UP, PSTU, PCB e PCO lançaram candidaturas no primeiro turno das eleições presidenciais, que se apresentavam como alternativas ao governo Lula. Contudo, nenhum destes partidos fez uma denúncia sistemática contra o atual governo como eixo de campanha. Em vez disso, elegeram a ultradireita como a principal inimiga.
Ainda que a derrota da ultradireita seja necessária, foi o governo Lula quem aplicou a política econômica em favor dos bancos, do agronegócio e das multinacionais – o que resultou na piora das condições de vida dos trabalhadores nos últimos quatro anos. No entanto, em vez de se posicionarem efetivamente para derrotar o governo, UP, PSTU, PCB e PCO agiram apenas como uma ala “crítica” dentro deste campo. Com o segundo turno das eleições, essas siglas, com exceção da última, uniram-se em uma única estratégia: reeleger o governo burguês e pró-imperialista de Lula. Vejamos, a seguir, os argumentos utilizados para justificar essa capitulação.
O fantasma do fascismo
UP e PCB partem da premissa de que o país está à beira do fascismo e defendem a reeleição do governo Lula para “buscar derrotar o fascismo”. Esta narrativa não é nova: foi a mesma utilizada nas eleições de 2018 e 2022. Acontece que essa premissa é falsa. A ultradireita representa um projeto reacionário, mas não é o mesmo que fascismo e, se fosse, tampouco estaria certo eleger um governo da burguesia para combatê-lo.
O fascismo é uma organização armada que, apoiada em setores da pequena-burguesia arruinada e no lumpemproletariado, combate as organizações da classe trabalhadora com armas e violência física. Seu objetivo é destruir fisicamente o avanço de uma revolução. Por isso, ele se propaga em situações de crise aguda, quando a burguesia e o imperialismo já não conseguem manter o seu domínio.
Embora o bolsonarismo propague um discurso de ódio contra minorias e setores oprimidos, isso é insuficiente para caracterizá-lo como fascismo ou “neofascismo”. Assim, legendas como UP e PCB apenas replicam uma mentira criada intencionalmente pelo PT e pelo PSOL para gerar pânico em torno de um fantasma inexistente. Isso, além de não ajudar os trabalhadores a combater uma ameaça fascista real, empurra-os de volta à subordinação a uma alternativa burguesa como a de Lula.
Mesmo que a ultradireita fosse a expressão de um movimento fascista, a política dessas organizações também estaria errada e levaria o proletariado à derrota. O fascismo não toma o poder pela via das eleições. Nesta hipótese, a tarefa não seria reeleger o governo, e sim criar organismos de autodefesa armada e convocar a unidade da classe trabalhadora para derrotar o fascismo nas ruas.
O suposto risco de golpe
A defesa da democracia burguesa é outro argumento usado para capitular ao governo. Nessa linha, o PSTU sustenta que a eleição de Flávio Bolsonaro significaria a vitória de um “projeto autoritário que ameaça as liberdades democráticas”.
A narrativa de que o bolsonarismo instauraria uma ditadura militar é agitada pela Frente Ampla de Lula desde 2018. Todavia, o fato é que isso não ocorreu durante o mandato de Jair Bolsonaro, figura mais próxima dos quartéis do que seu filho. Com o revés nas urnas em outubro de 2022, foi que Bolsonaro pai elaborou um plano golpista que mal saiu do papel devido à falta de apoio majoritário da burguesia. A explicação disso é simples: os ataques contra os trabalhadores têm sido eficazes sob o regime democrático burguês, seja sob o comando de Bolsonaro ou de Lula, e, mesmo que não fosse assim, não havia, como não há agora, uma correlação de forças favorável a um golpe que pudesse mudar o regime político do país.
Na hipótese de ocorrer uma mudança na situação do país, a ponto de permitir a possibilidade real de um golpe militar, nós estaremos na linha de frente da luta contra o golpe. Todavia, essa possibilidade não existe neste momento, a não ser como narrativa da Frente Ampla para a disputa eleitoral. No Brasil real, a polícia que mais tem matado jovens negros é a do estado da Bahia, governada pelo PT.
Portanto, este argumento é outra falsidade para criar medo, usado como desculpa para ajudar a reeleger o governo Lula, que também pouco conseguiu garantir as “liberdades democráticas” para a maioria da população trabalhadora das periferias dos grandes centros urbanos.
O Brasil passou a ser soberano com Lula?
Um terceiro argumento que tem sido usado pela esquerda que se tornou linha auxiliar na defesa do governo Lula é o de que Flávio Bolsonaro representa os interesses diretos de Trump e, logo, que Lula seria a expressão da defesa de um Brasil soberano. Por exemplo, segundo o PSTU, Flávio Bolsonaro “busca criar as condições para aprofundar ainda mais os ataques contra os trabalhadores e entregar o país de vez para Trump”.
É verdade que um governo Bolsonaro aprofundaria os ataques contra os trabalhadores, mas dizer que entregará o país a Trump omite o fato de que o governo Lula já faz isso. O curioso desta elaboração da direção do PSTU é que, até pouco tempo atrás, este partido caracterizava o Brasil como uma semicolônia do imperialismo americano, o que inclui o papel dos governos petistas como gerentes dessa relação. O envio de tropas brasileiras para ocupar militarmente o Haiti, cujas convulsões sociais haviam derrubado o presidente do país, deu-se justamente sob o primeiro governo Lula, a mando do presidente Barack Obama, o que demonstrava, explicitamente, o papel político daquele governo de subordinação colonial ao imperialismo ianque.
Mas alguns incautos poderão dizer: “Trump não é Obama!”. Sim, mas qual foi o papel de Lula nas taxações de Trump contra diversos países, incluindo o Brasil? Foi em defesa da soberania? Lula sequer implementou a política de reciprocidade, que é um recurso legalmente estabelecido pelas burguesias nas relações comerciais entre países. Ao contrário, foi correndo se encontrar com Trump e oferecer a entrega de terras raras e minerais críticos aos EUA. A relação “petroquímica” com Trump, declarada pelo próprio Lula após esta conversa, envolve justamente a entrega desta riqueza nacional. Assim, o que mudou não foi o governo Lula e sua relação com o imperialismo norte-americano, e sim a elaboração do PSTU, que abandonou tal caracterização e passou a defender o governo Lula como se este fosse uma “contradição menor” para os planos de recolonização do imperialismo. Este é outro argumento falso para justificar a capitulação à Frente Ampla.
Até o momento, ao contrário de sua postura em outros países, Trump não declarou apoio a nenhum dos candidatos. Isso se explica tanto porque tal manifestação poderia aumentar a rejeição da candidatura de Flávio, quanto porque o líder dos republicanos mantém canais abertos com o presidente Lula. Assim, ao contrário da falácia produzida pela Frente Ampla, na qual o PSTU embarcou, os dois candidatos subordinam-se à Casa Branca.
Mas o PSTU esconde um fato crucial: ao contrário das eleições de 2018 e 2022, quando os candidatos do PT expressavam a oposição aos governos de turno, nesta eleição, Lula é situação. Portanto, ainda que o PSTU diga “nenhum apoio ao governo Lula”, neste contexto, defender o voto no 13, mesmo que sob o verniz de “crítico”, é o mesmo que apoiar politicamente a sua reeleição.
Bolsonarismo e lulismo, duas faces da mesma moeda
Flávio Bolsonaro e Lula representam frações burguesas que disputam o controle do Estado. Suas diferenças não são de conteúdo, mas de forma. Na aparência, os discursos são diferentes, mas, em essência, ambos defendem o mesmo projeto econômico implementado no país há mais de 30 anos. Prova disso é que nenhuma medida estrutural de Jair Bolsonaro foi revogada por Lula. Os dois representam os mesmos interesses — os do grande capital. Não por acaso, ambos têm ligações com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Os direitos sociais, a escala 6×1, os salários, os empregos, os serviços públicos, o meio ambiente e os povos originários estarão sob constante ameaça, seja com Flávio ou com Lula. Por isso, apoiar a reeleição do governo, ainda que sob o manto de “crítico”, ajuda a fortalecer um polo da burguesia que atacará duramente a classe trabalhadora, além de não contribuir em nada para a derrota da ultradireita. Isso nada tem a ver com posição “independente” ou “classista”, pois se trata de uma capitulação a um campo burguês e pró-imperialista. O MPR convoca os trabalhadores e a juventude a não depositarem nenhuma confiança nessas duas faces burguesas. Contra Lula e Bolsonaro: voto nulo! A alternativa é a construção de um partido revolucionário.
