Contribuição à discussão sobre a Venezuela
1. A intervenção dos EUA na Venezuela em 3 de janeiro foi um ataque à soberania do país e da América Latina. A intervenção foi o ápice de outros ataques anteriores, que provocaram 100 mortes na costa do país. O embargo ao comércio de petróleo e atos de pirataria com navios cargueiros também precedem a prisão de Maduro. No marco do intervencionismo, também se inscreve a aplicação da Lei Magnitsky a autoridades brasileiras, que já foi revogada.
2. A operação ocorre no marco do anúncio do retorno da Doutrina Monroe. Com o anúncio da doutrina “Donroe”, em alusão a Donald Trump, o governo e sua fração burguesa comprometem-se perante o mundo a reaver a influência que supostamente os EUA perderam no hemisfério ocidental do Planeta. Junto a esse fato, ocorre a intensificação da revolução mundial, tragando países de todos os continentes no turbilhão da radicalização da luta social já em curso (Nepal, Bangladesh, Marrocos, Madagascar, Irã, etc.). As contrarrevoluções e guerras reacionárias em curso são respostas ao levantamento de setores muito fortes do proletariado mundial.
. A escalada de Trump parece ser também bastante influenciada pela necessidade de se fortalecer internamente, após sucessivas derrotas políticas expressas nos atos “No King”, no escândalo de pedofilia, na resistência popular à xenofobia e na inflação galopante, devido à guerra tarifária. Talvez seja, acima da Doutrina Monroe, o principal propulsor da escalada trumpista.
4. Não houve e nem parece haver disposição de uma resposta contundente de qualquer setor da burguesia latino-americana à escalada de Trump. O fato de mobilizar um forte aparato de guerra no Caribe não implicou nem mesmo o enfrentamento da boliburguesia com os EUA. As negociações com o chavismo foram permanentes desde o início da escalada e não há, até o momento, nenhuma ruptura diplomática, muito menos nacionalização de qualquer setor econômico importante ou rompimento de acordos comerciais. Também não há controle das remessas de lucros das filiais de empresas norte-americanas, mas ao contrário. Maduro e Lula avançaram em acordos de submissão em relação à exploração de petróleo, à implantação de data centers e à preferência comercial sobre terras raras.
5. O aprofundamento da interferência externa leva a mais espoliação. O empobrecimento geral do povo venezuelano acontece em meio a concessões e joint ventures em setores estratégicos da economia (energia e exploração mineral). Igualmente, no Brasil, o “tarifaço” de Trump foi administrado e aplicado por Lula por meio do Programa Brasil Soberano, que foi, na prática, o fiador da intervenção externa. Lula nem sequer revogou a entrega da base de Alcântara aos EUA, feita ainda no governo Bolsonaro.
6. A culminação da escalada intervencionista, por um lado, e do entreguismo da burguesia latino-americana ocorreu dia 03 de janeiro de 2026, quando um pacto entre Trump e a camarilha chavista abriu as portas para a captura de Maduro pelas forças armadas dos EUA. Dessa forma, abre-se uma nova realidade política no continente. A retórica anti-imperialista do chavismo e do neo-stalinismo fica exposta. A possibilidade de denunciar a ingerência externa também permite denunciar, mais do que em qualquer outro momento, como a burguesia chavista é reacionária e entreguista.
7. Nesse sentido, a realidade demonstra que para derrotar o imperialismo dos EUA, é preciso ultrapassar as barreiras impostas pelas direções reformistas. Essas direções antes distribuíam ilusões de que a Rússia e a China garantiriam a proteção e a soberania da Venezuela, e assim jogaram areia nos olhos dos trabalhadores. Da mesma forma, essas direções iludem os trabalhadores de que esses governos de esquerda seriam anti-imperialistas e “democráticos”. Pois bem, o acordo Delcy-Trump, que já é amplamente veiculado na imprensa burguesa, mas convenientemente abafado e ignorado na imprensa reformista, joga por terra todos esses mitos e abre uma oportunidade para ganhar a vanguarda para uma verdadeira alternativa.
8. A alternativa para essa realidade é a unidade latino-americana da classe trabalhadora, para além das falsas alternativas de esquerda e direita do continente, todas submissas ao capital internacional, seja o de Trump ou de qualquer outro. A penúria, o desemprego e a migração forçada só poderão ser superados com um programa econômico que expulse as multinacionais, avance por meio de uma ampla mobilização revolucionária em direção a uma revolução socialista, operária e popular. Os processos revolucionários no continente estão na ordem do dia, com as imensas greves gerais e rebeliões populares dos últimos anos. Para que essas revoluções avancem, é necessário superar Boric, Delcy, Lula e todas as direções reformistas que atacam e traem não só a independência da classe trabalhadora, mas até mesmo a soberania do continente e as poucas conquistas de organização sindical.
9. Neste sentido, o eixo de intervenção de uma direção revolucionária hoje passa por denunciar o acordo Delcy-Trump e, na mesma medida, a escalada de intervenções dos EUA. Exigir a ruptura de relações diplomáticas e a nacionalização dos recursos estratégicos espoliados pelos EUA, como pontos imediatos de um programa de transição para uma revolução socialista.
Não ao pacto Delcy-Trump!
Fora ianques da América Latina!
Fora Delcy Rodríguez!
Pela nacionalização dos recursos estratégicos.
Ruptura da diplomacia com os EUA.
Construir uma saída operária e popular na Venezuela.
