Esta noite, 8 de outubro, um bombardeio russo atingiu a cidade de Pryluky. Cinco crianças e 14 adultos morreram sob os escombros de um prédio residencial. As operações de busca e resgate continuam. Foi mais um ato de terror da Rússia contra a revolução ucraniana.
É claro que este está longe de ser o primeiro ato de uma guerra bárbara contra a população civil. Putin está furioso com seus fracassos na linha de frente. No mês passado, durante a Operação Vivaldi, as Forças Armadas da Ucrânia retomaram o controle de 176 quilômetros quadrados de território e, nos últimos dias, surgiram relatos de que as forças ucranianas chegaram à fronteira em um setor da frente. Tudo isso contradiz completamente as mentiras do velho líder do Kremlin, que fracassou vergonhosamente em sua blitzkrieg contra a revolução ucraniana. Graças à resistência armada do povo ucraniano e, sobretudo, dos trabalhadores, o ditador do FSB acabou encurralado no sangrento beco sem saída de uma guerra de desgaste.
Poderia ter sido de outra forma?
Desde 2014, após a derrubada vitoriosa do pseudoditador pró-Rússia Yanukovych, após o povo revolucionário ter destruído efetivamente um dos principais instrumentos de repressão utilizados pela burguesia ucraniana e pela influência russa — as unidades Berkut —, após a ruptura decisiva com o antigo sistema político-administrativo de controle regional e a fuga de uma parcela significativa da estrutura de poder ucraniana pró-Rússia, o povo sentiu sua própria força e ímpeto revolucionário. E, literalmente, em questão de dias, os ucranianos começaram a se unir contra uma das aventuras mais idiotas do putinismo: a ocupação da Crimeia. Sim, a Ucrânia perdeu a península, apesar da resistência de milhares de ativistas ucranianos e do povo tártaro da Crimeia. Mas conseguiu resistir aos ocupantes no Donbas e deter uma nova expansão em larga escala da agressão russa por oito anos. E tudo isso diante do chamado “segundo exército do mundo”, de um Estado com armas nucleares e tecnologias militares avançadas.
O problema de Putin é que, como representante do aparato de segurança contrarrevolucionário, ele simplesmente não consegue enxergar ou compreender o poder colossal das massas, capazes, em momentos revolucionários, de desencadear mudanças tectônicas na história mundial. Ele vê tudo por meio das lentes de conspirações, acordos, figuras individuais e grupos influentes. Apesar de ter à sua disposição um gigantesco aparato de inteligência, mostrou-se completamente incapaz de avaliar a profundidade da revolução ucraniana. É por isso que foi derrotado, em fevereiro de 2014, pela Revolução da Maidan. É por isso que perdeu, naquele mesmo verão, no Donbas. É por isso que perdeu, na primavera de 2022, em Kiev e nas batalhas por Kharkiv e, no outono daquele mesmo ano, na região de Kharkiv e em Kherson.
E é por isso que continua perdendo agora, quando, em questão de meses, a revolução ucraniana desferiu duros golpes na infraestrutura petrolífera russa; quando a Ucrânia ataca instalações industriais e militares até mesmo na Sibéria e declara estar pronta para responder à destruição de seu sistema energético pela Rússia com ataques à infraestrutura energética russa às vésperas do inverno. Vale ressaltar: enquanto os ucranianos já vivenciaram a terrível experiência de cidades com milhões de habitantes congelando a temperaturas de vinte graus abaixo de zero, sem eletricidade ou aquecimento, a “Grande Rússia” de Putin está apenas começando a sentir as consequências dessa guerra em tal escala em seu próprio território. E isso é uma completa vergonha para o velho vampiro.
De onde vem a força da revolução ucraniana?
Tudo começou com a iniciativa do próprio povo, que se manifesta em toda revolução verdadeira. Desde o início do processo revolucionário na Ucrânia, os ativistas demonstraram um extraordinário nível de auto-organização. Nos acampamentos que surgiram por todo o país, e especialmente em Kiev, apareceram as chamadas sotnias — do ucraniano сотня, literalmente “cem” — unidades organizacionais compostas por aproximadamente cem pessoas. Havia sotnias formadas por participantes de várias cidades do país, sotnias de médicos, motoristas, cozinheiros, unidades de autodefesa e muitas outras estruturas. As pessoas organizavam-se conforme as tarefas necessárias para manter e defender a Praça Maidan. Durante o confronto na Praça Maidan, e especialmente durante os sangrentos eventos de fevereiro de 2014, quase cem de seus defensores morreram. Em memória dos mortos, foi criada a Nebesna Sotnia, a “Sotnia Celestial”.
A vitória da Maidan liberou um enorme potencial social. Mesmo nos primeiros dias da agressão de Putin, literalmente apenas algumas semanas após a vitória em Kiev, quando os prédios incendiados no centro da antiga capital europeia ainda exibiam as marcas dos combates de rua, os ativistas da Maidan começaram a formar destacamentos de voluntários para confrontar os invasores com armas em punho. Enquanto os oligarcas dividiam os despojos do poder e corriam aterrorizados pelos escritórios do Parlamento sobrevivente, jovens de bairros operários acorreram aos escritórios de recrutamento militar, tornando-se o embrião de um novo exército ucraniano. Enquanto alguns oficiais da Marinha ucraniana desertavam para o lado dos ocupantes, marinheiros, oficiais subalternos e cadetes de academias militares tentavam salvar os navios e continuavam a resistir na Crimeia já ocupada. Nas cidades, os ativistas criaram redes auto-organizadas de apoio voluntário aos combatentes do Donbass: arrecadavam dinheiro para veículos, kits de primeiros socorros, uniformes, equipamentos e tudo o mais necessário.
A revolução ucraniana demonstrou um profundo nível de auto-organização popular. Uma consequência dessa atmosfera de luta foi, por exemplo, a criação de um sindicato independente de trabalhadores de bondes municipais em Kamianske, um dos principais centros industriais do país. Nossos leitores sabem o quanto o movimento operário cresceu naquela cidade, chegando inclusive a tentativas de controle operário sobre a administração municipal e a polícia local.
Tudo isso ressurgiu, mas em uma escala muito maior, diante da ameaça de uma invasão russa em grande escala em 2022. Mesmo antes do início dessa fase da guerra, os ucranianos já formavam unidades de voluntários em massa — os chamados dobrobaty, ou batalhões de voluntários — e unidades de Defesa Territorial, ou seja, estruturas armadas de cidadãos criadas para defender suas cidades e comunidades. Foram justamente essas pessoas, juntamente com o exército regular, que enfrentaram os tanques russos, as unidades de paraquedistas de elite e as forças especiais ao longo de toda a linha de invasão, especialmente nos arredores de Kiev.
Quem se juntou a essas unidades? Um grupo muito diverso de pessoas: entre elas, inúmeros operários e outros trabalhadores, bem como pequenos empresários. Foi precisamente graças a essa enorme disposição para resistir que, apesar da covardia do imperialismo global diante de Putin, a Ucrânia conseguiu se opor ao inimigo e deter heroicamente seu avanço.
O nível de consciência e a cultura de auto-organização eram tão elevados que, durante a primeira fase da guerra em larga escala, em diversas unidades de voluntários e de base, o reconhecimento coletivo dos comandantes pelos próprios combatentes era de suma importância. Os soldados comuns — tanto recrutas quanto voluntários — estavam prontos para atacar, antes de tudo, em apoio àqueles em quem confiavam. Nessas unidades, havia também um controle direto muito mais forte vindo de baixo: os próprios militares monitoravam o uso de recursos tanto dos voluntários quanto do Estado.
A natureza parasitária da burocracia burguesa ucraniana começou gradualmente a corroer essas tradições de auto-organização, construindo uma estrutura de poder baseada no burocratismo, no carreirismo, na corrupção e na dependência do capital oligárquico. Mas o povo ucraniano, mesmo sob essa pressão e diante do parasitismo dos oligarcas e funcionários, continuou firme. Essa é, aliás, uma das razões para o elevado número de casos de evasão do serviço militar e de deserção não autorizada das unidades militares. Não se pode simplesmente declarar que todas essas pessoas são covardes.
Os ucranianos demonstraram sua capacidade e disposição para lutar. Mas exigem justiça: que a guerra seja para todos, que os ricos e poderosos não gozem de privilégios e que os burocratas que obstruem o combate do exército sejam afastados. A nacionalização de setores-chave da economia, atualmente controlados por oligarcas e estruturas pró-imperialistas — e, claro, por capital ligado à Rússia — é essencial, assim como a mobilização total de todos os recursos do país para alcançar a vitória, sem exceção para os ricos e poderosos.
Outro exemplo colossal de auto-organização popular foi o exército de drones ucraniano. Em 2014, e mesmo no início da invasão em larga escala de 2022, os veículos aéreos não tripulados (VANTs) ainda não desempenhavam o papel crucial que têm hoje. Ninguém imaginava a extensão em que mudariam radicalmente a natureza da guerra. O próprio povo, nas trincheiras e em meio aos combates mais ferozes e sangrentos, buscou novos métodos de combate e, gradualmente, descobriu o enorme potencial dos sistemas não tripulados. Assim que a importância dos drones ficou clara, a Ucrânia foi literalmente coberta por uma rede de pequenos centros de produção para todos os tipos de aeronaves não tripuladas. Em garagens, porões, oficinas, armazéns e casas, milhares de voluntários montam drones, instalam e ajustam equipamentos e componentes. A grande maioria dos trabalhadores contribui regularmente com uma parte de sua renda para comprar o necessário. As pessoas estão fazendo tudo o que podem para proteger seus irmãos e irmãs na linha de frente.
O fato de a Ucrânia possuir agora uma verdadeira muralha de drones, que nem mesmo uma superpotência militar global consegue transpor, deve-se em grande parte ao próprio povo, ao movimento massivo de voluntários e aos trabalhadores comuns que dedicam dias inteiros à montagem de drones, à instalação de componentes e à contribuição de parte de seus salários mensais para financiá-los. E tudo isso acontece enquanto o governo do populista Zelensky ainda não decidiu nacionalizar as principais empresas militares e de fabricação de drones e colocá-las inteiramente a serviço da frente de batalha.
A guerra é longa e sangrenta e, infelizmente, seu fim ainda não está à vista
Putin não pode parar porque admitir a derrota representaria uma ameaça não só para ele pessoalmente, mas também para todo o aparato contrarrevolucionário do FSB, no qual seu regime se apoia. À sua maneira, o imperialismo global teme o mesmo: o colapso do sistema de Putin e o que chama de “caos” no coração da Eurásia. Trump demonstrou a completa impotência de suas tentativas de interromper a guerra em nome de uma futura colonização dos países da região. E não poderia ser diferente quando estamos diante de um confronto histórico entre revolução e contrarrevolução.
É provável que os estados imperialistas continuem a auxiliar a Ucrânia, mas essa ajuda é motivada principalmente por seus próprios interesses: a subjugação da Ucrânia, a exploração de seus recursos e a proteção de sua própria segurança contra as aventuras de Putin. Ao mesmo tempo, são precisamente as políticas predatórias do imperialismo da UE e dos EUA que fazem dessa ajuda um fator em uma guerra de desgaste prolongada. Portanto, nossa tarefa — a tarefa dos revolucionários, ativistas e trabalhadores conscientes em outros países do mundo — é nos solidarizarmos com a revolução ucraniana. Uma solidariedade de classe, de trabalhadores para trabalhadores.
Devemos exigir que os governos de nossos países encerrem a cooperação com o regime de Putin e expliquem o perigo que suas políticas representam para os povos e trabalhadores de outros países. Devemos denunciar as estruturas de influência do Estado russo: veículos de propaganda como a Russia Today, centros culturais ligados ao Estado russo, bem como diversas figuras públicas e organizações conectadas ao aparato estatal de Putin. E devemos também denunciar os numerosos supostos “esquerdistas” que se esforçam para evitar enxergar quem é o agressor e quem é a vítima nesta guerra, ou onde se situam os campos da revolução e da contrarrevolução; ou que justificam abertamente a agressão de Putin contra o povo ucraniano, a classe trabalhadora e a revolução.
E, claro, deveria ser uma enorme honra para cada um de nós participar da campanha de solidariedade prática com a resistência ucraniana: ser voluntário na revolução ucraniana em nossos próprios países e fazer parte desse exército internacional de solidariedade que compra e entrega armas aos nossos camaradas na linha de frente para lutar contra a mais terrível barbárie do nosso tempo. O significado dessa barbárie foi demonstrado mais uma vez hoje pelo assassinato de cinco crianças e 14 adultos em sua própria casa, em uma única cidade ucraniana.
