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Home»Nacional»Ocupação dos povos indígenas no Pará: lições de uma luta
Nacional

Ocupação dos povos indígenas no Pará: lições de uma luta

Por: Otávio Aranha
16/03/2026Nenhum comentário11 Mins Read
Indígenas ocupam sede da Secretaria de Educação em Belém.
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Dizer que o homem vive da natureza significa que a natureza é o corpo dele, com o qual deve se manter em contínuo intercâmbio para não morrer. A afirmação de que a vida física e mental do homem e a natureza são interdependentes simplesmente significa que a natureza é interdependente consigo mesma, pois o homem é parte dela.

(MARX, Manuscritos econômicos filosóficos)

Santarém, região Oeste do Pará, mesorregião do Baixo Amazonas, foi cenário de uma das mais importantes lutas já travadas na história recente em defesa da natureza e, portanto, do ser humano. No epicentro, estavam povos indígenas originários de um lado e grandes empresas capitalistas e seus representantes – o governo federal, com seus ministros – do outro.

Por 33 dias, 14 povos indígenas do Baixo Tapajós ocuparam as instalações portuárias de uma das maiores empresas de agronegócio do mundo – a Cargill, que seria, junto a outras do ramo, uma das principais beneficiárias de um decreto-lei assinado pelo governo Lula: o Decreto 12.600/2025, que trata do destino dos rios amazônicos e, por conseguinte, dos povos e populações que deles dependem. Neste texto, desenvolveremos algumas reflexões sobre esse importante acontecimento e seus reflexos na luta de classes brasileira.

Cargill: um “monstro que destrói vidas”

A Cargill é uma das maiores empresas do mundo no setor da produção agrícola. Com sede nos Estados Unidos (Minnesota), atua em 70 países, em todos os cinco continentes. Segundo informações de seu site, possuem mais de 155 mil funcionários em seu quadro interno1. Com receita estimada em US$ 30 bilhões, ocupou, em 2025, pelo quinto ano consecutivo, o 1º lugar na lista da Forbes das maiores empresas de capital fechado dos EUA, posição que ocupa pela 38ª vez desde que a lista foi criada2.

Essa gigante do capitalismo tem sido alvo de denúncias de diversos tipos em vários países em que atua, desde práticas antissindicais nos EUA, segurança no trabalho durante a pandemia de Covid-19 no Canadá, evasão fiscal na Argentina, roubo de terras na Colômbia, abuso de trabalho infantil no Uzbequistão e tráfico de escravos na Costa do Marfim e no Mali. Isso, sem contar os inúmeros problemas ambientais, como contaminação por mercúrio, desmatamentos e um longo etc.3

No Brasil, as dez maiores empresas do agronegócio somaram R$ 1,12 trilhão em receitas no ano de 2024. A Cargill esteve entre as três maiores, atrás apenas da JBS e da Marfrig, que produzem carne. Juntas, essas três acumularam uma receita de mais de R$ 687 bilhões em 20244. Em se tratando de oleaginosas, sementes que possuem óleos naturais concentrados em sua composição, como castanhas, amêndoas, nozes e, principalmente, soja, a Cargill está entre a vice-liderança e a liderança no país. É o maior exportador de soja do mundo. Somente nos três primeiros meses deste ano, foram exportadas pela Cargill 2,8 milhões de toneladas de oleaginosas para a China, um dos principais destinos das commodities de grãos brasileiros.

Mas para o Brasil conseguir ser campeão mundial nas exportações de soja e gerar estas cifras astronômicas em receitas e lucros privados, foi necessário que o Estado brasileiro operasse grandes projetos de infraestrutura ao longo dos anos. Esses projetos, ainda em desenvolvimento no modelo de parcerias público-privadas, têm servido para escoar essa produção de grãos, concentrada na região Centro-Oeste. Por exemplo, o estado de Mato Grosso é responsável por 30% da produção nacional de soja. A figura abaixo apresenta a concentração de produção de soja por estado.

Dentre as obras de desenvolvimento de uma infraestrutura voltada às exportações do agronegócio brasileiro, destacam-se as ferrovias Norte-Sul e Transnordestina (Piauí-Ceará), a pavimentação da BR-163 (PA), a duplicação da BR-135 (MA), as melhorias na BR-364 (RO), na BR-153 (PA) e na BR-060 (MT-GO), que são partes integrantes da malha dos “corredores do agro”5. Nesta, grandes investimentos do governo federal têm se concretizado na construção de uma via do Centro para a Amazônia, com vistas a escoar toneladas de grãos rumo à China, aos países da Europa e aos EUA. Não por acaso, em 2024, o Ministério dos Transportes executou o orçamento de R$ 3,6 bilhões nesta infraestrutura e no ano seguinte, 2025, a previsão ministerial para a execução destas obras foi de R$ 4,5 bilhões6. Assim, o objetivo principal do governo Lula, no “desenvolvimento” da infraestrutura do país, é reduzir os custos de transporte e logística das grandes empresas do agronegócio, entre elas a Cargill.

A gigante empresa norte-americana está presente em 11 estados brasileiros, dentre eles Mato Grosso e Pará. Para além da produção de soja, ela também está nos ramos do cacau e chocolate, amidos e derivados, óleos e gorduras vegetais, adoçantes, farmacêuticos, nutrição animal, produtos de beleza e cuidados com o corpo, bioindústria, bioenergia e serviços portuários, nos quais os portos de Paranaguá (PR), Porto Velho (RO), Mirituba (PA) e Santarém (PA) desempenham papel.

Para defender os interesses e o lucro dessas grandes empresas multinacionais, o Governo Lula assinou o Decreto 12.600/2025, objeto de contestação dos povos indígenas. Auricélia Arapium, uma das lideranças indígenas do Baixo Tapajós que ocuparam Santarém, foi quem melhor sintetizou o que é Cargill: “esse monstro que vem destruindo nossas vidas e nosso território”7.

Nossos rios não estão à venda!

O decreto do governo do PT incluía grandes trechos dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós, que atravessam os estados do Pará, Amazonas e Rondônia, no âmbito do Programa Nacional de Desestatização (Lei 9.491, de 09 de setembro de 1997). Este programa foi criado por Fernando Henrique Cardoso e estabelece, desde o inciso 1 do seu primeiro artigo, o objetivo de: “I – reordenar a posição estratégica do Estado na economia, transferindo à iniciativa privada atividades indevidamente exploradas pelo setor público”8. Não é por acaso que este programa é amplamente conhecido como “Lei das Privatizações”.

No decreto do governo Lula, seriam mais de 2 mil quilômetros de rios entregues à iniciativa privada para exploração hidroviária, o que incluiria a realização de dragagens, isto é, escavação e remoção de sedimentos, com o intuito de aprofundar e alargar o leito do rio, tornando-o viável para a navegação de embarcações de grande porte, como as pesadas balsas que transportam toneladas de mercadorias.

A privatização destes rios causaria um grande impacto ambiental, pois não mudaria apenas a natureza de profundidade e vazão, como também intensificaria o tráfego de grandes navegações, o que prejudicaria o seu uso por pequenas embarcações, além de afetar a dinâmica do modo de vida e a subsistência dos povos originários que habitam a região do Baixo Tapajós, que possuem na relação com o rio, não somente um meio, mas toda uma cosmologia.

Neste sentido, a luta dos indígenas teve como eixo a revogação do Decreto 12.600/2025, pois além de significar um brutal ataque à natureza e aos povos, beneficiaria o Porto da Cargill, local escolhido para a ocupação e uma das prováveis empresas operadoras das hidrovias do Tapajós, portanto, beneficiária do decreto de Lula.

Boulos e Sônia Guajarara (PSOL), advogados da Cargill

Guilherme Boulos e Sônia Guajarara, ambos do PSOL, possuem uma trajetória vinculada aos movimentos sociais amplamente reconhecida pela vanguarda militante. Entretanto, a entrada no governo, com cargos ministeriais, os colocou em uma função oposta aos interesses dos movimentos sociais urbanos, camponeses e indígenas.

Como integrantes de um governo aliado às grandes empresas do agronegócio, Boulos e Sônia Guajajara usam de sua trajetória e de sua referência para melhor “dialogar” com os dirigentes e lutadores dos movimentos que se enfrentam ao governo Lula, mas este “diálogo” não tem como objetivo pressionar o governo, como alguns devem pensar. Pelo contrário, o objetivo destes ministros é demover os lutadores do enfrentamento e desviar as lutas que se chocam contra o governo para o caminho da negociação e do apassivamento.

Este foi o papel que Sônia Guajarara cumpriu na ocupação indígena na Secretaria de Estado de Educação do Pará, em janeiro de 2025, quando negociou com o governador do estado, Helder Barbalho (MDB), e tentou convencer as lideranças indígenas presentes na ocupação a ceder. Este foi o papelão que Sônia e Boulos cumpriram nas mobilizações independentes dos indígenas durante a COP 30, em novembro do ano passado. Esta é a natureza da função de Guilherme Boulos e Sônia Guajarara quando foram convidados pelo governo Lula, que representa os interesses das grandes empresas e multinacionais, sobretudo do agronegócio, que nunca lucraram tanto com subsídios e com toda uma infraestrutura logística em desenvolvimento à sua disposição.

Neste sentido, não é exagero afirmar que Boulos e Sônia (PSOL) cumpriram o papel de advogados da Cargill, mas, felizmente, foram derrotados pela luta independente e determinada dos povos indígenas.

E agora? O que fazer?

O Decreto 12.600/2025 foi revogado não graças a Boulos e Sônia Guajarara, mas porque os povos indígenas do Baixo, Médio e Alto Tapajós se mobilizaram fortemente, organizaram-se de forma independente e confiaram plenamente em suas próprias forças. A ocupação indígena recebeu grande apoio popular, principalmente na juventude, além da solidariedade de setores da classe trabalhadora, com exceção das entidades governistas, como CUT, UNE e MST, que silenciaram sobre o episódio, sequer aportando notas de apoio.

Após um mês de ocupação, ela estava tão firme quanto em seu início, a cada semana, mais e mais povos e etnias vinham se somar à luta. Mobilizações e protestos começaram a ser agendados em várias capitais do país em apoio e solidariedade aos indígenas e contra o Decreto 12.6002/2025, que ganhava ampla repercussão e debate sobre a quem ele servia.

A Cargill, tendo o governo Lula como seu principal representante e, Boulos e Sônia como seus porta-vozes, foram negociar com os povos indígenas e devem ter usado uma série de argumentos para convencê-los a desocupação, como a situação da “correlação de forças”, da “conjuntura muito difícil”, que “o maior perigo é a ultradireita”, etc. Estes mesmos argumentos estão presentes nos discursos e na política de quase todas as organizações de esquerda que não denunciam o governo Lula como o principal inimigo dos trabalhadores e da causa ambiental, em particular, ou, no momento em que ensaiam a fazer isso, o fazem timidamente, pois existe a “ultradireita aí!”.

Na prática, este discurso, baseado numa análise equivocada da realidade e da localização da principal tarefa dos trabalhadores – a derrota do governo Lula – vai na contramão das lutas e da mobilização independente contra o governo. A vitória da ocupação indígena se deu justamente porque as principais lideranças começaram a entender o papel do governo Lula e não caíram nesse “canto da sereia”. Ao contrário, ao defender os rios amazônicos, viram que era necessário derrotá-lo.

O Decreto 12.600/2025, assim como a Ferrogrão (EF-170) e a exploração de petróleo na Margem Equatorial, defendidos pelo presidente Lula, integram os grandes projetos do capital para o país, com consequências devastadoras para a Amazônia e para os povos originários. A derrota do decreto de Lula foi uma grande vitória da classe trabalhadora como um todo e abre enormes possibilidades para as próximas batalhas. Quando finalizamos este texto, outra ocupação indígena está em andamento em Altamira (PA), contra a mineradora Belo Sun, outra aliada de Lula, Boulos e Sônia.

Os povos indígenas do Tapajós e região têm mostrado qual é a principal tarefa da classe trabalhadora na presente conjuntura: a derrota do governo Lula. A ultradireita é uma banda podre do capitalismo que precisa ser esmagada definitivamente, mas não é quem, neste momento, está no executivo assinando decretos que representam os interesses do agronegócio e de mineradoras que atacam duramente as condições de vida dos trabalhadores e dos povos originários. Em razão disso, não será possível uma derrota definitiva da ultradireita sem derrotar o capital e seus principais representantes do momento.

Mas para além da necessidade da luta imediata, juntamente a esta, é preciso também construir um embrião de partido que aponte para uma revolução socialista no qual os trabalhadores tomem o poder, pois somente assim será possível ter um desenvolvimento econômico, social, ambiental e humano na Amazônia, sem desrespeitar os rios, as florestas e seus povos, o que é impossível no capitalismo, cujo modo de produção está assentado na exploração predatória do mundo.

O Movimento por um Partido Revolucionário (MPR) apoia incondicionalmente a luta dos povos indígenas contra os ataques do governo Lula. É necessário ampliar a luta do Baixo Tapajós para todo o país. Convidamos todos os ativistas e lutadores a conhecerem o nosso movimento e a participarem das discussões do nosso congresso de fundação.

Viva a luta dos povos indígenas do Baixo Tapajós!

Não a privatização de rios e portos!

Derrotar os ataques do governo Lula contra o meio ambiente!

Fora Cargill e Belo Sun!

Notas:

  1. Nutrindo o mundo | Cargill Brasil ↩︎
  2. Lista Forbes: As 10 Maiores Empresas Privadas dos EUA ↩︎
  3. Waxman, Henry. The Worst Company in the World. Might Earty. 2019. ↩︎
  4. Veja ranking da Forbes das 10 maiores empresas do agro brasileiro – ISTOÉ DINHEIRO ↩︎
  5. Revista ESPACIOS | Vol. 38 (Nº 07) Año 2017 ↩︎
  6. Governo investirá R$ 4,5 bi em infraestrutura rodoviária em 2025 – Canal Dana ↩︎
  7. Indígenas completam um mês de ocupação no porto da Cargill no Pará: ‘Contra esse monstro que vem destruindo nossas vidas’ | Brasil de Fato ↩︎
  8. Lei de Privatização | LEI Nº 9.491, DE 09 DE SETEMBRO DE 1997 | Jusbrasil ↩︎
Amazonia Boulos Cargill povos indígenas rio tapajós Sônia Guajajara
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