Desde 23 de fevereiro, indígenas de diversas etnias, com o protagonismo do Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu (MMIMX), ocupam a sede regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Altamira, o maior município do país, no estado do Pará. A ocupação reivindica o cancelamento do licenciamento ambiental do Projeto Volta Grande, da mineradora canadense Belo Sun, e a sua retirada definitiva da região.
Este projeto estava parado na justiça há mais de dez anos em função de diversos problemas técnicos levantados pelo Ministério Público Federal (MPF), que vão desde falhas no Estudo de Componente Indígena (os impactos previstos nas comunidades e povos tradicionais afetados) até a ausência do processo de consulta prévia às comunidades, conforme prevê a legislação. Sobre este último, uma ata da assembleia do Conselho das Terras Indígenas Paquiçamba e Arara do Volta Grande do Xingu, realizada em dezembro de 2025 e assinada por dez associações indígenas da região, nega a existência de qualquer consulta prévia. As lideranças indígenas chegaram a denunciar uma política de constrangimento, pressão e assédio por parte da mineradora contra as comunidades.
A ocupação teve início após a decisão proferida, em caráter provisório, pelo desembargador federal Flávio Jaime de Morais Jardim, publicada no dia 13 de fevereiro, em favor da liberação do licenciamento ambiental do projeto da Belo Sun Mineração, mesmo com falhas no processo de escuta das comunidades indígenas, que, segundo o juiz, ocorreu de modo participativo e transparente, o que contradiz os documentos e as declarações dos povos da região.
A resposta veio com a ocupação simbólica da Funai e com a denúncia do perigo que a exploração mineral em larga escala traz para este bioma, já fragilizado pela instalação da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, imposta durante o governo Dilma Rousseff (PT), que alterou de modo irreversível a vazão do rio Xingu. Isso causou impactos na reprodução de peixes, segundo denúncias das lideranças na região.
O Projeto Volta Grande, da Belo Sun Mineração, visa abrir a maior mina a céu aberto do país, com a meta estimada de produzir 6,4 toneladas de ouro por ano, segundo informações disponíveis em seu próprio site1. Segundo o portal Sumauma2, serão gerados cerca de R$ 60 bilhões em lucro até o final do empreendimento. Mesmo se uma pequena parcela dessa quantia permanecesse na região, o que de fato não acontecerá, os prejuízos decorrentes desta ação predatória serão gigantescos. Haverá desmatamento causado pela remoção da floresta, ao se revirar 620 milhões de toneladas de terra em busca do metal precioso, e a possível contaminação do rio Xingu, provocada pelos 35 milhões de m³ de rejeitos com substâncias tóxicas e metais pesados, como mercúrio, cianeto e chumbo, utilizados no processo de extração do ouro. Essa devastação poderá afetar não só a existência de povos indígenas, ribeirinhos e pescadores do local, como também toda a biodiversidade numa das regiões mais sensíveis da Amazônia.
A atuação da mineração legal na Amazônia é defendida tanto pelo governo Helder Barbalho (MDB), um grande aliado do PT e provável candidato a uma vaga no Senado, como pelo próprio governo Lula. O Ibama, órgão responsável pela fiscalização e pelos estudos técnicos de impactos socioambientais em empreendimentos do tipo, estranhamente retirou-se do processo de licenciamento a pedido do próprio órgão, deixando a tarefa para a Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Pará.
Já é a terceira grande luta indígena na região desde janeiro de 2025, quando a sede da Secretaria de Estado de Educação do Pará, em Belém, foi ocupada por mais de 300 indígenas que defendiam a revogação da Lei Estadual 10.820/24, que acabava com a modalidade de educação indígena; mais recentemente, no início deste ano, uma segunda ocupação tomou conta do porto da Cargill, em Santarém (PA), por 33 dias, contra o Decreto 10.600/25, do governo Lula, que privatizava os rios Tapajós, Madeira e Tocantins, em benefício da multinacional estadunidense. Nos dois casos, a mobilização independente da luta indígena conseguiu derrotar os ataques dos governos.
O projeto da Belo Sun Mineração é mais um do grande capital voltado para a Amazônia que busca a exploração predatória de recursos naturais, deixando um rastro de morte e destruição da natureza. Os bilhões de reais gerados pelos sulcos e covas deixados pela atividade mineradora nas margens do rio Xingu serão a maior expressão da hipocrisia do discurso da “sustentabilidade ambiental” no capitalismo pregado por empresas e governos.
Os povos indígenas têm sido a vanguarda na luta em defesa das florestas e dos rios amazônicos. Por sua vez, o PT do governo Lula, assim como Boulos e Sônia do PSOL, colocaram-se do outro lado da trincheira, no qual estão a Cargill, a Belo Sun, a Hydro, a Vale S.A. e um punhado de grandes empresas capitalistas. A classe trabalhadora no Brasil e no mundo deve não só apoiar a luta dos povos indígenas em defesa de seus territórios e do meio ambiente, como tomá-la como sua referência e fonte de inspiração.
Todo apoio à luta indígena na Amazônia!
Em defesa do rio Xingu!
Fora Belo Sun!
Não à mineração predatória na Amazônia!
Expropriação de todas as grandes empresas que causam danos ambientais!
Por um governo socialista formado pela classe trabalhadora em aliança com os povos indígenas!
Notas:
