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Home»Internacional»Notas sobre os dias de maio na Bolívia
Internacional

Notas sobre os dias de maio na Bolívia

Por: Julián, da Bolívia
21/05/2026Nenhum comentário6 Mins Read
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18 de maio de 2026: as multidões convocadas pela Central Operária Boliviana, pela Federação Sindical de Camponeses Tupak Katari de La Paz, pelas Federações de Professores Urbanos e Rurais de La Paz, a Federação dos Trabalhadores Industriais e outros setores, além da marcha “Pela Vida para Salvar a Bolívia” convocada pelo setor de Evo Morales, convergiram da cidade de El Alto e de outras zonas para a Praça Murillo, sede do governo e do Congresso boliviano, cercando a praça por cerca de quatro horas, em meio a confrontos com a polícia, que reprimiu duramente a mobilização. O slogan central: Renúncia de Rodrigo Paz Pereira!

Essa foi uma das consequências de um processo agudo de desgaste político do governo de Rodrigo Paz, seis meses após sua posse.

Acúmulo do desgaste do governo de Paz

Desde sua posse, o governo de Rodrigo Paz vem aplicando medidas de ajuste, sob o pretexto de reverter a crise econômica, com uma orientação clara de favorecer o setor agroindustrial da oligarquia boliviana e de transferir o peso da crise aos trabalhadores e ao povo pobre.

Começou com a nomeação de um gabinete ministerial com figuras vindas diretamente do setor agroindustrial; depois, anulou o imposto sobre grandes fortunas e retirou o subsídio à farinha, causando o aumento do preço do pão, alimento básico da dieta popular. Em dezembro, retirou o subsídio aos combustíveis, encarecendo de forma generalizada o custo de vida da população trabalhadora, mas o cúmulo da medida é que, até hoje, não garantiu gasolina de qualidade. Foram relatados milhares de automóveis danificados pela gasolina, o que afetou particularmente os autônomos que prestam serviços de transporte público. Para completar, em 10 de abril, promulgou a Lei 1720, de reconversão da propriedade agrária, abrindo as portas para a expropriação dos pequenos proprietários.

A resposta dos trabalhadores e do povo

Em janeiro, uma poderosa mobilização fez recuar uma série de medidas antipopulares que vinham acompanhando o aumento dos combustíveis. Embora não tenha conseguido reverter o aumento, ela freou outras medidas do governo. Entre março e abril, várias paralisações do transporte conseguiram obrigar o governo a se comprometer a indenizar os danos aos veículos causados pela má qualidade do combustível.

No mesmo dia em que Paz Pereira promulgava a Lei de reconversão da pequena propriedade agrária, uma marcha dos indígenas do leste pedia sua anulação. Após uma caminhada de quase um mês, a marcha chegou a La Paz e conseguiu a revogação da lei.

Em 1º de maio, a Central Operária Boliviana convocou uma assembleia popular na cidade de El Alto, para exigir aumento salarial, a anulação da Lei 1720, a indenização pelos danos aos veículos e a defesa das empresas estatais. A assembleia declarou greve geral por tempo indeterminado até que as reivindicações fossem atendidas ou, caso contrário, a renúncia de Rodrigo Paz, por não ser capaz de atendê-las.

A Federação de Camponeses de La Paz também aderiu à convocação, declarou o bloqueio de estradas no departamento e pediu a renúncia de Paz Pereira. Enquanto isso, na região tropical de Cochabamba, as federações de produtores de coca, lideradas por Evo Morales, convocaram a “Marcha pela Vida para Salvar a Bolívia”, percorrendo cerca de 300 km a pé, até a cidade de La Paz, marcha que chegou no dia 18 de maio.

O momento atual

São três semanas de mobilizações, com epicentro no departamento de La Paz e, em particular, na cidade de El Alto. A principal reivindicação é a renúncia de Paz Pereira.

Em sua tentativa de desarticular o movimento, o governo faz acordos setoriais: concedeu um bônus anual aos professores urbanos e rurais, em vez de um aumento salarial; com os indígenas do leste, a revogação da Lei 1720; com a Central Operária Regional de El Alto, um acordo para o fornecimento de internet nas escolas de El Alto; com os transportadores, acordos para indenizar danos aos veículos. Ao mesmo tempo, emitiu mandados de prisão contra o principal dirigente executivo da COB, dirigentes da cidade de El Alto e dirigentes camponeses, acusando-os, entre outras coisas, de terrorismo, com ameaça de prisão e de penas de 3 a 5 anos.

O país entrou em uma polarização. A mobilização concentra-se em La Paz e em alguns departamentos por meio de bloqueios organizados pelo movimento camponês, mas, devido à falta de preparação, o restante do movimento operário ainda não adotou a medida da greve; os professores, após o acordo de sua liderança, deixaram de participar em várias cidades. Por outro lado, em La Paz e Oruro, as bases do magistério rejeitaram o acordo e continuam mobilizadas.

De modo geral, as classes médias das cidades exigem a declaração do estado de sítio e medidas severas contra os manifestantes. A burguesia pronunciou-se em apoio ao governo. Embora o critiquem por sua falta de capacidade, apelam para que se “defenda a democracia” e se apliquem medidas severas contra os manifestantes.

Perspectivas

Nos próximos dias, é possível que se defina o rumo do conflito. Para conseguir a renúncia de Paz, é necessário aprofundar a mobilização e incorporar todo o movimento operário e popular das demais cidades. Isso exige que a liderança assuma um papel mais decidido na organização e no fortalecimento da mobilização, algo que, por enquanto, não está ocorrendo.

Um elemento que não facilita o avanço nessa saída é a falta de resposta à pergunta: quem governará depois de Paz? As alternativas imediatas são: o vice-presidente Lara? Antecipação das eleições? Nesse contexto, a candidatura de Evo Morales? Mas, para isso, é preciso recompor toda a estrutura legal que impede sua candidatura. O que também leva ao risco de um governo de extrema-direita.

A falta dessa clareza é um fator que impede uma maior incorporação do movimento operário e popular.

Outra possibilidade é que se tente impor uma repressão dura para forçar a retirada dos mobilizados, com o apoio das classes médias e dos partidos da burguesia, para o que será necessário impor métodos violentos e causar muitas vítimas. Essa alternativa também significará um maior enfraquecimento do governo, razão pela qual, por enquanto, o governo não se arrisca totalmente nessa saída, mas ela não pode ser descartada se dela depender sua sobrevivência.

A terceira possibilidade seria uma saída negociada com os dirigentes, em troca de certas concessões em processos judiciais e de concessões parciais em conquistas sociais. Atualmente, alguns setores da liderança se abriram para essa alternativa, mas saíram desgastados e não reconhecidos por suas bases.

O certo é que o governo de Paz Pereira aprofunda seu enfraquecimento, e a mobilização operária e popular levanta a necessidade de construir uma alternativa de independência de classe que permita avançar rumo a um governo operário e popular, necessidade que, uma e outra vez, volta a ser levantada na Bolívia.

Bolívia COB
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