1 – Introdução
Passadas as eleições do 1º turno do Brasil de 2026, o resultado de Flávio Bolsonaro à frente de Lula, como já dito no nosso grupo de WhatsApp, é um terremoto político. É verdade que Bolsonaro jr. tinha um rendimento alto nas pesquisas e, nas últimas semanas, tinha sofrido uma singela queda por fatos como: mais denúncias sobre o seu envolvimento no caso Master, a fake news sobre a Nossa Senhora Aparecida e devido às medidas eleitoreiras do governo petista com a proibição das bets e o aumento do Bolsa Família. Ainda assim, analistas políticos burgueses e militantes davam a possibilidade de Lula vencer no 1º turno.
2 – Alguns números
A vitória parcial de Flávio não foi de larga vantagem, apenas 2%. Precisamos nos debruçar sobre este resultado, que vai além da eleição presidencial. Números e resultados, como:
- 19 senadores eleitos pelo PL, agora 28, cerca de 1/3 da casa;
- 20 governadores (re)eleitos agora no 1º turno;
- PSOL não bateu a cláusula de barreira;
- Manteve-se os 3 maiores estados (SP, RJ e MG), de economias e população, sob o controle da extrema-direita ou centrão;
- Nikolas Ferreira torna-se o deputado mais votado da história do Brasil;
- Votos nulos: 3.674.149 (equivalente a 2,93% dos votos registrados);
- Votos em branco: 2.300.781 (1,84%);
- Abstenções: 33.174.473 (21,07% do eleitorado nas parciais iniciais);
- Total de não-válidos/ausências: A soma de abstenções, brancos e nulos atingiu 39,1 milhões de pessoas (24,63% do eleitorado apto).
- Na Bahia, mesmo com o desgaste de Jacques Wagner – Master, o PT consegue eleger seu governador. O estado que mais mata pobres e pretos no Brasil;
- Samara (UP) teve mais do que o dobro dos votos (0,10%) do que Hertz (PSTU), com 0,04%.
A análise diminuta deste 1º turno, obviamente, precisa ser ampliada. Na esteira desta averiguação, sabemos que o território é pantanoso, pois as eleições burguesas são uma deformidade da luta de classes.
Um dado importante a levantarmos com precisão e esmero seria o da votação da esquerda não diretamente lulista (PSTU, PCB, UP e PCO). Aumentaram seus votos em comparação com a eleição passada? Entre eles houve mudanças? Algum partido passou o outro?
A análise do campo da esquerda não diretamente lulista (PSTU, PCB, UP e PCO) é importante, porque pode nos demonstrar algumas análises/caracterizações, em especial, se a política de quase (ou disfarçada) Frente Popular de Combate teve êxito ou não, não obstante que elementos internos, como a própria dinâmica das organizações, também influem nestes números.
3- Análise Política
Debate vencido, e nós, revolucionários e comunistas (socialistas), precisamos nos armar para o 2º turno. Independentemente de nossa política, o cenário político mudou, haja vista a dissonância entre as pesquisas eleitorais e o resultado eleitoral. Entre analistas burgueses e a base petista (militantes ou apoiadores), o foco ficará na aparência, ou seja, na campanha. Como já afirmamos, o fato de PT/Lula governar para o capital e ter feito um governo Lula III , mais à direita e com mais ataques à classe trabalhadora, deve ser a lente para compreender esta derrota parcial do campo progressista.
O alto custo de vida (da picanha da campanha de 2022 para o ovo em 2026), os altos juros da taxa Selic, os casos de corrupção do Supremo (o tal poder garantidor da democracia burguesa), a tentativa de privatização de um rio e ataques (e futuros) a categorias da classe como bancários e carteiros (apesar disto votaram em peso no presidente petista) são fatos objetivos da realidade que ajudam a entender o porquê da derrota do PT no 1º turno.
O resultado é tão impressionante porque o vencedor do 1º turno é Flávio, um candidato pouco expressivo, envolvido diretamente no escândalo do caso Master (via filme Dark Horse). Aquele que, junto ao seu irmão, Eduardo, conspira com Trump e Marco Rubio (Secretário de Estado dos EUA) e que chegou a demonstrar simpatia e coautoria pela política do tarifaço de Trump ou, como nas declarações, de entregar o PIX para os EUA.
Soma-se a este corolário de atuação de Flávio o fato de ele representar o pai, o que lhe conferiu grande parte de sua expressiva votação. Mas vejam que coisa curiosa! Contudo, esta representação é a de um governo desastroso para a classe, marcado também por casos de corrupção, pela péssima gestão da pandemia, aumento da fome no país, a Reforma da Previdência e a privatização da Eletrobrás. Apesar desse contexto negativo, tal legado não foi suficiente para que o PT vencesse o bolsonarismo.
Esta vitória do bolsonarismo representa, a priori, 3 possibilidades a curto e médio prazo:
A – Libertação de Jair Bolsonaro;
B – Com a vitória no Senado, o PL vai implementar uma de suas promessas de campanha: impeachment de ministros do Supremo (vão pra cima do Xandão!), como poderão indicar até 4 nomes para o STF e;
C- Bolsonaro livre das acusações no STF, torna-se candidato para 2030.
Por isso, este panorama faz com que o PT arme sua militância e seus apoiadores com a política do desespero. Flávio pode ter um governo, de certa semelhança, ao 2º mandato de Trump, em miúdos, mais ideológico e mais forte. Sem falar da possibilidade de reabilitar Bolsonaro para 2030, o que causa calafrios no PT, porque até lá, Lula provavelmente não terá condições de saúde para uma campanha, como a de governo, pois estará com 84 anos. Sem falar que, neste cenário, o plano da direita, que é o de Tarcísio vir a ser candidato em 2030, pode não se concretizar e, com isso, o bolsonarismo pode ter um fôlego maior.
Nesta projeção, o PT poderia ficar 8 anos fora da gestão do Estado burguês. Tal fato poderia gerar uma crise colossal dentro do partido. De certa forma, este foi um dos fatores da crise do PSDB. Para nós, este cenário é esquemático e idealista, porque não fazemos política somente de 2 em 2 anos, mas para o cotidiano da classe. Seja qual for o gestor do Estado e do capitalismo brasileiro, ambos governarão para os banqueiros e o imperialismo estadunidense. Os ataques virão, e nós precisaremos estar muito bem alinhados à classe para ler a sua realidade e imbricá-la com a teoria de Marx, Lênin e Trotsky.
Por outro lado, pode haver outro cenário, um em que o governo Bolsonaro pode ser frágil. Flávio pode herdar, de certa forma, a crise do atual governo. Não somente o enorme endividamento, que circula em torno de R$ 11 trilhões, que representa 82,9% do PIB, e cerca de 82% das famílias encontram-se endividadas, mas também a crise política focada no STF e a necessidade de qualquer próximo governo ter que fazer duras medidas neoliberais. É de difícil prognóstico prever a dinâmica de um próximo governo Bolsonaro.
De qualquer maneira, Flávio, mesmo com a expressiva vitória com os governadores e para os cargos proporcionais, tudo vai depender dele ser hábil com o Centrão. Para finalizar este parágrafo, ainda fica aquela preocupação honesta da vanguarda sobre a possibilidade de fechamento de regime ou golpe. Neste momento, é um fato que Bolsonaro jr. não tem a mesma relação com as Forças Armadas que a de seu pai. Assim, esta possibilidade torna-se cada vez mais remota.
4- Eu te disse, e nossa política
Novamente, não é que devamos seguir com o antigo e chato bordão do “eu te disse”, mas na deformidade eleitoral, a classe não vê uma diferença de qualidade entre os dois projetos de gestão do Capital. E por que não vê? Porque é concreto.
Passados quase 4 anos de governo do PT, em tese, o bolsonarismo era para ter sido derrotado como expressão eleitoral capaz de eleger um presidente. Bolsonaro preso, como seus asseclas após a tentativa de golpe do 8 de janeiro, e o Centrão sendo cada vez mais cortejado pelo PT, deveriam ser suficientes para diminuir o tamanho desta extrema-direita, mas não o foram. E uma das explicações desta incompetência política foi o desastroso governo Lula III.
Neste momento, não podemos apenas analisar a atuação das outras campanhas. E a nossa? Vejamos a contagem dos votos nulos, brancos e abstenções:
| ABSTENÇÃO | BRANCOS | NULOS | ELEITORES APTOS | |
|---|---|---|---|---|
| 2018 | 20,33% (29.941.265) | 2,65% (3.106.936) | 6,14% (7.206.205) | 147.306.275 |
| 2022 | 20,95% (32.770.982) | 1,59% (1.964.779) | 2,82% (3.487.874) | 156.454.011 |
| 2026 | 21,08%(33.428.584) | 1,84% (≈2,2milhões) | 2,93% (≈3,6 milhões) | ≈158,7 milhões |
Analiticamente, estes dados demonstram 4 dados interessantes:
A – O não voto de 2018 foi muito alto;
B – 2022 representou uma votação muito baixa do não voto;
C – Este ano, 2026, o não voto teve uma recuperação, mesmo que tímida, em relação a 2022 (0,13% ou 657.602 votos) e;
D – As abstenções crescem ano após ano.
Destes dados, é importante salientarmos que a democracia burguesa (seja o TSE ou institutos de pesquisa) não faz um raio X muito científico, apenas fornece os estados. Nas abstenções, os 5 primeiros estados, em ordem, foram: MS, RJ, MG, SP e MT; votos brancos: SP, RS, MG, RJ e PB; e, por fim, votos nulos: AL, PB, BA, SE e SP. Todas estas votações são por porcentagem e não números absolutos. O que chama a atenção é que, nos votos nulos, os 4 primeiros são estados com altas votações petistas.
Ainda sobre o raio X no que tange ao não voto, não sabemos o sexo, a idade, as classes (A, B, C e D), que obviamente não é nossa definição. Como neste número, existem os casos de óbito para as abstenções que ainda constem entre os eleitores aptos, por mais que haja um cruzamento e comunicação dos cartórios com o TSE. Por outro lado, existem os casos de pessoas que não se motivam a ir votar, simplesmente assim. Desta maneira, as abstenções que perduram como o maior número são um dado de tocante dificuldade.
Em síntese, embora a votação do não voto seja crescente, a nossa análise de que o desgaste político da democracia burguesa poderia se expressar nos votos nulos, objetivamente, não se realizou. Mesmo assim, outro fato foi que, a cada 4 pessoas, 1 não votou ou anulou. Sim, isso é um desgaste. É importante relembrar que a expressão dessas eleições foi de “vote contra o outro” e de poucas promessas. Pode-se dizer que, até a última semana, a campanha estava fria. Tal fato pode demonstrar a desesperança que a população observa nessas eleições. Na esteira deste sentimento, nós podemos estimular que ele vire indignação e luta.
5 – Signo
Entre os votos de Bolsonaro, Lula, governos estaduais e proporcionais, o signo desta eleição é contraditório: mais pessoas votaram, no entanto, mais se abstiveram. Em miúdos, os eleitores votaram pelo medo e desesperança. Seja pela volta de Bolsonaro ou pela manutenção de Lula. A escolha por um projeto já testado, pela segunda vez, demonstra como a classe trabalhadora tem, nas eleições, uma opção cada vez mais restrita. A cesta de bens políticos das eleições, tal qual na vida dos mais pobres nos mercados, tem cada vez menos ofertas de quantidade e de qualidade.
A considerar que nossa previsão de 2027 será de um governo com maior restrição orçamentária e mais ataques à classe, reforça o sentido das eleições sem sal, pois os candidatos, os principais, pouco falaram de propostas e mais se postularam a ser o antípoda do outro. E a classe observou isso também.
Caso Lula não consiga se reeleger, será a segunda vez nas eleições pós-Ditadura Tecno-Empresarial-Militar (1964-1985) que um presidente não se mantém de forma consecutiva. Aqui temos outro ponto de inflexão em relação ao “reformismo” ou ao campo lulista. Porque, enquanto eles afirmam que isto demonstra uma onda conservadora, seja da extrema-direita em nível mundial ou em nível latino-americano, nós não negamos que, eleitoralmente, a extrema-direita tem crescido, porém não diminuímos o que foram as recentes mobilizações populares na Espanha, França, Bolívia e Argentina. Mesmo no campo eleitoral, ao menos, o signo não tem sido, de forma isolada, do avanço da extrema-direita ou da direita, mas pode ocorrer no Brasil a alternância de projetos neoliberais.
Outra explicação do reformismo ou dos liberais, em nível global, é a de que o tecido social e político da democracia tem se enfraquecido ou se desfeito, devido ao renascimento de partidos e governos de extrema-direita. Formulação que abre espaço para que surjam análises de que exista um neofascismo. Uma das obras de referência para esta análise é o “Como as Democracias Morrem”. É de monta destacar que o livro de LEVITSKY e ZIBLATT defende o pensamento de que as democracias nesta realidade tendem a ser corroídas por dentro, sem a necessidade de um golpe de Estado, por uma certa falta de compromisso com o regime e medidas ou mecanismos de autorregulação. Esta avaliação é a mesma à de um cachorro que caça o próprio rabo, em resumo, idealista, porque a solução será feita por um próprio regime em decadência e pelos próprios políticos que a corroem e divorciada de uma análise econômica. Ou mesmo metafísica, em acreditar que algum espírito norteará novas medidas.
Rejeitamos a análise de que a democracia esteja morrendo ou, ao menos, que esteja sozinha nesse caminho. Para nós, caso a democracia burguesa-liberal esteja naufragando, é porque ela é somente o sintoma do naufrágio do capitalismo. Genocídio/resistência na Palestina, mais de 4 anos de guerra na Ucrânia, no Iêmen, aumento dos gastos com armamentos e avanços tecnológicos com esse objetivo (corrida armamentista), bolha especulativa da IA, índices econômicos mais baixos nos grandes centros capitalistas são apenas alguns dos buracos no fundo da embarcação do sistema capitalista.
Já os reformistas, em nível mundial, se comportam tal qual no filme de James Cameron, Titanic, como os músicos da película, na cena em que o navio naufraga, que se mantêm fielmente tocando as músicas às quais foram pagos! O capitalismo agoniza e nós, os trotskistas, diferentemente dos reformistas, queremos ser o seu tumbeiro!
Neste sentido, precisamos reforçar que o caminho dos comunistas mantém-se o de, por um lado, denunciar os dois projetos neoliberais e, por outro, ser uma oposição frontal, sem ceder um milímetro em nossa política e programa. Nossa posição continua a mesma: a de estar junto da classe trabalhadora e a de dizer a verdade às massas, mesmo que seja a mais dura a ser dita!
6 – E o MPR?
Na continuidade da última frase escrita, já sabemos o que fazer. Contudo, nós precisamos saber o como implementar a política. Nesta pequena contribuição, tentamos demonstrar que nossa política de voto nulo está correta. Entretanto, para operacionalizar a política, é necessário ter maestria. Não atuamos numa câmara escura; queremos ir para além dela. Dessa maneira, não podemos negar a pressão que sofremos dos progressistas ou lulistas, devido à nossa composição social.
Precisamos identificar os melhores locais de intervenção para a nossa política e mapear os contatos para a nossa construção. Não obstante, não podemos incorrer no erro de nossa antiga organização, do qual também fomos responsáveis, que foi o de subestimar a capacidade do PT de se rearticular após o impeachment de 2016. O que isto significa? Que precisamos compreender que a nossa linha é muito minoritária e, por isso, também precisamos cerrar fileiras. Fazer e fortalecer a política dentro da organização. Em 2016, não apenas perdemos 1/3 do partido, como também se iniciou a decadência política do PSTU.
Plenárias regionais e nacionais, incentivo para que todos os militantes escrevam sobre a política, pequenos cursos e panfletagens conjuntas podem ser algumas das medidas que possam nos fortalecer.
Infelizmente, na atualidade, a vanguarda é reformista e a nossa política choca-se com ela. Tal qual o mito da caverna de Platão, há momentos em que algumas pessoas se contentam em apenas assistir às sombras e projeções, mas não à realidade. Assim, precisamos escolher com paciência o local e o público para intervir; não devemos nos desgastar com aqueles que não querem nos escutar.
Mesmo que sejam poucos, na história do movimento operário ou do comunismo, a política deles, por vezes, foi minoritária, o que não representava, per si, que elas estavam erradas. Podemos nos utilizar de inúmeros exemplos, mas ficamos com somente um: quando Lênin, em 1917, nas Teses de Abril, estava isolado, mesmo no próprio Partido Bolchevique, até aquele presente momento, quanto à necessidade/maturidade da Rússia ter uma revolução socialista. E a história demonstrou que a política estava correta. A convicção política e a disciplina resiliente dos militantes bolcheviques comprovaram que o partido estava certo.
Gustavo Kelly
Rio, 5 de outubro de 2026.
