Da França à Índia, passando pela Espanha e pela Turquia, trabalhadores e jovens tomaram as ruas para enfrentar as políticas de austeridade e a retirada de direitos. Os ataques aos trabalhadores, à juventude e a setores oprimidos vêm de todas as partes. Seja do governo “socialista” na Espanha, do conservador na França, do bonapartista na Turquia ou da “ditadura eleitoral” na Índia. Todos estão unidos para eliminar direitos básicos da população, como educação, moradia e até o direito à vida.
O pano de fundo é o aumento vertiginoso da dívida pública, a redução do crescimento e do emprego, bem como dos salários. As mobilizações massivas evidenciam o esgotamento das agendas neoliberais e demonstram que a resposta aos ataques dos governos e dos patrões exige a luta direta nas ruas.
França: estudantes iniciam onda de protestos
Protestos sem precedentes, que começaram nas periferias de baixa renda, transformam a França em palco de batalhas contra a violência policial, a sete meses das eleições gerais.
Desde sexta-feira, 2 de outubro, as manifestações ganharam um caráter nacional, após duas semanas de protestos que começaram nos subúrbios do norte de Paris e se espalharam rapidamente por todo o país. O Sindicato Nacional dos Secundaristas informou que 1.800 das 3.700 escolas de ensino médio do país estavam bloqueadas ou fechadas na terça-feira, dia 6.
Cerca de 700 policiais e 200 adolescentes ficaram feridos, segundo o Ministério da Justiça. 6.100 pessoas foram presas, quase todas menores de idade. A violência policial correu solta. Um estudante perdeu uma mão, outro ficou cego e um terceiro teve a mandíbula destruída, como resultado do uso de bombas de gás e granadas pela polícia.
Classes superlotadas em prédios em ruínas, falta frequente de professores, que recebem baixos salários, funcionários insuficientes, a longa jornada de estudo em período integral e um sistema que privilegia as escolas mais centrais levaram os estudantes às ruas.
O dia 6 foi o pico do movimento até o momento. Cerca de 250 mil pessoas participaram de marchas em várias cidades, pela manhã, e em Paris à tarde, que contaram com a participação de estudantes, pais, professores e sindicalistas. O governo sentiu o golpe.

Crise política e econômica
Macron convocou uma reunião ministerial de emergência, diante da pior crise do governo. Imagens de barricadas em chamas e da polícia usando gás lacrimogêneo e cassetetes levaram ainda mais pessoas às ruas.
A crise política é o resultado de uma crise econômica que se avizinha. Os sindicatos já haviam realizado um dia de greve na semana passada para obrigar o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, a mudar sua proposta de orçamento para o próximo ano. Ele quer reduzir os gastos públicos em 54 bilhões de euros.
A dívida pública — um fenômeno generalizado nos países imperialistas — é crescente na França. Atingiu 3,595 trilhões de euros no segundo trimestre de 2026, equivalente a 119% do PIB do país. Além disso, o crescimento econômico está estagnado, com previsão de 0,7% para este ano. A solução do governo Macron é cortar em saúde, educação e assistência social, a velha receita que estamos cansados de ver por aqui.
Diante dessa situação, é fundamental a união dos estudantes e trabalhadores franceses para garantir uma vitória. Principalmente porque os protestos ocorrem a apenas sete meses das eleições presidenciais. Macron tentará apaziguar os ânimos com algumas concessões secundárias, enquanto o partido reformista La France Insoumise (LFI), cujo líder e candidato à presidência, Jean-Luc Mélenchon, tem apoiado ativamente as manifestações, tentará desviar essas lutas para o beco sem saída eleitoral.
Caberá aos trabalhadores e estudantes forjar suas próprias organizações, construindo uma alternativa revolucionária contra os enganos dos “progressistas”, uma alternativa que lute para que sejam os trabalhadores que tomem o poder.
Estudantes de outros países seguem o exemplo
Na Bélgica, estudantes protestaram contra o sistema de ensino em 7 de outubro, devido ao aumento dos custos da educação, às salas de aula superlotadas e às dificuldades de acesso a materiais de estudo. Estudantes e professores manifestaram-se em cidades como Bruxelas, Liège, Charleroi e Tournai, em meio a greves gerais contra cortes de gastos e reformas na educação.
Em junho, houve confrontos entre manifestantes e a polícia em Bruxelas devido a reformas na educação, incluindo um aumento nas mensalidades para a maioria dos estudantes da comunidade francófona da Bélgica.
Na Albânia, dezenas de milhares de estudantes saíram às ruas da capital do país, Tirana, em 14 de outubro, incendiando um prédio do governo e dois bancos, além de atirar pedras contra a polícia, em um protesto contra o aumento dos custos da educação e a corrupção.
Os protestos representam o mais violento ataque até agora contra Edi Rama, o primeiro-ministro, que conquistou seu quarto mandato em maio do ano passado. Os manifestantes também rejeitam figuras da oposição, considerando-as alternativas inaceitáveis.
Segundo o jornal inglês The Guardian, uma estudante afirmou que “isto é uma revolução. Estamos fartos de protestos pacíficos. Não vamos parar até que Rama renuncie”, enquanto atirava pedras contra a polícia.
Espanha: dezenas de milhares protestam contra a crise imobiliária
Dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas de Madri e de outras cidades espanholas para exigir medidas que combatam a crescente crise imobiliária.

Tudo começou no final de setembro, quando Maricarmen Abascal, de 87 anos, foi despejada da casa onde morava há 70 anos. Ela não conseguiu pagar o aluguel, depois de um aumento de 230% imposto por um fundo de investimento que comprou seu apartamento. Um apartamento de um quarto costuma custar 1.000 euros, metade do salário médio em Madri.
Para conter o movimento, o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, enviou um projeto de lei ao parlamento para proibir os despejos até 2030 e a regulamentação de aluguéis temporários, rejeitado pela oposição, formada pelo Partido Popular, pelo Vox, de extrema-direita, e pelo partido catalão pró-independência Junts.
O movimento voltou às ruas e realizou protestos em 50 cidades no sábado, 3 de outubro, defendendo uma greve geral no país. 70 mil pessoas participaram do protesto, segundo o governo, e 500 mil, segundo os organizadores. As manifestações continuavam até o fechamento da edição deste jornal.
Diante da derrota no parlamento, o “socialista” Pedro Sánchez resolveu antecipar as eleições gerais para 29 de novembro com dois objetivos: aproveitar o momento para fortalecer sua bancada parlamentar, apoiando-se nas medidas paliativas que propôs, e desviar o movimento de massas para o processo eleitoral.
Porém, Valeria Racu, do Sindicato dos Inquilinos, afirmou que “oito dias de poder popular podem conquistar mais do que oito anos de governo progressista”. A queda de braços está lançada, e o nosso lado é o das massas mobilizadas contra mais um governo “socialista” enganador.
Índia: estupros desencadeiam protestos em universidades
A fúria das mulheres irrompeu na Índia no início de outubro, com manifestações realizadas na cidade de Nova Deli.
O estupro coletivo de uma jovem de 17 anos, por três homens que se passavam por policiais, e o de outra jovem, assassinada depois de ser estuprada em grupo, reacenderam a luta contra uma epidemia que atinge o país há décadas. No mês anterior, uma adolescente de 16 anos foi estuprada por um motorista e um cobrador, em um ônibus noturno.

14 anos após o infame caso de estupro seguido de morte de Jyoti Singh, por um grupo de homens em um ônibus, nada mudou. Uma mulher é estuprada na Índia a cada 20 minutos, mas a real dimensão do problema é muito maior. As jovens universitárias convivem diariamente com essa ameaça nas ruas da capital, onde assédio sexual, agressão, cantadas e abuso são constantes.
A indignação das jovens aumentou devido à resposta das autoridades, que se limitaram a restringir suas liberdades. Foram orientadas a não sair à noite, e as aulas em uma faculdade feminina foram suspensas. Nunca houve tantas mulheres estudando nas universidades como atualmente, em busca de melhores oportunidades de trabalho, o que agrava o problema.
Depois da greve geral na Região Metropolitana de Deli, em abril, quando 250 mil operários cruzaram os braços, e do movimento das “baratas”, que mobilizou milhares de estudantes exigindo reforma na Educação, em julho, chegou a vez das mulheres ocuparem seu lugar na primeira fila da luta por um mundo melhor.
Turquia: repressão às pessoas transgênero
A polícia da Turquia prendeu pelo menos 150 pessoas em 15 de setembro, após uma onda de protestos contra uma operação governamental que visa banir e criminalizar organizações de defesa dos direitos de pessoas transgêneras e LGBTQ durante uma manifestação em frente ao tribunal de Çağlayan, em Istambul.
A repressão enquadra-se no programa “Minha família está segura”, com a realização de buscas contra dezenas de associações de direitos LGBTQ+ e de apoio a pessoas com HIV e o bloqueio imediato de sites e contas de redes sociais de grupos de direitos humanos. Nossa solidariedade à luta da comunidade LGBTQ.
