A repulsa ao bolsonarismo é justa: ele precisa ser derrotado e jogado no lixo da história. Contudo, não podemos cair na análise rasa nem na chantagem político-moral do governo Lula/Alckmin.
Não estamos diante do fortalecimento de uma “onda conservadora”, nem da iminência de um regime fascista. Estamos diante de algo muito diferente: uma derrota estrondosa de Lula e do PT.
Acima de tudo, é a derrota da falácia da “frente ampla”. Conciliar com a direita tradicional, o agronegócio, o mercado financeiro e os arquitetos do neoliberalismo no Brasil — como Henrique Meirelles e os economistas do Plano Real (Armínio Fraga, Pedro Malan, Persio Arida e Edmar Bacha) — nunca freou a extrema-direita.
A estratégia de conciliação de classes sempre levou a classe trabalhadora a um beco sem saída e a amargas derrotas.
Quem, se dizendo marxista, acredita que era possível derrotar o bolsonarismo aliado com o “companheiro” Alckmin, Simone Tebet, Marina Silva, FIESP, ex-presidentes do Banco Central e executivos de grandes bancos e fundos de investimento, é um farsante e um traidor da classe trabalhadora.
Isso porque a extrema-direita não será derrotada nas urnas ou pela via institucional. Ela só pode ser derrotada nas ruas, no enfrentamento ideológico e físico, mobilizando milhões — e atacando as raízes do capitalismo dependente que a alimentam. Algo que Lula e o PT nunca fizeram nem farão.
E mais: se, como dizem o PT e seus acólitos, o bolsonarismo fosse de fato uma força “fascista” (o que não é), aí sim a luta teria de ser física nas ruas, e jamais contida nos limites institucionais e controlada “de cima para baixo”.
Apesar da narrativa repetida até o cansaço por PT, PSOL, PCdoB, MST, MTST, CUT e UNE, a luta não é entre “extrema-direita” e “esquerda” — pelo simples motivo de que o PT não é “a esquerda”, seja lá o que essas direções achem que isso significa.
O PT não é sequer um partido reformista, pois nunca fez uma reforma estrutural. O PT é um partido da ordem, social-liberal, no máximo a ala esquerda da classe dominante, tão corrupto e corrompido quanto os partidos da burguesia tradicional.
Tampouco é uma luta entre democracia liberal e fascismo. O bolsonarismo é uma força reacionária, extremamente conservadora (misógina, homofóbica, fundamentalista religiosa), pró-imperialista e neoliberal, mas não é um movimento de massas organizadas e armadas em milícias que irrompe para eliminar fisicamente as organizações da classe operária, seus sindicatos e partidos políticos — que é a própria definição do nazifascismo.
O bolsonarismo não mudou o regime democrático-liberal, e é improvável que o mude. Pelo contrário, surge do parlamento e disputa o poder por meio do rito eleitoral e dentro da Constituição vigente. Quando a cúpula do bolsonarismo tentou articular um golpe de Estado, fracassou logo no início, porque não há condições políticas, sociais e contexto geopolítico favoráveis a uma aventura desse tipo.
Inclusive, a campanha de Flávio Bolsonaro não repetiu a retórica mais retrógrada do seu pai em 2018 e 2022. Não fez apologia à ditadura militar, nem exaltação a torturadores ou ataques abertos a negros e mulheres. Pelo contrário: de forma extremamente cínica, prometeu “mudança” e até combate ao feminicídio.
Ele fez uma campanha focada em aparecer como anti-PT e, consequentemente, “antissistema”. É pura hipocrisia, mas colou. Por quê? Por que mais de 56 milhões de pessoas viraram “fascistas” da noite para o dia? Será porque metade do país passou a defender uma nova ditadura? Ou por que, fora da bolha da classe média ilustrada e dita ‘progressista’, a classe trabalhadora vê o PT exatamente como o “sistema” a ser derrotado?
E eles estão errados? Não. O PT é o partido que mais governou desde a redemocratização. O PT, hoje, comanda o ‘sistema’, sim. Em 2022, venceu prometendo melhorar a vida da classe trabalhadora, “cuidar do povo”, trazer esperança e comida à mesa. Nada disso aconteceu.
Por isso, a tendência expressa nas urnas é essencialmente o antipetismo, e não a adesão cega às bandeiras da extrema-direita. São coisas completamente diferentes.
Longe de ser “burra”, a classe trabalhadora é pragmática e usou o voto para castigar um governo que mentiu. Sem uma alternativa operária e revolucionária no radar das massas, esse voto-castigo foi canalizado, infelizmente, pela extrema-direita.
Mas o castigo ao governo é justo. A vida continua cara e massacrante: famílias endividadas, jornadas extenuantes, salários baixos, transporte caótico e serviços públicos sucateados. O povo pergunta com razão: cadê a picanha?
A estratégia de governar junto com a burguesia “democrática” se mostrou uma catástrofe. Foi essa escolha do PT, e da esquerda que o sustenta, que o impediu de tomar medidas mínimas contra o avanço do bolsonarismo.
Veja o caso da escala 6×1: a pauta só entrou na agenda do governo a contragosto, quando explodiu na opinião pública e nas ruas. Após a tramitação na Câmara, o PT sentou em cima dessa pauta, priorizou a disputa eleitoral e não moveu uma palha para pressionar o Senado. Agora, com o resultado do primeiro turno, o cenário para a aprovação da PEC ficou muito mais adverso.
Junto a isso, o governo entrega ajuste fiscal e arrocho. O contingenciamento e os bloqueios no orçamento chegaram a dezenas de bilhões de reais, atingindo saúde, educação e cidades. Enquanto isso, a política da dívida pública segue intacta: metade do orçamento nacional vai direto para o bolso de banqueiros e especuladores.
Os dados escancaram a realidade. Mesmo com os reajustes da faixa de isenção, a defasagem acumulada da tabela do IRPF atinge cerca de 157%.
O salário mínimo atual fica muitíssimo abaixo dos mais de R$ 7.000 calculados pelo DIEESE como valor mínimo necessário para sustentar uma família. O resultado disso é que cerca de 30% da população trabalhadora do país vive em situação de inadimplência (contas em atraso) e cerca de 80% das famílias estão endividadas. Não adianta o programa “Desenrola”; o trabalhador precisa é de salário digno e direitos que garantam condições decentes e descanso adequado.
O desemprego caiu em números absolutos, mas às custas do aumento da informalidade, de empregos precarizados sem direitos e do trabalho por aplicativo. Isso, por sua vez, está diretamente ligado ao processo de desindustrialização e à maior dependência do Brasil na divisão internacional do trabalho, sob controle do imperialismo — um processo estrutural que o PT nunca combateu.
É nesse caldo de desamparo e desespero que a ideologia do “empreendedorismo” e do individualismo reacionário ganha espaço.
Medidas eleitoreiras ou tardias, como a regulamentação das Bets para arrecadar impostos sobre a desgraça alheia ou a cobrança da “taxa das blusinhas”, mostram a prioridade fiscalista do governo. Enquanto isso, as reformas trabalhista e da previdência (heranças de Temer e Bolsonaro) continuam intactas.
O resultado dessa política neoliberal é que a rejeição ao governo supera 50% nas pesquisas recentes de opinião. E com esse nível de desaprovação, não se vence nenhuma eleição.
Como li em um bom artigo, a gestão Lula/Alckmin foi o maior cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro, que só tem o apoio convicto de cerca de 34% do eleitorado. A maioria não vota nele por convicção ideológica ou por ser ‘conservador’, mas por ser a única ferramenta disponível no momento para tirar o PT e atacar o “sistema”, hoje governado pela Frente Ampla lulista.
A conciliação de classes e o reformismo falharam. O gradualismo falhou. Ao não atacar as bases do capitalismo dependente, o petismo, longe de ser um “freio” para a extrema-direita, apenas preparou o terreno para a sua ascensão.
Por isso, no segundo turno, o único voto-protesto, “antissistema” e coerente com o princípio da independência de classe é o voto nulo.
Não cabe o desânimo. Não se deve confundir a derrota do PT com a derrota da classe trabalhadora.
É hora de fazer o balanço e lutar para erguer uma alternativa de independência de classe, operária, revolucionária e socialista!
