O Haiti é a terra de Toussaint Louverture
Nós somos filhos de Dessalines, nós somos filhos de Makandal
Nós nunca esqueceremos o que nos fizeram
Mas procurem conhecer a nossa história
(Vox Sambou, “Toussaint”)
Novamente, a FIFA, apoiada em seu regimento que beneficia as nações imperialistas enquanto censura seleções de países e setores oprimidos por externalizarem sua própria história, impôs ao Haiti uma determinação segundo a qual, caso não alterasse a mensagem do uniforme, a seleção seria eliminada da competição. Não é a primeira vez que a entidade se comporta como censor da moral imperialista, apoiando-se numa suposta defesa da neutralidade institucional.
A FIFA e sua suposta “neutralidade”
Em 2022, a FIFA ameaçou com um cartão amarelo os capitães de seleções que utilizassem na braçadeira a mensagem “One Love”, que apoia os direitos da população LGBT; em 2017, a seleção irlandesa decidiu homenagear os mortos na insurreição de 1916, o que resultou em uma multa à federação de futebol da Irlanda. Segundo a entidade, essas demonstrações são exemplos de que a Fifa tem neutralidade, como se fosse possível ser neutra na discussão sobre o combate à LGBTfobia em países como o Catar, que sediou a Copa do Mundo de 2022, ou até mesmo a reivindicação da memória de jovens revolucionários irlandeses que foram assassinados por lutar pela liberdade e independência de seu país, que vivia um século de domínio inglês.
A mesma entidade que prega a neutralidade compactuou com o regime segregacionista do apartheid na África do Sul entre 1961 e 1964, sob a justificativa de que esporte e política não se misturam, e atribuiu a situação sul-africana ao “costume local”. A atitude da entidade contribuiu para o retrocesso na luta internacional contra o regime racista. Em 2018, em meio às denúncias de perseguição à população LGBT na Rússia, a FIFA adotou o silêncio, isentando-se de se posicionar contra as atrocidades cometidas por Putin.
Atualmente, na Copa do Mundo de 2026, nos deparamos com inúmeras notícias em que seleções árabes e negras, assim como jornalistas dessas regiões, são submetidas a revistas arbitrárias e vexatórias, como ocorreu contra o Senegal. As cenas de jogadores enfileirados, obrigados a retirar seus tênis e violentamente abordados por oficiais alfandegários, sem qualquer justificativa, remetem-nos aos já conhecidos “enquadros” promovidos pela polícia no Brasil contra jovens negros e pobres nas periferias do país. A “neutralidade” da Fifa fede a uniforme dos oficiais alfandegários da Alemanha das décadas de 30 e 40.
A tentativa de apagar a história
Dias antes do início da Copa do Mundo de 2026, a FIFA comunicou à seleção haitiana que a imagem contida no uniforme, da Batalha de Vertières, enquadrava o país caribenho como violador das normas da entidade e de sua competição internacional, exigindo sua remoção. Vale lembrar que o Haiti já havia usado esse uniforme em amistosos preparatórios na Flórida (EUA) contra as seleções do Peru e da Nova Zelândia; na época, nada havia sido mencionado. A imagem censurada pela Fifa era uma ilustração de combatentes erguendo a bandeira haitiana, representando a Batalha de Vertières. Era uma linda homenagem, apesar de ter sido uma iniciativa da fabricante da camisa, a empresa colombiana Saeta. Mas muitos torcedores se sentiram representados por ela, pois simbolizava a consolidação do processo revolucionário na ilha caribenha.
Não é a primeira vez que isso ocorre contra o Haiti. Nos Jogos Olímpicos de Inverno, havia uma ilustração em homenagem ao revolucionário Toussaint Louverture, e, para que o país caribenho conseguisse participar da competição, teve que apagar o líder revolucionário, deixando apenas a imagem de seu cavalo.
Da cerimônia de Bois Caïman à Batalha de Vertiètes
Mas por que uma menção histórica no uniforme da seleção haitiana motivou a censura da FIFA à imagem? Para responder, é necessário resgatar a história da Revolução Haitiana e sua importância a nível internacional.
O Haiti, até o século XVIII, era conhecido como a “Pérola das Antilhas” por ser a colônia mais lucrativa da França, devido à escravidão e à garantia do fornecimento de açúcar e café para a Europa (responsável por fornecer quase 60% desses recursos). A manutenção da escravidão era necessária para a França, mesmo após a Revolução Francesa. A formação da República contaria com esse importante “motor”. Do outro lado do Atlântico, os negros escravizados no Haiti lutavam contra o sistema colonial.
Acompanhando o espírito da luta contra a escravidão que passava pelas montanhas haitianas, em 14 de agosto de 1791, aconteceu uma cerimônia Vodu no Bois Caïman, com o objetivo de organizar os negros escravizados de várias plantações para que todos ali presentes estivessem na luta contra o sistema colonial francês. A cerimônia foi dirigida pela líder sacerdotisa Cécile Fatiman e por Dutty Boukman. Esse foi um dos vários momentos que preencheram as condições para o início da Revolução Haitiana e é um dos eventos mais importantes para a formação da identidade antiescravista. Dias depois, o local tornou-se uma referência cultural da luta contra a tirania, que foi aproveitada, um século e meio depois, na luta contra a ditadura de Duvalier.
A Revolução Haitiana durou treze anos até sua consolidação, de 1791 a 1804. Um pequeno país ousou desafiar uma das nações mais poderosas em termos bélicos naquela época, comandada por uma das principais lideranças militares na Europa, Napoleão Bonaparte. Contraditoriamente, a França passava pela consolidação de sua própria revolução e de seu futuro (1789-1799), bem como o do restante dos países europeus, o que dependia do desfecho dos acontecimentos na ilha caribenha. Não é exagero afirmar que o que ocorreu no Haiti foi um marco importante para a América Latina. Sem o apoio de Dessalines a Simón Bolívar, que trairia a nação haitiana após este o refugiar, certamente os processos de libertação nacional na América Central e em parte da América do Sul não teriam ocorrido. Nem mesmo pensar no Brasil colonial sem incluir o medo da classe dominante da chamada “haitinização”; provavelmente, a tardia abolição da escravidão no país teria demorado ainda mais.
CLR James, em sua obra “Os Jacobinos Negros: Toussaint L’Ouverture e a Revolução de São Domingos”, que narra a revolução haitiana sob uma perspectiva marxista, descreve como a força do exército haitiano abalou um dos exércitos mais poderosos do mundo no início do século XIX, meses antes da Batalha de Vertières:
“Era evidente que nós não inspirávamos mais um terror mortal, e essa é a maior desgraça que pode recair sobre um exército”. Lacroix podia notar, na população, o efeito do desafio indomável ao famoso exército do Primeiro-Cônsul. (…) Os soldados ainda se viam como uma armada revolucionária. Mas à noite eles ouviam os negros na fortaleza cantando a “Marselhesa”, a “Ça Ira” e outras canções revolucionárias. Lacroix relatou que aqueles miseráveis extraviados estremeciam e olhavam para seus superiores quando ouviam as músicas, como se dissessem: “Será que os nossos inimigos bárbaros têm a justiça do seu lado? Será que já não somos mais os soldados da República francesa? E será que nos tornamos meros instrumentos políticos? (JAMES, 2010, página 289).
E continua, na mesma página, narrando que um “regimento de poloneses, recordando sua própria luta pelo nacionalismo, recusou-se a tomar parte no massacre dos seiscentos negros ordenado por Lecrerc”. Por esse feito, Dessalines, o primeiro chefe de Estado do Haiti, concedeu cidadania aos poloneses e chamou-os de os “negros brancos da Europa”, o que era então considerado uma grande honra.
Ao longo dos meses, a insurreição haitiana foi se fortalecendo. Mesmo diante da prisão de Toussaint no Fort-de-Joux, a revolução seguia seu curso. “Mas Toussaint tinha de desaparecer e Napoleão decidiu matá-lo por maus-tratos, frio e fome”, seguido de inúmeras torturas físicas e psicológicas, apoiado em uma visão racista de que negros podiam ser submetidos a tratos de maior violência, comparados aos brancos encarcerados. Infelizmente, uma lógica que ainda persiste nos presídios pelo mundo afora, principalmente no Brasil. Mas Napoleão, que acreditava que a morte do líder revolucionário o colocaria em vantagem bélica para vencer a guerra, estava completamente equivocado, pois, “durante as últimas horas de Toussaint, seus companheiros de armas, ignorando seu destino, redigiam a Declaração de Independência” (JAMES, página 331), demonstrando que a revolução haitiana não cessaria nem seria interrompida.
A nova bandeira haitiana, com as cores vermelha e azul, retirando a branca, foi uma demonstração de Dessalines de que os haitianos nada tinham em comum com seus opressores, passando a levantar a palavra de ordem “Liberdade ou Morte”.
Foi com esse espírito que se deu a Batalha de Vertières, ocorrida em 18 de novembro de 1803. De um lado, o exército haitiano, recém-fundado por ex-escravos, liderado por Dessalines, e, do outro, a força expedicionária francesa, liderada por Napoleão Bonaparte, que tinha como objetivo a retomada por completo do controle da ilha. As tropas francesas já se encontravam em situação precária. Além das baixas que sofriam, viviam isolados, uma vez que o Haiti (antiga São Domingos) estava majoritariamente dominado pelos haitianos. Vertières era a última fortaleza francesa. Se ela caísse, o destino da França estaria traçado.
Antes do amanhecer do dia 18 de novembro, Dessalines organizou suas tropas em posições favoráveis para bombardear o exército francês, obtendo como resposta uma poderosa contraofensiva, mas se mostrou insuficiente diante do avanço haitiano. Mesmo após o cavalo do general haitiano François Capois ser atingido, o revolucionário haitiano levanta-se em meio à poeira e grita à sua tropa para avançar, motivando o exército haitiano a seguir seu trajeto. Um feito único na história das guerras. Até o general francês Rochambeau – que era conhecido por seu nível de crueldade, chegando a usar cachorros para devorar combatentes negros – enviou um mensageiro para reconhecer a bravura do general haitiano. O Haiti conseguiu tomar posições estratégicas. Cercou as tropas francesas e obrigou-as a se renderem. No fim do dia em Vertières, assim como na noite da cerimônia em Bois Caiman, trovões rasgavam os céus e anunciavam um novo momento na história. Chegava a hora do fim do domínio francês. E, assim, um mês depois, nascia a primeira república negra.
De norte a sul das Américas, o Haiti tornou-se uma referência da libertação negra das mãos de seus opressores. A Batalha de Vertière é uma declaração universal de que a liberdade só será conquistada a partir da revolução.
A retaliação do capitalismo ao Haiti rebelde
O desfecho da Revolução Haitiana mereceria outro artigo, indo desde a imposição da dívida externa para o reconhecimento da independência por parte da França até os inúmeros golpes de Estado patrocinados pelos EUA. A retaliação ao Haiti rebelde foi global, unindo desde governos imperialistas dos Estados Unidos até governos vassalos como Lula, que invadiu o Haiti em 2004 para agradar Bush por meio da assassina Minustah. A forma como o mundo tratou a primeira nação negra, fruto de um processo revolucionário, foi a tentativa de dizer às outras nações: se vocês se rebelarem, faremos o mesmo. Um dos casos mais graves, que infelizmente contou com o protagonismo da maior nação negra fora do continente africano, Brasil, resultou em centenas de violações de direitos humanos.
Durante a invasão militar ao Haiti, de 2004 até 2017, o Brasil, com o aval dos governos Lula e Dilma (PT), foi responsável por crimes sexuais contra mulheres e crianças (mais de duas mil vítimas); massacre em Cité Soleil, tendo as mulheres como esmagadora maioria das vítimas; violência contra estudantes e trabalhadores em manifestações contra a presença militar da MINUSTAH; entre outros abusos. Em 2011, a própria ONU foi obrigada a assumir – e só isso – as violações de direitos humanos cometidas pelas “Tropas de Paz na ONU”, inclusive contra as tropas uruguaias denunciadas por estupros coletivos, recebendo como resposta do então presidente, Pepe Mujica, um tímido pedido de desculpas, mas nada além disso, mesmo que o vídeo do estupro de uma jovem haitiana fosse publicado pela imprensa local na época.
Se é verdade que o imperialismo, representado pela Casa Branca, que faz jus ao seu nome, buscou retaliar o Haiti de todas as formas, estando por trás de cinco golpes de Estado, é também verdade que os governos da América Latina, representados pelo Brasil (Lula), Bolívia (Evo Morales) e Chile (Bachelet), assim como o já mencionado Uruguai (Vázquez e depois Mujica), assumiram papel de vassalos do imperialismo estadunidense. O próprio Hugo Chávez, embora não tenha participado militarmente da invasão, forneceu petróleo aos governos fantoches dos interesses norte-americanos.
A invasão haitiana possibilitou a projeção política de figuras militares como o golpista General Heleno, que foi do GSI no governo Bolsonaro, e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que fez parte dos governos Bolsonaro e Dilma. Todos eles, na época, foram elogiados por seus feitos no Haiti.
Nunca esqueceremos o que fizeram
A canção que abre este artigo, em memória dos combatentes da Batalha de Vertières, do músico Vox Sambou, anuncia que “nunca esqueceremos o que fizeram”. E é com esse espírito que a nação haitiana segue firme. Mesmo em meio aos golpes e ingerências do imperialismo, a classe trabalhadora haitiana luta contra todos os governos de plantão. Foi contra essa história, da primeira revolução vitoriosa dirigida por escravos, que a FIFA se posicionou. A chamada “neutralidade” da entidade esportiva cheira aos canhões das tropas comandadas pelo general Rochambeau, mas há de chegar um momento em que todos eles seguirão o mesmo destino: a ruína.
A Revolução Haitiana demonstrou ao mundo que é possível derrotar os governos opressores e exploradores; que, quando a insurreição se instaura, não há canhão nem bomba capazes de conter os explorados e oprimidos. Nunca esqueceremos o que fizeram! Cabe à nossa geração levantar o fio de continuidade iniciado pela Revolução Haitiana, que se encontrou com a Revolução Russa, que é traçado pela resistência ucraniana e pelos palestinos, e agora está presente na Bolívia contra Rodrigo Paz, e dizermos em um só som: há de chegar à ruína do capitalismo, e dela construiremos uma sociedade socialista, pois somente no socialismo as tarefas dadas pela revolução haitiana serão concretizadas em um um mundo onde não haverá mais senhores!
