escolas PEIs existentes na região, o programa foi derrotado em uma esmagadora maioria dos locais indicados. Na EE Lins do Rêgo, escola com histórico de luta reconhecido na região por conta da ocupação em 2015, em meio à repressão covarde da polícia, o resultado, além de positivo, foi simbólico. No dia da votação, como forma de coagir o movimento estudantil, o governo posicionou a polícia militar dentro da escola, mas a comunidade escolar respondeu a essa nova afronta com 97% de rejeição ao PEI. Esse resultado repetiu-se em outras escolas, onde o programa do governo também foi massivamente rejeitado. Na EE Carolina Cintra (96,25% de votos contrários) também houve um protesto contra a EJA Flexível. Na Afiz Gebara (95%) e em escolas como a David Nasser (83%), Monsenhor (72,55%) e Octalles Marcondes (98,55%), ocorreram protestos de estudantes. Mesmo com todo o jogo sujo que a SEDUC – Secretaria de Educação do Estado de São Paulo – promoveu, desde a tentativa de restringir o direito ao voto dos estudantes como também o de promover o chamado “voto de guichê” (chamar os pais individualmente para que eles votassem sem terem o direito ao contraditório garantido), a comunidade escolar e a categoria docente se unificaram contra o PEI, impondo ao governo mais uma derrota.
A unidade da comunidade escolar nessas escolas também auxiliou na luta da EE Carolina Cintra contra a EJA Flexível, que passaria 80% da jornada de estudo dos jovens e adultos para a modalidade online, dificultando o estudo de muitos adultos. A escola é a principal referência da oferta de EJA na região do Capão Redondo e, caso esse projeto passasse, inviabilizaria que um dos distritos mais negros da cidade garantisse aos seus habitantes adultos o direito ao estudo.
A derrota de Tarcísio e Feder na região, a segunda em poucos meses (como no final do ano passado, na discussão sobre a divisão das escolas), demonstrou a todos que é possível derrotar os ataques dos governos. Por mais que aparentem força, diante da unidade da classe trabalhadora (comunidade escolar), tornam-se tão fracos quanto uma folha de papel em meio à chuva.
Os estudantes mostraram que única forma de derrotarmos os governos é nas ruas
Estamos em ano eleitoral e, como parte dele, há a propaganda de que o combate aos ataques dos governos passa exclusivamente pelas urnas. Ainda bem que os estudantes não esperaram até outubro, como o PT e setores do PSOL defendem. Se esperássemos até o dia da eleição para a luta, o PEI seria imposto, sem possibilidade de revogação, em várias escolas da zona sul. Até hoje, muitos ativistas aguardam a revogação da reacionária Reforma do Ensino Médio que Lula insiste em nem citar.
O silêncio dos parlamentares, expresso por notas tímidas e constrangidas, até mesmo em sua inércia em se somar ao movimento, demonstrou que, para eles, a luta direta, por fora das regras eleitorais, não é tratada como algo importante. Pelo contrário, muitos deputados tidos como “progressistas” comportaram-se como meros espectadores da luta dos estudantes; nem se deram ao trabalho de tecer uma nota de apoio às mobilizações da juventude na região. Mas, assim como ocorreu em 2015 com as ocupações de escolas, o movimento estudantil não só mostrou que não sumiu, como também que está com disposição de derrotar os governos, usando a única ferramenta que possui: a luta.
Em uma das faixas levantadas em uma escola, havia a mensagem “cada escola, uma trincheira”. Concordamos com ela. É preciso fazermos de cada escola uma trincheira contra os ataques de Tarcísio (EJA flexível, PEI, escolas cívico-militares) e de Lula (manutenção da Reforma do Ensino Médio e apoio às PEIs em escolas sem estrutura).

É preciso nos mantermos alertas
Há desconfiança de que o governador Tarcísio, por meio de seus carrascos, não acatará a vontade da comunidade escolar. Compartilhamos desse sentimento, pois também não nutrimos qualquer confiança nesse governo. A única forma de impedirmos que um golpe nos seja imposto é nos mantermos ativos, em movimento, pois foi assim que conquistamos essa vitória contra o PEI. Outras lutas virão, e o movimento dos estudantes demonstrou que é possível derrotar Tarcísio e Feder. Sigamos seu exemplo, às ruas!
Saudamos a luta dos estudantes que, novamente, demonstraram sua força de organização e combatividade contra os ataques dos governos. A juventude que incendeia o mundo, derrubando governos e denunciando a repressão policial, é a mesma que, em 2015, ocupou as escolas e, agora em 2026, realizou protestos de base em suas escolas contra mais um ataque do governo. A unidade de que nossa classe necessita é com a comunidade escolar – trabalhadores e jovens – marchando e avançando juntos.
Chamamos a todos que estão lendo essa matéria a se somarem conosco, pois tanto a classe trabalhadora quanto a juventude pobre necessitam de um partido revolucionário para seguirem com as lutas, desde o combate ao arcabouço fiscal de Lula e Haddad até os ataques de Tarcísio e de Feder. Contra Lula e os representantes do bolsonarismo, fechamos com a juventude trabalhadora! Venha conosco construir o MPR!
* Conselheiro estadual da APEOESP pela Oposição.
