O colapso do Banco Master não é um “ponto fora da curva”, mas uma expressão da lógica da financeirização levada ao paroxismo. O escândalo, que resultou em uma liquidação extrajudicial em novembro de 2025, expõe como o Estado burguês atua como instrumento central de um modelo de negócio baseado na espoliação direta. Sob a lógica neoliberal, o Estado abdica de sua função “reguladora” para se tornar o garantidor de uma estrutura que visa abocanhar uma parcela cada vez maior da mais-valia produzida pelos trabalhadores, transferindo-a diretamente ao capital financeiro por meio da captura do fundo público e de outros recursos.
A crise atingiu toda a superestrutura (governo, Congresso, STF, Banco Central, TCU, etc.) e todos os setores burgueses, sejam do governo Lula ou da oposição, que retardaram, por meses, a liquidação. Isso permitiu que o Banco Master continuasse captando bilhões de reais de brasileiros, mesmo já quebrado, para salvaguardar o capital financeiro.
A inércia das instituições diante do colapso do Banco Master não é uma falha técnica, mas a expressão material da “gestão da barbárie” operada pelo Estado em sua função de comitê gestor dos negócios da burguesia. Ao retardar a liquidação do Banco Master por meses, o Banco Central e as instâncias de controle permitiram que a fraude continuasse a drenar bilhões da classe trabalhadora, para salvaguardar o capital financeiro. Essa omissão deliberada facilitou a “canibalização do Estado”, exemplificada pela vergonhosa tentativa do BRB de injetar R$ 12 bilhões em recursos públicos para “limpar” ativos podres da instituição privada, tornando o aparelho estatal um balcão de negócios escusos. Enquanto o capital fictício era inflado com títulos falsos, a conta do prejuízo de R$ 55 bilhões foi socializada. Isso incluiu o roubo dos fundos de previdência de mais de 400 municípios, a retirada de verbas de áreas como saúde e educação e o pagamento de aposentados. No fim, a estrutura neoliberal garante que bancos públicos como o BB e a Caixa aportem bilhões para recompor o FGC, repetindo a lógica da crise de 2008, em que o lucro privado é sistematicamente convertido em dívida pública às custas do suor dos trabalhadores e servidores.
As investigações da Operação Compliance Zero e os relatórios do COAF apontam que o capital drenado do banco teve como destino paraísos fiscais (offshores), enquanto outra parte foi convertida em bens de luxo no Brasil e no exterior (EUA e Europa). Mas o dinheiro também era usado para manter uma rede de contatos, “comprando” acesso a círculos de decisão em Brasília e em São Paulo. Essa rede estabeleceu conexões com políticos e uma interdependência financeira que operava no Congresso Nacional. O pagamento de propinas na forma de “doações eleitorais” financiava campanhas de diversos políticos, o que criava um problema de governabilidade. Além disso, houve infiltração em bancos públicos, como o BRB, e a cooptação de gestores de fundos de previdência para investirem no Master, em troca de obras de interesse político e de vantagens indevidas.
No fim das contas, a crise do Banco Master será paga pelos trabalhadores e servidores públicos, seja pela via da elevação dos juros e do comprometimento dos serviços, seja por meio dos fundos de pensão e do Tesouro Nacional.
Estado: instrumento de exploração da classe trabalhadora
O colapso do Banco Master é a prova material contemporânea da máxima de Marx e Engels de que o Estado não passa de um balcão de negócios da burguesia. Sob o gerenciamento neoliberal, essa função é levada ao extremo, em que a máquina pública é operada para garantir a acumulação por meio da espoliação.
Lênin, em sua célebre obra O Estado e a Revolução, a fim de combater o oportunismo da social-democracia, resgata a doutrina de Marx e Engels sobre o Estado e a atualiza no âmbito do estabelecimento do imperialismo e do capitalismo monopolista, na seguinte forma:
Na República democrática — continua Engels — ‘a riqueza utiliza-se do seu poder indiretamente, mas com maior segurança’, primeiro pela ‘corrupção pura e simples dos funcionários’ (América), depois pela ‘aliança entre o Governo e a Bolsa’ (França e América). Atualmente, o imperialismo e o reinado dos bancos têm ‘desenvolvido’, com uma arte requintada, em todas as repúblicas democráticas, esses dois meios de manter e exercer a onipotência da riqueza.
Na fase imperialista do capitalismo, a natureza e o caráter de classe do Estado se evidenciam. O fim do período da livre concorrência e o estabelecimento do capitalismo monopolista levaram a burguesia a alterar sua atitude em relação ao Estado. Essa mudança ganhou mais proeminência na configuração do Estado capitalista neoliberal dos últimos tempos, para fazer frente às contradições e crises do capitalismo, notadamente a de 2008.
Financeirização neoliberal: negócios escusos em busca de capital fictício
O capitalismo financeirizado exige taxas de retorno que a economia produtiva, com seu crescimento lento, não consegue fornecer. Isso empurra os agentes para a busca desenfreada de superlucro, pela canibalização do Estado e pela captura do fundo público para alimentar a roda da especulação financeira. Assim, na era da financeirização, a fronteira entre o investimento de risco, a especulação e o crime organizado é muito tênue, quase inexistente.
No caso do Master, para manter as taxas de superlucro prometidas aos investidores, como os 140% do CDI, o banco precisava de entradas de capital contínuas. Mas quando o mercado real não fornece liquidez suficiente para sustentar aquelas promessas, o sistema financeiro abre as portas a todo tipo de negócios, lícitos e ilícitos, como a sonegação fiscal e a lavagem de dinheiro. O capitalismo sempre recorreu a negócios legais e ilegais, mas hoje, lavar dinheiro e operar atividades ilícitas oferecem uma margem de lucro que nenhuma atividade legal consegue igualar. Por outro lado, a financeirização criou ativos que só existem no papel, como os créditos de carbono falsos, que são esconderijos perfeitos para a lavagem de dinheiro.
Os trabalhadores não podem pagar pela crise…
O colapso do Banco Master prova que o Estado burguês não falhou em fiscalizar, mas cumpriu sua função de salvaguarda do capital, garantindo que o lucro permaneça privado enquanto a barbárie da dívida é imposta ao conjunto da sociedade. Diante da “gestão da barbárie” e do envolvimento do conjunto das instituições, as medidas precisam ser proporcionais à agressão sofrida pela classe trabalhadora. Os trabalhadores e servidores não podem pagar por um rombo de R$ 55 bilhões que não criaram.
… expropriação imediata de todos os bens dos sócios, dos corruptos e corruptores
É urgente a prisão e a condenação de todos os envolvidos na rede de propinas que operava no conjunto das instituições. Prisão dos responsáveis pela fraude com ativos fictícios (créditos de carbono e precatórios falsos) que enganou investidores e saqueou fundos de pensão.
… defesa das aposentadorias e dos serviços públicos.
Não aceitaremos que governos retirem verbas da saúde e da educação para cobrir o déficit atuarial gerado pela jogatina financeira em mais de 400 regimes de previdência. Reposicionamento dos prejuízos: o custo da crise deve recair sobre os grandes bancos e acionistas, e não sobre o Tesouro Nacional ou a população, por meio da elevação dos juros.
… estatização do Sistema Financeiro, não pagamento da dívida e controle operário
Estatização de todo o sistema financeiro, sob controle direto dos trabalhadores, para impedir que o capital fictício continue canibalizando o Estado. Fim do sigilo bancário para as grandes fortunas, interrupção imediata do pagamento de juros da dívida aos banqueiros e redirecionamento de tais recursos às áreas sociais.
… que os trabalhadores governem!
O Estado é o instrumento de dominação de uma classe. A única saída para estancar a espoliação é que os trabalhadores governem e imponham sua maioria contra a burguesia. Somente um governo revolucionário e socialista pode garantir que a riqueza socialmente produzida seja destinada à satisfação das necessidades dos trabalhadores e da maioria da população.
- Matéria publicada originalmente no Jornal do MPR nº 0
