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Home»Tribuna Livre»Polêmica eleitoral»Tática eleitoral: o problema do sectarismo
Polêmica eleitoral

Tática eleitoral: o problema do sectarismo

Por: Otávio Aranha
03/06/2026Nenhum comentário13 Mins Read
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Em documento anterior1, sustentamos posição contrária ao pedido de legenda ao PSTU e ao chamado ao voto crítico na candidatura de Hertz Dias. Apontamos duas possibilidades de tática eleitoral: o chamado ao voto nulo ou o lançamento da anticandidatura de Altino presidente (tal como defendido pelo companheiro Z.)2. O camarada Altino defendeu posição contrária a estas posições3, o que foi respondido pelo documento: “Resposta à proposta de tática eleitoral de Altino”.

Neste texto, levantaremos uma preocupação: o problema do sectarismo na elaboração da tática eleitoral. Assim, mesmo que não concordemos com a tática defendida por Altino, vamos tecer alguns comentários críticos ao documento de “Resposta…”. Com tal objetivo, realizamos uma reflexão maior sobre um problema que pode comprometer o projeto do futuro partido revolucionário que estamos construindo: o problema do sectarismo.

O que estamos discutindo?

Os companheiros dizem que a proposta de Altino de chamar o voto crítico em Hertz Dias nas eleições burguesas é um erro, dizem: “Para nós, essa política é um grave erro, de programa, de tática e de estratégia”. Também consideramos que é um erro, mas de tática, contudo, a resposta elaborada pelos companheiros extrapola o problema da tática e direciona a discussão para o campo político, programático e de estratégia, o que não estava em debate até então.

O documento de Altino, por exemplo, defende a mesma política expressa no jornal do MPR, número zero: “Contra Lula e Bolsonaro, nas lutas e nas eleições, no primeiro e no segundo turno”, e até a publicação de seu texto, nenhum documento sobre tática eleitoral havia questionado isso. Os companheiros são contra essa política? Por que não o dizem abertamente? Ao que parece, os companheiros fazem uma grande confusão entre política, tática, programa e estratégia, colocando praticamente um sinal de igual entre eles.

Os companheiros afirmam que Altino é contraditório em seu texto ao afirmar que “A candidatura do PSTU para presidente apresenta um programa que levanta as principais bandeiras que defendemos” (grifo nosso), para, em seguida, afirmar que o PSTU está “preso[s] ao medo da volta da direita, ultradireita, seguindo a lógica da sociedade dividida em blocos eleitorais e não mais em classes”. Em primeiro lugar, Altino não chega a afirmar que o PSTU levanta “as mesmas bandeiras” que defendemos, mas as PRINCIPAIS. Pode-se concordar ou discordar disso, mas não é a mesma coisa; em segundo lugar, a segunda citação não contradiz a primeira, pois aquela não aborda “bandeiras”, isto é, sobre o programa; o que Altino escreveu nesta segunda passagem foi uma caracterização política sobre a análise que o PSTU faz das eleições. Portanto, não há como afirmar, pelos extratos selecionados, que “o próprio Altino se desmente em sua afirmação” como está no texto dos companheiros4. Tal conclusão está assentada numa confusão entre programa e caracterização do partido, como se ambas fossem a mesma coisa.

Em seu documento, os companheiros dizem que não é possível o PSTU levantar as principais bandeiras que defendemos porque “[…] não há nenhuma proximidade programática entre nós e eles”. O curioso desta afirmação é que, há menos de dez meses, estávamos na mesma organização, o que não quer dizer que não havia diferenças programáticas em seu interior; todavia, deste entendimento é forçado demais chegar à conclusão de que “não há nenhuma proximidade programática”.

É fato que temos diferenças programáticas com o PSTU; essas diferenças foram apresentadas durante o pré-Congresso de 2025, no qual pontuamos que a ausência de uma palavra de ordem sobre o governo Lula era, na prática, uma capitulação a ele. Essa diferença não só se manteve como se aprofundou, mas ainda que o problema do governo seja uma questão central num programa revolucionário, não é o único ponto existente num programa. Por exemplo, a defesa do fim da escala 6×1 sem redução do salário; a expropriação das grandes empresas e multinacionais; o não pagamento da dívida pública; a defesa do aumento do salário mínimo rumo ao salário do Dieese; a legalização do aborto; etc. São “bandeiras” existentes em comum entre nós e eles; é disso que Altino está tratando. Estas e outras bandeiras conformam um programa revolucionário? Em nossa opinião, não. Entretanto, entre reconhecer que há limites no programa atual do PSTU que o levam de um projeto revolucionário em direção a um de apoio “crítico” à frente ampla, ou seja, a uma posição centrista em direção aos projetos reformistas, a dizer que “não há nenhuma proximidade programática entre nós e eles”, como os companheiros fazem, há uma distância abissal.

Mas, afinal, o que é um programa? Trotsky nos diz o seguinte:

É necessário, no processo de suas lutas cotidianas, ajudar as massas a encontrar a ponte entre suas reivindicações atuais e o programa socialista da revolução. Essa ponte deve incluir um sistema de reivindicações transitórias, que parta das condições atuais e da consciência atual de amplas camadas da classe operária e conduza, invariavelmente, a uma só e mesma conclusão: a conquista do poder pelo proletariado.5

Assim, ainda que possamos discordar de Altino sobre a aproximação programática entre MPR e PSTU, em nenhum lugar o companheiro sustentou que defendemos o mesmo programa e, por outro lado, ainda que concordemos com os companheiros que fazem a crítica ao Altino de que as diferenças programáticas existentes entre nós e o PSTU são grandes e, até mesmo, em questões principais do programa, como a questão do governo, é o extremo oposto afirmar que não temos “nenhuma proximidade programática”.

Para aprofundar esse debate, uma questão: e se não houvesse mesmo nenhuma proximidade programática, não seria possível aplicar a tática de voto crítico numa candidatura? Após o Seminário sobre Eleições Burguesas, de 2014, que foi um divisor de águas no partido sobre o tema, adotamos a tática do voto crítico no PT no segundo turno das eleições de 2018 e de 2022.

A nosso ver, os companheiros fazem uma confusão completa entre programa, política, princípios, tática e estratégia. Esta confusão conduz os camaradas a uma elaboração sectária com a proposta de Altino, ainda que não concordemos tacitamente com ele.

O problema do sectarismo

Os companheiros dizem que a conclusão de Altino sobre o voto crítico no PSTU é “desastrosa”6 por “dois motivos”7: explicam que o PSTU teria “forte peso de burocratas, com um percentual alto de liberados em relação aos militantes”, ainda que isto esteja correto, trata-se de uma caracterização sobre a militância e não de um problema tático, de princípio, de estratégia, etc. Como esta caracterização, que se quer aplicar ao conjunto da militância deste partido, justificaria não adotar uma tática de voto crítico? Como uma tática eleitoral pode ser “desastrosa” com base nisso, como afirmam os companheiros?

Daí, os companheiros fazem a seguinte afirmação: “a vanguarda concentrada no PSTU é insignificante e tem uma periferia cada vez menor”. Mesmo que a vanguarda e a periferia deste partido (já não se fala mais da militância) sejam “cada vez menores” comparadas com anos anteriores, concluir que são “insignificantes” é autoproclamatório e sectário. Por exemplo, uma parte desta vanguarda esteve presente no Congresso da CSP-Conlutas e era muito maior que nós. Não deveríamos disputá-la? Não deveríamos lhes fazer propaganda como fizemos com o nosso jornal? Não deveríamos lhes direcionar palavras de ordem como fizemos em nossa agitação no plenário? As intervenções de nossos oradores não deveriam levar em conta a presença desta periferia, nada “insignificante”? Ao que parece, na consequência lógica do entendimento dos companheiros, não deveríamos ter realizado nada disso.

Em nossa avaliação, a periferia que cerca o PSTU está orbitando um projeto cada vez mais decadente, pois o movimento que esta organização faz é do centrismo em direção ao reformismo, mas daí a dizer que esta periferia é “insignificante”, quando numericamente é superior a nós, é o que pode nos levar futuramente a um grave problema em nossa construção, pois o que fundamenta tal visão é a negativa em disputar a vanguarda para as nossas posições.

Nossa política deve estar voltada para o movimento de massas, mas disso não podemos concluir que não precisamos dialogar com a vanguarda, inclusive com a vanguarda e a periferia que cercam as organizações reformistas e centristas, e disputar o melhor delas para o nosso partido. Uma coisa é se a tática que devemos adotar nas eleições burguesas deve ter como centro o diálogo com a vanguarda e a periferia próxima ao PSTU e, neste ponto, temos divergência com a proposta de tática defendida por Altino; outra coisa é se devemos desprezar toda essa periferia em razão de ser “insignificante” ou porque o PSTU tem “forte peso de burocratas”. Este raciocínio nos levaria a não disputar a vanguarda, a periferia e a base de quaisquer das organizações existentes. Esta posição está assentada numa premissa completamente autoproclamatória e, por isso, é uma posição sectária.

E, para ratificar esta premissa, ao final do texto, os companheiros afirmam: “A experiência recente do MPR não deixa dúvidas: somente seus militantes e apoiadores têm consciência da necessidade de superar o capitalismo por meio de uma revolução” (grifo nosso). Ora, e os militantes do MRS com os quais estamos dialogando sobre uma fusão? Não possuem a “consciência” de superação do capitalismo pela revolução socialista? E os companheiros dos demais grupos com os quais estamos dialogando, como Transição Socialista ou Coletivo de Educadores do Rio? Ampliamos estes questionamentos um pouco mais e perguntamos: e a parcela de militantes da base do PSTU que não são nem burocratas nem liberados?

Na visão dos companheiros, somente o MPR, seus militantes e apoiadores bastariam em si mesmos, pois SOMENTE eles possuem a “consciência” da revolução. Com este raciocínio, faria realmente sentido não disputar a vanguarda e, tampouco, a base dos trabalhadores, pois estes estão ainda mais distantes de uma “consciência” revolucionária. Esta é uma expressão sectária de uma compreensão autoproclamatória que os valiosos companheiros precisam rever.

A tática do voto nulo é um princípio?

Depois de concluir que a tática do voto crítico é “um verdadeiro desastre!”, os companheiros dizem:

“Nós, do movimento por um partido revolucionário, estamos em um período de construção de um partido que se propõe a ser diferente de todos os que já existem. Para isso, nossa atuação política tem que estar de acordo com nosso programa, visando à revolução socialista e à ditadura do proletariado. Nenhuma outra organização atualmente faz esse chamado usando esses termos (nem PSTU, PCB e UP) […]”

Tudo bem, mas o que isto, com o qual todos temos acordo, inclusive Altino, tem a ver com a questão da tática do voto? Os companheiros fazem toda uma caracterização do desgaste de Lula e Flávio Bolsonaro, discorrem que o escândalo do Banco Master expôs todos os poderes, incluindo a imprensa e a igreja. Os companheiros avaliam que este escândalo revelou “de forma didática, os mecanismos de dominação política e econômica da burguesia em sua democracia”. Tudo bem, podemos partir deste pressuposto, o que avaliamos ser um exagero, mas, mesmo considerando esta questão, o que isso explica sobre o problema da tática do voto? Por acaso, os companheiros avaliam que a crise do regime democrático burguês chegou a um nível insustentável, que há uma paralisia das principais instituições burguesas, como o parlamento e o atual STF, e que a maioria da classe trabalhadora está a ponto de romper com o regime e, em razão disto, não irá votar?

Os companheiros dizem: “O papel dos revolucionários é demonstrar que essa democracia serve apenas aos interesses do banco Master e dos demais capitalistas. O voto nulo será a tática ideal para denunciar essa democracia e o sistema capitalista”. Que a denúncia do regime democrático burguês deve ser parte de nossa política permanente é assunto pacífico entre nós, inclusive, como resgata Altino, desde o jornal zero do MPR, esta denúncia está presente na forma de propaganda. Todavia, a elaboração dos companheiros é a seguinte: como a democracia é burguesa, uma farsa, etc., o ideal é o voto nulo. Por este critério dos companheiros, em todas as eleições burguesas deveríamos adotar essa tática, ou seja, acabam por estabelecer uma tática de voto, que é uma tática de uma tática, com status de princípio, válido, portanto, para todas as eleições.

No início do seu texto, os camaradas chegam a dizer textualmente: “Nossa posição de votar nulo no primeiro e segundo turnos é baseada em uma questão de princípios, a de não apoiar qualquer bloco burguês”. Atualmente, há três táticas em debate sobre o primeiro turno das eleições burguesas: voto nulo, anticandidatura e voto crítico em Hertz Dias. Nenhuma destas posições, expostas até agora no debate, deixou de se basear em “questões de princípio”. Em nenhuma destas posições há algum indício de apoio político a qualquer bloco burguês, incluindo a proposta de pedido de legenda, vencida na última reunião da Direção Nacional. Porém, para a concepção dos companheiros que escrevem o documento de “Resposta…”, o voto parece ser uma questão de princípios e não de tática, o que resulta em uma elaboração sectária.

Ao nosso ver, ao contrário da conclusão dos companheiros, a tática de chamada ao voto crítico em Hertz também está dentro de nossos princípios, pois nele não está colocado o apoio político a nenhum bloco burguês. Portanto, ainda que discordemos da tática defendida por Altino, o equívoco do chamado ao voto não se trata de um problema de princípios, nem de programa, nem de estratégia, mas da leitura política das condições dadas sobre como podemos melhor construir o partido revolucionário nestas eleições nas quais estamos sem legalidade.

Algumas reflexões

Os revolucionários estão submetidos a diversos tipos de pressões. No quadro geral da política de reação democrática para frear mobilizações insurrecionais e desviá-las para a institucionalidade burguesa, a pressão do tipo oportunista é muito forte. Todavia, no afã de querer responder a estas pressões, que são gigantescas, podemos cair no outro extremo, no ultraesquerdismo.

O texto escrito por Diego Russo8 desenvolve esta preocupação de forma inicial. Segundo ele, há expressões de sectarismo em nosso Movimento, o que não é um problema em si; o grande desafio é não conseguirmos identificar estas expressões e, por conseguinte, não conseguirmos combatê-las. Convidamos os companheiros a ler este material com muito carinho.

O projeto do MPR não está em risco, pois não há uma grande ameaça que nos leve à destruição, seja pelo oportunismo ou pelo sectarismo. Existem pressões e, em torno delas, existe debate. Como tradição do funcionamento dos bolcheviques, da qual estamos melhor nos apropriando, os debates em desenvolvimento enriquecem nossas elaborações e corrigem nossos erros. Mas, diferente da direção da antiga organização, não há combates com métodos burocráticos às posições divergentes, não há perseguições aos críticos à direção; muito pelo contrário, partimos da premissa leninista de organização de que “a crítica é dever dos militantes”.

Neste sentido, precisamos estar alertas para os desvios, de um lado e do outro, pois se é verdade que a maioria das organizações foi destruída pelo oportunismo, inclusive a maioria do movimento trotsquista mundial, isto não significa que devemos baixar a guarda ao sectarismo. O problema da tática no presente debate, seja ela qual for, não se traduz de forma automática num problema de princípios; a questão maior é o que justifica a adoção de determinada tática e nesta questão, ainda que os companheiros que escrevem o documento “Resposta…” possam estar certos da definição da tática, erram na elaboração que justifica a sua adoção.

  1. “Contra o pedido de legenda e contra o chamado ao voto no Hertz (PSTU)”. ↩︎
  2. “Contra as candidaturas burguesas de Lula e de Bolsonaro no primeiro e no segundo turno! É preciso construir uma alternativa operária, socialista e revolucionária! Venha construir essa alternativa com Altino Metroviário e o MPR”. ↩︎
  3. “Tática eleitoral: quais são as nossas tarefas nas eleições burguesas”. ↩︎
  4. Dizer que “Altino se desmente” é o mesmo que afirmar que ele mentiu. Pode ser que ele esteja equivocado, que tenha se enganado, que tenha sido descuidado em sua elaboração, pode-se não concordar com ele, mas considerar que “se desmente”, ou seja, que mentiu, extrapola o debate de diferenças políticas, pois mentir se trata de uma intenção deliberada e consciente. Alertamos que é preciso ter cuidado com este método de debate entre nós! ↩︎
  5. TROTSKY, Leon. Programa de Transição. Sunderman: São Paulo, 2008. p. 16. ↩︎
  6. Segundo o Dicionário Online, desastrosa “é um adjetivo utilizado para qualificar algo ou alguém que causa ou resulta em desastre, ruína, perda ou grande infelicidade. Refere-se a eventos, ações ou situações que possuem consequências muito ruins ou catastróficas.” Trouxemos esta definição para pontuar que num documento de base marxista, as palavras e expressões devem ser selecionadas cuidadosamente, isto é, com a maior precisão possível. Exageros, estereótipos ou adjetivações extremas não ajudam, em geral, na conformação de um debate saudável, no qual as diferenças políticas existentes sejam reais e claras. ↩︎
  7. Dizem que há dois motivos, mas desenvolvem apenas um. ↩︎
  8. “Sobre o combate ao sectarismo em nossas fileiras”. ↩︎
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