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Nacional

Lula na ONU: nem só de discurso vive o homem

Por: Marcos Margarido
01/10/2026Nenhum comentário11 Mins Read
Lula discursa na Assembleia Geral da ONU - Crédito: Agência Brasil.
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Lula abriu a 81ª Assembleia Geral da ONU, em 22 de setembro de 2026, um direito concedido ao Brasil desde 1955. Em seu discurso, Lula abordou vários temas, tanto internacionais quanto domésticos, e recebeu aplausos e cumprimentos da grande maioria dos presentes à sessão. A imprensa destacou que Lula ignorou Marco Rubio na hora dos cumprimentos. O Secretário de Estado dos EUA tem a missão de coordenar as ações dos EUA na América Latina, como a aplicação da Doutrina Monroe 2 (chamada de Doutrina “Donroe”), a invasão da Venezuela e o bloqueio de petróleo a Cuba.

Em seu discurso, Lula apontou o dedo aos EUA em algumas de suas críticas, mas sem dar os nomes aos bois: nem aos EUA nem a Trump. Mas, grande orador que é, saiu do palco como defensor da democracia e da soberania nacional. A questão é saber se sairá das palavras e partirá para a ação.

A ONU

Lula iniciou seu discurso criticando a ONU por sua incapacidade de pôr fim ao “maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial” em 2025 e de evitar que “tensões geopolíticas ameaçam transformar confrontos regionais em uma conflagração de proporções globais”. Só que sua solução para esta questão é realizar uma reunião do Conselho de Segurança.

Lula ignora que a ONU foi criada em uma situação mundial completamente distinta da que vivemos hoje. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, uma nova ordem mundial foi implantada. Os países do Leste europeu sofreram intervenções da URSS ou fizeram revoluções e se tornaram Estados operários. Em 1949, o PC chinês tomou o poder e, poucos anos depois, expropriou a burguesia e surgiu mais um Estado operário. Seguiram-se a Coreia do Norte e o Vietnã. Um terço da humanidade passou a viver em Estados operários com economia coletivista, chamados de socialistas pela imprensa mundial (o que era uma fábula), porém sob governos e regimes burocráticos ditatoriais. 

O imperialismo norte-americano, que apareceu como o grande vencedor daquela guerra — embora o resultado tivesse sido definido pela derrota das Forças Armadas da Alemanha nazista de Hitler em terreno soviético, na batalha de Stalingrado —, precisava dar uma resposta a essa nova correlação de forças mundial. A Liga das Nações, criada após a Primeira Guerra Mundial — a guerra que poria fim a todas as guerras —, estava desmoralizada. Não só não conseguiu impedir novas guerras locais, como também foi inútil para evitar a Segunda Guerra. Ela já não servia para a nova situação. Foi devidamente enterrada em 1946 e a ONU (Organização das Nações Unidas!), criada em 1945, tomou seu lugar, com sede em Nova Iorque, não por coincidência, nos EUA. A ex-sede da Liga das Nações, em Genebra, Suíça, foi transformada em “filial” da ONU na Europa.

Mas a colaboração da burocracia da União Soviética foi fundamental para a consolidação da nova instituição. Nos acordos de Yalta (Crimeia) e Potsdam (Alemanha), decidiu-se dividir o mundo em zonas de influência e estabeleceram-se os critérios para as ações dos dois blocos vitoriosos: o capitalista e o “comunista” (outra fábula da imprensa). Isto é, cada bloco abstinha-se de interferir nos países do outro bloco e tinha a obrigação de manter o equilíbrio de forças. A partir daí, surgiram os termos “cortina de ferro” para designar os países do Leste europeu sob a influência da União Soviética, e “guerra fria”, isto é, uma guerra sem conflitos armados.

Para seguir este conjunto de decisões, a burocracia soviética esmerou-se em impedir e/ou evitar a ocorrência de revoluções na Europa Ocidental, como fez na Itália e na Grécia, e cometeu o crime de apoiar a divisão da Alemanha em dois países (República Federal da Alemanha e República Democrática Alemã). Além disso, lançou a política de “coexistência pacífica com o imperialismo” para tornar esses acordos permanentes. Daí para frente, nenhuma revolução contra os interesses do imperialismo, em qualquer parte do mundo, seria apoiada. A burocracia stalinista tornou-se o coveiro das revoluções.

Mas tudo isso acabou em 1989-1991, com a restauração capitalista na União Soviética e nos Estados operários do Leste europeu (na China, isso já havia acontecido no início da década de 1980). Estabeleceu-se uma nova correlação de forças. Não havia mais “cortina de ferro” nem “guerra fria”. Os acordos de Yalta e Potsdam tornaram-se inúteis; a ONU, uma figura decorativa. Após aquela data, guerras e até genocídios (o primeiro foi na Guerra da Bósnia, a partir de 1992; o último, na Faixa de Gaza) ocorreram contra as decisões da ONU. Esta instituição é hoje uma casca vazia, que se reúne anualmente para discursos sem nenhuma consequência e, ao longo do ano, sem decidir nada.  

Lula não ficou de fora. Ao pedir uma reunião do Conselho de Segurança para estabelecer a paz, não fez mais do que as diplomacias de vários países fizeram em todos os anos passados, tentando fazer um mastodonte se mover com um empurrão. Mas manteve sua aura de pacifista, tão pacifista que equiparou o genocídio, perpetrado por Israel na Palestina, às ações “terroristas” do Hamas. Aliás, é obrigatório chamar o Hamas de organização terrorista (vejam os jornais da Globo) só porque o imperialismo norte-americano assim o definiu. E, mesmo classificando Israel como praticante de genocídio e a delegação brasileira tendo se retirado do plenário da Assembleia Geral durante o discurso do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, Lula não move uma palha para romper relações diplomáticas e comerciais com Israel. 

Democracia

Lula defendeu a democracia brasileira e disse que as eleições não servirão apenas para eleger o presidente, governadores e representantes do Poder Legislativo, mas para “decidir entre democracia e negacionismo“. Para isso, “possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto, sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre“. Por fim, afirmou que todos os candidatos “desfrutam da mais ampla liberdade de expressão“.

Mas todo esse raciocínio sobre democracia repousa sobre bases eleitorais. Para Lula, democracia significa eleições livres. E, segundo ele, o Brasil tem isso. 

Ao que parece, não pensou que, “a dez dias do [fim do] primeiro turno, os candidatos à Presidência da República gastaram ao todo mais de R$ 156 milhões com as campanhas eleitorais”, segundo o TSE. Sua campanha foi a que mais gastou, com o saldo de R$ 65,6 milhões, enquanto Flávio Bolsonaro desembolsou R$ 56,1 milhões. E tem mais no segundo turno.

Muitos podem dizer que isso é o resultado do trabalho de arrecadação dos partidos. Mas não é assim: “Os 30 partidos políticos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vão receber juntos quase R$ 5 bilhões do Fundo Eleitoral para as eleições de 2026“1. Segundo a mesma fonte, o PL recebeu R$ 881 milhões, e o PT, R$ 615 milhões. Os partidos da aliança eleitoral do PT receberam, juntos, R$ 592 milhões, sem contar o PT. Essa dinheirama foi definida pelo próprio Congresso Nacional, isto é, legislação em causa própria… com dinheiro dos impostos pagos pelo povo. Tudo isso saiu do seu salário!

É claro que os candidatos têm um capital político que lhes confere votos, mas sem esse “presente” involuntário da população, seria impossível vencer.

Mas democracia não é só isso. Temos a democracia burguesa formal, a que garante o funcionamento democrático das instituições de Estado. Se pudéssemos criar uma régua para medir essa democracia formal no Brasil, ela atingiria algo como 10 mil quilômetros… negativos. O dinheiro não compra apenas eleitores. Todas as instituições sagradas da democracia burguesa, o Congresso, o Executivo e o Judiciário, também estão à venda e foram compradas. Deputados, senadores, juízes, presidentes e candidatos à presidência, todos no bolso do incansável Vorcaro. Não é à toa que ele teve que dar um golpe de mais de 50 bilhões… 

Há também a democracia real, a que interessa aos trabalhadores. É a que garante o direito ao trabalho, o direito à moradia, à educação, à assistência médica etc. Dessa, o discurso de Lula passa longe. Em 2025, a desigualdade cresceu: enquanto a renda dos 10% mais ricos cresceu 8,7%, a dos 10% mais pobres aumentou 3,1%, quase três vezes menos (Pesquisa PNAD do IBGE). O 1% mais rico do país detém 37% da riqueza nacional, enquanto os 50% mais pobres detêm 2,4%. Mas Lula se gabou de ter tirado o país do mapa da fome da ONU, devido ao aumento do Bolsa Família para R$ 600. Um feito notável, sem dúvida. Essa parcela da população subiu um degrau. Está, agora, em situação de insegurança alimentar severa. Esta se refere à incerteza sobre a capacidade de uma família ter renda para três refeições por dia. Uma promessa de Lula desde quando era sindicalista, nunca cumprida.

A questão é simples. Não há democracia em um país onde milhões passam fome, enquanto outros milhões se endividam para não passar fome. Não importa quem seja o presidente do país.

Soberania

Este é um dos principais temas da campanha do Lula. Em relação a isso, ele disse, em clara referência a Trump: “Não permitiremos que inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará deste caminho“.

Também somos contra inimigos da democracia, mesmo que seja essa democracia eleitoral e formal dos ricos. Garantir liberdade de expressão; liberdade de participação em eleições; liberdade de organização e de reunião; direito de voto e outros direitos democráticos é importante. Mas os fatos não atestam essa soberania brasileira. Para que o Brasil “continue” a ser um país soberano, ele precisa ter sido um país soberano. Mas não é. Mais uma vez, Lula fica na superfície das coisas e equipara soberania ao direito ao voto.

Vejamos sua crítica — correta — às intenções hegemônicas dos EUA na América Latina: “Na América Latina e no Caribe, a proximidade com a maior potência militar do mundo é inescapável, sobretudo no contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas… O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Mas, contra essas tentações hegemônicas — o Plano Donroe —, defende que “precisamos de parceiros com uma agenda positiva que fomentem o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para a maior integração entre vizinhos“. Portanto, continuemos a negociar o tarifaço com o país que quer nos colonizar, abramos as empresas de mineração de terras raras, como ocorreu com a Serra Verde, para o capital norte-americano (USA Rare Earth) pela ninharia de US$ 2,8 bilhões e, depois, afirme na ONU que “o Brasil é o terceiro maior destino de investimentos estrangeiros diretos” no mundo.

É claro que a entrada de capital estrangeiro no país “fomenta o desenvolvimento”, mas também fomenta a exploração. Só se investe capital em um país se for possível criar capital adicional a partir da exploração da força de trabalho. Esse capital adicional pode ser reinvestido — se o novo investimento gerar mais capital adicional — ou remetido à matriz no exterior. O resultado líquido é a exportação da riqueza criada pela força de trabalho brasileira, isto é, pela exploração. Essa soberania é própria da burguesia brasileira, que se contenta em ser sócia menor do capital estrangeiro imperialista para receber seu quinhão obtido pela superexploração do trabalhador brasileiro.

Lula disse que “não precisamos de porta-aviões [norte-americanos] vigiando nossas águas” para combater o narcotráfico, mas se esquece dos múltiplos “exercícios” militares da Marinha brasileira com as Forças Armadas norte-americanas que permitem a navegação de seus porta-aviões e outras embarcações por nosso litoral. 

Das palavras aos fatos?

Não há dúvidas de que o discurso de Lula foi forte o bastante para arrancar aplausos e, ao mesmo tempo, comedido para evitar uma reação da diplomacia norte-americana. Mas enquanto a defesa da democracia e da soberania é transformada em disputa eleitoral, os fatos não confirmam o discurso.

Para uma verdadeira soberania da América Latina, é necessária uma ação decidida contra a virtual ocupação da Venezuela pelos EUA, transformando-a em colônia norte-americana, com direito à exploração do petróleo por 100 anos e à compra de 20% da produção a preço de custo!!!

E agir também contra o bloqueio energético, realizado por Trump a Cuba, que viola todas as regras do comércio internacional.

É preciso denunciar os acordos de colaboração militar com os EUA, que colocam suas Forças Armadas em território brasileiro, enquanto Trump ameaça invadir a América Latina.

Lula tem razão; o Brasil não cabe no quintal de nenhuma nação, mas, para conquistarmos uma verdadeira soberania, é preciso sair do discurso e ir para a ação.

  1. Agência Senado. ↩︎
Assembleia Geral imperialismo Lula ONU soberania Trump
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