Nesta segunda-feira, 20/07, mais de 50 mil manifestantes, a maioria deles jovens entre o final da adolescência e o início dos 20 anos, marcharam em direção ao Parlamento indiano, em Nova Délhi, para protestar, mais uma vez, contra o cancelamento do vestibular de medicina, conhecido pela sigla NEET, devido ao vazamento das provas, segundo o governo. Desta vez, exigiram a renúncia do ministro da Educação da Índia, Dharmendra Pradhan, e do primeiro-ministro Narendra Modi, no poder desde 2014.
Porém, o governo havia declarado o ato ilegal. A polícia de Delhi impediu a marcha até o parlamento e encurralou a multidão em uma área restrita, no centro da capital indiana. A internet foi cortada e barricadas foram erguidas em toda a capital. Em seguida, vieram os cassetetes e o gás lacrimogêneo. Apesar da repressão, muitas pessoas continuaram marchando em pequenos grupos em direção ao Parlamento.
A prova de admissão foi realizada em maio, por mais de 2 milhões de estudantes para 130 mil vagas. Muitas famílias gastam suas economias e se endividam enormemente para pagar as aulas de cursinhos para o vestibular. Atualmente, na Índia, gasta-se mais com aulas particulares do que com todo o orçamento público destinado ao ensino superior. Este não é o único vestibular com dados vazados, mas é o mais importante. Em geral, os resultados das provas são oferecidos em uma espécie de leilão, o que garante o ingresso dos filhos de famílias burguesas e abastadas.
A situação social na Índia
A Índia vive um período de rápido crescimento econômico que só beneficia os capitalistas e banqueiros do país. A classe operária recebe salários baixíssimos (semelhantes aos dos trabalhadores no início do boom industrial na China) e o desemprego é alto, principalmente entre a juventude. Segundo dados do governo, o desemprego entre pessoas de 15 a 29 anos ficou em 9,9% em 2025. Se forem consideradas áreas urbanas, o percentual sobe para 13,6%. Mesmo com diploma, um número significativo trabalha na informalidade. Segundo um estudo recente, quase 40% dos graduados indianos com menos de 25 anos estão desempregados.
Há alguns meses, uma greve operária de cerca de 250 mil trabalhadores, ocorrida em vários estados, abalou o país (ver matéria “Índia: A revolta industrial“). A greve conseguiu uma pequena, mas fundamental, concessão: o aumento do salário mínimo nos estados de Haryana e Uttar Pradesh, dois dos principais centros industriais. Mas não conseguiu alterar o regime trabalhista “flexível”, marcado por insegurança no trabalho, salários estagnados, facilidade de demissões, contratos mensais e não renováveis e diversas práticas ilegais que não são combatidas pelo governo central. Foi um pequeno recuo da “ditadura eleitoral” do governo Modi, mas deixou uma chama acesa para preparar novos “incêndios”.
A juventude retoma a luta
Foi o que a juventude fez. O primeiro protesto ocorreu em Delhi, no início de junho, exigindo a renúncia de Pradhan. Naquele mês, um segundo grande protesto foi realizado no histórico Jantar Mantar, em Delhi, e, desta vez, prometeram não sair do local até que Pradhan fosse deposto. Os manifestantes foram acompanhados por Sonam Wangchuk, um eminente cientista e ativista da educação do estado indiano de Ladakh, que, no ano anterior, havia sido detido pelo governo sob leis antiterroristas.
Wangchuk iniciou uma greve de fome e anunciou que a manteria até que o ministro da Educação renunciasse. No domingo, 19/07, após 3 semanas sem comer, Wangchuk foi levado a um hospital público contra a sua vontade. A polícia alegou que a ação visava proteger sua saúde – sua esposa condenou o ato como “detenção ilegal”. Do leito do hospital, Wangchuk convocou os apoiadores do CJP a marcharem até o parlamento na segunda-feira e exigirem a renúncia de Pradhan.
O Partido Popular das Baratas

Essas ações foram organizadas por um “partido”, embora seu surgimento e objetivo sejam inusitados. Em maio, durante uma audiência sobre diplomas falsos, o presidente da Suprema Corte do país, Surya Kant, chamou os jovens indianos desempregados de “baratas” e “parasitas”. Abhijeet Dipke, um jovem indiano recém-formado nos EUA, indignado com esses comentários, lançou, em tom de deboche, um apelo nas redes sociais para que “todas as baratas se unissem”.
A resposta foi avassaladora. Dipke criou um site e perfis nas redes sociais para um partido satírico, o Partido Popular das Baratas (CJP), uma crítica ao partido governista Partido Popular Indiano (BJP) de Modi. Lançou um manifesto que atacava o governo e criou o slogan: “Um partido político para as pessoas que o sistema esqueceu de contar”. Em duas semanas, o perfil do CJP no Instagram já contava com mais de 22 milhões de seguidores, ultrapassando o do BJP. O governo Modi tentou bloquear suas contas nas redes sociais sob a alegação de segurança nacional, mas sem sucesso.
As mobilizações continuam e conquistam vitória
Na terça-feira, os estudantes voltaram a se reunir naquele que se tornou o ponto central dos protestos, o Jantar Mantar. Nem a forte presença da polícia de Delhi conseguiu amedrontar a multidão. As palavras de ordem dirigiam-se à exigência de renúncia tanto do ministro da Educação quanto do primeiro-ministro.
A situação chegou a tal ponto que o ministro da Educação deu uma declaração pela TV, afirmando estar aberto ao diálogo (claro que são lágrimas de crocodilo) com os estudantes, e o governo recebeu dois representantes do CJP em audiência, um “partido” ilegal. No entanto, Ratna Singh, um dos representantes, disse que o governo não respondeu a eles e que o “primeiro-ministro permaneceu em silêncio sobre o ocorrido”.
Porém, neste sábado (25/07), o ministro da Educação publicou uma nota de renúncia: “Considerando a situação que surgiu em Jantar Mantar e em todo o país, para que as forças antinacionais não se aproveitem desta situação… enviei minha carta de demissão ao primeiro-ministro”. Pradhan é um dos ministros mais leais a Modi e, provavelmente, este preferiu entregar os anéis para não perder os dedos.
As mobilizações podem ser esvaziadas por esta primeira vitória, mas, nestas ocasiões — como em 2013, no Brasil, ou na revolta dos “pinguins” no Chile — as demandas imediatas são substituídas por reivindicações mais avançadas, como a exigência de renúncia de Modi, um ditador disfarçado de democrata. O sentimento predominante após os protestos é que a questão agora é mais ampla. Este pode ser o momento em que os mais de 600 milhões de jovens do país encontrem sua voz política.
Mas esta voz só pode ser permanente e estratégica se o partido das “baratas” indianas, que cumpre um papel muito progressista nesta etapa, for transformado em (ou substituído por) um partido revolucionário em uma etapa seguinte, quando será necessário lutar, não apenas por melhorias no capitalismo decadente em que vivemos, mas também pelo comunismo.
Fontes:
