Trabalhadores foram à greve contra o arrocho e a retirada de direitos pelo governo Lula e pelos patrões, protagonizando uma rebelião de base contra as burocracias sindicais e demonstrando que o caminho é a luta, e não a conciliação de classes.
Greve dos Correios: quinze dias que abalaram a confiança no governo Lula
Por Heitor Fernandes, membro da Secretaria Executiva Nacional da CSP Conlutas e do Movimento por um Partido Revolucionário – MPR.
De 10 a 24 de setembro, os trabalhadores dos Correios paralisaram a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) em uma greve muito combativa. Aprovada pelos 36 sindicatos e pelas duas federações, depois da rejeição do reajuste de 0,87%, piquetes e assembleias lotadas cruzaram o país, em defesa dos Correios como empresa pública, estatal e de boa qualidade nos serviços prestados à população.
O governo Lula respondeu com mais ataques. O presidente da estatal, Emmanoel Rondon, apresentou um “plano de reestruturação” privatizante: fechamento de mil agências, demissão voluntária de até 15 mil trabalhadores, corte de R$ 2 bilhões em pessoal, venda do patrimônio e entrega de serviços a “parceiros” privados. O discurso oficial diz que “não tem privatização”, mas o Tesouro só libera o empréstimo bilionário se o plano avançar, ou seja, o governo Lula financia a destruição da estatal.
No centro dos ataques está o plano de saúde, que a gestão lulista quer esvaziar, tal como fez a bolsonarista. Uma ameaça a um direito conquistado em lutas anteriores. O TST reconheceu que a greve não era abusiva, fixou reajuste de 4,09%, abaixo da inflação, e autorizou a compensação dos dias parados. Mas permanecem as perdas no plano de saúde, no quadro de pessoal e no fechamento de unidades: a greve foi decisiva para desmascarar o presidente Lula e a diretoria da ECT, que mantêm o sucateamento.
Os dirigentes da CUT e da CTB, mais uma vez subalternos ao Planalto, não radicalizaram a mobilização nem ampliaram a greve nacional para unificá-la com os bancários. Empurraram a categoria para o acordo rebaixado, aceitaram a arbitragem do TST, os descontos dos dias parados e pouparam o governo Lula, que eles apoiam.
A lição é clara: não se defende empresa pública com conciliação de classes. A força das ruas deve virar organização permanente, com autonomia e independência de classe diante do governo dos patrões. Traídos pelo governo Lula e pelas cúpulas sindicais petistas, uma parcela expressiva de trabalhadores e trabalhadoras grevistas dos Correios já carimbou sua resposta: voto nulo no segundo turno das eleições em protesto, e se preparam para novas lutas contra o futuro governo, seja qual for.
Bancários fazem greve nacional histórica após 10 anos!
Por Matheus Crespo, membro do Movimento Revolucionário e Socialista – MRS.
De 2003 a 2016, os bancários realizaram 14 greves nacionais, enfrentando, além dos banqueiros, os governos Lula 1, Lula 2, Dilma 1, Dilma 2 e Temer. No entanto, desde 2016, as burocracias da Contraf/CUT e da Contec mudaram a tática. Passaram a negociar e a fechar acordos com os banqueiros e governos (Temer, Bolsonaro e Lula 3) sem greve e de forma bienal. Nestes dez anos, os bancos privados e públicos destruíram direitos, reduziram o efetivo em mais de 100 mil bancários e fecharam mais de um terço de todas as agências do país. Mas este “roteiro” de acordos rebaixados foi jogado no lixo pela rebelião de base na campanha salarial de 2026.
A Contraf/CUT conseguiu aprovar a Convenção Coletiva para os bancos privados e alguns bancos públicos, como o Banrisul e o BNB. Mas os trabalhadores da Caixa, do Banco do Brasil e do Banco da Amazônia — bancos federais cujo patrão é o presidente Lula — disseram “não” à proposta e foram à greve após 10 anos. A rebelião foi massiva e nacional, atropelou a burocracia sindical e derrotou o governo.
Os bancários da Caixa realizaram a maior greve da história. Rejeitaram três propostas e só interromperam a paralisação após o julgamento do TST. Nos 20 dias de greve nacional (que chegou a durar 26 dias em alguns estados), mais de 90% das quase 4.000 agências da Caixa fecharam. Houve uma adesão inédita de gerentes e um movimento de repúdio à maioria das direções sindicais, pelo qual a base enfrentou o medo do fim da ultratividade (ausência de um novo acordo depois do fim do anterior), o medo da Caixa ficar em greve sozinha e o medo do TST.
Ao final, não houve conquistas, mas tampouco houve o aumento previsto de mais de 30% nas cobranças dos beneficiários e dependentes do Saúde Caixa. Isso interrompeu a sequência de ataques ao plano de saúde, que vinha desde 2018.
A greve de 2026 já entrou para a história. Derrotou o governo Lula às vésperas da eleição e marcou uma enorme rebelião de base contra a burocracia sindical. Agora, é preciso seguir suas lições, construir oposições fortes para varrer a burocracia sindical e, assim, formar o embrião de uma nova direção democrática, classista e de luta.
Greve vitoriosa dos terceirizados da Petrobras!
Por Clausmar, operário de produção e petróleo e dirigente do Sindipetro-RJ.
No dia 18/09, iniciou-se, de forma explosiva, uma greve dos terceirizados da Petrobras na Bacia de Campos, com 95% de adesão já no primeiro dia em todas as plataformas. Trabalhadores das atividades de caldeiraria, pintura e montagem de andaimes aderiram com facilidade nunca vista ao chamado grevista do SINTPICC, da construção civil. Pendências jurídicas julgadas há três anos eram o principal motivo da greve, além do reajuste salarial de 2026 (reivindicavam 15%) e de outras demandas.
A grande adesão se manteve assim até segunda-feira, 21/09, quando a gerência da própria Petrobras demonstrou estar contra a paralisação. Iniciaram-se os desembarques dos grevistas, o que fez com que alguns, sob forte pressão, desistissem da greve. Na noite de segunda-feira, a adesão era de 70%. A adesão continuava alta! Na quarta-feira, 23/09, houve o julgamento da legalidade da greve, com uma primeira vitória: a greve foi julgada legal e garantiu o pagamento das pendências de três anos. Neste julgamento, o setor patronal já falava em aumento salarial de 6,25%.
Estas vitórias e a pressão da Petrobras e dos patrões fizeram a greve diminuir na Bacia de Campos, mantendo-se alta ainda nas bases de terra do SINTPICC (que representa toda a construção civil de terra e mar de várias cidades do Norte Fluminense). A tentativa de negociação na terça-feira garantiu um reajuste de 6,5%, que foi rejeitado. Somente no dia 30/09 chegou-se a um acordo com 8% de reajuste, vale-refeição de R$ 900,00, vale-peru de R$ 200,00 e o pagamento integral dos dias parados! Do ponto de vista econômico, foi uma enorme vitória da luta da categoria!
Politicamente, esta greve demonstra a precariedade com que a Petrobras, de Magda Chambriard, indicada por Lula, trata os terceirizados! São trabalhadores que enfrentam a precarização de suas condições de trabalho e de segurança, de seus salários e direitos trabalhistas. Mais uma vez, comprova-se que só a luta muda a vida!
