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Home»Dossiê Venezuela»Segunda carta de Diego Russo (7 de janeiro)
Dossiê Venezuela

Segunda carta de Diego Russo (7 de janeiro)

Por: Diego Russo
26/01/2026Nenhum comentário10 Mins Read
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Camaradas, expresso aqui algumas discordâncias em relação aos nossos materiais sobre a Venezuela, já à luz das ricas e úteis discussões que tivemos.

Essas diferenças vêm desde antes da invasão americana, quando da declaração de dezembro do CIR. Na ocasião, eu já havia enviado uma carta a respeito (19/12) com algumas discordâncias. Depois, tivemos uma discussão numa reunião ampliada do Secretariado do MPR (03/01), na qual aprofundamos o debate. Muitas das divergências foram superadas pelo próprio andar dos acontecimentos e pela discussão realizada. Obviamente, temos acordo entre nós em sermos contra a agressão militar norte-americana contra a Venezuela e contra a ditadura de Maduro, o que já nos separa, praticamente, do resto da esquerda. O PSTU, por exemplo, tem uma política ridícula de exigir da ditadura chavista liberdades democráticas, e não de derrotá-la.

Mas a partir deste importantíssimo acordo entre nós, há várias diferenças.

Tenho acordo de que o centro no momento é a luta contra a agressão imperialista. Mas não tenho acordo sobre como isso se combina com a luta contra a ditadura chavista (com ou sem Maduro).

Minha opinião é que devemos levantar como tarefa imediata para o povo venezuelano, além de derrotar a agressão militar americana, a derrubada da ditadura chavista, já sem Maduro. Ou melhor, que o caminho para derrotar a agressão imperialista é justamente derrubar a ditadura chavista, que reprime as massas enquanto negocia com Trump a colonização total da Venezuela.

Existe uma pressão imensa dos aparatos, que nos atinge a partir da vanguarda (que é toda, em maior ou menor grau, chavista), de centrar fogo apenas na luta contra o imperialismo, secundarizando o combate à ditadura venezuelana.

Apesar de estar presente em nossos materiais o chamado a derrubar a ditadura de Maduro, está sem nenhum destaque, e ausente de nossas intervenções e faixas nos atos. Minha opinião é que isso é um erro grave.

Não tenho diferenças com que nosso eixo seja a luta contra o imperialismo, mas este eixo não está em contradição com o chamado a derrubar a ditadura chavista. A tarefa das massas não é primeiro derrotar a agressão imperialista, para depois acertar as contas com o chavismo. Pelo contrário, o combate ao imperialismo passa justamente por derrubar a ditadura pró-imperialista do chavismo, com ou sem Maduro. Vejamos: a ditadura chavista (ou um setor dela) colaborou com o imperialismo norte-americano no sequestro de Maduro. Há um grande acordo hoje entre o chavismo e Trump em manter a ditadura na Venezuela. É a ditadura chavista, com Delcy Rodríguez, seu irmão Jorge, Diosdado Cabello e Vladimir Padrino, que negocia com Trump o aprofundamento da colonização do país, através dos acordos sobre o petróleo. São eles – o núcleo duro do chavismo – muito mais do que o próprio Maduro, quem negocia a entrega do petróleo venezuelano aos EUA, hoje e desde sempre.

Não há nenhuma unidade de ação anti-imperialista possível com o chavismo hoje, justamente porque o chavismo não toma nenhuma ação anti-imperialista. A política do chavismo, acuado pela enorme pressão norte-americana, é a de aprofundar a submissão ao imperialismo para tentar saciar sua sede e manter a ditadura. O chavismo é, desta forma, cúmplice da agressão norte-americana em curso, e não um setor que, com mais ou menos problemas, enfrenta-a em algum grau. Obviamente, se o chavismo vier a enfrentar, com armas na mão, uma intervenção americana, faremos total unidade de ação com eles neste enfrentamento. Mas não é isso o que está ocorrendo hoje, muito pelo contrário.

Se queremos ser consequentes na luta contra a agressão de Trump à Venezuela, devemos levantar a derrubada de seus agentes na Venezuela: a ditadura chavista, com ou sem Maduro.

Outra questão importante é como se ordenam as tarefas num país que vive sob uma ditadura, como a Venezuela. O eixo neste país é a derrubada da ditadura, acima de qualquer outra questão. Em situações excepcionais, como uma agressão imperialista que force a ditadura a enfrentá-la (há raros exemplos disso), podemos, por um período determinado, colocar a unidade de ação com a ditadura contra a agressão imperialista em primeiro plano. Mas isso é uma exceção. Esta realidade não existe hoje na Venezuela, porque a ditadura, para além dos discursos patrióticos, colabora com a agressão imperialista.

Por isso, a luta contra a agressão de Trump, em especial neste momento em que não há soldados norte-americanos na Venezuela, ordena-se pela derrubada da ditadura pró-imperialista de Delcy Rodríguez. Não há lado progressista entre o chavismo e Trump, sequer para um acordo militar.

Outro elemento é a possibilidade concreta, aberta com a crise atual, de se derrubar o chavismo da Venezuela. A ação de Trump e a postura submissa do chavismo abriram uma grave crise neste último. Seus ideólogos têm grandes dificuldades para explicar como os EUA raptaram Maduro quase sem resistência, sendo que a Venezuela possui uma das FA mais poderosas do continente (os sistemas antiaéreos russos sequer foram acionados, o que é todo um tema). Há um debilitamento do regime, que pode ser aproveitado pelas massas. Houve importantes manifestações de venezuelanos exilados em vários países da AL. Se tal processo se dá no interior da Venezuela, abre-se a possibilidade de finalmente derrubar este regime canalha (com a possibilidade de se abrir tal cenário em Cuba). Esta deve ser a tarefa que devemos propor aos trabalhadores venezuelanos. Construir milícias populares e de trabalhadores por bairros, local de trabalho, etc., como diz a declaração do CIR, mas com o claro objetivo de derrubar o regime chavista, agente do imperialismo norte-americano.

Ciente deste risco, a política de Trump é oposta: é manter o regime chavista, negociando com ele. Por isso, Trump descartou colocar a oposição burguesa de direita no governo. Disse que Maria Corina “não tinha apoio suficiente no país”. Obviamente, não se referia ao apoio popular, que nada importa para Trump e com o qual ela conta em algum grau. Mas ao apoio das FA, que referendaram a transmissão do poder a Delcy Rodríguez. Por isso, Trump negocia com Delcy e não com Corina ou com outros nomes da oposição de direita.

A preocupação é evitar que a ação de Trump desencadeie um processo incontrolável, como em 2002, com o golpe fracassado contra Chávez.

Não é por outra razão que Diosdado Cabello, um dos homens fortes do chavismo, publique vídeos na internet com centenas de homens armados percorrendo Caracas, a fim de demonstrar que a cidade “está em ordem e sob controle” (sob aplausos da esquerda reformista!). Tenta demonstrar a Trump que eles são os únicos que podem evitar uma guerra civil na Venezuela. Basta imaginar o que aconteceria se os venezuelanos fossem às centenas de milhares às ruas hoje e derrubassem a ditadura. Não haveria nenhuma força capaz de detê-los. Dificultaria enormemente os planos de colonização da Venezuela de Trump. As massas venezuelanas, com a classe operária petroleira à frente, são a única força capaz de enfrentar os planos de recolonização de Trump, e é justamente contra estes que se dirige a ditadura chavista, desde sempre, e hoje mais ainda.

Este debate é central para nós, pois devemos disputar a direção da luta pela derrubada da ditadura venezuelana, na medida, obviamente, de nossas forças. Hoje, infelizmente, pelo nosso pequeno tamanho e influência, podemos fazer esta disputa apenas no plano político, educando ativistas. Mas o fato é que hoje há uma ditadura fragilizada na Venezuela e um imenso acordo que vai de Trump ao PSOL pela manutenção da ditadura, com Delcy Rodríguez à cabeça! É uma oportunidade imensa para os verdadeiros revolucionários! E que não estamos aproveitando, porque não damos prioridade à luta pela derrubada da ditadura chavista.

Ainda sobre a unidade de ação com o chavismo. Como dissemos acima, não há nenhuma unidade possível com o chavismo hoje. No que diz respeito aos atos contra a agressão norte-americana à Venezuela, devemos participar ou não? Não há uma resposta a priori a esta questão. Devemos analisar caso a caso. Todas as correntes que convocam atos no Brasil têm a política de apoio à ditadura chavista pró-EUA com Delcy Rodríguez à cabeça. Ou seja, apoio à política de negociação com Trump para evitar qualquer reação das massas venezuelanas. É uma política para derrotar qualquer luta contra o imperialismo, que abre o caminho para a colonização total da Venezuela pelas mãos do chavismo. Atos que tenham este caráter são atos que conspiram contra a derrubada da ditadura que, como vimos, é hoje agente de Trump. Pode haver atos mais amplos, de fora o imperialismo da AL, dos quais poderíamos participar, desde que dizendo o que temos que dizer: que derrotar a agressão imperialista passa por derrotar a ditadura chavista pró-imperialista.

Sobre a recolonização da Venezuela e o petróleo. É um tema complexo. A política de Trump é sair das guerras pelo mundo, como na Síria, na Palestina e na Ucrânia, para se concentrar na economia norte-americana, no Business. Neste sentido, Trump não é um super-Bush, parece mais o seu oposto. Pode ser que haja, como vêm afirmando alguns analistas, uma política distinta para o seu quintal, a América Latina. No discurso de Trump, isso é claro, com o seu “este hemisfério é nosso”. Mas quanto disso é só discurso, como “anexar a Groenlândia”, é difícil de avaliar. É possível que exista uma política de Trump para recuperar o controle total do subcontinente, afastando competidores como a China. Tenho sérias dúvidas disso, se é uma política real ou, novamente, só discurso. Os interesses norte-americanos na AL estão e sempre estiveram assegurados pelas submissas burguesias locais, incluindo o chavismo.

É verdade que a Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do continente. Mas este fato, além de ser conhecido há décadas, não deve ser absolutizado. Hoje há superprodução de petróleo no mundo, com os preços em queda. O petróleo venezuelano é de péssima qualidade, exigindo alta tecnologia e investimentos pesados para ser refinado. A China, por exemplo, sua maior compradora hoje, não o usa para refinar combustível, e sim para fazer asfalto. A infraestrutura petrolífera da Venezuela, após três décadas de chavismo, está completamente sucateada. É necessário um enorme investimento e cerca de uma década para voltar a ampliar a produção. Com os preços no patamar atual, tal investimento é pouco vantajoso. Por que, então, justamente num momento em que os preços do petróleo estão em queda, Trump decide realizar esta ação?

Temos que refletir mais sobre isso, mas minha impressão é que Trump reage muito mais à sua situação política do que a um pretenso plano de controlar o petróleo venezuelano, sem negar que esse elemento também esteja presente.

Trump tem dificuldades no plano interno nos EUA, está fragilizado pelo caso Epstein, há grandes manifestações contra ele nos EUA, sua política para “terminar em um dia” a guerra da Ucrânia fracassou, toda a sua verborragia começa a cansar, todo mundo já sabe que “Trump sempre amarela”… Ele necessitava de um fato político neste momento. A Venezuela parecia ideal: um regime político odiado pelas massas, isolado até na AL, uma ala do chavismo disposta a rifar Maduro e, de quebra, a questão do petróleo. E foi isso que ele fez. Se der certo, sai fortalecido, inclusive para negociações mais duras com outras burguesias. Mas acho errado cairmos na resposta fácil de “tudo devido ao petróleo”. A ação foi política e responde, portanto, a causas políticas. Isso não significa que não devamos combater a agressão militar norte-americana, muito pelo contrário. Mas compreender bem o que está por trás dela nos ajudará muito a determinar nossa política, inclusive para derrotar essa agressão.

Por último, ainda não estão claras as consequências da ação de Trump no resto do mundo. Na AL, gerou forte oposição das burguesias locais. No Brasil, o Globo e a FSP colocaram-se claramente contra a agressão. Isso dificultará a vida dos EUA na AL. O NYT publicou um editorial claramente contra o ataque, denunciando-o como “desastrado e criminoso”. Veremos se, com sua ação, Trump não agravou ainda mais as contradições do imperialismo norte-americano.

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