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Documentos Iniciais

O partido revolucionário que a classe operária precisa construir

Por: Direção Nacional do MPR
28/10/2026Nenhum comentário44 Mins Read
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O partido revolucionário, sendo tão importante, na realidade nada mais é do que uma ferramenta, embora imprescindível, para levar adiante o nosso programa, que “…se sintetiza em três palavras: ditadura do proletariado“1.

Portanto, o nosso partido, desde o seu nascimento, ainda que tenha muito poucos militantes, tem que ser uma ferramenta útil para alcançar nosso objetivo: a ditadura revolucionária do proletariado. Por isso, para elaborar este projeto de construção, tomamos como referência o Partido Bolchevique, o único partido marxista que conseguiu esse objetivo.

Não é fácil, neste momento, construir o projeto de um novo partido revolucionário, porque nos vemos obrigados a fazê-lo após a destruição da nossa corrente internacional de mais de 80 anos de existência e da nossa corrente nacional de mais de 50 anos.

No entanto, para construir esse projeto, não partimos do zero, porque, por um lado, o balanço inicial sobre a crise do trotskismo, que levou à destruição da IV Internacional e da grande maioria das organizações trotskistas, ajuda-nos a saber o que não temos que fazer, da mesma forma que o estudo sobre a experiência de construção do Partido Bolchevique nos permite saber o que, sim, temos que fazer.

Neste contexto, também é necessário entender que a nossa corrente internacional, ao contrário da maioria das organizações “trotskistas”, não teve um desenvolvimento linear. Pelo contrário, houve diferentes momentos no que se refere ao projeto de construção. Tivemos momentos em que levamos adiante projetos que nos afastaram do bolchevismo, ao mesmo tempo em que houve outros momentos em que levamos adiante projetos de construção que mais se aproximaram do bolchevismo. Referimo-nos concretamente à experiência de construção do PRT-La Verdad e do PST argentino, ambos os projetos dirigidos por Nahuel Moreno.

Por fim, queremos deixar estabelecido que reivindicamos a experiência de construção da seção brasileira, em seus diversos momentos, apesar de suas debilidades, até a sua completa degeneração, mas, uma vez expulsos do PSTU, não lutamos pela sua reconstrução porque coincidimos com o nosso mestre, Friedrich Engels, quando este dizia: “Tentar ressuscitar de forma idêntica uma organização destruída, ou dissolvida, é um erro; o que deve surgir em seu lugar é uma organização em um nível superior de desenvolvimento político“.

Nós, pelo exposto anteriormente, queremos construir uma organização superior ao PSTU; por isso, neste projeto, em vários momentos, questionaremos não só a prática e as elaborações do PSTU dos últimos anos, mas também as práticas e as elaborações históricas da nossa corrente no Brasil, desde a fundação da Liga Operária.

1. Um partido internacionalista

Contra o “partido mãe”.

O novo partido tem que ser, antes de tudo, um partido internacionalista. A esse respeito, devemos lembrar que, quando os bolcheviques, no ano de 1914, romperam com a Segunda Internacional2, chegaram rapidamente à conclusão de que era necessário construir uma nova internacional da qual o partido pudesse fazer parte. Porque, para os bolcheviques, liderados por Lênin, não havia como construir um partido verdadeiramente revolucionário se ele não fizesse parte de uma internacional — objetivo que conseguiram alcançar em 1919 com a construção da III Internacional, da qual o Partido Bolchevique fez parte de sua direção, de forma minoritária, apesar de ser o maior partido e o único que estava no poder.

Uma organização nacional é internacionalista, em primeiro lugar, se faz parte de uma Internacional e, em segundo lugar, se elabora sua política nacional no marco da Internacional, o que significa que submete sua política à crítica, muitas vezes implacável, da direção internacional.

No nosso caso, isso significa que só poderemos nos consolidar e nos desenvolver como uma organização revolucionária (trotskista) se a nossa política for acompanhada e criticada não apenas pela Internacional, mas também pelas diferentes seções nacionais — e o mesmo devemos fazer em relação às outras organizações da Internacional.

A classe trabalhadora precisa de uma Internacional porque a revolução é internacional e, por isso, é necessário, para a vitória dessa revolução, o Partido Mundial da Revolução, pois esse partido será o polo consciente da revolução permanente.

A classe trabalhadora, à medida que o mundo está dividido em estados nacionais, só pode começar a tomar o poder em nível nacional; contudo, não há possibilidades de construir uma sociedade socialista em nível nacional em um mundo dominado pelas grandes potências imperialistas. Por isso, é necessário que a classe trabalhadora, após tomar o poder em um país, estenda essa revolução em escala mundial, tornando imprescindível a construção de uma Internacional trotskista.

Por essa razão, os bolcheviques, após tomarem o poder na Rússia em 1917, tiveram como principal tarefa impulsionar a construção da III Internacional, que foi fundada em 1919.

Com esse critério, a III Internacional respondia à necessidade imperiosa de defender a Revolução Russa e de expandi-la para os outros países. Hoje em dia, a internacional que vamos começar a construir, por sua pequena envergadura, não está diante desse tipo de desafio; no entanto, sua construção é tão necessária quanto em 1919, porque a história nos mostra que nunca um partido revolucionário, apenas de caráter nacional, pôde manter seu caráter revolucionário por muito tempo.

No curto ou médio prazo, esse partido revolucionário, que não faz parte de uma internacional, inevitavelmente será destruído ou transformado em um partido não revolucionário, porque nenhum partido nacional poderá suportar, por muito tempo, as pressões nacionais de seus inimigos, assim como as pressões oriundas de suas derrotas e inclusive de suas vitórias. Apenas uma direção internacional, por não sofrer essas pressões, poderá ajudar esse partido a resisti-las e superá-las.

Nahuel Moreno repetia frequentemente, como um mantra, que “Toda direção internacional, por mais fraca que seja, é superior a todas as direções nacionais, por mais fortes que estas sejam.”

Nosso partido tem que fazer parte da nova Internacional, mas apenas parte, e fazemos este alerta porque nossa pequena e fraca organização nacional será a organização com mais militantes, mais dirigentes e mais recursos financeiros na nova Internacional. Isso cria a possibilidade de que nossa organização tente se transformar na “mãe” da Internacional, de tal forma que, em vez de estar subordinada a ela, tente fazer com que toda a Internacional esteja subordinada à nossa organização — o que levaria, em curto ou médio prazo, à destruição do nosso partido e da Internacional.

Este alerta pode parecer exagerado, mas não é. Levando em consideração que toda a experiência histórica indica que, toda vez que, em uma Internacional, um de seus partidos era qualitativamente superior ao resto, essa organização acabou tomando seu controle para terminar acabando com ela.

Esse processo ocorre quando o partido maior não aceita, por ser maior, ser questionado pelas organizações menores.

Isso ocorreu com o grande Partido Social-Democrata Alemão, que acabou com a II Internacional, e com o Partido Bolchevique, controlado por Stalin, que acabou com a III Internacional.

Isso não foi possível apenas porque esses partidos, diferentemente do nosso, eram integrados por milhões de militantes. Não é um problema de quantidade, mas de qualidade. Eles conseguiram acabar com suas respectivas internacionais porque eram qualitativamente mais poderosos do que o restante dos partidos de suas respectivas internacionais. Por isso, essa mesma situação ocorreu com organizações muito menores, como foi o caso da LIT, no MAS argentino e no PSTU brasileiro, que tinham, em seus momentos, mais militantes, mais dirigentes e mais recursos financeiros do que a soma de todos os partidos da LIT juntos.

Pelo exposto anteriormente, a organização que vamos construir já está ameaçada antes mesmo de existir.

Lamentavelmente não existe uma vacina que impeça o novo partido de repetir essas nefastas experiências dentro da LIT, do MAS argentino e do PSTU, mas deve existir uma política: por um lado, que a nova direção e as bases do novo partido estejam conscientes de que o principal perigo que o partido enfrentará será este, e que alertem toda a Internacional sobre este perigo, incentivando a vigilância permanente da direção de nosso partido por parte das demais seções; por outro lado, que nosso partido coloque todos os seus recursos, políticos e financeiros, e que envie uma parte de seus dirigentes para ajudar outras seções a se transformarem em organizações mais fortes, em todos os sentidos, do que a nossa. Isso significa ser internacionalista de verdade.

2. A construção do partido: nossa única atividade permanente e prioritária

Desde o surgimento do socialismo científico com Marx e Engels, a construção do partido operário revolucionário tem sido a razão de ser de todos os marxistas. Isso se deve ao fato de que a estratégia desses partidos consistia na ditadura do proletariado — um objetivo que só poderia ser alcançado por meio de um partido revolucionário da própria classe trabalhadora.

Essa premissa sempre foi verdadeira. No entanto, a partir do triunfo da contrarrevolução stalinista — que destruiu o Partido Bolchevique e a Terceira Internacional —, a necessidade de construir uma nova direção revolucionária em cada país e uma nova Internacional revolucionária em escala mundial tornou-se uma questão de “vida ou morte” para impedir a destruição da humanidade. Como apontou Trotsky em 1938: “A crise histórica da humanidade reduz-se à crise da direção revolucionária” 3.

A necessidade de construir tanto o partido nacional quanto a Internacional visava — e ainda visa — retomar o caminho iniciado pela Revolução Russa, interrompido pelo stalinismo, rumo à ditadura do proletariado como única via para avançar em direção ao socialismo.

Nesse percurso, a classe operária e as massas — com ou sem uma direção revolucionária — realizam greves, manifestações, insurreições e revoluções. No entanto, o que a classe operária e as massas não conseguem construir por si sós é a direção revolucionária dessas revoluções. Essa tarefa só pode ser cumprida pelas organizações marxistas.

Por isso, a construção do partido marxista é uma atividade permanente — já que ninguém a fará por nós — e prioritária, à qual todas as demais tarefas se subordinam. Intervimos nas greves para construir o partido, em atos para construir o partido, em eleições para construir o partido e nas revoluções para construir a direção desses processos. Afinal, se não o fizermos, as lutas inevitavelmente terminarão em derrota.

Pode parecer algo óbvio que a principal atividade de um partido revolucionário seja construir o próprio partido; no entanto, a realidade é que a maioria das organizações revolucionárias deixou de sê-lo a partir do momento em que abandonou essa prioridade. Assim, vimos organizações economicistas, cuja tarefa central e única era intervir nas lutas econômicas da classe operária, ou organizações sindicalistas, cuja atividade central era disputar a direção dos sindicatos e, em maior medida, organizações eleitoralistas, cuja tarefa central era participar das eleições burguesas de tal maneira que todas elas,  ao abandonarem como sua tarefa central construir partidos revolucionários, bolcheviques, abandonaram a luta pela ditadura do proletariado, passando, desta forma, a integrar-se aos regimes democrático-burgueses.

3. A intervenção na luta de classes, uma tarefa de todo o partido

A intervenção na luta de classes como uma tarefa de todo o partido é algo tão óbvio para os marxistas que não deveria fazer parte de um projeto de construção. No entanto, a maioria dos que nos dispomos a construir um novo partido revolucionário provém do PSTU, um partido no qual este critério foi deixado de lado.

No PSTU, nos últimos anos, a intervenção na luta de classes era uma tarefa dos dirigentes sindicais e dos camaradas que trabalhavam no setor em conflito, ao mesmo tempo em que a política concreta para cada luta era determinada pelos setores que estavam participando dessa luta e não pelos organismos partidários, de tal forma que o partido, como partido, não participava da luta de classes. Por exemplo, os estudantes não participavam das lutas da classe operária, e o mesmo valia para os funcionários públicos, que também não participavam das lutas operárias, ao mesmo tempo em que os operários não tinham nenhuma relação com as lutas dos professores ou dos estudantes.

A máxima expressão disso é que a direção máxima do partido, o seu CC, raramente discutia e muito menos dava orientação política para as principais lutas da classe operária e dos trabalhadores nas quais os militantes do partido estavam intervindo.

Essa prática do PSTU significa renegar toda a tradição, não só do bolchevismo e da nossa corrente internacional, mas da própria tradição do partido, particularmente da Liga Operária e da Convergência Socialista.

Esta prática do PSTU dos últimos anos não é algo novo. É a prática de todas as organizações reformistas. Por exemplo, o PSOL intervém na luta de classes por meio de seus filiados, mas nunca como partido; por isso, em muitas oportunidades, intervém com diferentes orientações.

É o mesmo que ocorre, em nível internacional, com os partidos social-democratas e com os chamados “partidos anticapitalistas”.

No MPR, a nossa prática não é muito diferente da do PSTU. Intervimos, na maioria dos casos, por meio dos nossos militantes, mas com políticas que não são discutidas e votadas nos órgãos. Isso tem que ser mudado radicalmente, como única forma de que a intervenção na luta de classes seja a nossa principal forma de construir o partido.

O MPR é uma organização e, portanto, a sua intervenção, em qualquer instância da realidade, só pode ser orgânica. Isto é, não por meio de ações individuais, mas de seus organismos. Nesse sentido, intervir na luta de classes, como MPR, significa discutir, no núcleo, tudo o que está relacionado à intervenção de um camarada ou de dez dentro do núcleo. Significa discutir a situação do conflito, a política a ser seguida, como segui-la, fazer um balanço do que foi feito de forma permanente e, o mais importante, discutir, em cada reunião, uma lista de contatos para recrutar.

4. Um partido centralizado democraticamente

Para ampliar a democracia

A história de todas as revoluções demonstrou que, sem uma organização centralizada, não se pode tomar o poder. Seja essa organização centralizada de forma democrática ou burocrática. Mas a história também demonstrou que, quando o poder foi tomado por uma organização centralizada burocraticamente, não é a classe operária que toma o poder, mas sim uma burocracia, e é isso que vai determinar o caráter desse Estado. Estados operários burocratizados que, em conjunto, marcharam para a restauração do capitalismo.

Mas, mais ainda, na fase atual de construção, se o nosso partido não fosse democrático, nem sequer seria possível garantir uma boa orientação política, porque toda direção sempre cometerá erros, e a única forma de corrigir esses erros é por um processo de crítica e autocrítica. Ocorre que, se não há democracia, se não há espaço para a crítica, se aqueles que criticam são ignorados, perseguidos e até expulsos, não haverá espaço para a autocrítica, de modo que os erros continuarão se repetindo e se aprofundando, o que leva a rupturas e/ou expulsões, como ocorreu recentemente no PSTU.

Todos os partidos marxistas, incluindo os stalinistas, reivindicam um regime centralista democrático; mais ainda, todos têm estatutos para regulamentar esse regime, só que, na prática, renegam seus próprios estatutos, como fazia o PSTU, e passam a funcionar com um regime centralista burocrático.

Pelo que foi dito anteriormente, nosso partido tem que funcionar com um regime centralista democrático de verdade. Para isso, tomando como referência o ocorrido com o regime do PSTU nos últimos anos, faz-se necessário reforçar, nos estatutos e, particularmente, na prática, tudo o que tem a ver com a democracia no nível da base, no que diz respeito à liberdade dos núcleos para abordar os temas que consideram necessários (algo proibido nos últimos anos pelo PSTU), bem como ter a liberdade de expressar publicamente suas opiniões discordantes com a direção (algo também proibido pelo PSTU).

Porém, no que se refere a reforçar a democracia, não só temos que superar, obviamente, os métodos do PSTU, mas também alguns da nossa corrente internacional em seus melhores momentos, tomando como referência os critérios do Partido Bolchevique.

Para Lênin, a máxima expressão da democracia bolchevique estava na eleição da direção do partido, que sempre devia ser de baixo para cima. Ou seja, é a base que elege todas as direções do partido, especialmente quando se trata da direção nacional (o Comitê Central).

Para os bolcheviques, como para a nossa corrente, o tema mais importante de todos os congressos era a eleição do Comitê Central; por isso, no pré-congresso, esse tema era discutido intensamente com base nas diferentes listas de candidatos apresentadas pela direção nacional e pelas diferentes regionais. A partir daí, o Congresso votava, em primeiro lugar, o número de integrantes do CC e, em seguida, elegia seus membros em votação secreta, com base nas propostas apresentadas pela direção e pelas regionais por meio de seus delegados.

É conhecido o caso de Yákov Sverdlov, o grande organizador do Partido Bolchevique, que equivalia, segundo Lênin, “… a 51% do partido“4, que foi eleito para o CC na conferência de abril de 1917 pelos delegados de base que enfrentaram no congresso a opinião de Lênin, que era contrário à sua eleição.5

Este critério de Lênin para eleger a direção do partido era tão importante que ele lamentava muito quando, por razões de clandestinidade, não podia usá-lo. Nesses casos, a direção bolchevique não fazia — porque não podia — uma discussão sobre a eleição da direção durante o pré-congresso. Dessa forma, no congresso, apresentava-se apenas uma lista fechada da direção para ser votada, o que normalmente era feito, com uma ou outra observação, diante da falta de outras alternativas.

Quando Stálin tomou o controle do partido, o critério utilizado pelos bolcheviques em situações de clandestinidade passou a ser utilizado em situações de legalidade. Nos congressos, apresentavam-se, sem nenhuma discussão na base, listas fechadas para serem votadas pelos delegados. Portanto, sob o estalinismo, não era a base quem elegia a direção. Era a direção que elegia a direção.

Fazendo um balanço da nossa corrente internacional de mais de 80 anos e da nossa corrente nacional de mais de 50 anos, temos que reconhecer, lamentavelmente muito tarde, que, em relação a este tema central do nosso regime, não fomos continuadores da metodologia de Lênin, mas sim da de Stálin, já que em nossos pré-congressos não se discutia o tema mais importante do congresso: quem vai integrar a máxima direção do partido, que era eleita com base em uma lista fechada apresentada pela direção, de modo que, assim como na época de Stálin, não era a base que elegia a direção, mas a própria direção que se elegia e, normalmente, se reelegia.

Mas, se foi tarde para descobrir este profundo erro em relação à nossa corrente histórica, internacional e nacional, é cedo para os nossos novos partidos nacionais e a Internacional, de tal forma que, se formos capazes de ser autocríticos até o fim, poderemos também construir uma organização nacional e uma Internacional que expressem, também neste terreno, como dizia nosso mestre Friedrich Engels, “… um nível superior de desenvolvimento político” em relação ao PSTU e à LIT.

5. Um partido centralizado democraticamente

Para garantir a centralização.

Um partido revolucionário, regido por um regime centralista democrático, tem que ser muito democrático, porque não se centraliza o pensamento, mas, ao mesmo tempo, tem que ser muito centralizado, porque o que se centraliza é a ação, ou seja, a política. Ocorre que, em relação à centralização, surgiu um importante debate na direção nacional do MPR, que tem a ver com a relação entre o Secretariado e a DN.

Há camaradas que, com razão, afirmam que o Secretariado, que é um organismo subordinado à Direção Nacional, na prática, substitui a DN em muitas oportunidades.

Este mesmo tema, ou esta anormalidade, foi discutido muitas vezes na direção da LIT em seu melhor momento.

A partir desta constatação, outros camaradas opinam que a solução é acabar com o Secretariado e ficar apenas com a Direção Nacional.

Os camaradas não deixam de ter razão. Realmente, se o Secretariado acabar, não vai existir essa contradição com a DN, mas cria-se outro problema, mais grave. Na medida em que a DN se reúne, durante dois dias, uma vez por mês, nos 28 dias restantes não vai existir nenhuma centralização. Não vai existir nenhum organismo para responder às diferentes exigências que se apresentam ao partido todos os dias. Mas, como não vai existir nenhum organismo para responder a elas, alguém vai ter que responder de forma monocrática. Isso ocorre porque a centralização cotidiana de um partido revolucionário é uma necessidade.

A contradição entre o Secretariado, que, em muitas ocasiões, substitui a direção nacional, existe. É uma realidade. Mas não se supera com uma medida administrativa, e sim com uma política relativamente simples. A DN tem que discutir e resolver, mensalmente, um ou dois dos temas mais importantes, com todo o tempo necessário, com intervenções de 15 minutos e não de três ou cinco minutos, deixando, desta forma, as questões secundárias para serem discutidas e resolvidas pelo Secretariado, sempre ad referendum da Direção Nacional.

Para que esta política funcione, será necessário que o congresso vote uma DN pequena, como era a dos bolcheviques, que tinha 21 membros quando o partido tinha 300.000 militantes.

6. Um partido operário por seu programa e por sua composição

Ou o novo partido revolucionário “se proletariza ou desaparece”6.

Se há algo que caracterizava o Partido Bolchevique, era o caráter operário de seu programa e de sua composição social. E isso tinha a ver com o fato de que o Partido Bolchevique, por ser marxista, tinha como objetivo a ditadura do proletariado e também, por ser marxista, considerava que o partido, para chegar a esse objetivo, tinha que ser composto, em sua maioria, pela única classe verdadeiramente revolucionária que existe na sociedade: o proletariado7.

Pelo contrário, as organizações trotskistas, desde o seu nascimento, salvo raras exceções, caracterizavam-se pelo caráter operário de seu programa, mas não de sua composição social, diante do que Trotsky dizia: “A composição de classe do partido deve corresponder ao seu programa”8 e, mais ainda, referindo-se ao SWP dos EUA, dizia: “Se o SWP não se proletarizar, vai degenerar e desaparecer…”.

O SWP dos EUA, que era, de longe, a principal seção da IV Internacional, não se proletarizou, degenerou-se e praticamente desapareceu, e o mesmo ocorreu com a absoluta maioria das organizações trotskistas, muitas das quais sobreviveram apenas transformadas em organizações centristas ou diretamente reformistas, incluindo as da nossa corrente internacional.

A esse respeito, é importante destacar que Trotsky estava se referindo ao SWP dos EUA, que tinha um importante trabalho na classe operária e, mais ainda, seu principal dirigente, James Cannon, era um operário — só que, para Trotsky, isso não bastava. Por isso dizia coisas como estas:

O partido só tem uma minoria insignificante de trabalhadores da indústria… As forças revolucionárias estão nas fábricas. A composição atual do partido é pequena-burguesa e reflete a pressão da opinião pública burguesa. É necessário dar uma virada decisiva em direção às minas, às fábricas e às grandes indústrias.9

Um partido que se compõe principalmente de intelectuais e de elementos não proletários corre o risco contínuo de se converter em um instrumento para a transmissão das ideias e inclinações da pequena burguesia para a classe operária.

Mesmo se o partido tivesse uma composição 80% proletária, continuaria necessitando de uma orientação proletária constante. Mas um partido com uma esmagadora maioria de elementos não proletários deve fixar para si uma regra estrita: todo membro não operário deve recrutar ou ajudar ativamente a recrutar trabalhadores industriais, ou, caso contrário, não poderá ser considerado um verdadeiro revolucionário.10

Os intelectuais que desejem se unir ao partido devem ser submetidos a um período de prova no trabalho prático entre o proletariado. Têm que demonstrar na prática, não com palavras, sua capacidade para se integrar à vida operária e subordinar seu individualismo às necessidades da luta de classes.11

O programa marxista não pode viver nem se desenvolver no vazio. Requer a carne e o sangue do proletariado industrial. Uma virada em direção às massas não é uma palavra de ordem abstrata, mas uma necessidade de vida ou morte para o partido.12

Esta orientação que Trotsky dava ao SWP americano é a que consideramos que temos que dar ao novo partido revolucionário que vamos construir.

Não se trata de votar uma política de proletarização ao estilo das votadas pelo PSTU, não só porque foram campanhas fracassadas, mas porque essas “campanhas de proletarização”, no melhor dos casos, serviriam para aumentar o número de estudantes proletarizados, de alguns operários e de algum novo sindicato, mas o partido continuava sendo uma organização com uma minoria de trabalhadores industriais.

A orientação de Trotsky era outra. Essa orientação tinha como objetivo transformar o SWP em um partido operário em dois aspectos: por um lado, em sua composição social, que teria que ser majoritariamente operária, preferencialmente de trabalhadores da grande indústria; e, por outro, ter uma orientação política permanente em direção à classe operária e à luta de classes.

Essa deve ser a nossa orientação. Mais ainda: proletarizar o novo partido, com o critério de Trotsky, tem que ser a nossa estratégia de construção.

Será, sem dúvida, um grande desafio, que não podemos deixar de assumir, porque, se não o fizermos, a história nos condenará.

O novo partido nascerá, a partir do próximo mês de novembro, com a mesma contradição da grande maioria das organizações trotskistas: um programa operário e uma composição social não operária. Só que, para superar essa contradição, nós teremos muito mais dificuldades do que o SWP americano.

Porque nós, como herdeiros do PSTU, não temos um acúmulo de trabalhadores da indústria. Por outro lado, temos muito poucos militantes e os poucos que temos estão dispersos por todo o país. Além disso, uma boa parte de nossos militantes e, inclusive, de uma parte de nossos dirigentes, por virem de uma grande derrota, não estão muito motivados para desenvolver um projeto tão ambicioso. Por isso, hoje não temos condições de votar em nosso próximo congresso “…uma virada decisiva em direção às minas, às fábricas e às grandes indústrias” de forma imediata, como propunha Trotsky para o SWP americano. Mas isso não quer dizer que não comecemos, desde já, com uma série de táticas para avançar em direção à nossa estratégia.

7. Lugar à mulher trabalhadora

Entretanto, a época do declínio capitalista atinge cada vez mais duramente a mulher, tanto a assalariada quanto a dona-de-casa. As seções da Quarta Internacional devem buscar apoio nas camadas mais exploradas da classe operária e, consequentemente, entre as mulheres trabalhadoras. Encontrarão aí fontes inesgotáveis de devotamento, abnegação e espírito de sacrifício.13

Quando Trotsky, em 1938, escreveu este texto como parte do Programa de Transição, 24,9% do mercado de trabalho era formado por mulheres no Brasil. Atualmente, segundo o último censo do IBGE, o mercado de trabalho no Brasil é composto por 48,1% de mulheres.

Por outro lado, Trotsky ressalta que devemos buscar “apoio nas camadas mais oprimidas da classe trabalhadora e, por conseguinte, entre as mulheres trabalhadoras”.

Os números também mostram — e dão razão a Trotsky — que as mulheres trabalhadoras fazem parte das “…camadas mais oprimidas da classe trabalhadora”, já que elas ganham 21,3% a menos para desempenhar a mesma função no trabalho que os homens.

Por outro lado, a realidade atual também dá razão a Trotsky quando este afirma que, entre as mulheres trabalhadoras, encontraremos “…fontes inesgotáveis de devoção, altruísmo e espírito de sacrifício”. Há vários anos, em nível mundial e também no Brasil, as mulheres se destacam nas lutas da classe operária, nas ocupações de terras e, inclusive, na juventude por sua massividade, espírito de sacrifício e por seu papel na direção dessas lutas.

Pelo exposto anteriormente e com relação à nossa estratégia de proletarizar o partido, essa proletarização não existirá se, no próximo período, não ingressarem no partido dezenas de mulheres trabalhadoras e, em breve, centenas.

Mas não bastará que muitas mulheres trabalhadoras entrem no partido se, nele, encontrarem a mesma opressão que encontram na fábrica, na sociedade ou inclusive em suas famílias. Se isso ocorrer, assim como entraram no partido, sairão. Por isso, o combate permanente ao machismo, assim como ao burocratismo dentro do partido — que é uma necessidade de toda a organização —, é, em especial, uma necessidade para as mulheres trabalhadoras, sobretudo para as mulheres trabalhadoras negras.

Mas tampouco será possível que permaneçam se forem tratadas nele da mesma forma que o partido trata os homens. Porque, embora sejam oprimidas como classe, assim como os homens, para pertencer ao partido, elas terão que vencer mais dificuldades,  como a pressão da sociedade (para a qual a atividade partidária, revolucionária, não é “coisa de mulher”) e, mais ainda, a opressão dos pais, namorados e maridos, que, na maioria dos casos, travarão uma luta feroz para evitar que sua filha, namorada ou esposa se torne uma militante revolucionária, caso eles não o sejam.

O partido não tem como evitar a opressão que as mulheres trabalhadoras sofrem, cotidianamente, para abandonar o partido. Mas tem a possibilidade e a obrigação de fortalecer as mulheres trabalhadoras para que elas possam enfrentar essas múltiplas opressões da melhor maneira possível: construindo, no interior do partido, uma organização das mulheres, dando uma formação especial, marxista, aprofundando no interior do partido o estudo sobre as diferentes opressões, valorizando suas tarefas e atribuindo a elas tarefas de cada vez mais responsabilidade, promovendo as mais capazes para tarefas de direção.

8. O partido de maioria operária e a questão do “meio-ponto”

A ideia do “meio-ponto” para as mulheres do partido surgiu no MAS argentino, na década de 80, e posteriormente essa política foi adotada pela Convergência Socialista e pelo PSTU. Atualmente, há uma discussão no interior da direção do MPR sobre a necessidade, ou não, de incluí-la nos estatutos do novo partido.

A política do “meio-ponto” surgiu da ideia de que não se pode “tratar por igual os desiguais no interior do partido”. Assim, o argumento usado era de que, se um militante homem e uma militante mulher têm um balanço similar em relação a uma determinada tarefa, é necessário considerar que, pela opressão que sofre a mulher, em sua casa, no trabalho e na sociedade, a mulher, para chegar aos mesmos resultados que o militante homem, teve que realizar um esforço muito maior, que precisa ser valorizado. Daí se propõe que, no caso de empate, em relação a um balanço para eleger um delegado ou para integrar uma direção, conceda-se um “meio ponto” a mais para a mulher.

O critério de não tratar por igual os desiguais foi muito usado, embora com um conteúdo diferente, no Partido Bolchevique.

Por exemplo, no Partido Bolchevique, depois da tomada do poder, o período de aspirante não era igual para todos/as. Para os/as operários/as era de seis meses; para camponeses e empregados, era de dois anos; para os intelectuais, era de 3 a 5 anos.

Da mesma maneira que, em relação à formação dos militantes, Lênin não tratava por igual os desiguais, ele defendia um critério para os operários/as que não defendia para nenhum outro setor: «Um operário agitador que tenha algum talento e ‘prometa’, não deve trabalhar onze horas na fábrica. Devemos procurar que viva às custas do partido».

O critério de “não tratar por igual os desiguais” dentro do partido é algo muito correto que deve ser mantido no novo partido, embora não da forma como existia no PSTU — que é um critério feminista, e não marxista —, porque, por um lado, esse critério ignora que há outros setores oprimidos no Brasil, como os negros, indígenas, operários, LGBTI+, os idosos, e, por outro lado, coloca em igualdade de condições todas as mulheres do partido, como se a opressão vivida por uma operária, que ganha um salário mínimo e mora em uma favela, fosse igual à de uma professora universitária, que ganha dez vezes mais e mora em um bairro nobre.

Da mesma forma, esse critério ignora que, em muitas oportunidades, um operário pode ser muito mais oprimido do que uma mulher e, portanto, ter mais dificuldades de se desenvolver no partido. Por exemplo, se compararmos uma mulher branca, que não trabalha e mora com os pais, com um homem negro, que trabalha dez horas por dia na construção civil, mora em uma favela, tem três filhos e gasta quatro horas por dia para ir e voltar do trabalho, resulta evidente que, neste caso, teria que ser o operário negro a ganhar o meio-ponto em caso de empate.

O problema de fundo que existe nesta questão do meio-ponto para as mulheres, ao contrário do que ocorria no Partido Bolchevique, é um problema de classe.

É equivocado, em relação aos setores oprimidos, falar de mulheres, de negros, de indígenas ou de LGBTQI+ em geral. Todos esses setores estão divididos em classes e em setores de classe, e isso se manifesta no interior do nosso partido. Em especial no nosso, que conta com uma maioria absoluta de militantes não proletários.

Por isso, acreditamos que a proposta do meio-ponto para as mulheres é correta atualmente, em que temos muito poucas mulheres no partido, assim como, no futuro, podemos propor o meio-ponto para os negros ou para os indígenas. Porém, seguindo o critério de Trotsky de “Lugar à mulher trabalhadora”, a proposta do meio-ponto não pode ser para as mulheres em geral, mas sim, em coerência com a nossa estratégia de construção de um partido revolucionário de maioria operária, tem que ser: meio-ponto para as mulheres operárias da indústria (preferencialmente negras) ou dos setores mais explorados das trabalhadoras (também preferencialmente negras).

A respeito da inclusão deste tema nos estatutos, parece-nos que o correto é votar uma resolução no congresso, em vez de incluí-lo nos estatutos, porque os estatutos estabelecem normas para sempre, e é muito possível que, em função das necessidades do partido, a médio prazo, consideremos necessário privilegiar outro setor oprimido, como poderiam ser, por exemplo, os operários e operárias negros/as.

9. Lugar à juventude

Para rejuvenescer o partido, para dinamizá-lo e para proletarizá-lo.

Todo partido revolucionário precisa se renovar permanentemente, pois, se não o fizer, não terá futuro. Por isso precisa ter em seu interior uma presença importante da juventude. Ocorre que, no nosso caso, a entrada de um setor importante da juventude no partido é uma questão vital. Porque o nosso partido não surgiu como produto de uma vitória, mas sim de uma derrota, como foi a destruição da corrente internacional e nacional que ajudamos a construir e por nossa expulsão da LIT e do PSTU — tudo o que deixou profundas marcas em nossa militância e em nossa periferia.

A esse respeito, vale lembrar o que dizia Trotsky no Programa de Transição, sob o título de “Um lugar à juventude”:

A IV Internacional dá uma excepcional atenção à jovem geração do proletariado. Toda a sua política se esforça em inspirar na juventude confiança em suas próprias forças e em seu futuro. Apenas o revigorante entusiasmo e o espírito ofensivo da juventude podem assegurar os primeiros sucessos na luta; apenas esses sucessos podem fazer voltar ao caminho da revolução os melhores elementos da velha geração. Sempre foi assim. Continuará sendo assim.

Por outro lado, vivemos um momento particularmente propício para nos construirmos na juventude, porque já, há vários anos, a juventude — não só a estudantil — transformou-se na vanguarda indiscutível dos levantes populares em uma incontável quantidade de países, como atualmente se observa em vários países da Europa Central.

A juventude, se bem orientada, tem sido a vanguarda nos processos de proletarização dos partidos da nossa corrente internacional, como se pode ver na experiência de construção do PRT-La Verdad e do PST na Argentina, assim como da Liga Operária e da Convergência Socialista no Brasil.

Nesses casos, os resultados foram positivos porque a juventude se construiu ligada ao movimento operário. Pelo contrário, no MAS argentino e no PSTU, a juventude se construiu presa ao movimento universitário e de forma bastante autônoma do partido, o que levou, em ambos os casos, a um resultado similar. A juventude do MAS, com 800 militantes, rompeu com o partido para terminar construindo um partido “anticapitalista”. A juventude do PSTU, com 800 militantes, rompeu com o partido para se incorporar também a um partido anticapitalista.

A nossa juventude, para que possa ser vanguarda do processo de proletarização desde o seu nascimento, tem que ser construída com duas orientações: em primeiro lugar, não pode ser somente uma juventude universitária. Tem que ser uma juventude de estudantes universitários, secundaristas, operários e com jovens da periferia das grandes cidades, normalmente, em sua maioria, trabalhadores precarizados negros. Em segundo lugar, todo jovem que entrar no partido, desde o primeiro dia, além do trabalho em seu setor, tem que estar vinculado ao trabalho operário, seja por meio da intervenção em uma greve, uma reunião sindical, uma eleição, ou o trabalho com o jornal nos bairros operários…

Nesse sentido, os militantes mais antigos e com experiência de trabalho no movimento operário têm que ajudar os jovens a construir essa relação.

Dessa forma, se o futuro do partido vier a depender, em grande medida, da juventude, este virá a depender também, em grande medida, da orientação e do apoio dos militantes mais antigos.

10. A fase de acumulação de militantes

Todo partido revolucionário sempre nasce a partir de um pequeno grupo de camaradas, que denominamos “grupo fundacional”. Em nosso caso, os poucos camaradas que fundarão o novo partido serão o seu grupo fundacional.

Nosso grupo fundacional, na medida em que tem como objetivo dirigir a classe trabalhadora rumo ao poder, tem como estratégia construir um partido de maioria operária, para o qual é necessário um giro decisivo em direção ao movimento operário — preferencialmente aos trabalhadores da indústria e aos bairros operários —, só que não temos condições de fazer esse giro radical de forma imediata. Em primeiro lugar, porque temos pouquíssimos militantes; em segundo lugar, porque esses militantes estão dispersos em um país de dimensões continentais; em terceiro lugar, porque temos um número ínfimo de trabalhadores da indústria; e, em quarto lugar, porque nossa organização nasceu como produto de uma grande derrota, que foi nossa expulsão do PSTU e da LIT, o que faz com que um bom número de militantes ainda esteja sofrendo as consequências dessa derrota.

Porém, pelo que foi dito anteriormente, isso não significa que o processo de proletarização deverá começar em um futuro indefinido. Pelo contrário: deverá começar de forma imediata, com uma série de medidas preparatórias para poder dar o giro decisivo ao movimento operário.

A primeira dessas medidas é fortalecer o partido, para o qual precisamos entrar de forma decisiva na segunda fase da construção partidária, denominada “acumulação de militantes”.

Ou seja, é uma fase que, em nosso caso, tem como objetivo acumular de 200 a 300 novos militantes, o que fortaleceria o partido não apenas quantitativamente, mas também qualitativamente, porque a entrada de sangue novo, como sempre ocorre, acabaria revitalizando o conjunto da militância.

Há camaradas que opinam que esta fase de acumulação de militantes deveria ser feita, em função da nossa estratégia, no movimento operário industrial, mas isso seria um erro. O que caracteriza esta fase de acumulação de militantes é tentar recrutar novos militantes o mais rápido possível, e nossa experiência indica que os operários, por sua enorme e justificada desconfiança, são os que mais demoram para entrar nos partidos revolucionários — porém, uma vez que entram, diferentemente dos estudantes universitários, é muito difícil que saiam.

Em resumo, nesta fase de acumulação de militantes, não precisamos nos dirigir a um setor específico, mas sim àquele setor no qual encontrarmos maior facilidade para recrutar militantes, e isso será diferente em cada regional. Em algumas será mais fácil ganhar estudantes secundaristas, em outras, operários ou estudantes universitários.

11. Priorizar uma regional para acelerar a guinada ao movimento operário

Todo partido revolucionário, na medida em que sempre será minoritário em relação ao conjunto da sociedade, precisa, a todo momento, trabalhar com prioridades em todos os terrenos. Ainda mais em nosso caso, atuando em um país de dimensões continentais e com nossa pequena organização dispersa em 10 estados e em um número ainda maior de cidades.

Trabalhar com prioridades é uma necessidade da nossa estratégia de construir um partido de maioria operária, que deve começar com um giro em direção às fábricas e aos bairros operários.

Só que, para dar esse giro, precisamos de um fortalecimento quantitativo e qualitativo do partido nas cidades onde vamos começar a fazê-lo.

Por nossa fraqueza atual e, fundamentalmente, por nossa dispersão, não existem possibilidades de conseguir esse fortalecimento no conjunto nem na maioria das cidades em que atuamos em um curto espaço de tempo.

Por isso, para poder fazê-lo o mais rápido possível, precisamos priorizar uma regional — mais concretamente, um setor dessa regional para onde deslocaremos militantes e todo o apoio político e financeiro da direção nacional, a partir do qual possamos superar a fase de “acumulação de militantes”, chegando, por exemplo, a 80 ou 90 militantes nessa região, para poder, a partir daí, iniciar o giro para as fábricas e bairros operários nessa cidade.

A proposta é que seja a Regional Sul de São Paulo, por várias razões: porque temos trabalho estrutural, fundamentalmente na educação; porque era, no PSTU, a principal regional de São Paulo, com cerca de 100 militantes, dirigida por nossos companheiros; porque tem a população de uma grande cidade, em torno de três milhões de habitantes; e porque possui uma importante concentração de fábricas (entre 3.000 e 5.000), de modo que, se nos instalarmos com força na região, isso nos abrirá diferentes caminhos para penetrar nas fábricas do local.

Por fim, é necessário entender que o deslocamento de militantes e dirigentes de outras regiões para a Zona Sul de São Paulo vai significar, necessariamente, um enfraquecimento destas. Isso é inevitável.

12. Uma ofensiva com o jornal nos bairros operários

Nosso jornal é nosso principal cartão de visitas e, portanto, uma arma poderosa para recrutar os militantes de que precisamos.

Com o jornal, aproximamos o partido dos nossos contatos sindicais, políticos, de bairro e familiares. Com o jornal, intervimos na luta de classes e o utilizamos para aproximar do partido os ativistas que encontrarmos. O jornal é uma ferramenta poderosa de recrutamento.

Na Convergência Socialista e no PSTU, principalmente em seus primeiros anos, organizavam-se piquetes de venda do jornal nas portas das fábricas. No entanto, por uma série de razões, essa atividade nunca deu muitos frutos no que se refere ao recrutamento de novos militantes. É que os operários, quando entram nas fábricas, embora tenham interesse em receber nosso periódico, não têm tempo para conversar, da mesma forma que tampouco têm tempo quando saem, extenuados pelo trabalho.

Por outro lado, muitas vezes não querem conversar por temor de se expor diante da patronal, da burocracia e, inclusive, diante de seus companheiros.

O trabalho na porta da fábrica, com o jornal, é muito importante quando a fábrica está em conflito ou quando temos camaradas dentro da fábrica para capitalizar o trabalho feito na porta.

Mas outras experiências indicam que o trabalho mais efetivo para recrutar operários é o trabalho com o jornal feito nos bairros operários.

A respeito dessa questão, a Terceira Internacional (Comintern) recomendava que todos os partidos fossem “de porta em porta”, vendendo e discutindo o jornal: “Nenhuma casa dentro da área de influência da organização partidária local pode ser excluída dessa agitação”14.

Acreditamos que devemos fazer algo similar a partir da fundação do novo partido, começando pela zona sul de São Paulo. Quanto às possibilidades, acreditamos que a UP, que ocupa nosso espaço, está fazendo, com bons resultados, algo semelhante ao que propomos.

Será necessário formar brigadas, em primeiro lugar na zona sul de São Paulo, de quatro companheiros no mínimo (por razões de segurança) e, uma vez por semana, realizarão essa atividade por quatro ou cinco horas em bairros operários, perto de nossas sedes (se tivermos alguma em bairros operários), nas proximidades das escolas onde nossos camaradas trabalham ou nas proximidades das casas de nossos militantes, conforme recomendado pela Terceira Internacional.

Esta atividade será uma forma indireta de nos aproximarmos da classe operária industrial e servirá como teste para ver se a incorporamos como atividade permanente de construção, tal como recomendava a III Internacional.

13. Formar marxistas para fazer um giro para a classe operária

“O socialismo, desde que se tornou uma ciência, exige que seja tratado como tal, isto é, que seja estudado.”15 (Friedrich Engels)

Não há melhor forma de fortalecer o partido do que por meio da formação. O partido precisa formar seus militantes no marxismo.

Nosso partido é um partido marxista, mas a realidade é que a maioria de seus militantes não o é, porque, como dizia Engels, o socialismo científico (marxismo) é uma ciência que, assim como as demais ciências, precisa ser estudada para, após alguns anos de estudo, formar os militantes como marxistas.

Os cientistas da área da medicina, da biologia, da física, da química ou da astronomia se formam, após vários anos de estudo, nas escolas e universidades.

Em algumas universidades também se estudam algumas noções de marxismo, mas nas universidades não se formam nem se podem formar marxistas, porque a formação marxista só pode ocorrer por meio da práxis (a unidade indissolúvel entre a teoria e a prática), algo que só se pode conseguir em uma escola no interior do partido marxista.

Em nossa corrente sempre existiram escolas, mas, diferentemente das escolas onde se formam os cientistas de outras áreas, as nossas nunca foram escolas permanentes, e sim cursos concentrados em cinco ou seis temas, dados de forma esporádica em uma semana ou dez dias. No entanto, para adquirir um conhecimento profundo de cada um desses temas, seriam necessários dois, três meses ou mais de estudo. Por isso, é impossível formar marxistas nessas escolas esporádicas sobre diversos temas.

Em cada uma das ciências há pessoas autodidatas, e no marxismo ocorre o mesmo. Por exemplo, Lênin, Trotsky ou Moreno foram autodidatas, e Marx e Engels muito mais; contudo, no marxismo, assim como no restante das ciências, os autodidatas são uma exceção.

Para formar médicos, são necessárias escolas permanentes de medicina. Para formar marxistas, são necessárias escolas permanentes de marxismo.

Esse é o grande desafio para a nova direção: começar a construir uma escola de marxismo para funcionar a partir de 2027, para a qual a primeira coisa necessária é elaborar um projeto.

Logicamente, somos uma organização muito pequena e com muitas limitações; portanto, “nossa escola de marxismo”, de início, terá um funcionamento muito precário, com poucos professores, poucos temas para estudar e poucos alunos. Mas o importante será dar “o pontapé inicial”, de modo que, com o fortalecimento do partido, a escola tome a forma de uma verdadeira escola de marxismo.

O exposto acima não significa que o partido terá que parar de fazer escolas de poucos dias para conseguir que a política de formação se estenda ao conjunto dos militantes, mas o centro da formação deverá passar pela escola permanente. Esta, além de formar marxistas, formará professores de história, de economia e de lógica, que serão decisivos para fortalecer e expandir a escola permanente de marxismo, bem como as escolas de poucos dias, que serão, na prática, escolas introdutórias da escola permanente. Dentro desse critério, no próximo mês de fevereiro,  realizaremos uma escola de história, de caráter nacional, que deverá incluir a história da Revolução Russa e do trotskismo.

14. Profissionais (assalariados do partido) e liberados sindicais

O processo de degeneração do PSTU nos mostra que o partido, com o passar do tempo, se transformou em um aparelho, composto por muitos dirigentes assalariados do partido ou dos sindicatos (aproximadamente 25% dos militantes), a maioria deles com muitos anos e inclusive com décadas nessa situação. Uma estrutura de partido muito semelhante à dos partidos stalinistas, que não é alheia ao processo de degeneração do partido.

Esta realidade do PSTU, na hora de construir o projeto partidário de um novo partido revolucionário, nos fez refletir profundamente sobre os profissionais (assalariados do partido) e também sobre os liberados sindicais.

O critério do PSTU de “profissionalizar” todos, ou, no mínimo, a maioria dos dirigentes partidários, de forma indefinida, foi o critério da nossa corrente histórica internacional.

A respeito deste tema, é importante assinalar que Nahuel Moreno, em seu último ano de vida, fez a seguinte reflexão:

Outro erro muito grave foi ter tido tantos militantes profissionais no partido. Se pudesse voltar atrás, penso que seria preciso evitar isso, e que muitos dos companheiros que foram profissionais remunerados pelo partido deveriam ter ido trabalhar e se inserir na sociedade. A profissionalização gera tendências a viver fechado, a se marginalizar da sociedade.16

No entanto, Moreno, estando correto em sua afirmação, não tirou todas as conclusões do seu erro, porque este não estava apenas na quantidade de profissionais (assalariados do partido), mas no critério para profissionalizar determinados militantes. Moreno defendia profissionalizar os dirigentes, e esse critério foi o que se aplicou na CS e no PSTU; contudo, esse não era o critério dos nossos mestres.

O critério de Lênin era profissionalizar os militantes, fossem dirigentes ou não, se a tarefa que iriam desempenhar assim o exigisse. E esse foi o critério das quatro Internacionais até a degeneração da II e da III Internacional. Isso é o que explica por que nem Marx, nem Engels, nem Lênin, nem Trotsky foram profissionais das internacionais nem de seus partidos. Apenas Rosa Luxemburgo foi assalariada pelo SPD da Alemanha, mas não por ser dirigente, e sim por ser professora da escola permanente do SPD.

Moreno sempre repetia, corretamente, que os assalariados do partido faziam parte da burocracia partidária.

Todo partido revolucionário precisa de uma burocracia partidária, porque, sem ela, não poderia sobreviver nem se expandir. Mas ela tem suas contradições porque, como toda burocracia, tem seus privilégios. O principal deles é não ser explorado nem oprimido pela patronal. Por isso, a burocracia revolucionária é, por assim dizer, “um mal necessário”.

Acontece que, se todos os dirigentes do partido fazem parte da burocracia partidária e se essa situação se mantém por muitos anos ou inclusive por décadas, como ocorria no PSTU, ser assalariado do partido se cristaliza como um modo de vida; e, como marxistas, sabemos que nenhum setor social renuncia aos seus privilégios, o que torna essa burocracia partidária um obstáculo, de diversas formas, para o desenvolvimento do partido.

Por isso, cremos que o critério a ser adotado no novo partido sobre este tema é o dos nossos mestres: não profissionalizar os militantes, sejam ou não dirigentes, a menos que a tarefa que realizam ou vão realizar assim o exija. Mas, ainda assim, abordar este problema dos assalariados com todos os cuidados e cautelas estabelecidos nos estatutos no que se refere a quem pode ser assalariado e ao prazo para sê-lo.

No que se refere aos liberados sindicais, consideramos que o PSTU atuou muito mal nesse terreno. Quando uma determinada chapa ganhava uma eleição de um sindicato, todas as correntes, incluindo o PSTU, lutavam para conseguir que seus militantes fossem liberados. Nós, pelo contrário, temos que lutar para que nossos militantes não sejam liberados, porque nosso objetivo não é abandonar a nossa base, mas estar cada vez mais colados a ela.

15. Sobre a disponibilidade militante para enfrentar os novos desafios

Como assinalamos anteriormente, nossa estratégia de construção é ter um partido de maioria operária, o que significará, para cada um de nossos militantes, começando por sua direção, novos desafios no terreno político e pessoal. Mas nós não vamos votar no Congresso a proletarização do partido apenas para fazer propaganda; por isso, é necessário que o Congresso, antes de votar este plano, saiba qual é o dispositivo militante com o qual contamos. Para isso, propomos fazer um censo em todo o partido, começando por sua direção, para saber qual é a disposição militante de cada um dos integrantes do MPR e do MRS (se a unificação se concretizar), respondendo às seguintes perguntas:

  • Nome e região onde milita:
  • Lugar onde vive:
  • Profissão atual:
  • No novo partido, você se propõe, com base no estabelecido pelos estatutos, a ser simpatizante ou militante?
  • Você está disposto(a) a ir militar, a partir do segundo semestre de 2027, na zona sul de São Paulo?
  • Você está disposto(a) a militar e viver na zona sul de São Paulo?
  • Você está disposto(a) a militar, em sua região, centralmente sobre o proletariado industrial?
  • Você está disposto(a) a entrar para trabalhar, a partir de  2027, como operário(a) na indústria?
  • Você está disposto(a) a fazer parte das brigadas de venda do jornal, uma vez por semana, nos bairros operários da sua região?
  • Você está disposto(a) a aumentar sua contribuição financeira e em qual proporção?
  • Você tem condições de realizar uma contribuição extra ao partido, além da CAI? De qual valor e em qual prazo?
  • Você está disposto(a) a militar em outro país?
  • Você domina outro idioma? Qual?

Estas perguntas não são apenas para saber a opinião de cada militante, mas para elaborar, de forma imediata (após o congresso), os planos de construção em nível regional, nacional e internacional.

As respostas a essas perguntas deverão ser conhecidas e avaliadas por todos os participantes do congresso antes de se votar o plano de construção. No caso dos candidatos a integrar o Comitê Nacional, as respostas a essas perguntas deverão fazer parte do balanço individual de cada camarada.

Notas:

  1. Leon Trotsky, A Revolução Traída. ↩︎
  2. Os bolcheviques romperam com a Segunda Internacional a partir do momento em que a direção desta traiu a classe trabalhadora mundial ao votar a favor do orçamento de guerra com o governo imperialista da Alemanha para participar da Primeira Guerra Mundial, na qual os diferentes impérios enviaram milhões de operários para se matarem entre si a fim de defender os interesses de suas respectivas burguesias. ↩︎
  3. Trotsky, Leon. O Programa de Transição. 1938. ↩︎
  4. Do discurso de Lênin no velório de Sverdlov. ↩︎
  5. A respeito desta lição, Lênin declarou: “Na conferência fomos corrigidos pela base… com perfeita justificativa“. ↩︎
  6. Frase de Leon Trotsky dirigida ao SWP dos EUA. Em Defesa do Marxismo. ↩︎
  7. Marx/Engels: “De todas as classes que hoje se enfrentam com a burguesia, só o proletariado é uma classe verdadeiramente revolucionária”, Manifesto Comunista. ↩︎
  8. Leon Trotsky, Em Defesa do Marxismo. ↩︎
  9. Leon Trotsky, Carta a James P. Cannon (dezembro de 1939). Idem. ↩︎
  10. Leon Trotsky, Em Defesa do Marxismo. ↩︎
  11. Leon Trotsky. Carta ao SWP sobre a questão do partido (1939). Idem. ↩︎
  12. Leon Trotsky, Uma oposição pequeno-burguesa no Socialist Workers’ Party (dezembro de 1939). Idem. ↩︎
  13. León Trotsky, Programa de Transição. ↩︎
  14. Teses sobre a estrutura, os métodos e a atuação dos partidos comunistas. Terceiro Congresso da III Internacional, junho de 1921. ↩︎
  15. Friedrich Engels, Prefácio à segunda edição (1870) da sua obra A Guerra dos Camponeses na Alemanha. ↩︎
  16. Conversas com Nahuel Moreno. ↩︎

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