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Home»Tribuna Livre»Contribuições»Conjuntura internacional: contribuição para a análise da guerra de Trump
Contribuições

Conjuntura internacional: contribuição para a análise da guerra de Trump

Por: Paulo Magno
31/03/2026Nenhum comentário8 Mins Read
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A guerra de Trump contra o Irã está custando caro a seu governo. O termômetro do conflito é político e, nesse campo, o Irã está dando um baile. O ato “No Kings” nos EUA mobilizou milhões em milhares de cidades. O capital político de Trump em seu movimento de ultradireita se desgasta. Em contrapartida, o regime dos aiatolás, questionado nas ruas pelas massas populares, voltou a se fortalecer. Junto aos milhões nas ruas dos EUA, outros tantos milhares na Europa levantam-se contra a guerra e contra a violência da extrema-direita em geral.

Tudo isso coloca em debate: o que motivou Trump a entrar nessa guerra que muitos já alertavam que seria muito difícil de ganhar? É importante destacar que a guerra de Trump é, acima de tudo, uma guerra explicitamente política. Ficou muito difícil separar essa guerra e seus resultados da política na sociedade estadunidense. Trump não estabeleceu nitidamente os objetivos da guerra, de modo que uma possível derrota fica pouco visível. Mas, juntando-se os caquinhos, é possível perceber que a guerra de Trump é, caoticamente, um impulso da crise interna para fora das fronteiras. Como Napoleão III, o sobrinho aventureiro do famoso Napoleão Bonaparte, que arregimentou militares para um exército de ocupação na Europa, para reformular o próprio Estado francês, que vivia uma intensa crise social, Trump projeta a resolução da crise interna de sua sociedade para o estreito de Ormuz.

É óbvio que setores específicos da indústria dos EUA estão interessados na guerra, especialmente o complexo industrial-militar e o setor de tecnologia, que está cada vez mais presente na indústria de guerra. De qualquer forma, esse aspecto econômico, para além de todo o modo de funcionamento do capital, não parece dar conta de sintetizar o impulsionamento da guerra. A escalada iniciou-se num rompante de Trump, que, sem consultar nem integrar as outras potências aliadas no ataque de 28 de fevereiro, fez o regime dos aiatolás pôr em prática seu planejamento defensivo, esboçado pelo menos desde a guerra dos 12 dias em 2025, que serviu para o Irã se organizar para este conflito atual. Se, por um lado, o Irã parece ter se preparado para a guerra e os mísseis e drones fazem evidente estrago em Israel, furando com facilidade o supostamente invencível Domo de Ferro israelense, Trump parece ter feito da guerra o seu ato estratégico de decomposição. Após um mês de atrapalhadas que envolveram os países do Golfo numa espiral de perdas, setores da burguesia norte-americana não se queixam da guerra em si, que para eles não é um problema, mas da evidente desorganização da sua direção, o que faz a derrota ser cada vez mais aparente perante o mundo.

O problema para os opositores democratas de Trump não é que os trabalhadores dos EUA estejam pagando a guerra com mortos e com uma exploração cada vez maior devido à inflação, muito menos o estrago à soberania iraniana e aos seus civis, mas que a derrota política é democrática e se estende para além de Trump e do seu movimento, atingindo a burguesia norte-americana em seu conjunto. Dessa feita, mostra-se evidente a falta de unidade entre a burguesia ianque na condução dessa ofensiva, o que não é qualquer coisa diante da dimensão da guerra e de suas repercussões. Mais do que qualquer outra guerra anterior, talvez na mesma intensidade da guerra do Vietnã, a rejeição popular derruba a popularidade de Trump e não unifica a burguesia norte-americana nem avança nesse sentido, mas, pelo contrário, aumenta as divisões internas. Isso traz novamente ao centro a motivação de Trump. Ainda que Trump esteja fugindo das suas derrotas com a guerra, “por que não se preparou para ela?”, perguntam-se os democratas. Isso abre uma nova discussão.

A guerra em meio às crises, greves gerais operárias e revoluções

A falta de planejamento e organização da guerra exacerba a derrota da empreitada e, ao mesmo tempo, expõe seu próprio caráter. O contexto da guerra é o de uma derrota política interna de Trump, com as repercussões da rede de pedofilia e de tráfico de influência de Epstein, a derrota do tarifaço, tanto com derrotas pontuais em cortes de justiça quanto na erosão política do governo entre os trabalhadores e a classe média (bem como o recuo mesmo de várias tarifas), assim como a derrota da intervenção da polícia migratória em Los Angeles e em Mineápolis. Ao mesmo tempo, Trump fez uma intervenção de sucesso na Venezuela, ainda que seu custo político a médio prazo se volte contra ele, já que o regime chavista permanece no poder. Podemos também afirmar que a intervenção ocorre em meio a algumas vitórias parciais de Israel sobre a Palestina. Ou seja, a combinação resulta de derrotas imponentes e de vitórias parciais. Trump tenta fugir da derrota estratégica, que ganha forma com a derrota eleitoral de meio mandato em novembro. Para isso, lança-se no atoleiro do Irã, quiçá, com o objetivo de suspender as eleições ou mesmo manipulá-las. Nesse sentido, o caos da guerra e as perturbações que dela resultam criariam o terreno fértil para o golpe de Trump.

Como afirmou Ehud Barak, ex-primeiro-ministro de Israel, em entrevista à mídia israelense Canal 13, os EUA perderam todas as guerras que travaram nos últimos 60 anos. Essa guerra, portanto, ao mesmo tempo em que é parte da doutrina de um Estado imperialista dominante, inscreve-se com suas particularidades, o que envolve uma crise econômica, social e política comparável à crise de 1929, que definiu a participação dos Estados Unidos na Segunda Guerra e sua afirmação como potência mundial. Talvez o grau de decomposição social atual dos Estados Unidos seja maior do que nunca, visto que é agora uma potência já estabelecida, mas com sucessivas derrotas militares e um grau de luta de classes em crescimento imponente. A explosão social de 2020, após o assassinato de Floyd, e as greves operárias de metalúrgicos, enfermeiros, ferroviários, trabalhadores da JBS e outros enfrentam e expõem o caráter de classe não só dos republicanos, mas também do conjunto do regime político dos Estados Unidos. As greves radicais condensaram-se em uma greve geral política em Minnesota e vêm, cada vez mais, se radicalizando, mesmo em setores com pouca ou nenhuma representação sindical (Amazon). Esse nível de conflito social que desborda os democratas é sintomático e fundamental para compreender não apenas o retorno de Trump ao poder, mas também o caráter errático do seu governo e de sua política. A guerra se insere nesse contexto, do qual temos a maior manifestação de rua da história do país.

A questão é que, ao passo que a burguesia tecnológica dos EUA está concentrando a fortuna de bilhões de dólares à custa não só dos povos do mundo, mas também da exploração crescente de seu próprio povo, esta mesma classe trabalhadora dos EUA não aceita esse aumento no nível de exploração e traz a resistência de processos revolucionários do mundo todo para dentro dos EUA. O tarifaço de Trump não consegue, nem vai conseguir, impedir a importação do método revolucionário da classe trabalhadora mundial para os Estados Unidos. As revoluções síria, iemenita, bielorussa, ucraniana, sérvia, iraniana, nepalesa, equatoriana, chilena, de Bangladesh, sudanesa etc., mais as imensas greves operárias europeias e asiáticas, juntam-se agora à cada vez maior manifestação política da classe trabalhadora dos Estados Unidos. A revolução nos quatro cantos do mundo ganha o apoio dessa imensuravelmente importante aliada. Nessa realidade, o chão de dominação da burguesia ianque se move e, com ela, as estruturas do capitalismo imperialista que sustenta. Essa realidade é a mola propulsora do caos da guerra trumpista, do seu caráter caótico, imprevisível e burlesco. Nesse terreno mundial de pandemia, crises, revoluções e greves, Trump assumiu a tarefa de reverter o acúmulo de derrotas militares sucessivas e a dominação global ameaçada, não pela Rússia ou pela China, mas pela revolução social. Trump faz uma guerra imperialista, mas não apenas isso. Ao mesmo tempo em que é uma guerra imperialista como qualquer outra, devido ao papel mundial que cumpre a burguesia dos EUA, é diferente de todas as demais.

A diferença fundamental é essa: os EUA estão muito mais vulneráveis do que há 25 ou 75 anos, sem coesão interna entre seus setores dominantes e entre eles e as classes inferiores, com um acúmulo de derrotas humilhantes, enfraquecidos e sem uma ferramenta contrarrevolucionária mundial à altura do que foi a União Soviética, embora a China e outros aparatos cumpram parcialmente o papel de dique de contenção do proletariado mundial. Ainda mais, no seu interior, o papel de ala de contenção desempenhado pelos Democratas está desgastado e cada vez mais questionado pelas bases operárias e pelos setores oprimidos da classe trabalhadora. É uma guerra de uma potência imperialista em decadência e frágil. Entender isso é entender que a capacidade de derrota militar dos EUA é real, e a possibilidade de vitórias das nações oprimidas contra todas as potências mundiais e regionais é também muito concreta. Isso abre uma nova referência de luta anticolonial e anti-imperialista no mundo, o que contribui decisivamente para a construção de revoluções sociais e para a consolidação de um programa marxista no seio do proletariado mundial.

Paulo Magno, 29 de março de 2026.

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