Bolsonaro e Lula são iguais?
Para apoiar Lula no segundo turno das eleições de 2026, muitos ativistas e trabalhadores comparam Lula e Bolsonaro e argumentam que, apesar do atual governo ser ruim, seria muito pior se Bolsonaro vencesse. Afinal, as eleições só nos dão a possibilidade de escolher um e, perante uma escolha entre dois projetos ruins de governo, cabe-nos escolher o mal menor. Esse tipo de pensamento do senso comum, vindo da classe trabalhadora, é aceitável. O que não faz muito sentido é justificar esse raciocínio com um verniz teórico “marxista”, quando, no fundo, expressa nada mais do que o senso comum e exatamente o oposto do que os principais teóricos marxistas deixaram de ensinamento. Foi o que fizeram PSTU, PCB e UP, ao declararem o voto crítico. Esconderam a capitulação ao senso comum e ao PT em emaranhados de considerações intelectuais bastante confusas.
Nessa busca intelectual por uma justificativa que permita capitular sem dor de consciência, surgem malabarismos interessantes. Um deles consiste em dizer que Lula e Bolsonaro são diferentes, mas sem afirmar isso categoricamente. O raciocínio dos dirigentes desses partidos de “oposição de esquerda” é o seguinte: “se Bolsonaro é golpista e lacaio de Trump, apoiemos Lula, já que, apesar de tudo, ainda teremos com ele as liberdades democráticas e alguma independência em relação aos EUA”. Dessa forma, os partidos de esquerda que chamam a votar criticamente em Lula (PSTU, UP, PCBR, PCB), apesar de inúmeras pontuações negativas sobre Lula e a Frente Ampla, colocam a soberania e o regime de Estado como imperativos na escolha da política do segundo turno. Aí, nesses dois elementos (soberania e regime), se condensariam as diferenças essenciais entre Lula 4 e Flávio Bolsonaro.
De 2013 a 2026: das Jornadas de Junho ao voto crítico no governo Lula
Antes de mais nada, cabe perguntar: quando esses partidos nos perguntam se as duas candidaturas são diferentes ou não, isso é tão decisivo para a definição da tática, se consideramos que essa tática deve servir a uma estratégia revolucionária e socialista? Se a diferença entre os dois candidatos é qualitativamente superior nos aspectos de soberania e regime, isso justifica chamar o voto crítico em Lula? A tática do voto crítico ajuda na construção do partido revolucionário e na mobilização permanente do proletariado ou atrapalha?
As organizações que pensam ser necessário depositar o voto crítico em Lula parecem acreditar que a campanha e a vitória eleitorais anti-Bolsonaro, ainda que não de forma preponderante, cumpririam um papel significativo em elevar a consciência dos trabalhadores sobre a necessidade de derrotar um golpe pró-imperialista. Não é fácil demonstrar que essa tática serve como um instrumento de combate a um suposto golpe. Primeiro, porque, para uma suposta tentativa de golpe estar em iminência de se concretizar, seria importante tanto que o regime democrático burguês estivesse desgastado perante os trabalhadores e setores médios, quanto que a luta entre frações das classes dominantes estivesse em elevado grau de acuidade. Ora, numa situação como essa, fica inviável pensar que uma saída dentro do próprio regime, por meio do sufrágio universal, conseguisse estabelecer um caminho de superação da iminência golpista, visto que a dinâmica desse regime acumula desgaste.
Esse desgaste é real. É tão grande que já tivemos as Jornadas de Junho, o impeachment de Dilma, uma greve geral, uma ocupação de Brasília por manifestantes (sob repressão policial com Garantia da Lei e da Ordem/GLO), uma greve de caminhoneiros e a vitória da redução da jornada de trabalho. Foram eventos históricos marcados por um processo de decadência irreversível de Lula/PT, com idas e vindas conjunturais. Um certo intelectual do PSTU afirmou que a eleição de Lula fortaleceria Bolsonaro porque Lula aplicaria a política atual do seu governo, e isso desgastaria a próxima frente ampla de Lula. Como ficaria, para esse intelectual, a fórmula política que resumiria a dinâmica dessa situação? A fórmula poderia ser expressa nos seguintes termos: “Eleger Lula para derrotar o golpismo, o que fortaleceria o golpismo mais à frente”. Não faz sentido!! Não é melhor, então, aceitar o desgaste do regime e combatê-lo frontalmente em vez de defendê-lo com falsos pretextos?
O fortalecimento do golpismo só pode acontecer se as frações da burguesia se digladiarem muito mais e, nesse quadro, não houver uma alternativa revolucionária e socialista para os trabalhadores. Ora, a alternativa revolucionária e socialista é justamente aquela que, frente ao desgaste do regime e das instituições que o sustentam, por atacarem duramente os trabalhadores, postula-se em direta oposição ao Estado, ao seu governo e à oposição burguesa, e não como cúmplice coadjuvante de qualquer grupo burguês. Em relação à disputa por frações da burguesia, não parece haver, atualmente, qualquer diferença qualitativa entre elas. Tanto a Frente Ampla quanto Bolsonaro cumpriram a agenda dos mesmos grupos econômicos nos últimos 8 anos de governo, seguindo um modelo nacional de exploração rentista atrelada ao capital dos EUA, da China e da União Europeia. O desgaste do regime perante os trabalhadores é muito maior do que a desavença entre suas instituições.
Foi o governo atual, com Lula à frente, que se ajoelhou diante de Trump, facilitando a pilhagem das terras raras. Lula aplicou com habilidade o teto de gastos, ao mesmo tempo em que, com o auxílio das direções traidoras, evitou uma maior mobilização contra esse ataque. Lula também administrou o tarifaço de Trump, distribuindo as ondas de choque entre os diversos setores da economia. A democracia burguesa de Lula segue garantindo os lucros dos grandes bancos, do agronegócio e das grandes empresas, sem a necessidade de substituí-la por uma aventura bonapartista. Os negócios dos capitalistas vão de vento em popa. A margem equatorial será mais uma fronteira econômica que o capital dos países imperialistas vai atravessar, com a ajuda do Estado brasileiro, seja com Lula ou com Bolsonaro. A classe trabalhadora reage, mas sem coordenação ou organização, desmobilizada pelos aparatos sindicais lulistas. Dessa forma, o desgaste da democracia é confuso, expressa-se com contradições nesse processo eleitoral, mas segue a marcha da janela política aberta em junho de 2013. Isso é irreversível; segue a marcha da crise capitalista mundial aberta em 2008. Não podemos negar a realidade, parafraseando Trotsky, entupindo o cérebro dos trabalhadores com baboseiras teóricas.
Em resumo, ainda que as condições de um golpe estivessem assentadas, justamente por causa da situação colocada acima e devido aos eventos antecedentes da luta de classes, a política de voto nulo seria a verdadeira tática eleitoral condizente com a preparação de uma política de combate permanente da classe operária contra o golpe, sem capitulação à democracia burguesa. Para combater um golpe iminente, além da tática eleitoral, as lutas, greves e mobilizações de ruas deveriam se unificar em uma frente única de combate, que desembocasse em uma greve geral. Essa frente única, um instrumento de mobilização da classe trabalhadora contra o golpe, precisaria unificar as diversas organizações dos trabalhadores e preparar uma feroz resistência pela base. Esse é o primeiro aspecto da discussão política dessa tática. Outro ponto importante, que já inserimos como necessidade de abordar o essencial, responde à questão de saber se realmente há uma ameaça golpista.
Há uma ameaça golpista imediata? O que fazer?
Definitivamente, não. O clã Bolsonaro não pode dar um golpe a bel-prazer. As condições sociais e políticas não permitem o sucesso de qualquer aventura bonapartista. A votação da redução da jornada de trabalho, as greves de trabalhadores de empresas públicas e privadas em plena marcha eleitoral, as mobilizações da juventude no mundo e os exemplos práticos de países vizinhos (entre inúmeros países, apenas a pequena El Salvador teve mudança de regime) mostram que o alarde de uma iminência golpista é falso. A recuperação eleitoral de Bolsonaro não se concretizou nas ruas, onde o bolsonarismo perdeu um espaço evidente e nem sequer chega perto de mobilizar o que mobilizou em setembro de 2021, no auge das mobilizações bolsonaristas. O bolsonarismo recuperou-se eleitoralmente, mas mantém 50% de rejeição. Em relação ao apoio de Trump, ele acaba de sofrer derrotas sucessivas para o Irã e os Houthis no Iêmen e caminha para um desastre eleitoral, com apenas 31% de aprovação popular. A margem de manobra para Trump repetir uma aventura como a da Venezuela será bem menor com a iminente derrota eleitoral, pois vai consolidar sua derrota sofrida nas ruas após os gigantescos atos populares “No Kings” de oposição ao seu governo. Um golpe e um regime bonapartista não se desenvolvem nesse terreno; é impossível. Evidentemente, o grupo Bolsonaro, já derrotado na tentativa de golpe de 15 de dezembro de 2022, ainda não perdeu o ímpeto golpista, conforme se vê na fustigação permanente ao STF e na agitação que faz em suas bases eleitorais. Isso não implica que tentem um golpe novamente, ou que terão sucesso se tentarem, dadas as circunstâncias. A maior ameaça para a classe trabalhadora, atualmente, é ficar refém do lulismo-petismo, sem alternativa de independência de classe e submissa aos limites de uma democracia burguesa que tem cada vez menos a oferecer.
Para que a crise social não caminhe rumo a derrotas, é necessário seguir o exemplo da onda de mobilizações populares e greves que sacodem a França, a Espanha, a Albânia, a Itália e vários outros países. É possível que essa onda revolucionária volte com força. O processo revolucionário chileno de 2019 ainda não foi derrotado na América Latina e qualquer estopim pode alastrar a revolução por todos os países. Para conquistar a vitória da revolução, a classe trabalhadora latina precisará se livrar dos empecilhos. As correntes burguesas de “esquerda” sempre cumpriram o papel reacionário de derrotar as revoluções.
Foi pelo controle, com mão de ferro, do proletariado venezuelano contra a ameaça de uma invasão imperialista que a ditadura chavista deu um autogolpe em 2017 e conspirou com Donald Trump para impor uma tutela colonial sobre a Venezuela. De uma corrente com influência de massas, que resistiu a um golpe em 2002, o chavismo é agora justamente uma das correntes burguesas mais pró-imperialistas do continente. Nunca é ruim, como antídoto às pressões “imediatas” que o oportunismo exerce, incluindo o voto útil, vacinar-se com o internacionalismo e o marxismo. No Brasil, o perigo não mora só nas presas de Bolsonaro, mas também no veneno doce e sutil do lulismo, que incute o medo, o pânico e desmobiliza o proletariado.
